Autor: Elmar Bones

  • Mercado Bom Fim continua abandonado

    Promessas ficaram  para 2006

    Naira Hofmeister

    A julgar pela situação, nem parece que o tempo passou. As queixas dos permissionários do Mercado Bom Fim são as mesmas, assim como as explicações do titular da Smic, secretário Idenir Cecchim. A única mudança é que, ao invés da Páscoa, o calendário do comércio já beira as festas de final de ano.

    Em março o Mercado Bom Fim tinhas as condições mais favoráveis às modificações pretendidas pela prefeitura. A qualificação do local era tida como promessa do primeiro ano de governo Fogaça, que teria a oportunidade de realizar um trabalho planejado, inclusive, por administrações anteriores.
    Vinte das 25 lojas poderiam ser renegociadas, algumas por estarem  desocupadas, outras por seus contratos a vencer.

    Animado no inicio de sua gestão, Cecchim falava em um grande projeto para o local, contando com restaurantes temáticos, que atraíssem um público diferenciado para o local: “A área é muito importante para ficar marginalizada e grupos importantes fizeram sondagens”, dizia ele, na época. De lá para cá, o discurso não parece ser diferente. Além de manter sua decisão de não renovar o contrato com os atuais bares do ‘fundão’ para, em seu lugar montar um empreendimento voltado à família, Cecchim continua sem previsão para o encontro, prometido há tempos: “Vamos fazer uma reunião com eles logo, talvez em janeiro, já que agora estamos muito ocupados com a fiscalização dos ambulantes”. Ele alega também que está impossibilitado pelos processos que a prefeitura move contra alguns permissionários.

    Os comerciantes continuam mesmo com os contratos vencidos desde março e sem diálogo estabelecido com a prefeitura. A reclamação é uníssona, repetida em coro e a exaustão: “O atual secretário não aparece aqui, não conhece de verdade nossos problemas”, diz Alberto Santos, do restaurante Pôr-do-Sol. Alguns até arriscam: “A gente nem conhece a cara do homem”, brincou Antenor Guerra, do Luar Luar.

  • Audiência pública para debater Ospa reúne 400 pessoas

    O salão paroquial ficou repleto de participantes (Fotos Carla Ruas)

    Guilherme Kolling

    A conclamação que o maestro Isaac Karabitchevsky fez à população para comparecer à audiência pública sobre a Sala Sinfônica da Ospa deu resultado. Cerca de 400 pessoas superlotaram o Salão Paroquial da Igreja Batista na noite desta terça-feira, 20 de novembro. Eram músicos, estudantes, vizinhos, simpatizantes da orquestra, arquitetos, funcionários da Prefeitura. O público começou a chegar por volta das 19h e a reunião acabou depois das 23h.

    Integrantes da Associação Cristóvão Colombo, da Prefeitura e do Shopping Total também participaram da mobilização para atrair público – todos favoráveis à construção de uma sede para Orquestra Sinfônica no terreno da antiga cervejaria Brahma.

    De outro lado, moradores da rua Gonçalo de Carvalho e entorno, que são contra o prédio no local proposto, também compareceram, apoiados pelo Movimento Porto Alegre Vive. Parecia campanha eleitoral, teve até o corpo a corpo de militantes com as pessoas que iam chegando.

    Cartazes eram exibidos, adesivos eram colados no peito de quem aparecia – um dizia “SOS Gonçalo de Carvalho”, o outro “Sim à cultura, sim à Ospa”. Passava ainda um abaixo-assinado a favor da Sala Sinfônica no Total – já com 5 mil assinaturas.

    Outra iniciativa dos dirigentes da orquestra foi providenciar uma rápida performance antes do evento. Cerca de 30 músicos apresentaram três números para deleite do público. “O objetivo é sensibilizar as pessoas com a música”, explicou a assessora de imprensa da Ospa.

    Boa parte dos presentes achava que teria início uma votação – Karabitchevsky e setores da imprensa divulgaram que esse era o objetivo da consulta pública. Mas a proposta não era essa. “Estamos aqui para colher sugestões da comunidade, ouvir críticas para melhorar o processo de licenciamento ambiental, que está em tramitação”, explicou o secretário municipal do Meio Ambiente, Beto Moesch.

