A partir das 7h30 da manhã desta quarta-feira, os bancários de bancos público e privados se concentram na Praça da Alfândega, entre o Banrisul e a Caixa, no Centro Histórico de Porto Alegre.
É o início da mobilização para o Dia Nacional de Paralisação e Mobilização contra a Reforma da Previdência, a PEC 287.
A partir das 17h, os bancários participarão da grande caminhada em defesa dos direitos dos trabalhadores que partirá da Esquina Democrática, Centro Histórico de Porto Alegre.
A participação dos bancários no Dia Nacional de Paralisação foi decidida em assembleia, na noite da segunda-feira, 13/3.
A decisão, com apenas um voto de abstenção, veio ao encontro da orientação de participação nos atos, movimentos e protestos, feito pela Centrais Sindicais desde janeiro passado.
O SindBancários seguiu todos os trâmites legais, inclusive publicou anúncio público de aviso de participação no jornal Correio do Povo.
O presidente do SindBancários, Everton Gimenis, disse que “a Reforma da Previdência é um dos ataques violentos que estamos sofrendo no contexto de golpe promovido pelo governo Temer. Querer tirar a nossa aposentadoria é muito grave. Mas o problema é que ainda temos a Reforma Trabalhista e a terceirização”, avaliou.
Em relação à terceirização, o presidente do SindBancários alertou para o fato de o presidente da Câmara do Deputados, Rodrigo Maia, ter tirado da gaveta o PL 4302/98, um dos muitos projetos de lei que querem terceirizar a atividade fim.
“O presidente da Câmara retirou o projeto da terceirização da tramitação, mas avisou que deve reapresentar em uma semana. Se nos não nos mobilizarmos, vamos perder tudo, até direitos básicos conquistados com muita luta”, finalizou Gimenis.
Dia Nacional de Paralisação e Mobilização
7h30: Concentração na Praça da Alfândega entre a Caixa e a Agência Central do Banrisul, Centro de Porto Alegre.
17h: Concentração para caminhada em Defesa dos direitos dos trabalhadores na Esquina Democrática, Centro de Porto Alegre.
Autor: Elmar Bones
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Mobilização dos bancários começa cedo na Praça da Alfândega
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Cpers chama assembléia para decidir greve na quarta-feira
Os professores da rede pública estadual começarão o ano letivo em greve. Isso é o que indicam os preparativos para a Assembleia Geral da categoria, convocada pelo Cpers/Sindicato, para essa quarta-feira, dia 8, no Gigantinho, às 13h30.
A entidade dos professores enumerou, em sua convocação para o evento, os motivos para que a greve seja a única resposta possível diante da política educacional do governo Sartori, Eis a nota do Cpers, com os pontos que justificam a mobilização:
1º) Parcelamentos de salários:
Com total falta de respeito, mês a mês os salários dos educadores, funcionários de escola e demais servidores estaduais do Executivo estão sendo parcelados. Já perdemos a conta de quantas vezes os servidores passaram por essa humilhação desde que Sartori está no governo.
2º) Pagamento do 13º em 12 vezes:
Como se não bastasse os salários parcelados e atrasados o governador está pagando o 13° salário referente ao ano de 2016 em 12 vezes. Ou seja, somente em dezembro de 2017 irá quitar a dívida com os servidores.
3º) Falta de investimentos:
Conforme estudo do Dieese, no período de 2014 a 2016, a educação sofreu redução de 63,6%: que representa 110 milhões a menos. Na saúde a redução foi de 36 milhões (-87,7%) e na segurança foram menos de 213 milhões (- 92,7%).
4º) Redução do número de educadores:
No mesmo período (2014 a 2016) verifica-se uma redução de educadores ativos, em 2014 eram 99.564 servidores em 2016 passaram para 89.577, ou seja -10% de pessoal. Dos 9.987 educadores 44% não se aposentaram, simplesmente deixaram de lecionar.
5º) Pagamento do Piso do Magistério e reposição salarial:
Sartori também não cumpre a Lei do Piso Nacional que foi reajustado em janeiro de 2015, 2016 e 2017 e que por isso sua reposição atual já chega a 82,42%. Ou seja, os educadores recebem 82,42% menos do que deveriam receber.
7º) Reforma do Ensino Médio:
A Reforma do Ensino Médio retirou as disciplinas de artes, educação física, filosofia e sociologia da obrigatoriedade, determinando somente matemática e português como disciplinas obrigatórias ao longo dos três anos. A reforma desestimula a formação docente, permitindo que as redes de ensino e escolas contratem “profissionais de notório saber” para dar aulas “afins de sua formação”.
