Autor: Elmar Bones

  • Realidade domina Festival de Cinema de Gramado

    Naira Hofmeister
    Com novas regras de exibição dos competidores, o 34º Festival Internacional de Cinema de Gramado divulgou na semana passada os filmes que participam da edição 2006. As mostras de longas-metragens não dividem-se mais em ficção e documentário, mas sim, entre cinema brasileiro e latino, que antes concorriam na mesma categoria. Outra novidade será a sessão exclusiva para curtas-metragens, que não serão mais projetados entre os dois longas de cada noite, para adiantar o final da sessão, que, em alguns casos, passava da meia-noite.
    Entre os longas brasileiros, destaca-se a temática comum: com exceção da ficção de Marcelo Santiago, Sonhos e Desejos, que narra diálogos de três jovens sobre a política nacional, os outros quatro concorrente versam sobre situações factuais brasileiras. Dois documentários – Atos dos Homens, de Kiko Goifman e Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim – narram aspectos problemáticos da realidade brasileira. Atos dos Homens, é explicado em sua sinopse como “um raio X da violência na Baixada Fluminense”. Desigualdade social, banalização da morte e o cotidiano agressivo do local são o foco da película, que também dialoga com os moradores do local. Já Pro Dia Nascer Feliz, do aclamado diretor João Jardim, de Janela da Alma, tem como tema a educação brasileira e suas disparidades: “Meninos e meninos, ricos e pobres em situações que revelam precariedade, preconceito, violência e esperança. Em três estados brasileiros, em classes sociais distintas, adolescentes falam da vida na escola, seus projetos e inquietações numa fase crucial de sua formação”.
    Serras da Desordem, do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci registra a fuga de um índio durante um ataque de fazendeiros à sua aldeia, que passa 10 anos vagando pelas serras do Brasil Central. Após esse tempo, é descoberto e vira notícia em Brasília, onde especialistas debatem sua origem e identidade. Ele termina por reencontrar um filho com quem retorna ao Maranhão mas a situação que encontra não está mais de acordo com a vivência de sua liberdade nômade. A curiosidade desse longa-metragem é que os papéis principais do filme são vividos pelos próprios personagens que passaram pela situação real. Carapirú, Tiramukõn, Camairú e Myhatxiá do filme, são os da vida real, assim como os brancos  Sydney Ferreira Possuelo e Estelita Rosalita dos Santos, que interpretam a si mesmos.
    Por fim, a ficção Anjos do Sol, dirigida por Rudi Lagemann – conhecida figura do cinema gaúcho, onde produziu os clássicos Deu Pra Ti Anos 70 e Verdes Anos – traz para a tela o problema da prostituição. Em sua estréia em longas, o diretor conta a saga da menina Maria, de 12 anos, que, no verão de 2002, é vendida pela família, no interior do nordeste brasileiro, e termina num prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Após meses sofrendo abusos com outras meninas, Maria consegue fugir e atravessa o Brasil na carona de caminhões, chegando ao Rio de Janeiro onde vai novamente se deparar com a possibilidade de vender seu corpo.

    Anjos do Sol narra drama de uma menina obrigada a se prostituir (Divulgação)