    A informação causou frustração em parte do público – uns poucos deixaram o auditório, que permaneceu apinhado de gente. A seguir técnicos e arquitetos responsáveis pelo projeto mostraram as vantagens da sala sinfônica sob o ponto de vista de acústica e infra-estrutura.

    O prédio terá cinco pavimentos, ficará de frente para a Cristóvão Colombo. Atrás, junto à rua Gonçalo de Carvalho, está previsto um prédio estacionamento com oito pavimentos – dois subterrâneos. Serão 375 vagas, mais 205, para repor as que serão perdidas com a construção dos edifícios. Haverá ainda, uma rua interna, dividindo o terreno ocupado pela Ospa do resto do shopping, e ligando a saída à rua Gonçalo de Carvalho.

    A queixa dos moradores está centrada nesta mudança viária e no prédio-garagem. Uma das polêmicas é que para fazer a ligação do estacionamento com a sede da Ospa, será necessário perfurar uma parte do terreno que é rochosa. Conforme dados apresentados pela empresa Profil Engenharia e Ambiente Ltda., responsável pelos estudos ambientais, serão retirados 24 mil metros cúbicos de escavações, sendo 6 mil m3 de rocha.

    Vizinhos de prédios antigos da rua Santo Antônio temem avarias nas edificações. Outra queixa é a concentração de carros – a alegação é que a Gonçalo de Carvalho não tem condições de suportar tantos automóveis, que trariam poluição atmosférica, sonora. “Somos a favor da Ospa, mas da maneira que está sendo posta, vai prejudicar a qualidade de vida da comunidade”, argumentou Haeni Fitch, líder dos moradores.

    O presidente da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Ivo Nestralla, disse que o projeto não trará problemas. “A Ospa será a alegria do seu bairro”, resumiu.

    Discussão e bate-boca

    Após as apresentações técnicas, deu-se a palavra ao público. O grupo contrário ao projeto da Ospa estava em minoria, cerca de 1 ativista para 4 defensores da sala sinfônica no Total. Mas quase todos os 20 inscritos para fazer uso da palavra eram críticos ao projeto em discussão.

    Resultado: quase duas horas de intervenções malhando a proposta da sala sinfônica no shopping. A maioria reagia com vaias. Houve discussão e bate-boca em certos momentos. Entre as questões mais citadas, o investimento com recursos públicos – via lei de incentivo à cultura – num local privado, o terreno foi alugado ao shopping por 30 anos. Também se questionou o abandono do projeto escolhido em concurso público em 1997, que previa a Ospa no Cais do Porto.

    Moradores falaram ainda de eventuais prejuízos à estrutura dos prédios vizinhos, poluição sonora, visual e atmosférica. Também se queixaram de compensações ambientais previstas na implantação do Shopping Total que ainda não teriam sido cumpridas.

    Técnicos responderam às questões. O presidente da Ospa, Ivo Nestrala, e o músico, Artur Elias Carneiro fizeram a defesa do projeto, sendo ovacionados pela platéia.

    O secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, informou que a Smam dedicará esta quarta-feira, 21 de dezembro, para analisar todas as questões levantadas no debate.

  • Mais uma proposta para salvar a Varig

    Carla Ruas

    Os funcionários da Varig apresentaram nesta quinta-feira (22/12) na Assembléia Legislativa o Plano de Recuperação Judicial da companhia, aprovado pelos credores em assembléia, no dia 19 deste mês. A idéia é salvar a empresa, a partir de uma reestruturação das áreas de operação, financeira e de gestão. “A nova estratégia venceu com 86% dos votos dos credores”, conta Paulo Rabelo de Castro, consultor econômico da Associação dos Trabalhadores do Grupo Varig, formada para a recuperação da empresa.

    A proposta é reorganizar a dívida de R$ 8 bilhões da companhia, com o pagamento realizado em parcelas e somente depois de três anos de carência. Desta maneira, a empresa fica com um perfil financeiro e operacional atrativo para novos investidores.

    O novo quadro societário terá controle sobre a Varig através da implantação do Fundo de Investimento e Participação – Controle (FIP). Este fundo terá o aporte de todas as ações devedoras, tendo como administrador um banco comercial de primeira linha. “Em 60 dias a empresa inicia o processo de leilão entre os interessados”, afirma Marcio Marsillac, vice-presidente da Associação de Pilotos da Varig, APIVAR.