8º) – Reforma da Previdência:
A Reforma da Previdência, se aprovada, acaba com a aposentadoria dos trabalhadores. Para o Magistério, da educação básica, a PEC 287 suprime o direito à aposentadoria especial dos atuais professores abaixo da idade de corte 50 anos (homem) e de 45 anos (mulher), bem como para os futuros profissionais que ingressarem na carreira. A idade mínima para aposentadoria passará para 65 anos para homens e mulheres, com 49 anos de contribuição para receber a aposentadoria integral.
9º) Reforma Trabalhista:
A Reforma Trabalhista (PL6787), proposta por Temer, é o maior ataque à legislação trabalhista desde a “redemocratização”. O governo quer aplicar a contratação do trabalhador por hora e por produtividade, sem os direitos da CLT, a realização de contratos temporais de 180 dias, além de ampliar a jornada de trabalho para até 12h diárias.
10º) Pacote de Maldades:
Entre os dias 20 e 23 de dezembro de 2016, o protesto dos servidores foi reprimido através de bombas de gás lacrimogêneo, lançadas incontáveis vezes, além de balas de borracha, spray de pimenta e violência extrema da Brigada Militar, deixando vários feridos. Foram aprovados 14 projetos e um rejeitado, com a autorização de extinção de nove fundações sendo as medidas mais drásticas avalizadas pelos parlamentares. Seguindo seu plano de sacrificar a população, Sartori também aprovou o aumento do ICMS com a desculpa da crise financeira do Estado. A arrecadação cresceu 16,7%, mas nossos salários seguem parcelados. A qualquer momento os 13 projetos que não foram votados podem voltar.
Veja quais atingem diretamente os educadores:
PEC 242/2015: extingue a licença-prêmio;
PEC 256/2016: pretende acabar com os sindicatos;
PEC 258/2016: acaba com a obrigatoriedade de pagar em dia os salário e o 13°;
PEC 259/2016: retira a necessidade de plebiscito para implantar a privatização da CEEE, da CRM, da Sulgás e do Banrisul.
· Com informações da Assessoria de Comunicação do Cpers/Sindicato -
CUT denuncia tentativa de censura
A assessoria jurídica da CUT-RS trabalha para tentar cassar liminar do juiz Assis Leandro Machado, da 3ª Vara Cível da Comarca de Santa Cruz do Sul, de busca e apreensão de jornal especial contra a reforma da Previdência, proposta pelo governo de Michel Temer (PMDB) e que tramita no Congresso Nacional.
A liminar foi concedida ao deputado federal Heitor Schuch (PSB-RS).
Um oficial de justiça esteve na manhã de quinta-feira (2) na sede da entidade, em Porto Alegre, porém os 100 mil exemplares impressos já tinham sido distribuídos aos comitês sindicais e populares, organizados em todo o Estado contra a reforma.
Conforme a liminar, no entanto, a publicação teve de ser retirada do site e das mídias sociais da entidade.
O jornal, com quatro páginas, apresenta perguntas e respostas sobre os principais retrocessos da reforma da Previdência e traz as fotos dos deputados e senadores que apoiam o governo Temer no Congresso, com orientações aos trabalhadores.
“Acompanhe de perto as manifestações da bancada gaúcha que apoia o governo Temer e exija que votem contra a reforma da Previdência. Se você entrar na luta, a reforma não passa. Vamos juntos construir a Greve Geral”, diz o texto.

Para o secretário de Comunicação da CUT-RS, Ademir Wiederkehr, trata-se de uma censura descabida ao trabalho de divulgação da entidade sobre o conteúdo nefasto da reforma da Previdência. “Queremos exercer a liberdade de expressão e o nosso direito de informar sobre os malefícios que essa reforma do governo golpista de Temer quer impor aos trabalhadores, bem como pressionar os parlamentares para que se posicionem e votem contra essa proposta”.
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e a campanha Calar Jamais! divulgaram nesta sexta-feira (3) uma nota de repúdio a esse episódio e se solidarizam com a luta dos trabalhadores contra a reforma da Previdência. -
Chegou ao futebol a reação contra a Globo
Publicado por Intervozes com o título “Lições do Atletiba contra o monopólio da Globo”
Por André Pasti*
O clássico de domingo 19 entre Atlético-PR e Coritiba (o “Atletiba”) entrará para a história como um capítulo na luta contra o monopólio da Globo no futebol brasileiro. Os clubes negaram o péssimo acordo financeiro proposto pela emissora para transmitir a partida e decidiram exibir o jogo em seus canais no Youtube e Facebook.
Com a torcida nas arquibancadas e os jogadores prontos para o jogo, o inacreditável aconteceu: a Federação Paranaense de Futebol, a pedido da Rede Globo, impediu a transmissão da partida online. Só haveria jogo sem transmissão, em recado da Globo aos clubes “rebeldes”. Como os clubes não recuaram, a federação impediu a partida de acontecer.
