Autor: Elmar Bones

  • A inesperada reabilitação de Getúlio Vargas

    Mário Maestri *

    Getúlio Vargas tem sido desancado devido às violências cometidas contra as comunidades alemãs e italianas do Rio Grande do Sul, sobretudo durante a II Guerra Mundial. Atribuiu-se também à campanha getulista de “nacionalização” dos kystos raciais a crise dos falares étnicos alemães e italianos. Em geral, os fatos sucederam-se no passado em forma bastante diversa da que são percebidos pelo senso comum, mesmo historiográfico.

    René Gertz, 57, professor da PUCRS e da UFRGS, tem dedicado boa parte de sua produção historiográfica ao estudo dos sucessos ocorridos quando do Estado Novo [1937-45], no que se refere sobretudo à comunidade colonial alemã da qual descende. Seu ensaio O perigo alemão, de 1991, constitui referência obrigatória na discussão do imaginário brasileiro sobre os alemães no RS. Gertz tem dirigido também trabalhos de pós-graduação sobre esse e temas correlatos.

    A publicação do livro O Estado Novo no Rio Grande do Sul, de René Gertz [Passo Fundo: EdiUPF, 2005], constituiu ato por si só meritório, considerando-se a carência de estudos referentes ao Estado Novo no RS, pobreza em parte talvez devida aos inevitáveis constrangimentos biográficos ensejados pelo período, no que se refere ao comportamento dos próceres sulinos durante o período ditatorial.

    O livro de René Gertz destaca-se pelo candente revisionismo, com destaque para a inesperada absolvição de Vargas que, do inferno historiográfico, é transferido para suave purgatório, já que o peso dos pecados da “campanha de nacionalização” é lançado às costas do interventor Cordeiro de Farias e de seus dois principais súcubos, o secretário da Educação, Coelho de Souza, e o famigerado coronel Aurélio Py, autor do best-seller A 5ª coluna no Brasil: a conspiração nazi no RS, publicado pela Globo, em abril de 1942.

    O Estado Novo no Rio Grande do Sul impõe-se sobretudo por suas interpretações. A apresentação inicial dos sucessos históricos que levaram ao Estado Novo é sumária e a proposta do enfraquecimento da economia sulina durante o período fica em aberto, sobretudo devido às limitadas fontes disponíveis, fato assinalado pelo autor. Também são sintéticos os capítulos “Administração e sociedade” e “Educação e saúde”, ricos em sugestões para novas investigações.

    O capítulo a “Cultura no Rio Grande do Sul” apresenta dura radiografia da ação da intelectualidade sulina durante o Estado Novo que, tanto na versão positivista como na católica, segundo Gertz, colaborou, direta ou indiretamente, com a ditadura, ou adaptou-se a ela, sem maiores pruridos. Nas raras exceções que confirmam a triste regra encontram-se os intelectuais comunistas Dyonélio Machado, Cyro Martins e Ivan Pedro Martins, que seguiram disparando sobretudo com as armas da ficção.

    René Gertz apresenta provas incontestáveis da adesão de intelectuais sulinos de destaque ao Estado Novo. Para outros, o material probatório é mais fraco. Assinala que Erico Verissimo compareceu, com Moysés Vellinho, Dante de Laytano, entre outros, ao lançamento do Comitê Intelectual pró-Estado Novo, pronunciando palestra radiofônica, em abril de 1938, na Rádio Farroupilha, em defesa da ditadura. De Mário Quintana, registra-se a participação em “Comissão Julgadora de frases alusivas ao ‘Dia da Bandeira’”.

    Ainda que novos estudos retoquem o longo rol de intelectuais “cuja vinculação ou a proximidade com o regime está claramente documentada”, não modificarão a constatação da harmonia entre a pena, do mundo das idéias, e o coturno, da ordem ditatorial. Fenômeno que exige discussão mais profunda, já que envolve as raízes próximas da cultura erudita do Rio Grande do Sul.

    Sobre essa questão, temos também a valiosa dissertação, ainda inédita, de Gláucia Konrad, de 1994, “A política cultural do Estado novo no RS: imposição e resistência”, na qual o autor apóia-se parcialmente. Com sensibilidade, Gertz lembra que a talvez “alegada falta de entusiasmo” rio-grandense sobre o Estado Novo e, portanto, a colaboração despreocupada com ele, registre sentimento de que “nada de muito novo estava ocorrendo”, sobretudo em relação à República Velha.

    No valioso capítulo final, Gertz empreende sentida denúncia das violências da “campanha da nacionalização” que, para ele, teria vitimado sobretudo a população colonial alemã. Segundo o autor, a “campanha” teria sido “menos agressiva” na “região de colonização italiana ao norte de Porto Alegre, em Caxias do Sul e adjacências” do que “nas regiões de colonização alemã”.

