Autor: Elmar Bones

  • Limite: antológico filme brasileiro tem exibição única em Porto Alegre

    Cena do filme Limite, que sera exibido em sessão única na quarta-feira, 17 (Divulgação)

    Naira Hofmeister
    O Santander Cultural exibe nesta quarta-feira a única sessão de Limite, filme de Mário Peixoto que é considerado um marco do cinema brasileiro, reconhecido internacionalmente como o representante da avant-garde tupiniquim. O evento homenageia os 75 anos da obra – lançada em 1931, no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro, onde foi aclamada por críticos como “a mais bem sucedida experimentação de cinema-poesia na história nacional”.
    O longa não foi um sucesso de público – teve poucas exibições na época. Depois, acabou relegado a circuitos alternativos. A sessão que acontece em Porto Alegre, na próxima quarta-feira, 17, é uma rara oportunidade de ver o filme.
    Tanto que há uma programação especial para este grande momento. Como preliminar, de segunda a quarta desta semana o Santander apresenta o documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, que tem como objeto a vida e a obra de Mário Peixoto. O legado desse autor, aliás, é pouco conhecido, tanto pelos mistérios de sua biografia como pela pouca divulgação que seu único filme finalizado teve.
    Limite dialoga com o desespero e a angústia diante da tragédia. É também um texto sobre a resistência, a capacidade de luta, a garra pela vida, mesmo quando a morte é iminente e inevitável. Entre os personagens, o traço mais marcante dessa resistência é a memória dos que vivem do passado, mesmo que este se constitua de fracassos e infelicidade.
    A trama foi escrita em uma única noite, após Peixoto ter sido seduzido pela imagem de um rosto feminino, que à sua frente tinha as mãos de um homem atadas por algemas. A figura foi capa da revista francesa VU em 1929, que Peixoto conheceu durante sua estadia em Paris.
    Obra única
    Mesmo com as reverências prestadas à Limite, Mário Peixoto nunca mais conseguiu concluir outra obra. Em 1959, os negativos da última cópia do filme encontravam-se completamente deteriorados e coube à Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello, iniciarem sua recuperação, que só foi finalizada em 1971.
    Toda essa mística em torno de Limite é revelada parcialmente no documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, que recebeu o prêmio de Melhor Filme do Júri no Festival de Gramado em 2002. O filme, produzido por Walter Salles, tem o mesmo título da produção que Peixoto abandonou em 1932, no meio das filmagens, após brigas com a atriz e produtora Carmen Santos.
    O filme traz imagens raras e cenas de bastidores de Limite, alguns fragmentos de Onde a Terra Acaba e depoimentos de Peixoto, colhidos por Ruy Solberg para outro trabalho, O Homem do Morcego.
    Os dois filmes terão sessões comentadas. Onde a Terra Acaba terá debate conduzido por Aparecida do Carmo Frigeri Berchior, professora de literatura brasileira e diretora acadêmica da FAFIBE (São Paulo), que teve o autor como temática de seu doutorado, além de ser autora de vários artigos sobre o cineasta.
    Limite será comentado por Michael Korfmann, professor do Instituto de Letras da UFRGS, responsável pela criação e manutenção do site www.mariopeixoto.com e de grupos de estudos sobre a obra prima de Peixoto e sua colaboração literária. É também editor do livro em inglês Ten contemporary views on Mario Peixoto’s Limite, lançado na Alemanha em janeiro de 2006. A mostra é iniciativa do Instituto de Letras – UFRGS, com apoio do Goethe-Institut e Arquivo Mario Peixoto (RJ) e do Santander Cultural.
    Programação mostra especial Limite 75
    15 de maio – segunda-feira

    15h, 17h e 19h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    16 de maio – terça-feira
    15h, 17h e 19h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    Sessão Comentada com Aparecida do Carmo Frigeri Berchior
    17 maio – quarta-feira
    15h e 17h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    19h – Limite, de Mario Peixoto
    Sessão Comentada com Michael Korfmann

  • Comunidade vence na Marquês do Pombal


    Comunidade lotou salão de festas da rua (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    O prefeito José Fogaça comunicou aos moradores da Marquês do Pombal em reunião nesta sexta-feira, (12/5), que o trajeto da obra do Conduto Álvaro-Chaves Goethe será desviado para salvar as árvores da rua. Na quarta-feira (10), representantes da prefeitura foram a Brasília solicitar a alteração ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), financiador do projeto. A iniciativa ocorreu após os protestos da comunidade em prol da questão ambiental.

    Durante o seu pronunciamento num salão de festas lotado da rua, Fogaça pediu desculpas aos moradores pelas duas árvores que chegaram a ser cortadas seguindo o projeto do Conduto. “Mas assim que a comunidade se manifestou nós interrompemos as obras”, justificou.  Para ele, a falha da Prefeitura foi não ter reparado que as árvores seriam prejudicadas, e que são um marco para a cidade. “O Tunel Verde da Marquês é um tesouro à luz do dia e das estrelas, por isso não pode ser destruído”.

    Apesar de ser notório pela inflexibilidade, o BID aceitou a mudança na rota das obras, desde que o Prefeitura assumisse todos os custos. O prefeito garantiu que o governo municipal irá se responsabilizar pelos gastos e que o trajeto será alterado. “Toda a canalização vai passar pela Cristóvão Colombo, que já estará em obras por causa do Conduto”, diz.

    O coordenador da Comissão Contra o Corte do Túnel Verde da Marquês do Pombal, Paulo Vencato, elogiou a sensibilidade e a consciência ecológica da prefeitura. “Porto Alegre é conhecida como uma cidade arborizada, e os túneis verdes são uma característica diferenciada que precisa ser preservada”. Para ele, cada vez mais a população está preocupada com o meio-ambiente. “A nossa mobilização tem que servir de exemplo para outras cidades”, diz.