Acostumada a mandar no futebol nacional, a Globo não contava com a coragem das equipes. Com a ação, elas deram visibilidade aos prejuízos do monopólio da emissora ao esporte. Como discutimos há algumas semanas, os danos do monopólio de transmissões são muitos.
Desde o horário das partidas às dez da noite, péssimo para os torcedores trabalhadores e para os próprios jogadores, a campeonatos estaduais inteiros “escondidos” das torcidas. Do financiamento extremamente desigual dos direitos de imagem dos clubes, que inviabiliza o crescimento das equipes menores, à invisibilização do futebol feminino.
A frase “quem paga a banda, escolhe a música” tem sido usada há tempos pelos comentaristas submissos à Globo para justificar esses absurdos das decisões do monopólio. Nesse “Atletiba” ficou muito claro o quanto essa lógica é prejudicial a todos os envolvidos no esporte: não importavam os direitos dos jogadores, dos clubes, nem dos torcedores presentes na Arena da Baixada; não importava o futebol – só o interesse da emissora estava valendo.
Muitos torcedores brasileiros têm questionado o monopólio midiático no futebol, com campanhas como a “Jogo dez da noite, NÃO!”, que chegou a diversos estádios pelo País. No ano passado, a “Gaviões da Fiel” protestou com faixas “Rede Globo, o Corinthians não é seu quintal” e “Jogo às 22h também merece punição”. A novidade agora é o enfrentamento do monopólio pelos próprios clubes.
Combater o monopólio da mídia no futebol é possível, como comprova a experiência argentina. Lá, o programa “Futebol para Todos” e a regulação democrática da comunicação audiovisual (a famosa “Lei de Meios”) reconheceram o direito à audiência dos eventos esportivos pela população e o futebol como patrimônio cultural nacional.
As transmissões passaram a ser realizadas em diversos canais e horários, incluindo a televisão pública, com transmissões online gratuitas em alta qualidade. Além disso, as cotas de TV foram redistribuídas, melhorando a competitividade do campeonato nacional. Infelizmente, esses avanços estão sendo agora atacados pelo governo neoliberal de Maurício Macri.
Pode a internet abalar o poder da Globo?
Os clubes propuseram como alternativa à transmissão televisiva a exibição por suas contas nas plataformas Youtube e Facebook. Mas, se a intenção é fazer frente ao monopólio da Globo, é importante apontar alguns limites dessa transmissão online.
Em primeiro lugar, há uma disparidade de acesso: apenas metade (51%) das residências brasileiras possuem acesso à internet, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2015/CGI. Entre os usuários de internet, 31% não possuem acesso à banda larga. A mesma pesquisa revela que 97% dos domicílios brasileiros possuem televisão – com acesso a canais abertos.
Portanto, ainda é muito desigual no Brasil o alcance e o acesso possibilitado pela televisão aberta e pela internet. Essa desigualdade de acesso também se reflete entre as regiões do território brasileiro e nas distintas condições presentes nas cidades.
Outro limite está dado pelas plataformas escolhidas. Youtube e Facebook estão longe de ser plataformas livres. Pertencem a grandes empresas estadunidenses que estão concentrando a produção e circulação de informações nas redes.
Eles são novos “porteiros” digitais, decidindo o que desejam censurar, o que nós podemos visualizar, quais informações terão ou não destaque. Transferir a concentração do controle da informação dos conglomerados da radiodifusão para os conglomerados de internet seria apenas mudar os donos do monopólio.
É preciso pensar políticas que democratizem efetivamente a comunicação, considerando a realidade do território brasileiro. Vale lembrar que a televisão aberta – caso da Globo – é uma concessão pública, que deve atender ao interesse público e cumprir regras previstas em nossa Constituição.
Para além do futebol
A Globo segue agindo como a péssima “dona da bola” do futebol de rua**. A emissora mandou seu recado: ninguém poderia contrariar uma decisão do monopólio. Desta vez, no entanto, os clubes enfrentaram o canal e deram um exemplo de que é possível dizer não e lutar contra os danos do monopólio ao futebol nacional.
Aos que começaram a perceber os prejuízos do monopólio da Globo ao futebol, é preciso, também, fazer um alerta: os danos de uma mídia monopolizada vão muito além do esporte. Nossos direitos de cidadãos são ignorados ou atacados como os direitos dos torcedores no “Atletiba”.
O controle dos discursos em circulação tem permitido aos monopólios sustentar golpes de estado, invisibilizar e criminalizar movimentos sociais e pautas de direitos humanos, defender políticas danosas aos mais pobres, criminalizar a juventude negra das periferias, entre tantos outros problemas. A diversidade cultural, regional, étnica e sexual presentes em nosso país são tão prejudicadas pelo monopólio quanto o futebol.