    O 34º Festival Internacional de Cinema de Gramado acontece de 14 a 19 de agosto de 2006, na cidade serrrana. Alem dos longas-brasileiros em competição, outros cinco filmes concorrem na categoria Latinos (Di buen dia a papa, El Método, 4 Mujeres Descalzas, Mezcal e El Caracazo).
    Nenhum gaúcho na mostra de curtas
    À exceção da mostra exclusiva para a produção cinematográfica local, o Rio Grande do Sul será representado apenas por dois curta-metragens, que concorrem na catergoria 16mm (Terra Prometida, de Guilherme Castro e a animação Super Mano, dirigida por Luiz Rangel e Xande Soares). Na mais nobre das bitolas, 35mm, não há nenhum filme produzido no sul entre os concorrentes ao Kikito. Em edições anteriores, os curtas do estado sempre foram alvo de elogios: em 2004, Messalina, de Cristiane Oliveira e Cinco Naipes de Fabiano de Souza foram os destaques. Já na edição passada, o brilho gaúcho ficou por conta de Os Olhos do Pianista de Frederico Pinto.
    Em 2006, dos 13 concorrentes na categoria 35mm, as produções se concentram no centro do país, com quatro representates dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda há dois concorrentes da Bahia, um do Ceará, um do Espírito Santo e outro de Santa Satarina. Entre os curtas em 16mm, além dos gaúchos, disputam os troféus três filmes paulistas, três cariocas e outro do Distrito Federal. Entre os gaúchos, Luiz Rangel domina a cena de curtas-metragens, dirigindo nada menos que 7, das 24 produções que disputam os troféus.
    Acompanhe a lista completa:
    CURTAS 35mm
    Alguma Coisa Assim (SP)
    Diretor: Esmir Filho
    Beijo De Sal (RJ)
    Diretor: Felipe Gamarano Barbosa
    De Glauber Para Jirges (SP)
    Diretor: André Ristum
    Dos Restos e das Solidões (CE)
    Diretor: Petrus Cariry
    Distúrbio (SP)
    Diretor: Mauro D´Addio
    Fúria (RJ)
    Diretor: Marcelo Laffitte
    Manual Para Atropelar Cachorro (RJ)
    Diretor: Rafael Primo
    O Anjo Daltônico (BA)
    Diretor: Fábio Rocha
    O Quintal Dos Guerrilheiros (SP)
    Diretor: João Massarolo
    O Sr. e a Sra. Martins (SC)
    Diretor: Laine Milan
    No Princípio era o Verbo (ES)
    Diretor: Virgínia Jorge
    Vermelho Rubro Do Céu Da Boca (BA)
    Diretor: Sofia Federico
    Quando O Tempo Cair (RJ)
    Diretor: Selton Mello
    CURTAS 16mm
    A Goiabeira (RJ)
    Diretor: Ed Lopez
    Alguns Recados (SP)
    Diretor: Thiago Faelli
    Arraiada (SP)
    Diretor: Henrique Rossi
    Berenice (RJ)
    Diretores: Bruno Duarte, Luciana Penna
    Meus Amigos Chineses (RJ)
    Diretor: Sérgio Sbragia
    O Poeta e O Capitão (DF)
    Diretor: Jorge Oliveira
    Recortes (SP)
    Diretor: José Eduardo Milani
    Terra Prometida (RS)
    Diretor: Guilherme Castro
    Super Mano (RS)
    Diretor: Luiz Rangel E Xande Soares
    MOSTRA GAÚCHA
    A Domicílio
    Diretor: Nelson Diniz
    A Noiva E O Violonista
    Diretor: Vicente Moreno, Moisés Westphalen E Denny Chang
    A Porta
    Diretor: Marcelo Restori
    A Re-Volta Da Banana
    Diretor: Luiz Rangel, Gustavo Rosseb, Vânia Martins
    Cavalo De Tróia
    Diretor: Luiz Rangel
    Como Se Atravessa
    Diretor: Luiz Rangel,Vania Martins, Bruno Carboni
    Da Pomerânia A Ibirubá – A Saga De Um Povo
    Diretor: José Carlos Heinemann
    Efeito Dominó
    Diretor: Emílio Caio Ferasso
    Estrondo
    Diretor: Luiz Rangel
    Júlia
    Diretor: Carlos Eduardo De Oliveira Nazário
    Leonel Pé-De-Vento
    Diretor: Jair Giacomini
    Lótus
    Diretor: Cristiano Trein
    Mal Comum
    Diretor: Luiz Rangel, Bruno Carboni, Jone Shustes, Vânia Martins
    Noite Quente
    Diretor: Rodrigo Goulart Godinho
    O Tempo De Clarissa
    Diretor: Jessica Luz E Tatiana Nequete
    Rolex De Ouro
    Diretor: Beto Rodrigues
    Sketches
    Diretor: Fabiano De Souza
    Super Flufi
    Diretor: Tula Anagnostopoulos
    Super Tinga
    Diretor: Luciano Moucks
    Vera Lúcia
    Diretor: Diego De Godoy
    Pai
    Diretor: Luiz Rangel, Vania Martins, Bruno Carboni
    Super Mano
    Diretor: Luiz Rangel e Xande Soares
    Terra Prometida
    Diretor: Guilherme Castro
    Um Aceno Na Garoa
    Diretor: Mário Nascimento
    Homenagens para aqueles que construíram a história do cinema nacional*
    O cineasta Nelson Pereira dos Santos, o dcumentarista Vladimir Carvalho e o ator Antônio Fagundes serão as personalidades a receber troféus na 34º edição do festival.
    O aclamado diretor Nelson Pereira Dos Santos, primeiro cineasta brasileiro a integrar a Academia Nacional de Letras, receberá uma comenda na noite de premiação no sábado, dia 19. Responsável pela adaptação de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para o cinema, entre outras obras-primas, é um dos brasileiros mais prestigiados e premiados internacionalmente. Em reconhecimento ao seu trabalho, já foram organizadas mostras e retrospectivas de suas produções em países como França, Itália, Canadá, EUA e Japão, entre outros. Além disso, recebeu o troféu Eduardo Abelin no Festival de Gramado de 1998, bem como homenagens nos festivais de Cannes, Havana e Polônia.
    Vladimir Carvalho, pela dedicação de toda a sua vida ao cinema, e mais particularmente aos documentários, receberá a 6ª edição do troféu Eduardo Abelin. Professor titular da Universidade de Brasília nas disciplinas de cinema, foi o roteirista do documentário Aruanda, no final dos anos 50 – uma resposta ao surgimento do cinema novo no sul do país – dando início ao documentário moderno no Brasil. É autor de O País de São Saruê, que permaneceu cerca de nove anos interditado pela censura e só foi liberado com a Anistia, em 79. Ainda em sua filmografia estão O Homem de Areia (sobre a revolução de 30), O Evangelho Segundo Teutônio, A Paisagem Natural e Conterrâneos Velhos de Guerra.
    Por sua contribuição de mais de três décadas ao cinema brasileiro, Antônio Fagundes receberá o troféu Oscarito, em sua 17ª edição. O ator, carioca de nascimento, mas que aos oito anos mudou-se para São Paulo com os pais, desde muito cedo demonstrava apreço pelas artes cênicas. Aos 14 anos fez sua estréia nos palcos, ainda no colégio. Já em 1969 ele roda A Compadecida, adaptação da obra de Ariano Suassuna dirigida por George Jonas – uma das produções mais caras do cinema brasileiro até aquele momento. A partir de então, Fagundes transita intensamente entre o cinema, os palcos e a TV, construindo uma sólida reputação baseada no trabalho e no talento e transformando-se em um dos ícones da dramaturgia nacional.
    A entrega dos troféus Oscarito e Eduardo Abelin ocorrerá nos dias 15 e 16 de agosto, respectivamente, e a comenda especial a Nelson Pereira dos Santos será oferecida na noite de sábado, 19 – a principal noite de premiações.
    * Com informações da Assessoria de Imprensa do Festival

  • Balança mas não cai

    Tapume auxiliava no reparo de fachada (Fotos: Helen Lopes/JÁ)

    Por volta das 10h da manhã deste sábado, 15 de julho, um caminhão do supermercado Nacional, ao manobrar para estacionar, esbarrou num tapume instalado na avenida Venâncio Aires, entre a Augusto Pestana e a Osvaldo Aranha, na calçada oposta ao Hospital de Pronto Socorro, um dos trechos de maior movimento de Porto Alegre.

    A estrutura ficou apoiada no veículo. Se o caminhão arrancasse, parte do tapume desmoronaria. Bento Ramos, técnico em edificações da empresa Projebras Engenharia, responsável pela obra, atesta que não há perigo de desabamento. No início da tarde, o caminhão ainda servia de apoio ao tapume. Horas depois, o problema foi resolvido.

    No detalhe: caminhão apóia tapume

    O Nacional informou que irá ressarcir os gastos com o reparo. O caminhão encostava para descarregar mercadorias na loja da esquina Venâncio com a Osvaldo Aranha. A calçada está parcialmente interrompida desde maio quando um bloco de lajotas desprendeu-se e caiu de uma altura de 20 metros na cabeça de um pedestre.