    A comissão foi organizada pelos moradores da rua Marquês do Pombal que se revoltaram contra a poda radical das árvores proposta pela prefeitura. Segundo o projeto, as copas e as raízes seriam cortadas, o que acabaria com o cenário de Túnel Verde e prejudicaria imensamente os vegetais. Há cerca de um mês  a comissão começou a realizar protestos para pressionar o governo municipal por uma solução.

  • Plano Diretor: estudo que comprova distorções foi retomado

    Trabalho de arquitetos da Secretaria do Planejamento evidencia problemas causados em bairros residenciais (Fotos Tânia Meinerz/JÁ)

    Guilherme Kolling

    A Secretaria do Planejamento Municipal (SPM) retomou o estudo sobre a paisagem urbana de Porto Alegre, que comprova distorções no Plano Diretor, em vigor desde março de 2000. O trabalho, realizado em função da primeira Conferência de Avaliação do Plano Diretor, de 2003, foi interrompido após as eleições municipais de 2004 e depois engavetado.

    Na época, os arquitetos da SPM já tinham resultados concretos: diagnosticaram, por exemplo, que os limites de altura foram igualados e ampliados e que os recuos foram reduzidos. E mais: que os índices construtivos estabelecidos trarão prejuízos aos cofres do Município. Explica-se. Os quatro bairros estudados – Moinhos de Vento, Rio Branco, Petrópolis e Menino Deus – estão próximos do limite de melhor aproveitamento da infra-estrutura existente.

    Como o Plano Diretor estimula o aumento da população na área mais urbanizada (do Centro até a Terceira Perimetral), a tendência é extrapolar a capacidade das redes, como a viária. Com isso, ao invés de melhor utilizar uma “infra-estrutura ociosa”, o poder público vai antecipar a necessidade de investir em obras de recuperação e ampliação desses equipamentos. A secretária adjunta do Planejamento, Moema Debiagi, afirma que a gestão Fogaça vai propor um projeto de lei com mudança nas alturas máximas das edificações, que devem ser diminuídas.


    Agora Vai? Moema Debiagi garante que os projetos de lei serão entregues

    “Estamos concluindo o estudo sobre a área central, a chamada Cidade Radiocêntrica, seguindo os critérios estabelecidos pelos nossos técnicos”, revelou a executiva da SPM, durante a Conferência Municipal do Meio Ambiente, no Colégio Bom Conselho, em 5 de maio. O texto deve chegar ao prefeito Fogaça nas próximas semanas. Assim como o projeto das áreas especiais de interesse cultural, que já está em poder da Secretaria Municipal da Cultura.

    A gestão anterior chegou a encaminhar projetos de lei relativos ao Plano Diretor para a Câmara, mas apenas nos últimos dias de 2004, para evitar desgaste com os dois segmentos antagônicos envolvidos na discussão – construção civil e movimentos de bairro.

    No início de 2005, quando assumiu a nova legislatura, o governo Fogaça retirou as propostas para tomar conhecimento e fazer ajustes, adequando os textos à nova visão do Município. Mas os projetos de lei não foram para Câmara no ano passado e o debate sobre o Plano Diretor – que agitou a cidade em 2003 e 2004 – foi abandonado.

    Moema Debiagi justifica que 2005 serviu para a revisão de legislação e das demandas listadas no documento final da 1a Conferência do Plano Diretor, realizada em 2003. Para este ano, além da entrega dos projetos, a secretária adjunta do Planejamento prevê os preparativos para a 2a Conferência do Plano Diretor. “Agora será possível aprofundar a discussão, pois a lei não será mais tão recente quanto era em 2003”. A estrutura do evento será definida no segundo semestre.

    Conferência do Meio Ambiente

    Mais de 300 pessoas participaram da 4ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, de 5 a 7 de maio, no Colégio Bom Conselho. A presença maciça de público – composto principalmente por integrantes de associações de moradores, movimentos de bairro, ONGs ambientalistas e arquitetos – mostrou o interesse pelo Plano Diretor – a proposta do evento foi avaliar os impactos da lei.
    E os conferencistas debateram o tema com conhecimento de causa. Muitos participaram de toda a revisão do Plano, em 2003 e 2004. Depois de um ano em que o debate esfriou, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) trouxe o assunto novamente.

    Em três dias de trabalho, foram sugeridas centenas de medidas para conter impactos de construções e garantir a proteção em áreas do ambiente natural – 216 resoluções foram aprovadas. Entre elas, mudanças específicas do Plano Diretor, como a revisão dos índices construtivos, a começar pela redução da altura máxima para 33 metros – hoje são 52 metros. O texto será entregue ao prefeito José Fogaça, conselhos municipais e depois para a Câmara Municipal, que poderá transformar as decisões em leis.

    Os principais temas debatidos foram: saneamento ambiental, mobilidade urbana, educação ambiental, ambiente construído e áreas de proteção ao ambiente natural (APAN). Apesar de previstas pelo Plano Diretor de 2000, as APAN ainda não estão regulamentadas.

    Isso significa que locais da cidade que deveriam ser preservados podem eventualmente receber empreendimentos imobiliários com índices construtivos superiores ao desejado para preservar o meio ambiente. O titular da Smam, Beto Moesch, reiterou o compromisso dele e do prefeito de implantar as áreas de proteção. Também fez duras críticas ao Plano Diretor de 2000. José Fogaça, ao contrário, fez um discurso conciliador, pregando a pluralidade na maior parte dos 20 minutos em que falou, na cerimônia de abertura.

    Um dos debatedores, o integrante do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais, Felipe Viana, se disse mais preocupado com a fiscalização. “A viatura que cuida dos morros é a mesma que cuidas das placas de sinalização. Como pode existir eficácia assim?”, questiona. Viana participou da conferência anterior e lembra que a maioria das resoluções daquele encontro não foram colocadas em prática.

