
Sexta edição do FSM iniciou na terça-feira (24/01) com a tradicional marcha de abertura
O destino do principal encontro da sociedade civil não é uma dúvida apenas na cabeça dos cerca de 60 mil inscritos no 6º Fórum Social Mundial. O Futuro do Fórum também foi tema de um debate em Caracas.
“Ainda temos de radicalizar nas coisas em que não temos sido eficientes”, propôs o sociólogo Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Cândido representou o grupo de oito entidades que, pela primeira vez, em Porto Alegre, organizou o Fórum. E apontou que o maior desafio do encontro é balancear a diversidade de organizações com a conjunção de propostas.
“Como ingressar todos no debate, sem entrar na fragmentação total?”, questionou à platéia de cerca de 300 pessoas. “Não procuramos o consenso, mas valorizar nossas diferenças”, resumiu.
Uma das diferenças entre os organizadores era a idéia do Fórum apoiar oficialmente determinadas causas. “Todas as propostas que temos são boas, mas o Fórum não pode ser uma instância que referende essas idéias”, afirmou Cândido. A opinião não é compartilhada por Irene León, da Agência Latino-americana de Informação (Alai) e uma das responsáveis pelo 1º Fórum Social Américas.
“Na nossa experiência, apoiamos claramente o governo cubano diante do embargo dos Estados Unidos e não vejo problemas nisso”, apontou ela.
Há hoje, entretanto, mais sintonia na idéia de que o Fórum deve estreitar sua relação com o cenário político. “Os movimentos sociais são autônomos. Mas, se não se vinculam às situações reais, não têm como responder às necessidades dos povos”, disse Jacobo Torres, da Força Bolivariana de Trabalhadores, uma corrente sindical venezuelana.
Ele defendeu que as organizações que participam do Fórum discutam a nova realidade política latino-americana, com a eleição de partidos com origem na esquerda.
“Temos de incidir mais na sociedade e avançar no diálogo com governos”, defende Cândido. Para ele, essa incidência deve ser feita por meio de lançamento de campanhas, “aproveitando o momento do Fórum”.
União dos movimentos passa pela união das lutas, diz ativista brasileira
Uma das dificuldades da integração dos movimentos sociais latino-americanos é a falta da compreensão e adoção integral das lutas de cada um deles, disse a militante brasileira Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres. Ela participou nesta quarta-feira (24) à noite da conferência “Os novos caminhos da integração latino-americana”, uma das duas mil atividades da 6ª edição do Fórum Social Mundial.
“Sempre que há encontros de movimentos, fecham-se posições de consenso em vários temas, mas nunca sobre as reivindicações das mulheres. Por exemplo, o direito ao aborto ou a violência doméstica”, afirmou Faria.
Ela explicou que, como esses são temas muito próximos às pessoas, existe uma dificuldade em debatê-los. Outra situação que usou de exemplo é a divisão sexual: “os homens estão livres do trabalho doméstico, de cuidar dos filhos ou dos idosos, o que lhes dá mais tempos para estudar, trabalhar, descansar ou militar. Isso não é pouco. E o trabalho doméstico ainda não é considerado um trabalho verdadeiro”.
Segundo Nalu Faria, apenas quando os movimentos estiverem dispostos a aceitar todas as lutas como legítimas é que poderá haver uma integração verdadeira. Para isso, segundo ela, muitos intelectuais e até mesmo a classe média terá que abrir mão de um padrão de vida com o qual se acostumou, um padrão de vida que seria impossível de reproduzir para todas as pessoas do mundo.
Brasil e Venezuela querem reforçar agenda comum para questão da terra
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, reuniu-se ontem (26) com o ministro venezuelano da Agricultura, Antonio Abarrán. De acordo com Rosseto, no encontro foi decidido o reforço dos convênios que os dois países têm na área. “Já estamos trabalhando conjuntamente com troca de políticas de assistência técnica a pequenos agricultores e em modelos de reforma agrária”, disse. “Os dois governos têm uma agenda comum de democratização da terra”, acrescentou.
O ministro também afirmou que há “uma expectativa muito positiva” de negociar acordos semelhantes com o governo do presidente boliviano Evo Morales. Segundo Rosseto, os convênios podem ser assinados até março.
O ministro está em Caracas para o 6º Fórum Social Mundial. Nesta quinta-feira (26), ele participa de um debate preparativo à 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, que ocorrerá de 7 a 10 de março, em Porto Alegre. O encontro será promovido pela Organização para Agricultura e Alimentação (FAO, pela sigla em inglês), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU).
Daniel Merli e André Deak, Agência Brasil