    Marsillac conta que o atual presidente da companhia, Marcelo Bottini, permanece na direção durante o processo de transformação da Varig. “Ele será o gestor interino, durante a constituição dos FIP e condução do processo gerencial da empresa até a designação de um administrador pelo processo do FIP – controle”.

    A recuperação projetada de Margem Operacional é de 3,7% em 2006 e 8,6% em 2010. Neste ano, a empresa fechou no vermelho, com –4,6%. “Isto ocorreu por uma má gestão de Omar Carneiro da Cunha, que estava na presidência da Varig”, acredita Marsillac. Cunha foi demitido em novembro, quando foi anunciado o prejuízo deste ano, que contabiliza R$ 778,130 milhões. Posteriormente, a Fundação Rubem Berta foi afastada da gestão administrativa da Varig pela Justiça.

    Para Marsillac, apesar de quatro anos em crise, os funcionários estão em clima de esperança: “Demos o primeiro passo em direção à recuperação, com um plano aprovado pela grande maioria dos credores, agora temos que tirar as idéias do papel e colocar em prática”.

    Assistiram à apresentação do deputado estadual Vieira da Cunha (PDT), coordenador da Comissão de Representação Externa da Varig e a deputada federal Yeda Crusius (PSDB), coordenadora do grupo parlamentar misto em defesa da Varig.

    Para Vieira da Cunha, ocorreram avanços importantes nos últimos dias para o fortalecimento da companhia. “A assembléia de credores foi um passo essencial, e logo ocorrerá um encontro de contas entre a empresa e o governo federal.”

    Tramita na Justiça um recurso para o pagamento de quase R$ 4 bilhões da União à Varig, provenientes de perdas decorrentes de planos econômicos. Caso esta dívida seja reconhecida pelo governo, ela mudaria o perfil do endividamento da empresa aérea. “A bancada do estado do Rio Grande do Sul e a bancada federal sairá em busca do apoio político das autoridades federais para que isto ocorra o quanto antes”, afirma o deputado. Durante a assembléia ficou definido que as comissões políticas irão marcar uma reunião com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para tratar do assunto.

    “Ou este plano dá certo ou a companhia vai fechar, seja pela justiça brasileira ou americana”, afirma Marsillac. Empresas de leasing norte-americanas solicitaram para a Corte de Nova Iorque a falência da companhia brasileira nos Estados Unidos. O motivo é o atraso no aluguel de aeronaves. A Varig conseguiu adiar a decisão, mas para a próxima reunião com a corte, no dia 12, a casa tem que estar “em ordem”.

    Também estavam presentes nesta reunião os deputados Jair Soares (PP), Estilac Xavier (PT) e Manoel Maria (PTB), assim como o secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais do RS, Luís Roberto de Andrade Ponte, e o vice-presidente do Banrisul, Urbano Schmitt. A deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS) também participou da reunião.

  • Camelôs terão que sair das ruas da Capital


    No plenário da Câmara, camelôs regulares reclamaram que não foram ouvidos (Foto: Elson Sempé/CMPA/JÁ)

    Helen Lopes

    A votação do Centro Popular de Compras (CPCs) causou tumulto na manhã desta quarta-feira (21/12) na Câmara de Vereadores.  Após a aprovação do projeto do Governo Municipal que instituiu o chamado camelódromo, por 33 votos a zero, os vereadores, inflamados, debateram as 27 emendas do projeto. Os ambulantes pressionaram os politicos até o último momento. Vaias e palmas oscilaram a cada discurso.  A mureta de separação entre o plenário e as galerias ficou tomada.

    Os CPCs serão espaços privados destinados a camelôs, que passam a ser denominados comerciantes populares. Além do já definido na Praça Ruy Barbosa, outros poderão ser construidos. Os ambulantes que exercem suas atividades no centro da cidade deverão ser cadastrados pela Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) para ocupar espaços no CPC. A principal reivindicação dos camelôs, que era a permanência nas ruas até a conclusão da construção do camelódromo no terminal Ruy Barbosa, foi atendida. Depois da implantação dos centros populares a prática de comércio ambulante, em vias e logradouros públicos, acarretará a apreensão de equipamentos e objetos que constituírem a infração, combinada com multa de 600 Unidades Financeiras Municipais (UFMs), que dobrará a cada reincidência.