    A presidente da Agapan e integrante do movimento Porto Alegre Vive, Edi Fonseca, lembrou que as ONGs boicotaram as últimas conferências porque as resoluções não foram postas em prática. “Esperamos que essas decisões não sejam engavetadas. Estamos aqui, dando nosso voto de confiança ao secretário Moesch, a quem agradecemos por trazer esse tema do Plano Diretor”, justificou.

    A Smam promete disponibilizar as informações na internet, para que o público possa fiscalizar o andamento das medidas. A transparência das informações, aliás, esteve em diversas resoluções – os conferencistas pediram para que o conteúdo das discussões dos conselhos municipais seja disponibilizado, assim como as ações do poder público relativas ao monitoramento do Plano Diretor.

    Outras preocupações manifestadas – e aprovadas – foram com o desperdício de água, poluição sonora, permeabilidade do solo urbano, insolação, aeração, restrição a projetos especiais, estudo de impacto de vizinhança, aumento dos recuos das edificações, preservação das áreas verdes em terrenos particulares na Zona Sul, acompanhamento da densificação na cidade, preservação dos túneis verdes e educação ambiental.

  • Coluna Israelita "blindada" à pichações

    Monumento recebeu produto especial que facilita a remoção da tinta (Fotos Naira Hofmeister)

    Naira Hofmeister
    A Coluna Israelita, ao lado do Instituto de Educação General Flores da Cunha, foi alvo de novo mutirão pela limpeza do SOS Monumento, coordenado pela restauradora Alice Prati. Menos de 15 horas após a higienização da última sexta-feira, 5 de maio, que retirou marcar de tintas dos últimos 3 anos, o monumento foi novamente atingido por pichações.
    Alice Prati explica que entrega do monumento foi feita no final da tarde de sexta-feira e, na manhã de sábado, já estava pichado de novo. “Na verdade, estávamos esperando isso acontecer, mas eu tinha apostado que duraria até a segunda-feira. Perdi.”, lamenta Alice. A novidade desse final de semana é que, além da retirada da pintura, o monumento está impermeabilizado contra novos danos.
    Uma película transparente, especialmente desenvolvida para o granito foi aplicada sobre a parte lesada, o que vai facilitar a remoção da tinta na próxima vez que for pichado. “Funciona como uma blindagem pois a tinta não entra nos poros do monumento”, esclarece Alice. Sem penetração, a pintura pode ser removida com um pano e tinner, sem a utilização de jatos de água e escovas, técnicas abrasivas que danificam a obra.
    O empenho vai além. A durabilidade média do filme impermeabilizante é de 10 anos, mas a Coluna Israelita vai ser pioneira no trabalho de observação da técnica, como explica Alice: “Vamos investigar o comportamento do material durante o sol, chuva, frio e calor, por exemplo”. Já existem estudos da Prefeitura para aplicação do produto na chaminé da Usina do Gasômetro, um dos pontos preferidos pelos mais ousados pichadores.
    Alice Prati e seu equipe acreditam que o vandalismo não e só uma disputa de gangues e que, ao contrário do que se espera, grafites e pichações são feitas pelas mesmas mãos: “Existe um mercado de apostas aonde uma pichação em Porto Alegre, pode valer até trinta mil reais”, acusa.
    As evidências apontam o caminho feito por Alice. Segundo a restauradora, os próprios grafiteiros admitem fazer ilegalmente as pinturas e não é incomum encontrarem as mesmas assinaturas em monumentos agredidos em em murais de grafite. Ouro ponto levantado por Alice é que entre as categorias não há disputa por espaços públicos: “Onde há pichações, não se grafita em cima”, conclui.
    O cerco se fecha
    Além do projeto de SOS Monumento, desenvolvido pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), em parceria com o Atelier Alice Prati de Restaurações e com apoio de empresas privadas, outras propostas têm sido levantadas para resolver a questão.
    A primeira, que parte da restauradora, é manter a linha dura com quem comete as ações ilegais: “Pichação é crime!”, lembra Alice. Para ela, as penas deveriam ser mais rígidas, ao contrário do que defende a legislação atual, onde quem e pego pichando cumpre penas alternativas, como a limpeza da tinta ou o pagamento de cestas básicas.
    O monitoramento eletrônico também deve apertar o cerco contra os pichadores. A expectativa de Alice é que dentro de 60 dias sejam instaladas câmeras de vigilância, gerando imagens 24 horas por dia para o página de Internet do projeto. Também em um mês deve estar inaugurada a sede dos laboratórios do SOS Monumento, num casarão da Zona Sul.

  • Cinema desbitolado e gratuito


    Na parede lateral de um prédio foi projetado o longa-metragem Da Janela do Meu Quarto
    (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Com o lema “Abra seu coração: desbitole-se”, os quatro organizadores do Cine Esquema Novo pretendem, pela terceira vez, romper as barreiras de produção da sétima arte, colocando todo o tipo de filme no mesmo saco, sem tornar a expressão pejorativa.  Película 35, 16mm e Super 8 concorrem lado a lado com formatos digitais desde a primeira edição, em 2003, e, a partir desse ano os filmes também não serão mais separados por gênero: “Eu assisti aos 67 filmes selecionados para a competição e procurei assuntos que levassem uns aos outros para organizar as sessões, mas mesmo dentro dessa sistemática, os filmes não são comparáveis em si”, pontua Gustavo Spolidoro, curador da mostra desde a 1ª edição. Em 2006, serão 83 sessões gratuitas nas salas P. F. Gastal da Usina do Gasômetro, Santander Cultural e nas salas universitárias da capital, além de exibições públicas como a que antecedeu o início do festival, nos dias 29 e 30 de abril e 4 de maio. Na noite da última quinta-feira, quem passou pela esquina da avenida Santana com a Venâncio Aires foi surpreendido por uma inusitada sessão de cinema.