Que o “Atletiba” seja o início de uma resistência em defesa do futebol e da comunicação como direitos de todos. Precisamos ampliar essa resistência e o combate ao monopólio midiático, dentro e fora do futebol.
**Em nota, o SporTV se isentou da responsabilidade no episódio de ontem, apesar de evidências de que a partida não ocorreu por conta da tentativa de transmissão via internet, segundo disse o 4º árbitro do jogo.
*André Pasti é doutorando em Geografia Humana na USP, professor do Cotuca/Unicamp e integrante do Coletivo Intervozes -
"Há um sentimento que a Lava Jato está chegando ao fim"
A Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) está pedindo ao presidente Michel Temer a substituição do diretor-geral da corporação, Leandro Daiello.
A gestão de Daiello, segundo a associação, seria a causa da saída de delegados da força-tarefa da Lava-Jato.
A nota, encaminhada ao presidente nesta segunda feira, foi aprovada em assembleia na sexta-feira passada.
Diz a nota que, por falta de apoio da direção, “delegados que coordenavam operações policiais foram deslocados para outras áreas e locais, devido ao esgotamento físico, mental e operacional a que são submetidos”.
A manifestação coincide com a saída do delegado Márcio Adriano Anselmo da Lava-Jato, que foi transferido para a Corregedoria da PF no Espírito Santo, alegando justamente “esgotamento físico e mental” depois de mais de três anos de investigações.
Anselmo é o quinto delegado da PF a deixar a Lava-Jato desde o início da operação. Antes dele, foram deslocados os delegados Eduardo Mauat, Luciano Flores, Duilio Mocelin e Erika Mialik Marena – especialista em crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
Na carta que será encaminhada nesta segunda a Temer, a associação volta a defender a substituição do atual diretor-geral por um dos nomes de uma lista tríplice. Além de Erika Marena , integram a relação os delegados Rodrigo Teixeira e Marcelo Freitas, ambos de Minas Gerais.
Esse nomes já foram apresentados ao presidente quando ele tomou posse e nomeou Alexandre de Moraes para o Ministério da Justiça.
Agora a ADPF aproveita a saída de Moraes, indicado para o Supremo Tribunal Federal, para pedir novamente a mudança.
A associação também se diz insatisfeita com suposta falta de suporte às operações Acrônimo e Zelotes – ao lado da Lava-Jato, as principais investigações de corrupção atualmente em curso. A entidade sustenta que, nos dois casos, houve redução das equipes de investigação.
A ADPF afirma que a Zelotes, que investiga empresários por “comprar” medidas provisórias e decisões de impacto bilionário do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), deixou de ser conduzida pela Diretoria-Geral e foi transferida à Superintendência da PF em Brasília – o que seria um sinal de que perdeu importância.
A investigação da própria Lava-Jato em Brasília também estaria perdendo quadros.
– Há um sentimento na corporação de que a Lava-Jato está chegando ao fim – disse o presidente da associação, Carlos Eduardo Sobral.
Segundo o diretor regional da ADPF em Minas Gerais, Luiz Augusto Pessoa Nogueira, Daiello recebeu muitas críticas internas quando a Procuradoria-Geral da República decidiu que delações da Lava-Jato seriam tratadas sem os delegados da Polícia Federal para evitar vazamentos.
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Gol pagará indenização a índios por "dano espiritual"
por Lucas Ferraz – Agência Pública
A comunidade kayapó que vive nas aldeias da terra indígena Capoto-Jarina, no norte do Mato Grosso, há muito deixou de consumir o mel das abelhas de uma extensa parte da floresta amazônica que cobre a região. Não pode caçar por ali nem fazer roças, e uma das 12 aldeias precisou mudar de lugar por causa do mekaron nhyrunkwa.
A casa ou cidade dos espíritos, que os índios kayapó denominam mekaron nhyrunkwa, é uma área considerada sagrada, quase nunca frequentada, onde estão os espíritos dos mortos. Ela pode ser um cemitério – indígena ou não – ou um lugar onde morreram muitas pessoas, como é o caso dessa região, palco de uma dos maiores tragédias da aviação brasileira.
A queda de um Boeing 737 da Gol na região, em 29 de setembro de 2006, matando as 154 pessoas que estavam a bordo, inviabilizou cerca de 1.000 km2da terra indígena, uma circunferência com um raio de 20 km – o que corresponde a pouco menos de um sexto do total da terra indígena.
Os destroços da aeronave continuam espalhados na floresta – e continuarão para sempre, numa área cujo município mais próximo é Peixoto de Azevedo, distante 740 km de Cuiabá.