    Ficou acertado também, através da emenda do vereador Raul Carrion (PcdoB), a preferência na destinação dos espaços aos ambulantes atualmente cadastrados na Smic. O comércio informal, conforme o texto, passará a ser exercido exclusivamente no referido Centro Popular. O projeto estabelece que o uso de espaços pelos comerciantes no CPC será válido por um ano, sendo renovável por igual e sucessivos períodos.

    A emenda do vereador Adeli Sell (PT), que proíbe os camelôs instalados nos CPCs de comercializar produtos piratas ou oriundos de roubo, foi aprovada. A mesma emenda ainda proíbe os ambulantes de vender, transferir, ceder, emprestar ou alugar os estandes para terceiros. Quem descumprir as determinações perderá o alvará.

    Os ambulantes deficientes visuais terão preferência de localização e de acesso compatível com sua condição física, segundo a emenda da vereadora Clênia Maranhão (PPS).

    Secretário Cecchin (e) discute o projeto com os vereadores (Foto: João Fiorin/PMPA/JÁ)

    Oposição se diz traída

    Em acordo preliminar à votação, os partidos de oposição acataram a aprovação do projeto – ao qual inicialmente eram contra – com a garantia de que houvesse acordo também em relação às emendas. Porém, não foi o que aconteceu no plenário.

    Uma das mais importantes, que garantia a participação dos ambulantes em todo o processo de viabilização da construção,  incluindo o edital, as licitações e a obra, foi derrubada pela situação, o que provocou a ira dos oposicionistas. Os vereadores Carlos Comassetto (PT) e Paulo Odone (PPS) travaram um caloroso embate, chegando a ensaiar empurrões. Os ambulantes terão acesso às reuniões para definir aumento de aluguel.

    A mesma reação foi vista após as bancadas situacionistas votarem contra a descentralização dos shoppings populares. A idéia inicial era manter centros populares também nos bairros, mas Odone classificou a proposta de inócua, e a bancada inteira do PPS, e de todos os outros partidos aliados do governo, votaram contra. Novo embate entre os dois lados, mais tensão.

    Comassetto acusou novamente a situação, dizendo que se sentia traído mediante a atitude dos vereadores. O bate boca durou até o termino da votação das emendas.

    “Tiraram o nosso prato de comida e deixaram uma colher”, diz ambulante

    Essa frase simboliza o sentimento dos camelôs presentes na sessão extraordinária da Câmara, nesta quarta-feira. Eles estavam indignados porque julgam que a medida da Prefeitura irá descaracterizar a atividade. “Era o que eles queriam. Não foi discutido, mas mesmo assim, eles proclamam que a gestão é a do debate”, reclama Alfonso Limberger,  que trabalha há 22 anos no centro da Capital.

    Limberger é representante da Associação Gaúcha Autônoma de Vendedores Profissionais Transitórios – AGAVIPT, que desde o começo do processo foi contra os CPCs, mas garante que todos os regularizados acatarão a decisão do Legislativo. Ele não acredita que a medida irá funcionar, pois, segundo ele, os “caixinhas” – vendedores não regularizados – não sairão das ruas.

    O presidente da Associação da Feira da Rua da Praia, Juliano Fripp, que expõe seus produtos há 15 anos na Andradas, diz que a proposta dos CPCs surgiu no “seio” da Associação. “Somos favoráveis ao projeto, mas as garantias de participação não foram dadas”.

    Com os olhos marejados, a senhora Helena Fiorentino, ambulante há 36 anos, diz que não sabe o que vai fazer. “Tenho aluguel da casa para pagar, as contas e mais esse aluguel, agora, sou uma camelô falida”, reclamava.

    CPC, na Praça Ruy Barbosa, vai abrigar entre 800 e 900 camelôs

    Fiscalização vai continuar

    O secretário Municipal de Indústria e Comércio, Idenir Cecchim, comemorou a aprovação e adiantou que a Secretaria já iniciará a preparação do edital. Salientou que o processo será através de concessão de uso. Ele não descartou, porém,  a possibilidade de utilizar as  Parcerias Público-Privadas, pois a Prefeitura não tem dinheiro para investir. Serão aceitos investimentos privados e públicos.