    Na parede lateral de um prédio em frente ao Colégio Militar, foi projetado o terceiro e último trecho do longa-metragem Da Janela do Meu Quarto, do artista Cao Guimarães, numa prévia do que será a mostra Noutras Janelas, que vai veicular quatro outras obras de Guimarães em espaços públicos e aleatórios da cidade, segundo os organizadores, “para provocar uma reflexão sobre como o espaço interfere na experiência do cinema”.


    Os organizadores do festival: Morgana Rissinger, Gustavo Spolidoro e Jaqueline Beltrame

    Mesmo com a distância de oito andares entre a calçada e a “tela” de cinema, que prejudicou o áudio do filme, quem passava pelo lugar parava alguns minutos para acompanhar a atração e, invariavelmente admitia: “Mas que idéia bacana, né?”. Foi a materialização do espírito experimentalista que levou os quatro organizadores do festival – Gustavo Spolidoro, Jaqueline Beltrame, Morgana Rissinger e Álisson Ávila – a tomarem a iniciativa: “A gente encheu o saco de festivais quadrados e pensamos num que gostaríamos de ser convidados a assistir”, explica Morgana Rissinger, da Comunicação.

    Organizando um festival anárquico

    O experimentalismo do festival diz respeito às idéias inovadoras da organização das sessões, balizadas por um critério subjetivo, ao contrário das tradicionais divisões de gêneros, bitolas e formatos. “Se fizéssemos uma mostra exclusiva de filmes experimentais, estaríamos reduzindo o festival, mesmo porque, dentro do experimentalismo há muita repetição e clichê”, revela Spolidoro. Morgana complementa: “não seria desbitole-se”.  O expectador, portanto, pode esperar de tudo, “menos filmes normais”.

    Sem os parâmetros técnicos para guiar os jurados, tanto a seletiva, que elegeu os 140 filmes do festival, como a competição, ganham ares complexos. Jaqueline Beltrame, da produção do festival conta que uma enorme carta é enviada ao júri, explicitando a intenção do festival: “Premiamos os mais criativos, os mais originais”. A prova do rompimento com a tradição dos grandes festivais são as premiações, onde, figuram categorias como Melhor Experimentação Sonora, ao invés de Melhor Som.

    Além das premiações concedidas pelo júri, os melhores médias e curtas-metragens escolhidos pelo público também recebem troféu. O espectador vai ser responsável por escolher também a melhor produção da Mostra Sala de Aula, onde concorrem filmes universitários ou de cursos de formação.

    Ainda haverá a mostra Cine Esquema Novo, onde os organizadores do festival – todos da cena cinematográfica de Porto Alegre – irão exibir seus próprios filmes, em sessões que iniciam à meia-noite. Também está na programação a mostra Cinema de Artista e os quatro filmes da mostra de Longas-Metragens, sem competição.

    O Cine Esquema Novo acontece a partir de segunda-feira, 8, até o domingo, 14 de maio, com diversas sessões diárias, separadas por assunto, nas salas P. F. Gastal, Cine Santander, Sala Redenção e Auditórios da escolas de comunicação da ESPM, Famecos (PUC) e da Fabico (UFRGS). Todas as atividades têm entrada franca e o lançamento do festival acontece na segunda-feira, 8, às 20h, na Usina do Gasômetro.

    Acompanhe diariamente a programação do fesival na Agenda do Jornal JÁ.

  • Túnel Verde da Marquês do Pombal poderá ser preservado


    Moradores lotaram salão de festas para ouvir o comunicado da Prefeitura (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    Moradores da rua Marquês do Pombal, no bairro Moinhos de Vento, receberam com alegria a informação de que as árvores que compõem o túnel verde característico da rua poderão ser salvas. Elas estão ameaçadas pela construção do Conduto Álvaro-Chaves Goethe, cujo projeto prevê uma poda radical da copa e das raízes. Em reunião realizada na tarde deste sábado, 6 de maio, a Prefeitura de Porto Alegre comunicou à comunidade que fará esforços para alterar o trajeto da obra.

    O salão de festas que recebeu o encontro ficou lotado de moradores da vizinhança, que ostentavam faixas e cartazes pedindo a preservação do verde. Também estavam presentes o secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico, Clóvis Magalhães, o diretor-geral do DEP, Ernesto da Cruz Teixeira, o secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, e o diretor da Divisão de Obras e Projetos do DEP, Sérgio Zimmermann.

    O secretário Clóvis Magalhães anunciou que irá se reunir nesta quarta-feira (10/05), em Brasília, para negociar com representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), financiador do projeto do Conduto, as alterações. “Não podemos fazer qualquer mudança sem a aprovação do BID, que como toda a agência de financiamento internacional é bastante rigoroso”.

    A idéia da Prefeitura é encontrar uma possibilidade técnica aceitável. “Acho que é possível, com a continuidade da pressão e mobilização dos moradores”, afirmou Magalhães.


    Comissão em defesa do Túnel Verde da Marquês do Pombal quer servir de exemplo para outras cidades

    Emocionado, o coordenador da Comissão contra o corte do Túnel Verde da Marquês do Pombal, Paulo Vencato, disse se orgulhar da conquista da comunidade. “Somos cidadãos de uma cidade que amamos, e sabíamos que cortar aquelas árvores seria um crime”. A expectativa é que a iniciativa dos moradores sirva como exemplo para outras cidades.

    O secretário do Meio Ambiente, Beto Moesh, parabenizou o grupo pelo movimento e destacou a importância da participação da comunidade. “O meio ambiente se faz através do governo e da cidade, não apenas pela SMAM”, disse.