    Entre as razões do comportamento diferencial estariam a maior simpatia brasileira para com os “italianos”; a existência de sentimento  sobre o “perigo alemão” desde a chegada dos imigrantes em 1824; a mobilização antialemã durante a I Guerra Mundial; a adesão e simpatia ao partido nazista no Estado, fenômeno para o qual não contamos ainda com análise de fôlego como a realizada para a Região Colonial Italiana por Loraine Giron, em As sombras  do littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul, de 1994. Na abordagem da espinhosa questão, Gertz assinala que “mais ou menos a metade dos pastores do Sínodo Riograndense eram filiados ao partido nazista”.

    Sobretudo, Gertz defende que os excessos da “campanha da nacionalização” seriam obra de Cordeiro de Farias, “claro adepto da tese do ‘perigo alemão’, preocupadíssimo com a situação ‘etnográfico-internacionalista’” sulina. Sugere que a partida do interventor para a Itália, como membro da FEB, constituiu “justificativa pública” para superação de situação insustentável. Sua substituição pelo cel. Ernesto Dorneles seria também tentativa de distensão

    René Gertz é historiador ponderado e contido. A tensão afetiva devido à abordagem das violências antialemãs no Estado Novo fica registrada em algumas raras ênfases lingüísticas. Professora brasileira agindo na zona colonial alemã durante a “campanha de nacionalização” em forma desembaraçada é classificada de “menininha”. As depredações populares, em 18 e 19 de agosto, após os duríssimos ataques a navios mercantes brasileiros desarmados por submarino alemão que causaram mais de seiscentos mortos, são definidas como “anarquia”, “animalescas”, produto da ação de “fanáticos”.

    René Gertz assinala que a intervenção do Exército, pondo fim às manifestações populares anti-Eixo de agosto, ocorreu “à revelia do interventor”, constituindo desautorização de sua exacerbação da “campanha de nacionalização”. Assinala pedido de renúncia de Cordeiro de Farias, de 22 de agosto de 1942, após a ação do Exército. Mais ainda. Em 1950, Getúlio justificava a nomeação do cel. Ernesto Dorneles como medida “contra aqueles” que, em seu nome e contra a sua vontade, “praticavam atos de violência e de arbítrio, com base em prejuízo étnico”.

    Além das violências da “nacionalização”, René Gertz refere-se rapidamente à repressão do truculento Cordeiro de Farias ao movimento operário, aos comunistas e aos integralistas. Não chega a abordar o maior crime cometido pelo interventor nas primeiras semanas de seu consulado, contra pacífico movimento religioso popular de caboclos e colonos empobrecidos, em Sobradinho e Soledade, com a morte de talvez mais de cinqüenta beatos absolutamente desarmados. Sucessos que tardam ainda a ter a reparação que exigem na memória e na historiografia rio-grandense.

  • Porto Alegre em Cena terá premiação em dinheiro


    Pça da Cia Stravaganza disputa o prêmio (Foto: Vilmar Carvalho/Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Sete jurados escolherão destaques entre os representantes gaúchos no 13º Porto Alegre em Cena. O melhor espetáculo vai receber um prêmio de R$ 20 mil, enquanto que os escolhidos para Ator, Atriz e Diretor, levam, cada um, R$ 3 mil. “Isso não é um prêmio pequeno e também não é só um troféu de mérito: a gente reconhece o mérito através de premiação financeira”, aplaude o coordenador do festival, Luciano Alabarse.

    Além das premiações em dinheiro, decididas pelo júri de jornalistas brasileiros e um representante da petroquímica, haverá votação popular, que vai eleger a melhor peça na opinião do público. Em cada teatro serão distribuídas cédulas onde a platéia pode dar sua nota ao espetáculo local assistido.

    O troféu Braskem Em Cena será lançado nessa quarta-feira, 26 de julho, às 19h, no Solar Paraíso, a casa do Porto Alegre em Cena, que estará toda decorada com faixas e cartazes da nova premiação.

    A artista plástica Arminda Lopes vai desenvolver o visual do 1º Troféu Braskem Em Cena, que será entregue aos vencedores na noite de encerramento do 13º Porto Alegre em Cena, dia 18 de setembro no Theatro São Pedro.

    Para Alabarse, a novidade não desvia o papel do festival, de trazer atrações internacionais e nacionais, mas sim reconhece o valor da produção gaúcha no teatro. “O dinheiro gera a possibilidade de investimento no próprio trabalho. Com isso, qualifica o estágio atual da produção cênica local, que já tem uma qualidade que pode ser reconhecida”.

    Dez espetáculos foram selecionados

    Concorrem ao prêmio os espetáculos gaúchos selecionados para o festival: “Foram mais de 50 inscritos e, da salada de pessoas e pensamentos diferentes da curadoria, selecionamos esses dez”, relata Alabarse.

    São sete espetáculos adultos, dois de dança e um infantil. A diversidade de temas é uma marca. Do tradicional teatro europeu, vem Sonho de uma Noite de Verão, montagem de Patrícia Fagundes para o clássico sheakespeariano.

    Também com técnicas inovadoras do velho mundo, Larvárias, dirigido por Daniela Carmona, trabalha com máscaras brancas, ‘intermediários que contém o homem e o bicho’, segundo a sinopse. O espetáculo não tem texto, mas conta com trilha sonora executada ao vivo e a participação de Adriana Deffenti, considerada revelação gaúcha na música.