Neste mês, mais de dez anos depois da tragédia, índios e companhia aérea formalizam a última etapa para o pagamento de uma indenização de R$ 4 milhões à comunidade de Copoto-Jarina. O acerto foi mediado pelo Ministério Público Federal.
Em dezembro foi concluído um laudo antropológico, exigência da Gol para identificar as lideranças indígenas responsáveis por assinar o acordo. “[As partes] já apreciamos o laudo, foi muito bem feito e atende completamente ao proposto. No momento está sendo redigido o acordo que será apreciado por todos os envolvidos, em seguida será marcada uma viagem até a terra indígena para a assinatura”, afirma o procurador Rafael Guimarães, de Barra do Garças, no Mato Grosso, responsável por acompanhar o desfecho do acordo extrajudicial.
Além de reparar os danos espirituais, medida considerada inédita, a companhia aérea compensará os índios por não ter retirado da floresta os destroços do avião.
Após idas e vindas, o compromisso da empresa foi oficializado num encontro na sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília, em outubro do ano passado.
Como se viu no recente acidente que matou o ministro do STF Teori Zavascki, no mar de Paraty, os donos do avião são os responsáveis por retirar os destroços da aeronave do local da queda, conforme determinação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Aeronáutica.
Numa das reuniões sobre o caso, a empresa aérea alegou que a retirada dos destroços “implicaria um dano ambiental muito expressivo, superior à permanência deles na região”, e que a operação de logística para a retirada seria “extremamente difícil, arriscada, dispendiosa”.
Com a indenização, os índios concordaram com a permanência dos destroços na terra indígena – com ou sem eles, parte da área continuará sendo uma cidade dos espíritos, imprópria para o uso tradicional da comunidade, inclusive para as gerações vindouras.
Na tarde do dia 29 de setembro de 2006, uma sexta-feira, o Boeing da Gol que saiu de Manaus em direção ao Rio de Janeiro, com escala em Brasília, voava a 11 mil metros quando, perto das 17 horas, se chocou com um jato Legacy, que voava em sentido contrário em direção aos Estados Unidos. O Boeing perdeu a sustentação e caiu de bico numa área densa da floresta, desfazendo-se na queda – o que explica a extensa área onde se espalharam corpos e destroços do avião. Apesar das avarias, o Legacy conseguiu pousar na base da serra do Cachimbo, próxima do local.
O acidente abriu uma grave crise no setor aéreo. Além de falhas no controle do tráfego aeronáutico, a investigação do Cenipa apontou falha dos pilotos do Legacy, que trafegava com o alarme anticolisão desligado.
“Algumas pessoas ouviram o barulho, mas ninguém achou que era um avião caindo. Pensamos que era uma bomba do lado da serra do Cachimbo”, afirma o cacique Megaron Txucarramae. Horas depois, ele começaria a receber telefonemas de jornalistas e pessoas da região. O avião caíra por ali.
Nos 20 dias seguintes, Megaron integrou o grupo de indígenas kayapó que ficou acampado na beira do rio Jarinã para auxiliar os militares no resgate dos corpos.
Do rio até o principal ponto da queda da aeronave, onde ficou a maior parte dos destroços, os índios abriram uma picada de 7 km. Eles foram os primeiros a encontrar os corpos das vítimas, seis dias depois da tragédia.
Concluída a operação de resgate, no dia 22 de novembro de 2006, após a localização dos restos do último dos 154 mortos, os kayapó receberam apenas um certificado da Aeronáutica, que prestou homenagem a 20 indígenas que participaram do trabalho.
Somente em 2010, quatro anos depois do acidente, os índios – encabeçados pelo cacique Raoni, uma das lideranças mais famosas do Brasil, que já rodou o mundo ao lado de ícones do pop como o cantor Sting –, procuraram a Gol para que ela retirasse os destroços da terra indígena. Sem resposta, eles pediram auxílio ao Ministério Público Federal, que abriu um inquérito para apurar o episódio.
As tratativas do acordo extrajudicial duraram dois anos e contaram com encontros com lideranças espirituais que relataram sobre a privação da área, agora uma casa dos espíritos. Liderança espiritual da etnia, Bedjai Txucarramae afirmou numa das reuniões que os índios não devem nem mesmo circular pela área, sobretudo à noite, horário em que os kayapó acreditam que os espíritos saem pela mata (segundo a crença da etnia, os espíritos temem a luz do dia).
A interdição do espaço, segundo Megaron, é duradoura, kayoikot, para sempre.
No laudo antropológico a que a reportagem da Pública teve acesso, a empresa informa a “concordância em pagar a indenização no valor pedido”, mas sob a condição de que isso significará a quitação integral dos danos causados pela queda da aeronave. Os índios concordaram.