    A emenda que proibia que o mesmo investidor participasse da construção de mais de um CPC não foi aprovada. Os ambulantes temem o monopólio dos camelódromos. O secretário assegurou que a fiscalização será mantida mesmo após a retirada os ambulantes das ruas. De acordo com ele, com a saída dos cadastrados facilitará o controle dos “caixinhas”.

  • O parlamento e o escárnio ao povo

    Vilson Antonio Romero (*)

    “Após ouvir as lideranças partidárias, cheguei à conclusão de que, em função dos desafios e atividades do Congresso, da votação do Orçamento, do trabalho do Conselho de Ética, dessa situação extraordinária, o melhor para o funcionamento das instituições é a convocação”. Com esta afirmativa, o presidente da Câmara dos Deputados, o membro emérito do Partido Comunista do Brasil do estado de São Paulo, Aldo Rebelo, sacramentou uma das mais escancaradas zombarias ao povo brasileiro dos últimos tempos.

    Após um ano inteiro enlameados pelas denúncias de corrupção, “mensalões”, desmandos, obstruções às votações de interesse da Nação e muito pouco trabalho prático, logram os senhores parlamentares uma “premiação” de final de ano que contribui mais uma vez para consolidar a péssima imagem do Congresso e seus membros (como se eles estivessem ligando para isto!).

    Todos os 513 deputados federais e os 81 senadores da República estão “convocados para trabalhar extraordinariamente” no período de 16 de dezembro a 14 de fevereiro. Mas o cenário do primeiro dia repete a história de outras convocações de triste memória (para nós, eleitores!): só quatro dos 594 parlamentares foram vistos circulando e na Câmara nem o plenário abriu na sexta-feira, 16.

    É óbvio: durante todo o ano a maioria comparece à Brasília somente da tarde de terça até o final da manhã de quinta-feira. Como pretender que, no mês de dezembro, estejam presentes numa sexta-feira?…

    Mas, o pior não é isto… O escárnio parlamentar ao povo brasileiro está no fato de que, até fevereiro, as “suas excelências” receberão oito subsídios de R$ 12,8 mil cada, mais de R$ 102 mil em três meses, para a maioria nada fazer. Expliquemos: além dos salários destes meses, do 13º salário e dos dois subsídios pela convocação extraordinária, eles perceberão mais um subsídio extra pelo fim do ano legislativo (em dezembro) e outro pelo início do ano legislativo de 2006 (em fevereiro).

    Agravante: no primeiro mês, somente um quarto do Legislativo federal estará obrigado a se apresentar no Congresso: os 88 membros da Comissão Mista do Orçamento, os 15 do Conselho de Ética e os 47 deputados e senadores das CPIs dos Bingos e dos Correios.  Os demais ganharão sem trabalhar… O que não é nenhuma novidade!

    Na retrospectiva do ano, a fraca produção dos projetos de efetivo interesse aprovados abrange: no início do ano, em março, a lei de biossegurança, depois, no final de junho, a PEC paralela da previdência e, no apagar das luzes de 2005, de afogadilho, a proposta que cria a Timemania e as MPs 232 e do Bem. Projetos relevantes como a reforma tributária, a Super Receita e a reforma política foram sendo “roladas e enroladas” e agora foram incluídas na pauta.
    O dinheiro pago pela convocação extraordinária – quase R$ 100 milhões -, só para termos uma idéia, é suficiente para conceder o aumento divulgado de R$ 50 ao salário mínimo para mais de dois milhões de aposentados do INSS, pelo menos por um mês.

    Por estas e outras, que perdem a razão os congressistas em reclamar quando músicos como os Titãs lhes dedicam alguns versos mais incisivos ou quando as pesquisas de opinião colocam os políticos no fim da fila da credibilidade e confiança por parte da população.