    Há ainda espaço para o chileno Ramón Grifero, que tem uma peça sua montada no Brasil pela primeira vez, dirigida por Adriane Motola, da Cia Stravaganza. O texto Teus Desejos em Fragmentos se dedica às ambições humanas contemporâneas, através da memória de um homem à beira da morte.

    Júlio Conte participa do festival com O Rei da Escória, peça que trata sobre loucura e psicanálise. Outras veteranas que estarão no palco do Porto Alegre em Cena são Sandra Dani e Liane Venturella, que apresentam Calamidade, dirigidas por Cláudia de Bem. Além desses, o recente Sobre Anjos e Grilos, onde Déborah Finocchiaro, dirigida por Jessé Oliveira, traça um panorama sobre o universo do poeta Mario Quintana.

    Os espetáculos de dança também se mostram diversos. Nelson Rodrigues conduz a coreografia de Alessandra Chemello para Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. Luciane Coccaro dirige o Sexteto Cia de Dança no ritmo de Mário Lago e Santo Agostinho, no espetáculo Tempo que Resta. Para os pequenos, O Hipnotizador de Jacarés, dirigido por Dilmar Messias, reserva um universo de diferentes técnicas para palhaços.

  • Passamos a ser exemplo

    * Eng.Vitor Bertini
    O sucesso do movimento dos moradores do bairro Moinhos de Vento e da Marquês do Pombal pela preservação do túnel verde da rua deve ser colocado como exemplo de defesa de interesses legítimos e de resultados, sem radicalismos de ambos os lados envolvidos. A primeira reação das pessoas, surpresas e assustadas com início do corte radical das tipuanas, foi de revolta, de protesto veemente para impedir que a destruição alcançasse um ponto irremediável. O momento seguinte, no entanto, se caracterizou por uma atitude positiva que ganhou receptividade no bairro e na cidade e sensibilizou as autoridades municipais, desde o Prefeito, até os responsáveis pelas obras do conduto forçado Álvaro Chaves.
    Partiu-se, então, para a busca de uma solução que analisou, em primeiro lugar, a possibilidade de colocação dos dutos, sem a quase eliminação das árvores. Diante do fato de não ser viável esta alternativa, apontou-se para o estudo técnico de desvio das obras por um outro trajeto. Foi o que terminou acontecendo.
    O envolvimento das comunidades na solução de uma questão pontual e que mexe com o seu dia a dia torna-se cada vez mais comum, à medida que as pessoas exercem a plena cidadania. Nem sempre, entretanto, as reivindicações se preocupam na construção do caminho desejado, ou de abrir um diálogo com o causador do transtorno, ou com quem decide uma nova obra, ou serviço reivindicado. Assim, o outro lado achará desculpas mais fáceis, ou terá poucos argumentos para mudar a decisão anterior.
    A avaliação do fato que faço, com a visão de gestor público que fui até poucos dias atrás e de ativo participante desta causa de preservação das árvores, é de que as duas partes podem se sentir vitoriosas. Por isto, aponto o “case” tipuanas da Marquês do Pombal como paradigma. Não dá para aplicar aqui o ditado de que um negócio é bom quando satisfaz os dois lados, porque não se tratou de aspectos comerciais ou financeiros, mas de uma manifestação de amor à natureza e à beleza da cidade que conseguiu ampla receptividade, graças aos nossos esforços e união. Parabéns a todos nós e principalmente aos moradores da Marquês.

  • Ministério Público ocupa “torres gêmeas” até agosto

    Edificação tem 14 pavimentos e vista para o Guaíba. (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Helen Lopes

    O Ministério Público do Estado (MP) apresentou na manhã desta quarta-feira, 19 de julho,  a sua nova sede em Porto Alegre. Erguido na Aurelino de Figueiredo Pinto, 80, próximo ao Tribunal de Justiça (TJ), o prédio custou R$ 32 milhões (1,52 CUB por metro quadrado) e vai abrigar 270 promotores e procuradores de Justiça, a partir de agosto. São duas torres, com 14 pavimentos, interligadas por duas passarelas visíveis e duas internas, totalizando uma área de 25.186m².

    Apelidado de “torres gêmeas”, o prédio foi construído em 36 meses e será a sede administrativa do MP. Funcionará no novo endereço o gabinete do procurador-geral, corregedoria-geral, subprocuradorias-gerais, procuradorias de Justiça Cível e Criminal, promotorias de Justiça da Capital, exceto as Especializadas (Pavimentação / Consumidor / Direitos Humanos / Crime Organizado), que continuarão ocupando a sede da Santana e as Promotorias Regionais.

    A instituição pretende economizar R$ 1,3 milhões por ano, que eram gastos com aluguéis. O MP estava espalhado em 14 espaços. Serão entregues as salas ocupadas no IPE (um andar inteiro), num edifício na Andrade de Neves, na Galeria Edith, no antigo Tribunal de Alçada (Praça Marechal Deodoro), dois ambientes na Borges de Medeiros esquina Coronel Genuíno e os gabinetes no Fórum (permanecerá os plantões  e o Tribunal do Júri).