  • Aproxima-se do fim a novela do zoneamento

    Detalhe da região do Estado que registra maior número de plantios florestais, como ilustram as manchas verdes do mapa

    Geraldo Hasse

    Vinte anos depois das primeiras resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente sobre o licenciamento ambiental para plantios florestais, os órgãos ambientais ainda tentam ajustar sua conduta. No Rio Grande do Sul,  pressionada pelos fatos, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) trabalha há dois anos para criar normas que regulem o crescimento acelerado da área ocupada por plantios florestais. “O zoneamento ambiental é um instrumento técnico mais firme do que um plano diretor”, diz o assessor da presidência da Fepam, Mauro Moura.

    Ele acompanha o trabalho do grupo que elabora as regras do zoneamento ambiental para a silvicultura. Se não houver nenhum problema, o regulamento deverá entrar em uso no início de 2007. A partir daí, além de licenciamento, será exigido monitoramento da área plantada. A silvicultura será a segunda atividade agrícola controlada pela Fepam. A primeira, enquadrada em 2004, é a lavoura de arroz irrigado, que ocupa pouco mais de 1 milhão de hectares no Estado.

    A primeira fase do zoneamento ambiental foi concluída em novembro de 2005. O trabalho procurou identificar as diferentes “unidades paisagísticas” existentes no Rio Grande do Sul. A partir de janeiro de 2006 o grupo de trabalho passou a detalhar as características socio-ambientais de cada um desses biomas. Nas páginas a seguir, veja o detalhamento deste trabalho e a discussão sobre os plantios florestais no Rio Grande do Sul.

    Estudo divide o Estado em 37 unidades paisagísticas

    O grupo de trabalho do zoneamento ambiental é formado por 12 técnicos – quatro da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), quatro da Fundação Zoobotânica e quatro do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).

    No primeiro momento, no final de 2004, eles se dedicaram a definir a metodologia do trabalho, conta Silvia Pagel, engenheira florestal da Fepam. Em seguida levantaram as cartas temáticas contendo dados sobre os rios, solos, vegetação, topografia e clima do território gaúcho. Encerrado em novembro de 2005, esse trabalho resultou na divisão do Estado em 37 diferentes unidades paisagísticas.

    A partir de janeiro de 2006 o grupo passou a detalhar as características socio-ambientais de cada um desses biomas. Os dados mais relevantes no caso são a existência ou não de espécies animais ou vegetais endêmicas, as alterações do meio ambiente, os usos do solo e o balanço hídrico, entre outros. Alguns levantamentos dependem de terceiros. Uma empresa de consultoria tem até o fim de junho para levantar a disponibilidade e o consumo de água em todas as regiões gaúchas.

    Diversos órgãos públicos estão colaborando no esforço para organizar um zoneamento florestal eficiente. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vai ceder dados do mapeamento do bioma pampa, encomendado pelo ProBio, do Ministério do Meio Ambiente.

    A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) recebeu verba da CaixaRS para atualizar seu estudo sobre a área ocupada por pinus, eucalipto e acácia, as três espécies madeireiras mais cultivadas no Estado. Sabe-se que o total situa-se entre 300 mil e 400 mil hectares e no mínimo deve dobrar com os plantios prometidos pela Aracruz, Votorantim e Stora Enso, que têm projetos de implantar três novas fábricas de celulose na Metade Sul.

    Mais do que um levantamento, a equipe do professor Doadi Brena em Santa Maria está fazendo a identificação do potencial de mercado, das demandas e das necessidades do setor florestal no Rio Grande do Sul. Com recursos oferecidos pelo Corede da Zona Sul, técnicos da Embrapa de Pelotas estão mapeando as áreas mais adequadas para o incremento da silvicultura.

    A Emater forneceu dados sobre áreas ocupadas por remanescentes de quilombos gaúchos – são mais de 100. As reservas indígenas somam duas dezenas. Com base nessas informações é que se vai licenciar o plantio de árvores visando a produção de matéria-prima para diversos ramos industriais, principalmente a indústria de celulose.

    Na Fepam não existe má vontade com a silvicultura nem preconceito contra qualquer espécie vegetal. Há sim prevenção contra o risco do avanço de monoculturas. Mas é preciso relativizar as coisas, diz Mauro Moura, assessor da presidência da Fepam. “Em alguns aspectos a soja pode ser mais perigosa do que o eucalipto”, afirma ele.

    A leguminosa chinesa se adaptou extraordinariamente ao Brasil mas na sua arrancada provocou muita erosão no norte gaúcho. E seu cultivo exige o uso de herbicidas danosos para o meio ambiente. A engenheira florestal Silvia Pagel vê com horror a monocultura da cana-de-açúcar no interior de São Paulo. “Quando falam em deserto verde, eu me lembro dos canaviais. O cultivo de cana também exige muita água”, diz ela.

    O balanço hídrico é o condicionamento fundamental para o avanço ou não da silvicultura comercial no Rio Grande do Sul. Onde houver déficit de água as florestas artificiais não serão licenciadas. Do ponto de vista superficial, a maior preocupação é com a perda de habitats. Nesse sentido, “a silvicultura tem que ser integradora”, diz Silvia Pagel. Em outras palavras, a engenheira florestal da Fepam quer dizer que o plantio de árvores pode ser uma alternativa de uso de solo e de renda para o agricultor que sofre com o baixo rendimento da pecuária e apanha do mercado de grãos.

    Num plano mais geral, o regramento da atividade florestal pode servir como alavanca para a recuperação de áreas degradadas ou nunca olhadas pela política econômica. “O bioma pampa está abandonado”, diz Mauro Moura, sugerindo que a silvicultura pode ser uma alavanca capaz de direcionar investimentos para a Metade Sul.

    Leia a íntegra da matéria no Jornal JÁ que está nas bancas

  • MP tenta desativar ERBs irregulares há mais de um ano

    Helen Lopes

    Em 30 de abril de 2005, quando entrou em vigor a lei municipal que regulamenta a instalação de antenas de celular em Porto Alegre, 91 Estações de Rádio-Base (ERBs) estavam irregulares. Apenas sete foram desativadas desde então.

    Depois de se reunir com as empresas, solicitando a adequação, o Ministério Público, através da Promotoria de Meio Ambiente, entrou com três ações requerendo a retirada das antenas irregulares da Brasil Telecom, Vivo (CRT) e Claro (Telet).

    A medida foi tomada em junho de 2005 e o processo ainda está tramitando no Foro Central da Capital. De acordo com a promotora Ana Maria Marchesan, o trâmite é demorado “porque existem muitos interesses financeiros e jurídicos em jogo”.