    As obras do Conduto Álvaro-Chaves Goethe estão suspensas no local desde o dia 12 de abril, quando os moradores protestaram contra o corte de duas árvores em frente ao número 450. A comunidade local alega que o “corte radical” proposto no projeto vai matar as árvores, que são um símbolo histórico e paisagístico da rua e de Porto Alegre.

  • Cunha provoca o debate sobre revistas semanais

    Elmar Bones

    Com passagem pelas redações dos principais veículos de comunicação do país, o jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha, 55, vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo em 1979, ocupou o cargo de editor de Política da sucursal de Brasília da revista IstoÉ nos últimos quatro anos. Foi demitido após divulgar, em 27 de março, sua “Carta ao Chefe – Como a ISTOÉ virou ISTOERA”. A mensagem foi enviada ao diretor-editorial da revista, Carlos José Marques, com cópias para Domingo Alzugaray, diretor da Editora Três, e para o Observatório da Imprensa.

    O texto relata – com exemplos citando edição, matéria, página, e comparando material original com o publicado – o “esquentamento de matérias”, com direito a “melhora da fala dos entrevistados”. Também mostra foto-montagens que foram apresentadas como imagens verdadeiras, caso de José Dirceu pilotando uma Harley Davidson que ele iria comprar (o ex-ministro está processando a revista, diz nunca ter andado de moto na vida).

    É mais um desgaste para a IstoÉ, que sofreu com outros episódios recentes: após dar capa ao caso Ibsen Pinheiro, denunciando que o ex-deputado fora incriminado por um erro de Veja, a revista concorrente publicou matéria “Uma farsa chama IstoÉ”, em que diz, entre outras coisas, que a revista publica matéria paga. Depois, durante as investigações sobre o mensalão, outra publicação da Editora Três foi acusada por Marcos Valério de ter recebido R$ 300 mil para não publicar uma entrevista com a sua secretária.

    Os episódios narrados por Luiz Cláudio Cunha aconteceram após a ida de Carlos José Marques para a direção da revista, em janeiro deste ano. “Quero quebrar esta caixa-preta e propor um debate sobre o empobrecimento continuado de algumas de nossas principais revistas semanais. IstoÉ afundou num mar de futilidades e amenidades, tragada por uma pauta desorientada e açoitada por textos curtinhos de idéias e de talento. Nas suas mãos, a velha e boa semanal do Seu Domingo morreu, acabou, já era”, ataca o jornalista, em sua carta.

    Nesta entrevista ao , feita por e-mail, Cunha explica os motivos de seu gesto que, até o momento, só está tendo repercussão na internet – nem as entidades de classe estão repercutindo o assunto.

    JÁ – Você fez o que muitos profissionais têm vontade de fazer, mas não fazem por medo de se queimar no mercado. Você acha que se queimou?

    Luiz Cláudio Cunha – Se eu estivesse preocupado com queimaduras, não teria mandado brasa na carta. Qualquer outra consideração teria tirado dela a sinceridade e a contundência necessária para que fosse lida com atenção. Botei pra fora o que estava entalado na garganta e comprimido no coração. Não pensei muito nas possíveis conseqüências de mercado que ela poderia produzir, fechando portas aqui ou ali.

    Pensei mais em abrir uma discussão que fica, quase sempre, confinada a quem demite e a quem é demitido – e depois é afogada numa mesa de bar. Foi por isso que resolvi, de forma pensada, mandar uma cópia ao Alberto Dines, no Observatório da Imprensa, para não correr o risco de ver minha longa missiva jogada na lixeira do Marques. Se ele não leu, muita gente com certeza leria no Observatório, abrindo a discussão que era meu principal objetivo.

    Acho que consegui chegar lá, para desencanto do novo diretor, que não conseguiu captar o lado mais generoso de minha intenção. Tanto que, dias atrás, conversando com um amigo meu, ele se lamentou, achando que eu fui “covarde e sorrateiro” ao divulgar a carta: “Essas coisas não deviam ser colocadas na rua”, reclamou o Marques. Se a rua condena, é porque algo condenável está sendo cometido. O grave é que o Marques, pelo jeito, sabe disso.

    JÁ – Quais os fatos que deram origem à carta?

    LCC – Desde a chegada do Marques à direção da revista, em janeiro, as coisas mudaram – para pior. Na gestão anterior, do Hélio Campos Mello, eu me surpreendi com o nível de autonomia e liberdade que a redação de São Paulo dava aos seus repórteres. A sucursal de Brasília propunha a pauta, discutia a linha da matéria, sugeria a foto, o título, a chamada, o lead – e o texto saía praticamente incólume. Com o Marques, chegou a idade das trevas. Com seu brilho e sapiência, ele determinava o título, o tom do texto, a abertura da matéria e até a foto, sempre pré-determinada por um fax enviado de São Paulo mostrando a cena, a pose, o ângulo exato que ele queria ver na ilustração produzida pelo fotógrafo.

    Subitamente, a equipe de Brasília, onde militava gente do talento e da experiência de Tales Faria, Sônia Filgueiras, Donizete Arruda, Amaury Ribeiro Jr, André Dusek, se viu reduzida a um bando de robôs, esperando o bip redentor do gênio de São Paulo. Nosso espaço profissional foi se estreitando, à medida que crescia o espantoso intervencionismo do novo diretor, até que começou o processo de enxugamento da revista. Sem consultar o chefe da sucursal, Tales Faria, ele mandou demitir o Amaury e o Donizete. Tales pediu as contas e eu também. Marques mandou dizer que não tinha dinheiro para me demitir. Fiquei ali, como morto-vivo, num projeto que não me agradava, com uma direção em que não confiava, pensando no que fazer. Resolvi botar minha aflição numa carta, aberta ao dono da editora e ao site de debate dos jornalistas, e desabafei. Uma semana depois fui demitido. E a porteira, pelo jeito, continua aberta.