    O procurador-geral de Justiça, Roberto Bandeira Pereira, ressaltou que a edificação irá beneficiar o andamento do trabalho por sediar promotorias, procuradorias e administração num único espaço. “É para melhor atender à população, já que a nossa demanda cresceu bastante”, afirmou. Cerca de 1200 servidores irão trabalhar no local e a previsão é de uma circulação diária de aproximadamente 500 pessoas à procura dos serviços. O prédio conta com auditório para 600 pessoas e garagem para 350 vagas.

    Com a discussão dos gastos do Estado na pauta, o procurador enfatizou que a obra “se pagará” em cerca de 20 anos, tendo em vista a economia em alugueis. “Utilizamos apenas vidro e concreto na construção. O que possibilita uma  manutenção e  limpeza de maneira prática e econômica”. A iluminação, o sistema de elevadores, a segurança e a brigada de incêndio são automatizados. “Pode-se programar até que horas utilizaremos uma sala, para que as luzes se apaguem automaticamente. Isso vai gerar uma grande economia”, projeta.

    Essa automatização tornou o custo do metro quadrado da edificação mais caro que outras obras realizadas no Interior. Segundo o procurador, valor será recuperado pela economia que a tecnologia irá gerar.

    Procurador Bandeira Pereira apresentou prédio à imprensa. (Foto: Daniel Dorneles/MP/JÁ)

    Retomando a questão dos custos mais de uma vez, Bandeira buscou mostrar que a obra é simples e funcional. “Não tem banheiro em gabinetes, apenas no do procurador-geral, nem há corredores, toda a área foi aproveitada”. Conforme o procurador “o MP sempre teve preocupação com o dinheiro público”.

    Pacto pelo Rio Grande
    Questionado se o MP irá entrar na Justiça contra o Pacto pelo Rio Grande, o procurador disse que a assessoria jurídica da instituição está analisando o que foi aprovado pela Assembléia. E adiantou: “Entraremos se ferir a Constituição”.

    Cadeiras novas

    O MP fez uma licitação para adquirir 28 cadeiras ergonômicas, que de acordo com o presidente da Comissão de Licitações da instituição, Luiz Pedro Leite, auxiliariam na prevenção de doenças relacionadas ao trabalho. O preço orçado foi de R$ 2.400 por cadeira. “Estão abaixo dos preços de mercado, mas renegociamos e vamos comprar 21 cadeiras por R$ 1.784”, declarou. Essas cadeiras irão ficar no auditório. Pedro Leite também informou que serão adquiridas mais mil cadeiras para uso geral.

  • Um passo para o ensino da cultura negra nas escolas

    Grupo trabalha desde 2004 (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Um dos primeiros atos do Governo Lula foi aprovar a lei federal 10.639, que obriga a inclusão da história e cultura afro-brasileira no currículo do ensino fundamental e ensino médio. A iniciativa ainda não se tornou realidade.

    A Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) está trabalhando para mudar este quadro. Desde 2004, através de convênio com o Ministério da Educação, a UFRGS auxilia escolas de Porto Alegre, Canoas, Viamão, Cachoeirinha e Alvorada a colocar em prática a lei federal.

    Trata-se do projeto “Educação anti-racista no cotidiano escolar”. Segundo os coordenadores, o universo da “cultura negra” está presente em toda história da civilização, mas acaba sendo  transportado para os livros didáticos apenas durante os anos em que vigorou a escravidão. “Posso falar da minha experiência, que foi de me ver sempre como um ator negativo da história, sempre como um escravo”, relata José Antônio dos Santos, que integra o Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) da Universidade.

    É o DEDS, ao lado do Coletivo Estadual de Educadores Negros – representante do movimento negro – que está tratando com as secretarias municipais. O Grupo de Trabalho, que se reúne uma vez por semana na Reitoria da Universidade, conta com a participação de professores de diversas áreas. “É uma construção coletiva e acredito que vai se estender por muito tempo, pois a educação continuada vai ser necessária até que o currículo das universidades incorpore a temática”, diagnostica Santos, que é professor de História.

    Em menos de dois anos, a estimativa é que mais de 3 mil professores já tenham passado pelos cursos de formação. Também foram desenvolvidos eventos para os gestores escolares e seminários abertos a comunidade. O grupo ainda elabora materiais didáticos para o apoio pedagógico.

    Lei é para toda sociedade

    “Essa lei não é para os negros, ela envolve toda sociedade, que tem que conhecer as contribuições do negro na sua formação”. Esta é a avaliação de Vera Neusa Lopes, representante do Coletivo Estadual de Educadores Negros sobre a importância da lei federal.

    José Antônio dos Santos assina em baixo, lembrando que a cultura negra cerca as práticas da nossa sociedade. “Quem nunca escutou um samba?”, pergunta. Outra questão inserida no debate é a importância da contribuição do pensamento africano para sociedade ocidental. “Temos uma educação eurocêntrica, mas a África produziu tanto conhecimento científico quanto a Europa”, acredita.