    Enquanto aguarda a decisão definitiva, a Promotoria solicitou, através de liminar, que as antenas localizadas a 50 metros de escolas, creches, hospitais, centros de saúde, clínicas cirúrgicas e geriátricas fossem desativadas. São 32 ERBs nesta situação. Para desativá-las, o MP entrou com três liminares, uma contra cada empresa – Claro, Vivo e Brasil Telecom.

    A solicitação relativa as sete antenas da Vivo foi acolhida, em 2º Grau, pela 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado (TJ). Conforme o relator, desembargador Paulo de Tarso Vieira Sanseverino, a empresa teve “prazo bastante razoável” – três anos – para se adequar às exigências da Lei Municipal.

    O magistrado afirmou também ser “plenamente incidente o princípio da precaução”, por não haver certeza científica acerca dos efeitos nocivos que as radiações não-ionizantes poderiam causar à saúde da população. A Vivo acatou a decisão e desativou as sete antenas em maio deste ano (são as únicas, aliás, das que estavam irregulares e foram desligadas).

    O pedido que se refere as 10 antenas da Claro foi recusado pelo juiz Giovanni Conti, da 15º Vara Cível, do Foro Central, e confirmado, em 2º Grau, pela 4ª Câmara Cível do TJ, por entender que tal fiscalização cabe à administração municipal, conforme consta no processo.

    A outra liminar, contra a Brasil Telecom, foi aceita em 21 de junho de 2005, pelo juiz Roberto Gomes da Silva, também da 15º Vara Cível, e referendada pela 21º Câmara Cível do TJ. Determinava o desligamento de 15 ERBs, mas a empresa se recusa a seguir a orientação. Argumenta que, como a liminar da Claro não foi aceita, a sua também não poderia ser, pois seis antenas estão situadas no mesmo local da outra companhia. A empresa contesta a desativação das antenas situadas na rua Butuí, 21, Carlos Von Koseritz,1543, Demétrio Ribeiro, 601, Dr. Freire Alemão,207, Dr. Dias de Carvalho, 247 e Itararé,195.

    O MP concordou que a antena localizada na rua Carlos Von Koseritz, 1543 não descumpre a diretriz dos 50 metros e aceitou a sua exclusão da lista. Mas entende que as outras 14 antenas da empresa devem ser desligadas.

    De acordo com a promotora Ana Maria Marchesan, a situação das antenas da Brasil Telecom é diferente porque a empresa entrou no mercado de telefonia móvel após a vigência da lei, não se enquadrando na norma que determinava o período de adequação. “Ao compartilhar torres ilegais de outras empresas, as antenas estão irregulares da mesma forma. As licenças estão vencidas”, sustenta Ana Maria, que incluiu no processo, na sexta-feira, 7 de julho, esclarecimentos sobre as irregulares. A Promotoria aguarda novo posicionamento do juiz.

    A Brasil Telecom preferiu não se manifestar enquanto tramita o processo.

    Endereço das 10 antenas da Claro que constam na liminar negada
    Demétrio Ribeiro, 601 – Centro
    São Manoel, 556 –Santa Cecília
    Leopoldo Bier, 70 – Azenha
    Butuí, 21 – Cristal
    Dr. Freire Alemão, 207 – Mont’Serrat
    Dr. Dias de Carvalho, 247 – Tristeza
    Dom Pedro II, 891 – Higienópolis
    Itararé, 195 – Jardim São Pedro
    Eng. Ary de Abreu Lima, 301 – Vila Ipiranga
    Prof. Oscar Pereira, 8500 – Belém Velho
    Endereço das 15 antenas da Brasil Telecom que constam na liminar aceita*
    Baltazar de Oliveira Garcia, 1245 – Itu Sabará
    Butuí, 21 – Cristal
    Carlos Von Koseritz, 1543 – Auxiliadora **
    Av. Cavalhada, 2356 – Cavalhada
    Cel. Feijó, 197 – São João
    Demétrio Ribeiro, 601 – Centro
    Dom Pedro II, 891 – Higienópolis
    Dr. Freire Alemão, 207 – Mont’Serrat
    Dr. Dias de Carvalho, 247 – Tristeza
    Duque de Caxias, 979 – Centro
    Eng. Afonso Cavalcanti, 100 – Bela Vista
    Félix da Cunha, 879 – Moinhos de Vento
    Itararé, 195 Jardim São Pedro
    São Manoel, 556 – Santa Cecília
    Heitor Vieira, 159
    * A empresa ainda não cumpriu a determinação
    ** Excluída do processo

    Endereço das 7 antenas da Vivo desativadas
    Lageado, 215 – Petrópolis
    Umbu, 107 – Passo da Arreia
    Carlos Von Koseritz, 1543 – Auxiliadora
    Teresópolis, 2727 – Teresópolis
    Praça Comendador Souza Gomes, 227 – Tristeza
    Eugênio Du Pasquier,123 – Cristo Redentor
    Cavalhada, 4913 – Cavalhada
    Smam aceita retomar negociações com empresas

    A Lei Municipal 8.896, de abril de 2002, estabeleceu normas para telefonia móvel e concedeu 36 meses para a adequação das antenas que já estavam funcionando. Desde abril do ano passado, as ERBs deveriam manter uma distância mínima de 500 metros uma das outras, cinco metros de distância do terreno vizinho e afastamento de 50 metros de escolas, creches, hospitais, clínicas cirúrgicas e centros de saúde.

    As operadoras de telefonia celular não aceitam a lei e, mesmo com uma flexibilização proposta pela Prefeitura, preferiram discutir na Justiça. Após um ano e três meses em situação irregular, as antenas continuam funcionando.

    A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam) autuou as empresas, mas o pagamento das multas foi suspenso por determinação judicial até o final do processo. “São dois processos em andamento, o administrativo e o judicial”, explica o secretário Beto Moesch.

    Ele conta que as empresas cogitam retomar as negociações. “Estamos dispostos a conversar sobre a situação das antenas já instaladas”, afirmou Moesch, ao enfatizar que “a lei ajudou a melhorar a paisagem urbana, ao evitar que a cidade se tornasse um paliteiro”.