O diretor jurídico do Grupo Gol, Maurício Queiroz, que participou das reuniões, é apontado por índios e procuradores como o responsável por convencer a empresa a pagar a indenização.
Procurada, a Gol afirmou que não se manifestar sobre o pagamento de indenizações e seus valores – vale também para os acordos já firmados com as famílias das vítimas do acidente. Alguns dos casos, contudo, ainda se arrastam na Justiça por discordância em relação aos valores oferecidos.
Os R$ 4 milhões da indenização da Gol serão depositados numa conta do Instituto Raoni, entidade sem fins lucrativos criada pelo cacique homônimo em 2001. Ela representa cerca de 2 mil índios que vivem na terra indígena, na região do baixo Xingu, entre Mato Grosso e Pará – o último censo do IBGE, de 2010, contou 1.004 pessoas vivendo no território, que tem 634 mil hectares. O Ministério Público Federal vai acompanhar a aplicação do dinheiro.
Os índios afirmam que vão utilizar a indenização para melhorias na terra indígena – estruturando as aldeias, comprando carros e maquinários, melhorando a vida da comunidade. Eles querem utilizar parte do dinheiro para se mobilizar com outras etnias numa campanha nacional contra as recentes ameaças aos direitos indígenas, exemplificadas na PEC 215, em trâmite no Congresso (que pretende transferir o poder da demarcação de terra do Executivo para o Legislativo) e na decisão do governo Michel Temer de alterar o rito das demarcações de terras, anunciadas e então revogadas após críticas da sociedade civil sobre a constitucionalidade da medida.
“Temos muito pelo que lutar a partir de agora. Mas a casa dos espíritos continuará lá, com as almas das pessoas. Já não há o que fazer, é uma área sagrada e temos apenas que respeitar”, diz o cacique Megaron Txucarramae -
Recado do Espírito Santo: "Eu sou você amanhã"
ELMAR BONES
O Espírito Santo tem menos de 4 milhões de habitantes, 2% da população brasileira, 0,5% do território nacional.
O que ocorre lá há uma semana é, em escala piloto, o que pode ocorrer em todo o país, se a crise política e econômica continuar se aprofundando.
O atraso nos salários e as más condições de trabalho que levaram os policiais militares à greve…a onda da violência que se desencadeou na região metropolitana da capital, Vitória, com a falta de policiamento nas ruas…
São ingredientes de uma situação latente em todas as capitais brasileiras, em muitas delas, o Rio, por exemplo, com potencial explosivo ainda maior.
O saldo neste sábado à tarde era de 138 mortos, 300 casas comerciais arrombadas, 200 carros roubados, saques a lojas e supermercados na periferia de Vitória.
Uma relativa normalidade era garantida por cerca de 3.200 homens do Exército, que desde a quarta-feira patrulham as áreas mais movimentadas da capital e cidades do entorno.
Como num laboratório social, no Espírito Santo misturou-se a falência do poder público, que não consegue garantir nem o básico policiamento das ruas, o esfacelamento da cidadania, desamparada e ameaçada pelo desemprego e a pobreza, o crime organizado cada vez mais armado e poderoso…
O resultado é uma situação explosiva que leva sempre à mesma solução: intervenção das Forças Armadas.
Como naquela propaganda, o recado que o Espírito Santo parece mandar ao Brasil é esse: “Eu sou você amanhã”.
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Cinquenta mil acionistas da CRT ainda esperam ser indenizados pela Oi
ELMAR BONES
Cerca de 50 mil acionistas da extinta Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) estão na lista dos credores habilitados no processo de recuperação financeira da Oi. São representados por mais de 60 escritórios de advocacia e não há uma estimativa do total de que são credores.
Eles ganharam na justiça valores entre 1.500 e 50 mil reais, mas há caso excepcionais, nos processos mais antigos, que podem chegar a 600 mil reais, em razão dos juros de mais de 20 anos e atualização monetária.
A CRT foi privatizada em 1996 e, desde então, milhares de pequenos acionistas lutam para receber seus direitos, inicialmente junto à Brasil Telecom, que assumiu os ativos da estatal gaúcha e, depois, junto à Oi, que comprou a BRT. Muitos chegaram a ter ganho da causa na Justiça, mas foram lesados por advogados que embolsaram os valores recebidos.Outros ganharam a demanda, mas ainda não receberam nada. São esses – estimados em 50 mil – os que agora conseguiram ser habilitados no processo de recuperação da Oi, a maior operadora de telefonia fixa do pais e a quarta maior na telefonia móvel, que acumula uma dívida de R$ 65,4 bilhões e no ano passado entrou com o maior pedido recuperação judicial já feito no Brasil.