    O primeiro e mais significativo avanço do projeto vem sendo percebido pelas suas lideranças. “Noto que a composição da platéia dos nossos seminários está se alterando. No início era muito preta, agora, parece mais heterogênea”, relata Vera. “É um reflexo de que a atitude está deixando de ser exclusiva de quem tem vontade de fazer, para ser entendida como uma obrigação educacional”.

    Nas escolas de Viamão e Canoas, por exemplo, é perceptível o aumento do número de estudos sobre a cultura negra durante o ano letivo. “Antes eram muito ligadas à Semana da Conscientização e ao Carnaval, agora estão são mais presentes”, revela Luis Gustavo Basso, da prefeitura de Canoas.

    Governo Federal destina verbas à projetos

    A lei nº 10.636 obriga todos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, de escolas públicas e privadas, a incluírem em seus currículos a temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. A lei foi sancionada pelo presidente Lula em 9 de janeiro de 2003, logo depois de sua posse. As entidades negras tomaram a medida como uma vitória, mas criticam o governo por não disponibilizar verbas para formação dos professores.

    “Não é bem assim, há muitos instrumentos para lançarmos mão”, argumenta Vera Neusa Lopes, do Coletivo Estadual de Educadores Negros. Ela indica que o dinheiro pode ser aprovado através de projetos, como essa apresentado pelo DEDS, que já teve dois diferentes patrocínios, ambos federais. O projeto está aberto à participação de estabelecimentos de ensino, que podem entrar em contato com a organização através da página eletrônica http://www.prorext.ufrgs.br/Deds e do e-mail deds@prorext.ufrgs.br.

  • De esposas a matronas

    Luciana Kaross*

    A tradução teatral, assim como a tradução de poesia, é a que tem proporcionado maiores oportunidades de debate. As divergências em relação à adequação dos textos traduzidos, quando comparados ao original, demonstram o quanto ainda é preciso estabelecer parâmetros para avaliar as traduções de textos teatrais. As críticas mais contundentes parecem esquecer que a tradução teatral tem dois objetivos distintos: a publicação e a encenação.

    A peça The Merry Wives of Windsor, de William Shakespeare, que a coleção L&PM Pockets disponibilizou em meados no ano passado com tradução de Millôr Fernandes parece perfeita para ilustrar o que acabei de afirmar. Poder-se-ia começar uma análise comparativa pelo título escolhido pelo tradutor: as Wives (esposas em inglês) ganharam muitos e muitos quilos e tornaram-se matronas em seu As Alegres Matronas de Windsor, mas a questão do título é a menos intrigante.

    De todas as diferenças – e elas foram muitas – que pude anotar entre o texto original e a tradução, o que mais chama atenção foi a citação de personagens historicamente distantes no tempo. A personagem Simple se apresenta invocando o nome de Henrique Oitavo. Ora, esta peça é protagonizada por John Falstaff, contemporâneo de Henrique IV, pois Falstaff aparece na peça que leva o nome do rei. Da coroação de Henrique IV à coroação de Henrique VIII há um lapso de tempo de 110 anos. Sendo assim, a personagem não só não conhecia a fama de Henrique VIII como também não poderia supor sua futura existência.

    Apesar disso, a tradução é bem escrita e tem coerência interna. As piadas remontam ao gosto brasileiro, ainda que haja dois ou três exageros na comicidade. Quando observada com lupa, a tradução de Millôr Fernandes está recheada de pequenos pecados que não comprometem a publicação. Talvez o pecado maior tenha sido colocar o termo tradução na capa quando o mais adequado seria adaptação.

  • Teatro Hebraica volta à cena cultural portoalegrense

    Produtora cultural Daniela Lima comemora procura (Fotos: Naira Hofmeister/Já)

    Naira Hofmeister

    Um dos mais importantes ícones culturais do Bom Fim está de volta: a sala de teatro Ben Gurion, popularmente conhecida como Teatro Hebraica. Tradicional espaço de cultura na década de 80, o espaço voltou à ativa em abril de 2006.

    Três meses depois das estréias adulta e infantil, a agenda da sala já está com lotação esgotada nos finais de semana até dezembro. “Durante a semana, ainda temos só algumas datas, e em outubro”, comemora a produtora cultural da instituição, Daniela Lima.

    O retorno à atividade aconteceu graças a parcerias entre empresas privadas, como a Tintas Suvinil e a TL Iluminação, que patrocinaram a reforma do local. “É impressionante, mas não tínhamos nem fiação para passagem de energia elétrica”, lembra.

    Abandonado, sem estrutura técnica de luz e som, o teatro era utilizado vez ou outra para alguma atividade do clube ou da comunidade, como as reuniões do Conselho de Segurança do Bom Fim.

    A prova de que existe demanda no bairro para o espaço cultural é a presença do público nos espetáculos: dos 280 lugares disponíveis no Teatro Hebraica, mais da metade são preenchidos em todas as sessões.