    É com melancolia e exemplo pouco edificante como este que fecha a cortina do ano da graça de 2005 para o Parlamento brasileiro.  Apesar de eles estarem com o dinheiro no bolso…
    ………………………………………………….
    (*) jornalista, servidor público, diretor da Associação Riograndense de Imprensa, consultor da Fundação Anfip de Seguridade Social

    email:Vilson.romero@terra.com.br

  • Inaugurada Feira de Natal do Brique


    A feira atraiu o público no final da tarde
    (Fotos: Carla Ruas/Jornal Já)

    Carla Ruas

    Os expositores do Brique da Redenção, em conjunto com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, conseguiram recuperar o Monumento do Expedicionário em tempo para as comemorações natalinas. A abertura oficial da  Feira de Natal e das celebrações de final de ano foi realizada na noite desta segunda-feira (19), na José Bonifácio, ao lado do Parque Farroupilha.

    Com o monumento já limpo e iluminado, a celebração no Brique teve a sua abertura em clima de festa. O público já pode conferir a Feira de Natal até o dia 23, sempre das 17h até às 22h. Estão expostos artesanatos, roupas, obras de arte e bijuterias, além de produtos especiais de Natal, como panetones e bonecos de Papai Noel.

    Iedda Louri Bordin, dona da banca Trapus e Fiapus, trabalha com o gorro do Papai Noel e está animada: “A expectativa para a Feira de Natal é muito boa, porque desde a metade do ano os clientes perguntam se a gente iria abrir nesta data”. Os seus produtos são de decoração em pachwork e são uma boa opção como presente.

    Até o dia 23, ainda ocorrerão apresentações de Natal, todas as noites, às 20h, em um palco montado em frente ao monumento. Para abrir a programação, o Coral da Ulbra cantou canções natalinas.

    Com esta iniciativa, os artesãos buscam promover o espaço, atraindo as famílias para visitar. “Queremos que o Brique volte a ser uma referência para a cultura e o lazer”, explica Márcia Bodoy, uma das organizadoras.

    Para realizar a inauguração oficial do evento, Flora de Oliveira compareceu representando a primeira-dama do município. Ela enfatizou a parceria da prefeitura com o Brique da Redenção na Campanha do Brinquedo, realizada pelo Gabinete da Primeira Dama. “Quero fazer um apelo para que as pessoas façam doações de brinquedos quando visitarem a Feira de Natal do Brique”.

    Flora conta que neste  final de ano a arrecadação tem sido muito baixa. “Estes brinquedos vão para entidades da capital e do interior, por isso a demanda é grande”. Os postos de arrecadação estão na Redenção, rede Zaffari Bourbon, Banrisul, Banco do Brasil e Tudo Fácil.

    Veja a programação cultural da Feira de Natal

    (sempre às 20h)

    20/12 – Grupo Coro e Vozes de Montenegro

    21/12 – Coral da Universidade La Salle e Coral Doces Encantos da Florestal Nelgebauer

    22/12 – Pianista Clássica Dionara Schneider

    23/12 – Grupo de Dança Cuba Brasil e às 23h30, Banda Back on The Road (anos 60-80)

    Vandalismo


    Já recuperado, o monumento está decorado para o Natal

    Desde a manhã desta segunda-feira (19), artesãos se reuniram para consertar o estrago feito por vândalos durante a madrugada de sábado para domingo. Até às 17h, o trabalho estava completo. “A SMAM retirou a pixação que havia sido realizada e os expositores recolocaram as lâmpadas”, explica Clóvis Breda, administrador do Parque Farroupilha.

    Para ele, esta iniciativa de vandalismo surpreendeu, apesar deste tipo de conduta ser comum nos arredores do parque. “Achávamos que eles iriam respeitar pelo menos a decoração de natal”, afirma.

    Breda conta que estes atos ocorrem porque falta segurança durante a noite na Redenção. “De dia temos cinco guardas-parques fazendo o policiamento, mas à noite são apenas dois, que ficam restritos ao mini-zoo”. Ele ainda afirma que a Brigada Militar, que deveria trabalhar 24 horas no parque, diminuiu muito a sua atuação ao longo deste ano. “Não existe mais uma patrulha constante, porque falta equipamento no 9° BPM, que é responsável pela região”.

    Para que não ocorram mais estes atos de vandalismo, a SMAM garante que está trabalhando em conjunto com a Brigada Militar para identificar os responsáveis e prendê-los em flagrante. Para isso, eles contam com denúncias e com o trabalho da Inteligência da Brigada. “Não sabemos quem foi e não podemos acusar ninguém sem provas”, completa.