UMA HISTÓRIA ANTIGA
A história da CRT e seus pequenos acionistas remonta ao governo de Leonel Brizola que, em 1961, encampou a ITT, a companhia norte americana que explorava os serviços de telefonia no Rio Grande do Sul. Dona de uma concessão vantajosa, com equipamentos sucateados, a ITT não se dispunha a investir para ampliar os serviços.
Brizola, então, cassou a concessão e indenizou os americanos por valor simbólico. Criou a Companhia Riograndense de Telecomunicações, uma inovadora “empresa de economia mista”. O Estado, porém, não tinha como suportar os investimentos necessários. Foi lançado, então, um projeto inédito de capitalização: no custo da linha telefônica, vinha embutido um certo número de ações da companhia, o que transformava os clientes em acionistas minoritários da companhia. A demanda por telefones era tal que o projeto foi um sucesso e a CRT representou um salto nas telecomunicações no Estado.
Quando foi privatizada, a CRT tinha mais de 100 mil acionistas minoritários, mas já com muitas distorções no processo. A demanda por telefones era muito maior do que a oferta e estimulou um mercado paralelo, inclusive com intermedíários donos de centenas ou milhares de linhas que eram alugadas, pois “comprar um telefone” custava caro.
A encrenca foi surgir três anos depois quando um advogado foi pesquisar o valor das ações que tinha na CRT e se deu conta que tinha sido lesado. Descobriu uma portaria do Ministério das Comunicações que, há mais de dez anos, havia alterado o critério de emissão das ações por parte das empresas que trabalhavam com o sistema de capitalização.
Em vez da emissão imediata das ações no ato da compra da linha telefônica, a portaria ministerial permitia que as empresas retardassem a emissão das ações em até um ano. Numa época de inflação galopante, o valor de cada ação, corrigido, mais do que duplicava no prazo de um ano.
Detalhe: o valor que o acionista desembolsava na hora da compra não era atualizado. Ou seja, o que ele pagava na data da compra ou subscrição representava um certo número de ações. Um ano depois, quando eram emitidas as ações com o seu preço atualizado, o valor pago na hora da compra, sem ser corrigido, rendia menos metade das ações.
Começaram, então, as ações na Justiça, visando reparar a distorção. As primeiras decisões no inicio do ano 2.000, foram negativas pois os juízes de primeira instância relutavam em aceitar que a “compra de um telefone” pudesse redundar em direitos de acionistas da companhia.
Quando, porém, os primeiros processos chegaram ao STJ a situação mudou. Firmou-se um entendimento de que os acionistas tinham direito realmente à correção. Tornaram-se, então, crescentes as vitórias judiciais dos acionistas. Com a divulgação dessas decisões favoráveis, milhares de acionistas passaram a ingressar em juízo. A maioria, até então, desconhecia a questão da capitalização e das ações a que tinham direito.
O advogado Mário Madureira, que chegou participar de um grupo em Porto Alegre criado para troca de experiências e contratação de pareceres de juristas renomados, estima que mais de 300 advogados, inclusive do Paraná e Santa Catarina se envolveram nesses processos. Pelo menos 80 mil acionistas minoritários foram à Justiça.
A maioria dos advogados, segundo Madureira, agiu corretamente e repassou os valores devidamente a seus clientes nos casos de decisão favorável. Na imprensa, porém, começaram a pipocar denúncias de fraude. Advogados teriam negociado com a empresa acordos lesivos aos seus clientes. Outros simplesmente embolsaram o dinheiro ganho.
O caso mais notório é o de Maurício Dal Agnol que, segundo a Polícia Federal, deixou de repassar valores a cerca de 30 mil clientes, num total que chega a R$ 100 milhões. Ele chegou a ser preso, em 2015, mas mediante habeas corpus foi solto e responde a processo em liberdade.
O caso mais recente, rendeu manchetes no início desde ano, envolve cinco advogados paranaenses, cujos nomes não foram divulgados. Eles teriam lesado dois mil clientes de Santa Maria, num total de R$ 30 milhões.
Para culminar as agruras dos acionistas minoritários da CRT, uma decisão judicial fulminou qualquer chance de indenização para os casos que ainda não tinham sido julgados. Foi em 2007, quando Superior Tribunal de Justiça, sem qualquer fato novo, emitiu um acórdão, relatado pelo ministro Hélio Quaglia Barbosa, que alterou radicalmente o critério para fixar o valor das ações.
Em vez de ser fixado na Assembléia Geral, conforme determina a Lei das Sociedades Anônimas, o novo acórdão estabeleceu que o valor das ações tinha que ser definido a partir do balancete do mês em que era feita a compra do telefone. “Foi uma decisão não entendida até hoje, pois anulou uma jurisprudência já pacificada e fulminou o direito das pessoas, pois com o critério do balancete, 95% dos acionistas não tinha nada a receber. Foi uma ceifadeira”, conforme o advogado Mário Madureira.