    “Ainda temos dificuldade com o teatro infantil, mas esse setor é um desastre em toda a cidade”, lamenta Daniela, que esteve em cartaz na sala com a peça “A Fada Azul”, em abril de 2006.

    Clube quer ser centro cultural do Bom Fim

    A abertura do Teatro Hebraica marca um novo passo em direção ao objetivo da atual presidência do clube. Quando tomou posse, em janeiro de 2006, Joel Friedmann garantiu que sua principal ação frente à instituição seria retomar a participação sócio-cultural do Clube Israelita, abrindo as portas a toda a comunidade e promovendo a integração com a colônia judaica.

    A retomada da programação de espetáculos no Teatro Hebraica de um projeto cultural para atender o Bom Fim. A proposta inclui uma oficina de formação de atores, que inicia no final de julho. Rodrigo Marquez será o responsável pela primeira turma de 20 alunos, que vai abordar, além das técnicas de atuação, matérias como produção, cenário, figurino, iluminação e sonorização de espetáculos.

    “Serão dois módulos, um dedicado à preparação dos atores e um segundo, onde vamos montar um espetáculo com esquetes, onde os alunos desenvolverão todo o processo de construção de uma peça”, explica Marquez.

    A oficina vai servir como embrião de um projeto ainda maior, conta Daniela: “Meu sonho é criar aqui um escola de teatro, com cursos de atuação, direção e produção de espetáculos”, revela. Daniela Lima inclui no projeto o espaço externo da sala de teatro, que também deve ter um destino cultural em breve. “Penso em transformar num local para exposições de artes plásticas”, explica.

    Ela admite no entanto, que ainda não teve tempo para organizar essa etapa: “Mas se as pessoas quiserem em contatar, seria ótimo”. Nas quartas-feiras de julho e agosto, também acontecem no espaço os Encontros Literários, com o grupo Colheita Poética.

    A trupe, dirigida por Paulo Fontes, realiza espetáculos partindo de textos famosos da literatura em geral. “Tem muita escola que vem assistir, pois os alunos assimilam facilmente as narrativas a partir das encenações”, comenta Daniela.

    Confira a agenda cultural do Teatro Hebraica para julho e agosto
    Espetáculos Adultos:

    Hoje acordei Gorda
    Direção de Adalberto Tessler Canterji
    Até 30 de julho, sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Freud Explica (musical)
    Direção de Jotta Agá
    A partir de 4 de agosto, sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Rainhas
    Direção André Farias
    A partir de 4 de agosto, segundas e terças-feiras, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Espetáculos Infantis:
    O Grande Hablich (show de mágicas)
    Direção de Rogério Hoch
    Até o dia 13 de agosto, sábados e domingos, às 16h
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados). Adultos acompanhantes estão isentos da entrada.
    A Fada Azul em A Cidade dos Bonecos
    Direção de Daniela Lima
    A partir de 19 de agosto, sábados e domingos, às 19h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados). Adultos acompanhantes estão isentos da entrada.
    Oficina de Teatro
    Com Rodrigo Marquez
    Início: 24 de julho (aulas as segundas e quartas-feiras, das 19h às 21h30)
    Valor: R$ 900,00 à vista ou R$ 100,00 de entrada + 5x de R$ 160,00.

  • Proposta de unificar órgãos ambientais é contestada

    Guilherme Kolling

    Nos últimos meses, diretores e técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) passaram a se reunir uma vez por semana para discutir uma possível unificação dos órgãos ambientais do Estado. A proposta prevê a fusão da Sema, Fepam, Fundação ZoôBotânica (FZB), Departamento de Recursos Hídricos (DRH) e Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) em uma única estrutura.

    O diretor-presidente da Fundação, Antenor Ferrari diz que a idéia é criar uma instituição auto-sustentável, com arrecadação própria. “O objetivo também é integrar as atividades, dar mais harmonia ao trabalho, reduzir custos, prazos e atingir uma eficiência maior”, explica.

    O primeiro passo para que a proposta seja transformada num projeto de lei do Governo é a aprovação interna, na instituição. O debate está acontecendo desde abril de 2006, depois da última reformulação no secretariado do Governo Rigotto, que levou Antenor Ferrari para a presidência da Fepam e Cláudio Dilda para o posto de secretário estadual do Meio Ambiente.

    Apesar de as discussões ainda estarem na fase inicial, a Associação de Funcionários da Fepam (Asfepam) e o Sindicato dos Empregados de Fundações Estaduais (Semapi) já se manifestaram contra o projeto. “É importante discutir o modelo de órgão ambiental que queremos, mas isso não pode ser feito de maneira atropelada, em final do Governo”, reclama a engenheira agrônoma Sirlei Haubert, que integra a atual gestão do Semapi.

    Ela concorda que o tema deve ser debatido com corpo funcional da Sema, para melhorar a eficiência, integrar as atividades e facilitar o trabalho. “Mas para isso não é necessário unificar os órgãos ambientais, o que mudaria a estrutura política que está estabelecida. É possível criar procedimentos administrativos para que haja essa integração entre os setores”, entende.