    Esta semana, pediu demissão a editora de economia da sucursal de Brasília, Sônia Filgueiras. No Rio de Janeiro, quem acaba de pedir as contas é o diretor da sucursal, Mino Pedrosa. Sinal dos tempos. Mino é o repórter responsável por dois momentos históricos do jornalismo brasileiro: a entrevista de Eriberto, o motorista que derrubou Collor, e a investigação sobre a violação do painel do Senado, que levou à renúncia dos senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda. A ISTOÉ de Marques já não estimula, nem segura profissionais deste quilate.

    JÁ – Você denuncia que, no caso das fotos, ainda havia um problema mais grave, a manipulação.

    LCC –Nunca vi, em quase quatro décadas de jornalismo, tanta ousadia no uso desrespeitoso da fotografia. Desrespeito com o profissional que fez a foto, desrespeito com a personagem da foto e, mais grave, desrespeito com o leitor, enganado por uma trucagem que adultera a realidade, que mente, que distorce, que engana. Não é esta a função do jornalismo, não é este o papel do jornalista. Na carta, eu cito o exemplo da surfista catarinense, que teve o rosto montado numa foto captada no Havaí, e o exemplo grotesco do ex-ministro Zé Dirceu montado numa moto que ele nunca viu, nunca teve e nunca dirigiu, pelo simples motivo de não ser motoqueiro. São grossas mentiras, ilustradas, que mostram o nível de irresponsabilidade a que pode chegar uma revista entregue a maus profissionais.

    São deslizes éticos que merecem uma atenção redobrada de nossos sindicatos e a condenação pública dos leitores. Não são exemplos isolados. A cada dia, aparecem novos casos, provando que Marques pode ser uma espécie de “serial killer” da ética jornalística. Vou dar aos leitores do JÁ um novo exemplo – ainda inédito – de licença poética do incansável Marques. A edição 1901 de ISTOÉ, de 29 de março passado, traz a reportagem “Índio quer vestibular”. É um exame exclusivo da Universidade de Brasília destinado aos povos indígenas. Na página 52, uma ilustração dupla: uma foto de índios numa sala de aula e, ao lado, a imagem bonita de um índio de cocar, rosto pintado de vermelho, braços cruzados segurando um caderno e uma caneta Bic.

    Foto original sobre os 500 anos do Brasil (Foto: André Dusek)

    Foto “maquiada” para uso em matéria de 2006 (Reprodução)

    A legenda da revista diz que as fotos são de Acácio Pinheiro/Cespe-UnB. Mentira. Só a foto da sala de aula é de autoria de Acácio. A outra é do fotógrafo André Dusek, da sucursal de Brasília da ISTOÉ, que fotografou o índio xavante João Tsidzapi seis anos antes, numa matéria especial sobre os 500 anos do descobrimento do Brasil. A foto foi publicada na página 36 da edição 1595 de ISTOÉ, do dia 26 de abril de 2000. O xavante João aparecia com a cara lavada e séria de índio que não via motivo nenhum para festa. Tanto que não exibia nenhuma tintura no rosto, nem cocar.

    O xavante não tinha cocar, nem pintura, nem caderno, nem caneta. De semelhança, entre uma foto e outra, só o adereço branco no pulso esquerdo. Marques, pelo jeito, achou a foto original muito descolorida e tascou uma folclórica alegoria para deixar nosso casmurro xavante com cara de cacique carnavalesco da Marquês da Sapucaí. E chegou ao requinte de enfiar o caderno e a esferográfica para sintonizar melhor a foto com o tema da reportagem. Marques, ao que parece, é um daqueles brancos que acham que índio gosta mais de apito do que de respeito à sua identidade. Pior: imagina que os leitores fazem parte da tribo de selvagens ignorantes que se deixam enganar por espelhinhos e bugigangas jornalísticas.

    JÁ – Qual foi a repercussão? Além do Observatório da Imprensa, alguém mais publicou? Fora da internet, alguma coisa? Por que uma reação dessas?

    LCC –No que me diz respeito, a repercussão foi excelente. Nunca recebi tanto telefonema, tanto e-mail, todos tocantes pela solidariedade, pela força, pelo sentimento coletivo de desabafo. Fora a repercussão em blogs cuja existência eu nem imaginava. Mas senti uma certa ausência no debate das chamadas entidades de classe, os sindicatos, que deveriam ser os principais interessados na questão. Não sei bem qual a razão, mas a carta passou meio batida pela área. E as graves questões éticas que levanto, imagino, seriam um bom tema para reflexão de todos nós, a começar pelos sindicatos, que se batiam tanto pelo finado Conselho Federal de Jornalismo. Os problemas que levanto na carta não precisam de nenhum CFJ para serem debatidos. Os atuais conselhos de ética sindicais já seriam uma instância apropriada para isso. Mas eles devem estar ocupados com problemas mais urgentes.

    JÁ – E a grande imprensa, em fase tão moralista, porque faz que não vê?
    LCC –Não sei. Talvez não considerem esta questão relevante.

    JÁ – A ISTOÉ seria um caso extremo no conjunto da imprensa brasileira ou, ao contrário, é representativa de um modelo vencedor?

    LCC – Infelizmente, não parece ser uma exceção. E pode ser o exemplo de um modelo perdedor, a partir da gestão Marques. Este jornalismo semanal ligeirinho, colorido como uma arara, com a profundidade de um pires e a eternidade de uma bolha de sabão, pode estar se espalhando como uma saída esperta para a crise econômica, que impõe redações baratas, enxutas e rentáveis. A concorrência com a mídia eletrônica e o boom da Internet estão produzindo um efeito esquisito nas revistas: em vez de se diferenciarem, estão cada vez mais mesmerizadas pelo mundanismo, pela futilidade, pela superficialidade.