    Segundo o secretário, desde maio de 2002, o número de antenas de celular mais que dobrou na Capital. O fenômeno não é visível porque a nova regra induz ao compartilhamento de torres, desde que não ultrapasse o limite de radiação, imposto pela lei.

  • Fogaça: Revisão do Plano Diretor vai acontecer aos poucos

    Prefeito recebeu resoluções da Conferência do Meio Ambiente em cerimônia no Paço Municipal (Fotos: Naira Hofmeister/JÀ)

    Naira Hofmeister

    Na manhã desta sexta-feira, 7 de julho, o prefeito José Fogaça recebeu das mãos do secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, as resoluções da 4ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, realizada no início de maio, em Porto Alegre. O evento definiu propostas para minimizar os impactos ambientais que estão acontecendo na cidade, desde que o novo Plano Diretor entrou em vigor, em 2000.

    Essas diretrizes vão auxiliar na revisão do Plano Diretor, que está acontecendo desde 2003, quando ocorreu a Conferência Municipal de Avaliação do Plano. A Secretaria do Planejamento Municipal está finalizando projetos para entregar à Câmara. Os mais polêmicos tratam da altura das edificações e da definição de áreas especiais de interesse cultural.

    Um dos destaques do livreto com as propostas do Meio Ambiente são as Áreas de Proteção do Ambiente Natural, que estão previstas na lei, mas ainda não foram postas em prática. A revisão, que vem se adiando ano a ano, não deve ser concluída em 2006.

    O prefeito Fogaça prevê que, em função da complexidade dos assuntos envolvidos na constituição dessa lei, as mudanças acontecerão aos poucos. “O Plano Diretor é semelhante ao Código Civil, que demorou 40 anos para ser modificado”, compara. “É mais fácil fazermos 50 pequenas leis do que tentar mudar todos os artigos de uma só vez”.

    Fogaça acredita que enquanto há um artigo sendo trabalhado, outros se tornam obsoletos. Há também o fator de interferência entre os assuntos. “Se aprovamos algo sobre cultura, pode ser que tenhamos que alterar outro ponto na parte ambiental, ou de construção civil”, exemplifica.

    Primeiras alterações devem acontecer em agosto

    É difícil projetar quando ocorrerão de fato as mudanças do Plano Diretor. Desde 2005, a Prefeitura e a Secretaria do Planejamento vêm projetando alterações para o mês seguinte, para o semestre seguinte, e assim vai. De concreto mesmo, só a informação de que em um ano e meio, a gestão Fogaça não enviou textos sobre o assunto para a Câmara Municipal.

    O secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, garante que os primeiros projetos de lei devem ser enviados à Câmara ainda em agosto. Ele revela que os temas abordados são aqueles “nos quais a Prefeitura é unânime”: a altura máxima dos prédios e os recuos entre as construções.

    Além disso, o secretário destaca que algumas resoluções da 4ª Conferência de Meio Ambiente estão sendo aplicadas pela Prefeitura, como o Estudo do Impacto de Vizinhança, que prevê a manutenção de 20% de área verde no total construído e aprovação da comunidade para novas obras. Essas medidas, por enquanto só valem para obras sem RIA e EIA-RIMA, ou seja, aquelas que não prevêem estudos de impacto ambiental.

    Para Moesch, a participação ativa da Smam no processo de construção civil pode ser encarada como uma vitória dessa gestão. “Por enquanto, a Smam só licencia obras de condomínios, que incluem área de preservação, mas isso é uma fragilidade que foi detectada e estamos trabalhando para modificá-la”, sustenta.

    O secretário ainda refere que o Plano Diretor não é a única legislação que rege a questão ambiental no ambiente urbano, citando o Código Florestal e a Lei Federal 6938, que trata sobre a Política Nacional do Meio Ambiente.

  • Ospa será na Orla do Guaíba


    O prefeito José Fogaça apresentou as possibilidades de locais para a Ospa junto ao Guaíba.
    (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas
    Desde que o Shopping Total foi descartado como local para nova sede da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a Prefeitura e a Fundação Ospa (Fospa) retomaram as discussões para escolher o local.
    Nesta sexta-feira, 7 de julho, o prefeito José Fogaça apresentou nove hipóteses de lugares, todas localizadas na Orla do Guaíba. As áreas próximas ao Estaleiro Só e ao Anfiteatro Pôr-do-Sol são as mais cotadas. A decisão, que deve ser divulgada em uma semana, terá como critério principal a acessibilidade ao público.
    “Não pode ser um lugar elitista. Não queremos perder a identificação que a orquestra tem com o povo”, afirma o presidente da Fospa, Ivo Nesralla. Ele prefere o lugar próximo ao Anfiteatro Pôr-do-Sol, ao lado da nascente do Arroio Dilúvio. “Fica mais perto do Centro e teria espaço para um grande estacionamento para carros e ônibus”, projeta.
    Fogaça entende que a Prefeitura teria dificuldades para conseguir este local, porque faz parte do parque da Harmonia. “Já tentamos instalar o Sambódromo ali e a população foi contra”, lembra. Ao lado do Estaleiro Só existem menos empecilhos porque o terreno já pertence ao governo municipal.
    Durante a próxima semana a prefeitura irá realizar avaliações técnicas para verificar a viabilidade dos locais, com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Secretaria de Planejamento Municipal, Secretaria do Meio Ambiente e Escritório de Turismo.
    Após a decisão, o projeto será encaminhado à Câmara de Vereadores. No dia 31 de dezembro, o prédio da avenida Independência que serve como teatro para a orquestra será entregue aos proprietários. “Ali não tem mais condições” diz Nesralla.
    Shopping Total está descartado
    No dia 9 de junho, ocorreu a desistência oficial da construção do novo teatro da Ospa no Shopping Total, através de um documento enviado à Procuradoria da República. “Desistimos do shopping porque fomos obrigados”, resume Nesralla.
    O presidente da Associação de Moradores e Amigos do Bairro Independência (AMABI), Marcelo Ruas, comemorou a decisão e divulgou nota, classificando a decisão da Ospa como mais uma conquista da recente AMABI.
    Ele diz que os motivos da desistência são as irregularidades que desde o início caracterizaram o processo de aprovação da sala sinfônica e de um prédio-estacionamento no shopping. “O Poder Público Municipal ignorou, mas o Ministério Público Federal questionou as decisões anteriormente tomadas e encaminhou para a decisão final”.
    Os moradores foram contra a construção pelo impacto ambiental que o prédio de sete andares, junto à rua Gonçalo de Carvalho, e o fluxo de carros iria trazer para a via. O movimento deu origem à AMABI.

