
Cada componente tem direito a 30 exemplares por semana (Fotos Tânia Meinerz)
Guilherme Kolling
O apelido Ceco – assim mesmo, com “C” – se refere à complexão física do rapaz. O jovem ainda é magro, mas na época em que ganhou o apelido era “pele e osso”. Ao invés de comprar comida, usava os trocados que arranjava para sustentar seu vício. “Ficava na rua completamente chapado”, admite. “Não tinha qualquer controle, as vezes roubava… Se ganhava cinco, dez reais, ia comprar droga”.
Assim era a vida de Ceco aos 20 anos – ele aparentava 12, tal era sua desnutrição. Analfabeto, sem-teto, ele não tinha muitas perspectivas. Vivia na Rodoviária de esmolas e biscates. Nessa época, foi abordado por um grupo do jornal Boca de Rua. “Eles se apresentaram querendo me entrevistar, explicando que era um jornal feito por moradores de rua. Achei interessante e quis entrar para o grupo”, lembra.
O rapaz titubeou por causa de suas limitações. “Eu pensei: Não sei ler, não sei escrever, nem usar máquina para tirar foto. Como é que eu vou fazer o jornal?… Mas eu também pensei que eu tenho capacidade. Aí enturmei e comecei a participar”, lembra Ceco, que conversa com desenvoltura.
Ele explica que o trabalho lhe abriu portas, que passou a ser mais aceito pela sociedade. É um dos participantes mais ativos do Boca de Rua. Depois de cinco anos, o jovem evoluiu bastante também nos estudos. Aos 25, está na 6a série do Ensino Fundamental. Trabalha vendendo o jornal que ajuda a produzir e tem uma série de compromissos.

Ceco exibe canhoto de cinema e passagens de avião
“Dizem que morador de rua é vagabundo, mas eu só tenho duas tardes livres por semana”, contabiliza orgulhoso. Uma dessas atividades que preenchem sua agenda é a oficina de vídeo, que acontece nas sextas, na Usina do Gasômetro. Em 2005, Ceco ajudou a produzir o filme “Carta de Porto Alegre”, exibido em agosto em Porto Alegre.
A jornalista Rosina Duarte (foto), fundadora da Alice – Agência Livre Informação e uma das coordenadoras do Boca de Rua, lembra o momento como um dos mais marcantes dessa experiência. Ao entrar na sala do Santander Cultural, repleta por um público de professores e estudantes universitários, ela sentiu-se emocionada. “Ali, naquele momento, senti que estávamos fazendo uma pequena revolução”.
O vídeo foi levado depois para São Paulo, num evento na Câmara de Vereadores, onde Ceco fez a apresentação da obra. Ele fala da atividade com alegria e enumera outros momentos marcantes. “Nunca pensei que entraria no aeroporto para pegar um avião. Que um dia eu entraria numa escola para dar uma palestra, falar para 50 alunos”, surpreende-se.
Seu novo projeto, divulgado nas páginas da edição do Boca de Rua de setembro/outubro/novembro é a criação de uma biblioteca para o público do jornal. Chamada de “Bocoteca”, por enquanto ela funciona numa mochila que Ceco leva para lá e para cá. A idéia é fazer uma roda de leitura uma vez por mês. “Ao invés de ficar carregando os livros, vou fazer uma planilha. Assim a pessoa escolhe qual quer ler sem eu ter que ficar levando”. O acervo é composto de exemplares doados.
Três jornalistas iniciaram o projeto
O jornal Boca de Rua completou cinco anos em janeiro, mas começou a nascer há seis, quando as jornalistas Rosina Duarte, Clarinha Glock e Eliane Brum decidiram formar a Alice para fazer projetos sociais na área de comunicação. “Sempre gostamos do tema direitos humanos e queríamos contar a história de gente comum”, explica Rosina.
O primeiro trabalho foi com um grupo que ficou conhecido como “Tartarugas Ninjas”, crianças que vivam na galeria de um esgoto e entravam por um bueiro – ficaram famosas depois de uma reportagem de grande repercussão mostrou essa realidade. Em 2000, os garotos já era adultos, vários tinham morrido.
Uma professora chamada Deidre, que conviveu bastante com os jovens, a quem alfabetizou na rua mesmo, fez a aproximação entre as repórteres e os “sobreviventes”. “Eles não entenderam direito o que a gente queria, mas ouviam. Começou quase como uma brincadeira e aos poucos entusiasmou eles, que um dia decidiram que queriam fazer um jornal”.
Escolheram o nome e fizeram a logomarca da publicação. Mas maioria era analfabeto. Assim, o método foi passar para a linguagem escrita os textos que eles falavam de forma coletiva. “A única regra que estabelecemos foi o respeito”, lembra Rosina, descrevendo os encontros ao ar livre, na pracinha ao lado do Colégio Rosário.
A primeira edição do Boca de Rua saiu no Fórum Social Mundial de 2001 – desde então a publicação é trimestral. Cerca de 30 pessoas cadastradas, que participam das reuniões semanais, escolhem a pauta e produzem todas matérias.