Essa medida esvaziou milhares de ações judiciais que ainda tramitavam. Restaram as ações que já tinham sido julgadas antes do acórdão e que não foram pagas até hoje. Estas seriam as 50 mil credores que pretendem ser contemplados no processo de recuperação judicial da Oi, sucessora da Brasil Telecom que está em andamento.
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Prisão de Lula é a "cereja do bolo" na política de 2017
ELMAR BONES
Os lobbistas de Brasilia, que fazem o meio de campo entre o estamento jurídico-político e as grandes corporações empresariais, trabalham desde os primeiros dias de janeiro com um cenário político que promete grandes emoções em 2017.
Começa no TSE onde o ministro Herman Benjamin, relator do processo, está inclinado a pedir a cassação da chapa Dilma/Temer. O julgamento deve ocorrer ainda no primeiro semestre.
A informação de que a possibilidade de cassação da chapa é grande, chegou a Temer pouco antes da sua viagem a Portugal, o que explicaria a carona que ele deu a Gilmar Mendes. Como presidente do TSE, Gilmar Mendes, atua como elemento de contenção, para preservar Temer.
Outra parte das grandes emoções virá, segundo os lobbistas, da Lava-Jato, com vistosas e ruidosas prisões que não poupariam grandes figurões enrolados nas delações premiadas, principalmente as dos diretores da Odebrecht. Nem mesmo ministros e figuras do judiciário escaparão.
As informações vazadas para a imprensa neste final de semana dão sentido a estas previsões.
Mas a culminância do processo, a “cereja do bolo”, como dizem os lobbistas em seus informes, será a prisão do ex-presidente Lula, antes do fim do ano.
Essa informação provavelmente já chegou a Lula e é o que poderia explicar o lançamento extemporâneo da sua candidatura à presidência para 2018. Como candidato, ele ganha um escudo e um palanque para denunciar a motivação política dos processos que o incriminam na Lava Jato.
Os primeiros movimentos na cena brasiliense, por enquanto, estão a confirmar as espectativas dos observadores bem posicionados. Mas, como diz o jargão, a política é dinâmica e elementos novos podem a qualquer momento alterar o cenário.
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A profecia de Babot: "O Rio Grande do Sul vai se tornar ingovernável"
Vai completar 40 anos neste 2017 a profética entrevista do professor Jorge Babot Miranda, então secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul.
Homem da academia, titular da cátedra de Microeconomia, na Universidade Federal, Babot Miranda sentiu-se no dever de alertar sobre a gravidade do problema que ele detectara nas finanças do Estado.
O Tesouro vinha há muitos anos tomando empréstimos para cobrir um deficit crônico no caixa. Chegara a um círculo vicioso, a dívida alimentando o déficit coberto com mais dívidas. “Se nada for feito, o Estado se tornará ingovernável”, disse ele numa entrevista coletiva.
Foi uma atitude corajosa, em tempos de governos nomeados, e Babot confessaria anos mais tarde que se incomodou muito por ter dito aquilo aos jornais.
Os jornais deram algum destaque no dia seguinte, mas depois o que ganhou mais espaço foi um comentário que o secretário fez ao final da entrevista.
A crise financeira do Grêmio estava nas manchetes e Babot, que era também conselheiro do clube, fez uma brincadeira, dizendo que a situação no Grêmio era pior.
A diretoria do Grêmio rebateu, instalou-se uma polêmica e o assunto, devidamente grenalizado, foi posto de lado.
Era o governo de Sinval Guazzelli, o terceiro dos quarto governadores nomeados pelo poder central. Quando o ciclo militar se encerrou, o Rio Grande do Sul já tinha a pior situação financeira entre os principais estados brasileiros.
O primeiro governador eleito foi Jair Soares, homem do regime que as urnas referendaram no pleito de 1982.
Quando seu governo terminou, em dezembro de 1987, a crise financeira do Rio Grande do Sul rendeu manchete no Jornal Nacional: apresentou o maior déficit entre os estados, a despesa era 15% maior do que a receita.
Neste ponto o círculo vicioso deficit-dívida ganhou uma componente política.
Desafio e frustração de todos os governos que se sucederam até agora, a crise financeira é provavelmente o principal fator da descontinuidade administrativa que se tornou regra no Estado – nenhum governador, desde então, conseguiu se reeleger ou fazer o sucessor.
Sem solução a curto prazo, pelo tamanho e a complexidade que adquiriu, a crise financeira do setor público gaúcho hoje se combina com a crise política para dar realidade à previsão de Babot Miranda.