  • Simpa aceita reajuste de 2,09%

    Municipários voltam às ruas (Fotos: Helen Lopes/JÁ)

    Helen Lopes

    Em assembléia geral, realizada na quinta-feira, 6 de julho, os servidores do município decidiram aceitar a proposta de reajuste de 2,09%, encaminhada na quarta-feira (5/7) pela Prefeitura de Porto Alegre. No entanto, a categoria rejeitou o aumento do vale-refeição de R$ 8,00 para R$ 9,00. “Não concordamos porque, da forma como foi colocado, cortaria o vale de R$ 13,00 para quem precisa fazer hora-extra”, explicou a presidente do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa), Carmen Padilha.

    O Simpa votou pela continuidade da mobilização por 16%, que se refere à recuperação de perdas ocasionadas pela suspensão da bimestralidade, ainda na administração anterior. “Os municipários estão de volta às ruas em defesa de seus direitos”, anunciou a presidente.

    Sobre a proposta de disponibilizar vagas em creches mediante convênios, a entidade concordou em participar de um grupo de discussão e também vai debater internamente.

    Os funcionários reivindicam ainda a volta da bimestralidade, maior reajuste no vale–refeição e valorização do serviço público. Outra reclamação dos funcionários é o pagamento de hora-extra a 703 cargos em comissão (CCs). “Enquanto impedem os servidores concursados de fazer hora-extra, os CCs podem”, denuncia Carmen.

    Contra a “privatização” do DMLU

    Após a votação realizada no Largo Zumbi dos Palmares, os servidores foram em marcha até o Paço Municipal. No caminho, entoavam palavras de ordem cobrando aumento e questionavam o projeto de mudanças no Departamento de Limpeza.

    Em frente à Prefeitura, protestantes gritaram palavras de ordem

    “Não, não, não! / à privatização!”, “Fogaça! / Sacana! / Devolve a nossa grana!” e “Fogaça/ cara de pau /acabou com o reajuste bimestral!”, foram alguns dos cânticos. A presidente do Simpa explicou o protesto. “Vamos questionar esse processo de terceirização total do DMLU. Somos contra essa licitação”, disse. Quando chegaram na frente da Prefeitura, os municipários encontraram quatro motos da Brigada Militar e uma corda cercando a entrada. Os manifestantes atacaram. “É assim que o governo Fogaça recebe os servidores?”. Constrangidos, os policiais foram para o Largo Glênio Peres. Os manifestantes ainda ficaram um tempo na frente da Prefeitura, antes de encerrar o ato. Nesta sexta-feira, 7 de julho, representantes do Simpa devem entregar um documento com as decisões à Prefeitura.

    Servidores retomam entidade

    Nova diretoria foi eleita por 3,5 mil servidores

    Há cerca de 10 anos sem o reconhecimento dos funcionários públicos, o Sindicato dos Municipários de Porto Alegre, empossou, em junho deste ano, sua nova diretoria. Quem participou do processo conta que as irregularidades foram descobertas e por pressão do Ministério Público, da Câmara de Vereadores e das Centrais Sindicais, a turma que estava no comando debandou.

    “O que os mantinha na entidade era a estrutura. Como eles sucatearam tudo, não tinham mais motivos para permanecer”, sustenta o funcionário do DMAE, Alexandre Abreu. O impasse era tamanho que um grupo criou o Fórum das Entidades de Servidores Municipais, com o objetivo de manter as reivindicações da categoria junto à Prefeitura. Com a eleição, o Fórum foi extinto.

    Eleita com a participação de aproximadamente 3,5 mil servidores, dos mais de 30 mil, a nova direção estima que entidade tenha dívidas de aproximadamente R$ 1milhão. “Não encontramos a contabilidade dos últimos anos, existem diversas dívidas trabalhistas e ações de ex-funcionários, além do serviço de telefone cortado por falta de pagamento”, conta a presidente Carmen Padilha, que concorreu pela chapa 1, convergência de forças ligadas ao P-Sol, PT, PSTU.

  • Memória e Esperança: Passeio Cultural do Petrópolis Vive

    Petrópolis Vive – petropolisvive@portoweb.com.br

    O Passeio começou no “centro” do Bairro, na escadaria da Igreja São Sebastião, de frente para o novo prédio, bonito, que ocupa o lugar do saudoso e charmoso Cinema Ritz, tão caro aos que cresceram em Petrópolis.

    Aqui se delimita o “fim da linha do bonde”, até hoje mencionado como uma referência. Até os anos sessenta, o bonde era o principal veiculo do bairro. Na verdade, eram dois os fins da linha do bonde: o da João Abott, na esquina do mesmo nome, e o de Petrópolis, ali pela esquina com a Carazinho, ligado ao primeiro por um único trilho. A gurizada às vezes “roubava” o bonde e o conduzia até a João Abott e de volta à Carazinho, para desespero do motorneiro que se distraíra tomando um cafezinho na esquina. Nos álbuns da memória andam de bonde os guris irrequietos e os quietos, que aproveitavam para ler, enquanto subia devagar o morro o “Jabuti”, assim chamado porque nele estava escrito”J.Abott”.

    Aqui ainda é o centro de Petrópolis, pela presença da Igreja, do Colégio, dos Bancos, do Supermercado, das “Fruteiras”, Padarias, Barbearias, Ferragens, Lojas de Vestuário, Miudezas, etc. Aqui ainda circulam e se encontram velhos e novos amigos, que resistem e sobrevivem à travessia diária entre “os dois lados” da Protásio e os seus rios de tráfego.

    Ainda são vizinhos a Igreja, o Colégio e o fantasma do Cinema, que começaram juntos lá ambaixo na esquina da Carazinho com a João Abott. Naquela época, o novo prédio da Igreja buscava ampliar o sustento para pagar sua própria construção com a renda do Cinema Petrópolis e o Santa Inês ainda era um conjunto de quatro salas junto ao salão paroquial, no térreo do cinema. Isso até os anos cinqüenta.