    O presidente da Asfepam, Antenor Pacheco Netto, há 25 anos trabalhando na Fundação, acredita que o debate sobre o futuro do órgão ambiental ainda não ocorreu plenamente com a participação dos servidores. De qualquer forma, ele também aposta em ajustes internos na Sema como melhor saída para dinamizar o trabalho do órgão ambiental.


    Sirlei e Pacheco: resistência à unificação (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Asfepam denuncia desmonte dos órgãos ambientais

    Para o presidente da Asssociação dos Servidores da Fepam, Antenor Pacheco Netto, 50, mais importante do que debater a unificação dos órgãos ambientais do Rio Grande do Sul é discutir a falta de estrutura dessas instituições. “Está ocorrendo de forma acelerada em todo país um verdadeiro desmonte do setor”, denuncia.

    Ele cita como exemplo os casos da Fepam, do Defap e do DRH, que sofrem com a carência de funcionários. “A criação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente em 1999 foi um passo importante, mas não é o suficiente. Faltou estruturá-la, criar regionais, capacitar as instituições, contratar pessoal e ter uma preocupação com a arrecadação”, aponta.

    Nesse quesito das verbas, Pacheco cita a mudança no processo de renovação de licença ambiental de operação, que antes ocorria todo ano e depois passou a ser feita em até cinco anos, o que diminuiu a arrecadação, pois a cada novo pedido, o empreendedor paga uma taxa. A mudança nos prazos ocorreu para agilizar o trâmite dos processos de licenciamento, que hoje somam 13 mil, entre os que estão à espera de uma resposta da Fepam.

    “Não entro na questão da medida em si, mas na falta de uma iniciativa para manter a arrecadação que havia antes”, observa. Ele defende que a taxa para o licenciamento ambiental deve levar em consideração o poder econômico do empreendedor e o impacto do projeto. “Há distorções em relação à capacidade econômica. Os pequenos produtores poderiam pagar um valor menor e os grandes empreendimentos industriais uma taxa maior”, defende.

    Empregos melhores

    A carência de funcionários não é o único problema dos órgãos ambientais. A contratação de novos servidores também é difícil em virtude do nível dos salários, menor do que outros do setor público. No último concurso da Fepam, por exemplo, uma boa parte dos 38 técnicos contratados não ficaram no cargo – buscaram concursos e empregos mais rentáveis.

    Com o projeto de unificação dos órgãos ambientais e a mudança do caráter jurídico das instituições, os funcionários temem perdas em termos de plano de carreira e direitos trabalhistas. “Não se trata de corporativismo. A questão é que a defasagem salarial provoca um verdadeiro desmanche, como o que já está acontecendo. Conheço pelo menos seis colegas que saíram por esse motivo”, conta a dirigente do Semapi, Sirlei Haubert, que está na Fepam há quatro anos.

    Para o presidente da Associação dos Funcionários da Fepam, Antenor Pacheco Netto, o resultado é que as melhores “cabeças pensantes” saem e ficam profissionais que não tiveram alternativa melhor. “Deveria ocorrer o contrário, precisamos da nata da sabedoria. Os técnicos devem ter condições financeiras e capacidade técnica para conseguir enfrentar as pressões do poder político e econômico e defender a sociedade. Sem convicção, o sujeito se dobra”, observa.

    Ele conta que o técnico já tem uma sobrecarga de trabalho, dezenas de processos de licenciamento para analisar. De outro lado, há empresas que contratam dezenas de especialistas só para tratar do licenciamento de um empreendimento, as vezes chamam até consultoria do exterior. “Se o profissional não tiver conhecimento e convicção, carimba e aprova. Vira um despachante ambiental e o órgão uma fabriqueta de licenças”, compara.

    Terceirização é atacada

    Para agilizar o licenciamento, além da municipalização dos empreendimentos de impacto local, a Fepam discute terceirizar os estudos, transformando-se num órgão que vai fazer a supervisão, monitorando a qualidade ambiental. “Não compactuamos com a terceirização do serviço da Fepam”, afirma a dirigente do Semapi, Sirlei Haubert. “O órgão ambiental não pode seguir o trabalho de terceiros. O que o processo diz é uma coisa, a realidade é outra. Checar tudo é fazer trabalho dobrado”, entende.

    “O Estado tem que estar na mão do Estado, para que a gestão possa ser feita de acordo com os interesses da sociedade”, defende Pacheco. “O sistema já tem problemas. Com isso eles serão agravados. Transferir essas atividades para o mercado é estimular o mau empresário, o mau prestador de serviço, com o fim de liberar empreendimentos. Vão começar a vender EIA-Rima, como no caso de Barra Grande”, projeta o presidente da Associação de Funcionários da Fepam.

  • Um planeta alérgico e os falsos milagres

    Ricardo de Paula*

    Prevenção e consciência sobre riscos inerentes ao charlatanismo são cruciais na abordagem das alergias.