    Não querem incomodar ninguém – nem o poder, nem o cérebro do leitor. Reproduzem em suas páginas os modismos e as demandas idiotas de temas que pretendem resumir as graves questões da sociedade: a nova dieta milagreira, os cuidados com o corpo e a estética, a mais recente engenhoca high-tech que vira sonho de consumo, o universo shopping center que resume o horizonte da classe média que compra revistas cada vez mais amenas. Eu ainda sou otimista e acho que o leitor não é, não pode ser o imbecil que eles imaginam.

    JÁ – Como vê a atuação da imprensa na atual crise política?

    LCC – Sempre que a imprensa sai na frente, com seus perdigueiros, e antecipa fatos e revela bastidores, ela cumpre exemplarmente seu papel. Em vários momentos, agora e no passado recente, isso aconteceu. Quando ela se acomoda, só repercutindo o que os políticos e o Congresso debatem, ela patina e perde o passo. Boa parte do relatório da CPI dos Correios foi antecipado e induzido pela cobertura da imprensa. A mesma imprensa que se surpreendeu, no geral, com a contundência e precisão da denúncia do procurador-geral da República, indo além do que dizia a mídia e do que concluía a CPI. Ninguém teve a coragem, como o procurador, de chamar Zé Dirceu de chefe da quadrilha.

    JÁ – E os jornalistas, os ditos profissionais? Boris Casoy pedindo impeachment de Lula significa o quê?

    LCC – Acho que o impeachment pode vir de duas formas: ou pela rejeição do eleitor, nas urnas de outubro, ou por fatos graves que apontem o envolvimento e a responsabilidade de Lula lá com os 40 espertalhões denunciados pelo procurador-geral. Não cabe aos jornalistas clamar por impeachment ou proclamar inocência do presidente. Os fatos devidamente apurados é que vão determinar se Lula é o sujeito oculto da quadrilha ou uma figura meramente omissa diante de tanta roubalheira. O julgamento político do presidente, pelo tacão precoce do impeachment ou pela vontade soberana do eleitor, vai se processar, no seu devido tempo, na cabeça pensante do cidadão. O jornalista, como sempre, vai testemunhar a História, não antecipá-la.

    Leia matéria completa na edição do Jornal JÁ Porto Alegre, que chega nas bancas em maio.

  • SOS Monumento une o público e o privado contra os pichadores

    Limpeza começou nesta quinta-feira, 4 de abril (Fotos: Naira Hofmeister)

    Naira Hofmeister

    Ao lado do Instituto de Educação General Flores da Cunha, a Coluna Israelita é o primeiro monumento da capital gaúcha a ser recuperado pelo projeto SOS Monumento, desenvolvido pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), em parceria com o Atelier Alice Prati de Restaurações e com apoio de empresas privadas.

    “É preciso chamar atenção das pessoas para a importância dos monumentos. Numa grande parceria com a iniciativa privada, estamos realizando a limpeza em vários deles, e todos devemos manter e fiscalizar, impedindo novas depredações”, destacou o secretário municipal do Meio Ambiente, Beto Moesch.

    A limpeza do monumento, erguido pela comunidade israelita em 1935 como homenagem ao centenário da Guerra dos Farrapos, termina nesta sexta-feira (5/5). A última recuperação havia sido feita em 1999 e, até 2003, foi adotada uma sistemática de reparos imediatos como enfrentamento às depredações: “Assim que percebíamos a pichação, iniciávamos a limpeza”, lembra Marcos Breda, administrador do parque.

    O ano, no entanto, foi, segundo Breda, “marcado pelos saques ao patrimônio do parque”, o que desmotivou a equipe, que, já sem verbas, foi obrigada a reduzir o serviço apenas ao Monumento Expedicionário, onde os resultados já são visíveis: “Temos certeza de que haverá reincidência, mas a limpeza sistemática é importante principalmente porque desestimula o pichador”, argumenta.

    Tecnologia e educação

    A retirada das marcas deixadas durante os últimos dois anos é a primeira etapa de um projeto que vai abranger ciência, tecnologia e educação. Segundo Alice Prati, a iniciativa serve para despertar a cidadania e a consciência patrimonial do porto alegrense.

    Através de uma equipe multidisciplinar, da parceria com empresas – Kärcher, Fosroc e Anchortec – que fornecem o material utilizado no serviço, e do apoio das Ferramentas Gerais e da Prefeitura de Porto Alegre, Alice Prati pretende higienizar 12 monumentos em dois anos, cada um com características artísticas, de conservação e importância diferentes.

    Além da limpeza, a intenção é realizar uma ampla pesquisa de materiais adequados a cada obra e do impacto ambiental dos químicos. A parte histórica do projeto diz respeito à autoria das obras em questão e da sua trajetória como patrimônio da cidade. “Tem monumentos que não se sabe de quem é”, questiona Alice. Finalmente, a importância do projeto é dada pelas contribuições de um antropólogo, um sociólogo e uma psicóloga, que pretendem responder à questão feita pela restauradora: “Por que as pessoas não entendem o patrimônio público como seu?”.

    Segundo Alice, em grande parte dos trabalhos semelhantes ao que está sendo feito na Coluna Israelita, existem testemunhas das pichações, porém, não há o ímpeto da denúncia. “É impossível que alguém que fique durante meia hora pendurado na chaminé do Gasômetro, pichando, não seja visto por alguém”, garante.

    Num manifesto divulgado no local da primeira ação do projeto SOS Monumento, Alice Prati e sua equipe expõem sua indignação com o descaso: “Essa intervenção será o início de uma batalha contra o deboche de vândalos com o cidadão porto-alegrense, com a memória histórica e com o patrimônio público e privado de uma maneira geral”.

    A sede do SOS Monumento será numa casa da Zona Sul da cidade, cedida pela prefeitura e irá abrigar os laboratórios do projeto, que devem iniciar suas atividades ainda nessa quinzena. Em 60 dias estará no ar um site onde o cidadão poderá acompanhar os trabalhos de restauro e limpeza das obras, além de poder observar diretamente os monumentos, através de câmeras de vigilância que serão instaladas nas suas proximidades.