    Depois desse reconhecimento inicial, os caminhadores se dirigiram para a Carazinho e a Av. Caçapava, para chegar ao Parque Tamandaré, conduzidos pelo fio da memória inscrito no livro “Memória dos Bairros: Petrópolis”, de Renata Lerina Ferreira Rios e Maria Augusta Quevedo. Foi o pessoal do Tamandaré, na pessoa da Sra. Clarice Krauss, que conseguiu no Orçamento Participativo a realização do livro que recolheu esses traços de memória que acompanharam o Passeio. O Passeio também foi acompanhado pela representante da Ver. Sofia Cavedon, moradora de Petrópolis.

    Nessa tarde, o Parque sediava uma concorrida festa de São João, com a providencial fogueira à espera do seu momento. Lembramos que uma tradição de Petrópolis foi por muitos anos as festas de São João realizadas nas ruas, até com fogueirinhas! Algumas eram famosas.

    Foi interessante a comparação do ambiente atual com o antigo, onde bem antes havia o Lago Tamandaré. Do qual resta hoje uma área alagadiça, que parece insalubre aos moradores. Mas a natureza estava ali, nós chegamos depois. E o olho d’água persiste. Talvez ali pudessem ser plantadas algumas corticeiras-do-banhado, árvore nativa que dá belas flores e gosta de solo úmido.

    Enfim de volta à Protásio e ao presente, percorremos o trecho entre a Igreja São Sebastião e a Vicente da Fontoura, onde a Smam plantou no canteiro central uma renque de mudas de ipês-brancos e jacarandás. Aproveitamos para conversar com comerciantes e moradores e distribuir um folheto incentivando a rega das mudas. Nessa fase, o maior fator de perda das mudas é a falta de água. A falta de chuva por cinco a sete dias, dependendo do clima, pode ser fatal. Por isso, a carinhosa adoção por parte dos vizinhos, com um balde de água, é decisiva.

    Os caminhantes foram muito bem acolhidos e tiveram a grata surpresa de saber que algumas pessoas já tinham iniciado a rega das mudas, como um moço de fala castelhana, dono de um salão de beleza próximo à Igreja e o “Paulão”, muito popular entre a Ijuí e a Borges do Canto.

    Ainda deu um tempinho para apreciar o marco de pedra na pracinha Toniolo, onde havia uma placa de bronze (roubada) festejando sua inauguração, à qual compareceu o próprio Presidente da República: Getúlio Vargas!

    Cansados e felizes, sentido-se mais integrados à história do Bairro e contentes por ter contribuído com o seu futuro, os caminhantes descansaram à sombra das velhas paineiras, na subida da Protásio, admirando o por-do-sol e sorvendo um merecido chopp.

  • Obra sobre legado de Lutzenberger chega ao teatro

    Peça estréia em 1º de agosto(Foto: Rogério Ribeiro/Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Uma das atividades do Rincão Gaia que mais encantava o ecologista José Lutzenberger era a visita de escolas à propriedade de Pantano Grande, que ele transformou num paraíso natural. O ex-presidente da Fundação Gaia, falecido há quatro anos, relatava que as crianças do meio urbano, não mais habituadas ao contato com o verde, estranhavam a exuberância da paisagem no começo, mas logo se soltavam, descobrindo insetos, plantas, animais e sons diferentes.

    Um retrato desses contrastes entre a vida em áreas rurais ou preservadas e a das “crianças de apartamento” é apresentada na peça “O Mundo é Assim”, que tem estréia para convidados no dia 1º de agosto, no teatro Bruno Kiefer. A partir do dia 8 de agosto, o espetáculo será oferecido gratuitamente para alunos do ensino fundamental de escolas públicas, estaduais e municipais.

    O protagonista é Teco, um garoto que morre de medo de bichos. Brincando na praça de um condomínio fechado, onde os brinquedos estão construídos em meio ao concreto, ele começa a ouvir as narrativas de Lilly (Andréa Ayres) e Malú (Raquel Peruzzo), sobre sua visita ao Rincão Gaia e tudo o que aprenderam por lá.

    A diversidade encanta o menino, que vai de reboque nas lembranças das amigas, imaginando as situações que elas viveram, abordando a separação do lixo, a preservação da fauna e da flora silvestre e a desconstrução do discurso de que animais silvestres são uma ameaça: “Uma cobra-coral só representa perigo quando se sentir atacada em seu ambiente, e, de qualquer forma, ela é necessária para a manutenção do equilíbrio”, exemplifica Christian Lavich Goldscmidt, idealizador do projeto.

    O cenário da peça se divide entre o ambiente cinzento dos grandes centros urbanos, onde as crianças brincam protegidas pelas grades, e os tons esverdeados da mata. “Tentamos reproduzir as características do Rincão Gaia no palco”, relata Christian, que também assina o texto e a direção da peça – ao lado de Vera Pothhoff – e ainda vive o protagonista Teco.

    As falas são intercaladas com música, coreografias e recursos cenográficos como os paus de chuva. Segundo Christian, apesar da simplicidade didática do texto, o espetáculo não é direcionado apenas às crianças, pois “aproxima e fortalece o espírito de encantamento e respeito com o mundo natural do qual somos apenas parte”.

    Serão quatro apresentações diárias, sempre nas terças-feiras, a partir do dia 8 de agosto, duas sessões pela manhã e outras duas à tarde. O teatro tem capacidade para 200 pessoas, então é possível que sejam 800 espectadores por dia, ou 3.200 no mês, 16 mil crianças até o final do ano. E com todos alunos entrando de graça.

    “O teatro é muito elitizado em Porto Alegre. Além disso, esses colégios necessitam atividades extra-classe, que retirem um pouco as crianças das salas de aula”, justifica Christian Goldscmidt. Escolas interessadas devem entrar em contato com as respectivas secretarias de educação. Para escolas municipais de Porto Alegre, o telefone é: 3289.1846 ou 3289.1837. Para escolas estaduais: 3288-4813 ou 32884874.

    Projeto tem incentivo da LIC

    A peça “O Mundo é Assim” é resultado de uma parceria entre Fundação Gaia, Oficina de Teatro Olga Reverbel e Casa de Cultura Mario Quintana. Através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura (LIC), as instituições conseguiram captar R$ 193 mil de patrocínio, oferecido pela Multilab Indústria Farmacêutica, ainda em 2004.