Os profissionais que supervisionam o trabalho são todos voluntários. A impressão é paga pela Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho. E o dinheiro com a venda avulsa, a R$ 1,00, fica com quem participa do jornal. Cada integrante ganha uma quota de 30 jornais por semana, ou seja, arrecadam cerca de R$ 120 por mês – eles garantem vendem tudo em dois ou três dias.
O perfil dos participantes é variado. Em comum, a situação de rua vivida em algum momento. Alguns permanecem sem-teto, outros tem moradia. Alguns saíram de casa ainda criança, outros por uma circunstância ou dificuldade na vida. A situação é difícil para muitos, há portadores de HIV, tuberculosos, viciados em drogas. Mas cada um com uma história diferente.
E todos descobrindo novos horizontes – vão ao cinema, museu, Feira do Livro, shopping center, locais que alguns ainda não tinham ido. Paralelamente, participam de uma oficina de hip-hop na sede do Gapa e de aulas de vídeo, no Gasômetro, ambos com encontros semanais.
“A reintegração tem que partir deles”
Junto com Rosina Duarte, a jornalista Clarinha Glock sempre esteve atuante no projeto do jornal Boca de Rua – a outra fundadora, Eliane Brum, teve que se afastar ao ir trabalhar na revista Época. A seguir, uma entrevista com Clarinha sobre o tratamento da imprensa e políticas públicas para os moradores de rua.

Boca de Rua auxilia na renda e na inserção social de seus integrantes
JÁ – Qual sua avaliação da cobertura da imprensa sobre os moradores de rua?
Clarinha – Considero ruins matérias que apenas tratam os moradores de rua como uma categoria estigmatizada, como se fossem vítimas ou bandidos, que os usam para ocupar os espaços dos “cases”, apenas para ilustrar as matérias. Ou que os ouvem, mas de forma superficial, sempre com pressa, e não conseguem mostrar o contexto que faz com que essas pessoas estejam na situação em que estão. Procuro evitar o termo “morador de rua” e usar “pessoas estão em situação de rua”. Não se trata apenas de ser “politicamente correto”. Neste caso, me parece o mais próximo da realidade. Muitos vão e volta para a rua, seja de casa, dos abrigos, dos albergues. É importante que se mostre o contexto, que se vá além dos discursos prontos que, por culpa da própria imprensa – sempre com pressa, sem espaço para aprofundar as reportagens, sem tempo para ouvir e observar melhor o outro – acabamos sempre reproduzindo, o que serve apenas para difundir uma idéia estigmatizada. Falo “discursos prontos” porque, se você se dá tempo para ouvir melhor estas pessoas, percebe que nós, jornalistas, geralmente chegamos apenas com nossas reportagens do dia-a-dia ao estereótipo. Só com o tempo, a sensibilidade e a confiança deles é que se pode ir além, buscar explorar e descobrir os sonhos, as frustrações, as demandas reais que todas as pessoas têm – e os que estão nas ruas também. Eles são mais do que “drogados”, “aidéticos”, “ladrões”, “mendigos”. São pessoas. Se as matérias conseguirem mostrar isso, estarão contribuindo para mudar uma realidade e para que os leitores se sintam instigados a fazer isso também.
JÁ – A repercussão comum de uma matéria sobre uma pessoa que mora embaixo de um viaduto é a repressão do governo, que simplesmente tampa ou fecha esse local. Qual a saída para evitar isso?
Clarinha – Talvez uma maneira seja mostrar que não adianta transferir o problema, ou tapar o buraco pra ninguém ver. Mobilizar entidades de defesa de direitos humanos para dar amparo e suporte, questionar e dar acompanhamento às ações do governo, não apenas mostrando o fato e o resultado (expulsão e fechamento dos buracos nas pontes), mas seguir contando a história destas pessoas. Um dos grandes problemas da cobertura diária é que, além de não oferecer muito espaço para estas histórias (sob a desculpa que os leitores ou telespectadores não estão interessados, porque é feio, porque não faz parte da realidade deles), não dá acompanhamento, não persiste na história (sob o mesmo pretexto de que os leitores/telespectadores vão enjoar de ouvir sempre a mesma ladainha). Se a história for bem contada, se for contextualizada, vira um fato político, pode transformar uma realidade.
JÁ – Na sua convivência com os sem-teto, percebeu alguma perspectiva que os leve à reintegração que não esteja sendo feita por miopia dos governos e dos cidadãos?
Clarinha – As pessoas não chegam a ser sem-teto por aventura ou gosto. Há muitas dificuldades no caminho, para se manter vivo e íntegro na rua. Tratar pessoas como pessoas, não como números é um começo. Ouvir o que eles têm a dizer e construir junto com eles uma nova realidade, acho que esta é a saída. O Boca de Rua tem um papel inicial de mobilizar, de fazê-los visíveis. Mas sozinho ninguém faz nada. É preciso mobilizar as entidades que tratam do tema, integrar os interesses comuns em busca de melhor saúde, perspectivas de geração de renda, moradia. Mas a reintegração tem que partir deles. O governo e algumas ONGS têm de ajudá-los a se reorganizar, não praticar o assistencialismo para aliviar a culpa e tirá-los da vista dos que têm mais poder. Ninguém melhor do que aqueles que estão vivendo esta situação para dizer do que precisam e o que querem.