    Além da Coluna Israelita, estão incluídos no projeto, os monumentos a Guiseppe e Anita Garibaldi – Praça Garibaldi –, Carta Testamento de Getúlio Vargas – Praça da Alfândega –, Coluna Sírio Libanesa – Parque Farroupilha –, Monumentos a Mauricio Sirotski Sobrinho e Carlos Nobre – Parque Maurício Sirotski Sobrinho, – José Marcelino de Figeuiredo – Avenida Mauá –, Monumento do Grêmio – Mostardeiro com Goethe –, Otávio Rocha – Praça Otávio Rocha –, Estátua Barão do Rio Branco – Parque Farroupilha – Apolinário Porto Alegre – Praça Argentina –  e Brigadeiro Antônio de Sampaio – Praça Brigadeiro Antônio de Sampaio.

  • Coolméia fecha por seis meses para definir futuro

    Atual sede na Osvaldo Aranha será entregue nesta semana, confirma Francisco Pereira. (Foto: Carla Ruas)

    Helen Lopes

    A Cooperativa Ecológica Coolméia não resistiu a dois assaltos consecutivos que sofreu em abril. Abalada também com problemas administrativos da atual gestão, decidiu fechar por seis meses a sede, que abriga o restaurante e a loja, recentemente transferida para a Osvaldo Aranha, 894.

    Nesse período, uma comissão formada por cinco associados vai fazer um levantamento da situação financeira e analisar alternativas. “Vamos realizar um estudo geral da cooperativa. Uma espécie de auditoria”, revela Vanete Lopes, integrante da comissão e cooperativada há  17 anos.

    As feiras ecológicas promovidas pela Coolméia no Menino Deus e no Bom Fim continuam normalmente. “Tudo que o consumidor encontrava na loja estará à disposição nas feiras”, garante o assessor de imprensa da cooperativa, Francisco Pereira.

    Fundada em 1978 e considerada referência mundial em produção e distribuição de alimentos orgânicos, a Coolméia tentava se reerguer de uma duradoura crise econômica. Saiu da tradicional sede na José Bonifácio, defronte ao parque da Redenção, e foi para o novo local, na Osvaldo Aranha, em frente ao Araújo Vianna. O aluguel mais barato e o ambiente amplo, sustentava a  esperança de oferecer outros serviços, como um bufê de café da manhã, e preços mais em conta, conforme afirmou o presidente da cooperativa, João Carlos Mendonça, ao jornal JÁ, em março deste ano (Jornal JÁ Bom Fim/Moinhos, edição 360).

    O presidente informou ainda que o balanço de 2005 tinha fechado com saldo positivo. No entanto, nem o balanço de 2005, nem o relatório da gestão foram apresentados na assembléia geral, realizada no dia 22 de abril. Mendonça não compareceu ao encontro e, segundo integrantes da comissão, “desapareceu”. Assim,  os 50 cooperativados presentes na assembléia decidiram formar uma comissão para analisar as condições financeiras da Coolméia.

    Só não esperavam outro assalto na madrugada do dia da reunião, 22 de abril. Os ladrões entraram serrando a grade e quebrando o vidro. Levaram uma balança no valor de R$ 4 mil e gêneros alimentícios, como da outra vez.

    Os cooperativados insinuam que os dois assaltos são cheio de “estranhezas”. No primeiro, os ladrões deixaram uma máquina de xerox e um peixe no meio da loja. A Coolméia não trabalha com frutos do mar. No segundo, o cofre foi arrombado e o escritório, revirado. “Vamos fazer uma vistoria para saber quais documentos sumiram, mas vai ser difícil porque quem sabia o que estava lá era o presidente. Parece que eles procuravam alguma coisa”, suspeita Danilo Paiva, outro integrante da comissão.

    Leia a íntegra da matéria na edição de maio do Jornal JÁ Bom Fim/Moinhos.

  • Manifestação defende o "Túnel Verde" da Marquês do Pombal

    Moradores do Moinhos de Vento prometem realizar outras manifestações até que a Prefeitura encontre uma alternativa ao corte (Foto: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas
    Moradores da Marquês do Pombal, no bairro Moinhos de Vento, realizaram nesta segunda-feira, (01/05) mais um protesto contra a poda radical das árvores da rua, planejado pela Prefeitura para viabilizar a construção do Conduto Álvaro-Chaves Goethe. Cerca de 80 pessoas caminharam entre as ruas Doutor Timóteo e Coronel Bordini, carregando faixas e gritando palavras de ordem, como “Queremos nosso verde”.
    O engenheiro Paulo Vencato, um dos lideres da manifestação, destaca que a revolta dos moradores não é somente pela causa ambiental, mas também porque o túnel verde é uma característica do bairro. “A Prefeitura diz que vai compensar o corte das árvores plantando outras pela cidade, mas não leva em conta os valores sócio-culturais envolvidos”. Ele é o coordenador da “Comissão contra o corte do Túnel Verde da Marquês do Pombal”, criada para dar força ao movimento.
    Desde o dia 12 de abril, após uma reunião entre moradores e representantes do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAM), as obras estão suspensas na Marquês. Duas árvores foram podadas, em frente ao número 450. A comunidade local alega que o “corte radical” matará as árvores, enquanto a administração municipal afirma que elas podem se recuperar, no tempo de 10 a 15 anos.
    “Estamos reunindo cada vez mais moradores do Moinhos de Vento e de outros bairros, como Petrópolis”, diz a vice-presidente da Associação Moinhos Vive, Alda Py Veloso. Ela afirma que o grupo está colhendo assinaturas em um abaixo-assinado e pretende realizar outras manifestações até que se encontre uma alternativa ao corte.