    O espetáculo só está saindo agora pela demora na liberação da verba, em virtude dos entraves burocráticos do Esado. O atraso determinou o corte de alguns gastos para a temporada. “Escrevemos quinze músicas para gravar num CD e distribuir à platéia, mas o valor desse investimento triplicou nesses anos e tivemos que abandonar a idéia”, lamenta Christian.

    Além da montagem de “O Mundo é Assim”, a Multilab bancou a revitalização do Jardim Lutzenberger, no 5º andar da Casa de Cultura. “Estamos remodelando o projeto paisagístico e iremos incluir canteiros com espécies típicas de ambientes áridos, plantas medicinais e ervas aromáticas”, conta Christian.

    Conversa com Capra

    Christian Lavich Goldscmidt pensou no espetáculo há três anos depois de ouvir o físico norte-americano Fritjof Capra, em que ele contou sua experiência no Cetro de Eco-Alfabetização que mantém em Berkley, na Califórnia.

    Amigo de Lutzenberger e autor de diversos livros como O Tao da Física e O Ponto de Mutação, Capra aproveitou a participação no Fórum Social Mundial para visitar o Rincão Gaia, sede rural da fundação que leva o mesmo nome.

  • Dias da Cruz vai completar 100 anos

    Instituição abriga há 75 anos pessoas de toda a cidade (Fotos: Helen Lopes)

    Helen Lopes

    A fila começa às 17h30. Num banco de cimento, embaixo de um telhado meia-água, homens, mulheres, idosos, jovens, sozinhos ou acompanhados com crianças esperam a recepção abrir, todos na procura de um pouso para passar a noite. Tem sem-teto, desempregados, moradores do interior com parente no hospital, pessoas que vieram tentar a vida na Capital e outras que por algum motivo estão na rua.

    Ás 18h30, começa a conferência dos dados e a distribuição das chaves, para que cada um guarde seus pertences. Primeiro entram as mulheres que dormiram na casa no dia anterior, depois as que vêm pela primeira vez, em seguida, os homens, na mesma ordem.

    Em comum, a expressão cansada e a negativa em falar, uns por vergonha, outros por medo. Apenas os primos Luiz Fernando Dutra, de 25 anos, e Denoci Castro(foto), de 21 anos, decidem contar suas histórias. Nascidos em Pelotas, os dois desembarcaram na Capital há um mês. “Viemos trabalhar em Porto Alegre porque lá está muito difícil”, justifica Castro, que saiu do interior pela primeira vez.

    O primo mais velho está na estrada há mais tempo. “Passei 11 meses em Novo Hamburgo, desses, três foram na rua”, recorda Dutra, pai de uma menina de seis anos. “Existem situações em que tu cai um degrau e é desacreditado. Agora tô me reerguendo”. Eles conseguiram trabalho como servente em uma construção na zona sul da cidade.

    Luiz Fernando: “Agora tô me reerguendo”

    Os dois estão dormindo há quase 30 dias no albergue noturno do Instituto Espírita Dias da Cruz, na esquina da Avenida Azenha com a Ipiranga. O período máximo de uso de cada visitante é de 10 dias nos meses quentes e 15 nos demais. Isso a cada dois meses. Ou seja, a dupla é uma exceção.

    “É que os rapazes estão trabalhando”, explica o presidente da entidade, Oswaldo Oliveira da Silva (foto). “Quando arrumam emprego ou o parente continua internado ampliamos o prazo, mediante documentação, porque senão, ao invés de albergados, teremos moradores”.

    O albergue Dias da Cruz funciona desde 1927, de domingo a domingo. “Nesses 75 anos, nunca fechamos uma noite”, comemora Oswaldo, de 70 anos. Ele se dedica em tempo integral à instituição, desde que se aposentou da Brigada Militar.

    A rotina de quem procura a casa é bem definida. Depois da triagem, seguem para o banho, recebem roupas limpas e chinelos para dormir e são convidados a assistir uma palestra de 10 minutos, religiosa ou com psicólogas voluntárias. Logo após, a janta é servida e às 21h vão para o dormitório.

    A disciplina é mantida no dia seguinte. Às 6h30 da manhã, todos têm que estar de pé, pois o café da manhã já está na mesa. “O pessoal reclama de acordar cedo, mas é muita gente para se ajeitar, tem que ser assim”, entende o albergado Denoci Castro.

    O Dias da Cruz tem capacidade para 100 pessoas (62 vagas masculinas e 38 femininas – meninos de até 12 anos ficam com a mãe). O atendimento é feito por dois funcionários com carteira assinada. Os demais são voluntários.

    É o caso de Alexandre Cândido da Silva, que há sete anos atrás foi albergado e hoje auxilia na recepção. “Fui parar na rua porque me desentendi com a família e não tinha como pagar aluguel. Aqui me deram uma mão e voltei a trabalhar”, conta o homem de 38 anos, pai de três filhos. Há mais de três meses como voluntário, ele acredita que “existe gente boa nessa situação, cada um com algum problema, uns choram, se acomodam, outros dão a volta por cima”.

    Entidade completa 100 anos em janeiro de 2007

    O Instituto Dias da Cruz surgiu em janeiro de 2007, a partir da iniciativa de um pequeno grupo de adeptos do Espiritismo, que fundaram a Sociedade Espírita Dias da Cruz. “A idéia de construir um albergue era antiga e pertencia a todo o movimento espírita de Porto Alegre”, recorda o presidente da entidade. Espírita desde a adolescência, Oswaldo conta que em 1926, os membros do Dias da Cruz fizeram um mutirão e construíram o albergue com 25 leitos.

    Outra ação da entidade é a creche Casa do Pequenino, que tem como objetivo atender crianças de família de baixa renda. “Nosso único pedido é que os pais estejam trabalhando”, ressalta Oswaldo. Inaugurada em 1981, acolhe 153 crianças de quatro meses a sete anos. “Contratamos professores com pedagogia ou que estejam cursando”, enfatiza a coordenadora Zuleica da Silva.

    Até hoje, o Dias da Cruz se sustenta através do trabalho de voluntários e de doações. Para ajudar é necessário pegar um carnê para depósito bancário, na sede da entidade (Avenida Azenha, 366), ou entregar alimentos ao mesmo endereço. Informações através do telefone: 3223-1938.