    Asma, rinite, os gravíssimos choques anafiláticos, alergias alimentares, à lã, ao látex e a várias substâncias, as provocadas por poeira, ácaros, fungos e baratas, suas características, conseqüências, prevenção e tratamento. A sociedade convive cotidianamente com esses problemas, que afetam grande número de habitantes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as alergias acometem aproximadamente 30% da população mundial. Segundo o Ministério da Saúde, 35% da população brasileira, ou 66 milhões de pessoas, têm doenças alérgicas.

    Um exemplo é a asma, que atinge 16 milhões de habitantes no Brasil e é a quinta maior causa de internações no Sistema Único de Saúde (SUS).  Segundo artigo publicado no site da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo), a doença atinge de 150 milhões a 300 milhões de pessoas no mundo e consome parcela importante dos recursos da saúde. Estima-se que 15 milhões de portadores percam, periodicamente, um ano de vida saudável. Desde 1980, a ocorrência de asma cresceu 60% nos Estados Unidos, onde o problema consome US$ 6 bilhões por ano em assistência médica e atinge 11% da população.

    É uma proporção semelhante à encontrada no Brasil. Calcula-se que 11,4% dos brasileiros tenham asma e um em cada três apresente alguns sintomas da doença, como dificuldade de respiração e “chiado no peito”. Os dados corroboram informações do ícone “Dicas” do site da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai): “No País, a asma é responsável, anualmente, por 400 mil internações hospitalares e dois mil óbitos”, grande parte ocorrida em razão do desconhecimento da doença, falta de programas de prevenção e dificuldade de acesso aos serviços médicos especializados.

    As estatísticas relativas ao aumento dos casos de asma nos Estados Unidos provavelmente refletem a maior agressão por alérgenos, num mundo com meio ambiente cada vez mais comprometido e condições de vida prejudicadas pelo estresse e crescente contato com alimentos e produtos com maior índice de ingredientes químicos. Assim, torna-se fundamental difundir amplamente informações sobre alergias, as principais formas de prevenção e os tratamentos adequados. Infelizmente, contudo, campeiam, em proporção desmedida, informações equivocadas, “tratamentos” miraculosos, “curas” por meio da medicina alternativa (e nem sempre legal!), produtos “antialérgicos naturais” (nem sempre fidedignos!) e outros tantos problemas que desviam a população do foco científico correto. Mais do que nunca, a alergia é objeto dos “falsos milagres”.

    Diante de estatísticas tão relevantes, dos problemas acarretados para a população, dos custos que o problema representa para o sistema de saúde, é imprescindível a prevenção, que pode ser feita por meio de melhor orientação da sociedade e de cuidados simples a serem adotados no dia-a-dia por pessoas alérgicas e no seu ambiente doméstico e de convivência. Mais do que nunca, o conceito de saúde, muito além de se caracterizar unicamente como a cura de doenças, deve ser entendido no contexto de um processo mais amplo e correto, de prevenção e vida saudável. Tal enfoque é muito melhor para a população e o País, refletindo-se num ganho em termos de qualidade de vida.

  • A irredenção da Redenção


    Fraga*
    Passo a passo, o maior triângulo escaleno verde da cidade está virando um saara urbano. Para perceber o que se passa, só cabisbaixando a visão.
    Passo a passo, passa a população por cima de cada último centímetro quadrado de cada derradeiro trecho gramado.
    Passo a passo, as mínimas áreas verdejantes, que deveriam ser espaços preservados com o mais simples paisagismo, vão ganhando perimetrais feitas por átilas calçados.
    Passo a passo, aquele preguiçoso cacoete de pedestre, o de cortar caminho para não ter que controlar a ansiedade, está recortando o que resta das gramíneas.
    Passo a passo, ando por lá e faço o cálculo desanimador: os pés que aparam não vão parar enquanto houver a menor chance de abreviar caminhadas, corridas, passeios, perambulações.
    Passo a passo, o que era para ser intransitável recebe o trânsito incessante de sapatos, tênis, botas, coturnos, sandálias, chinelos, pés descalços.
    Passo a passo, sob árvores frondosas e arbustos baixos e galhos que tentam impedir a abertura de novas trilhas, avança a desertificação daquele solo que na minha infância, logo ali nos anos 50, era um mar vegetal.
    Passo a passo, numa pressa mal pressentida pelos passantes, diminuem as folhas da relva, e ninguém avalia a sua própria participação no pisoteamento desse patrimônio.
    Passo a passo, as sobras do tapete do Parque Farroupilha agonizam sob solas, sem folga para a fotossíntese, sem intervalos do massacre esmagador.
    Passo a passo, se torna impossível a tarefa da impassível administração municipal, de devolver à paisagem a imagem do passado.
    Passo a passo, multidões avulsas rasgam rotas arenosas sobre os restantes nacos verdes, e enquanto circulam, aos pares ou em grupos, deixam no ar conceitos ecológicos e de cidadania, em contraste com o rastro insensível no chão.
    Passo a passo, desvio da hipocrisia. Aqui e ali, tufos ainda não amassados se encolhem. Temem os domingos no parque.