    Leia mais sobre o ato de vandalismo

  • Rebeldes sem causa


    Expositores vão somar esforços para terminar em tempo o conserto
    (Fotos: Naira Hofmeister/Jornal Já)

    Naira Hofmeister

    Na sexta-feira, 16, após três dias de trabalho contínuo, a decoração de Natal da Feirinha do Brique ficou pronta. Iniciativa dos próprios artesãos, a iluminação do Monumento do Expedicionário e a instalação de energia elétrica ao longo do canteiro central da José Bonifácio, foi realizada pelas talentosas mãos dos expositores. Com um custo total de mais de 12 mil reais, a maior parte – cerca de 10 mil – veio do bolso deles. O Banrisul ajudou com R$ 1.800, patrocínio para a compra do material para enfeitar os simbólicos arcos da Redenção.

    O dinheiro e o trabalho: tudo perdido. Na manhã de sábado, os artesãos se depararam com o monumento pichado e toda a rede de luzes destruída. A suspeita recaiu sobre os vândalos que vêm travando um guerra particular com restauradores locais: “Isso não é coisa de moleque de rua, pois estes, não gastam o pouco dinheiro que conseguem em spray”, analisa João Batista. Ele e seu colega Paulo, amanheceram a segunda-feira, montados novamente na enorme escada, na tentativa de remendar as mangueiras de luzes. “Dinheiro para uma nova, não temos. Aqui tem mil e quatrocentos reais”, disse Paulo, desolado diante da parte inutilizada do material.

    Exposição ao ridículo. Esse deveria ser o castigo para quem pratica os atos contra o patrimônio público, na opinião dos dois. Policiamento, eles pedem, “mas não tem como garantir”, explicam. A solução encontrada foi montar guarda por conta própria. O grupo – que já ficaria na rua durante a noite, guardando as barracas – vai esticar a vigilância até o outro lado da rua.

    Protesto? “Eu sempre achei que se alguém quiser ter uma história para contar aos filhos e aos netos, deve ser rebelde de alguma forma. Mas assim, sem motivação intelectual, eu não consigo entender”, se questiona Batista.

    No período da tarde, outro grupo de expositores vai somar esforços para terminar em tempo o conserto. Eles esperam que até às 17h, na abertura oficial da Feira de Natal do Brique da Redenção, tudo esteja como antes, ou, no mínimo, o mais próximo possível. A feirinha fica aberta todos os dias, até sexta-feira, sempre das 17h às 22h.

  • Aprovada contribuição para iluminação pública

    A nova contribuição entra em vigor nos próximos meses (Foto: Arquivo JÁ)

    Helen Lopes

    Os vereadores da base do governo municipal, na Câmara Municipal, aprovaram por 20 votos a 15, o projeto que institui cobrança para custeio da iluminação pública na Capital. A Contribuição para Iluminação Pública (CIP) entra em vigor no próximo ano, assim, que a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) estabeleça um sistema de cobrança.

    O Projeto de Lei estabelece a cobrança a partir de cotas fixas, de R$ 2,80 e R$ 8,90, residencial e não-residencial, respectivamente. Ficou firmado ainda que os contribuintes vinculados a tarifa social de baixa renda e os contribuintes não abrangidos pelo serviço de iluminação pública serão isentados da tarifa.

    A líder do governo na Casa, a vereadora Clênia Maranhão, festejou o resultado. Para ela, a CIP é importante porque dá condições ao governo de realizar melhorias na iluminação o que irá se refletir na segurança da comunidade. Lembrou ainda que os vereadores da oposição devem ter coerência em relação com a sua história. A vereadora votou favorável ao projeto em 2003 e manteve o voto.

    A emenda do vereador João Antônio Dib, que restringia a cobrança a cinco anos, não foi aprovada. Dib argumentou que a medida pretendia dar um prazo à Prefeitura para se organizar. “Depois de cinco anos, a Prefeitura já deve ter condições para pagar sozinha”.  A vereadora Maristela Meneghetti (PFL) votou contra porque diz ser um compromisso nacional do partido lutar pela redução de imposto.

    A vereadora Sofia Cavedon alertou que “não pode ser cobrada a mesma taxa para pessoas diferentes”. Ela criticou a igualdade de valor, por ser o mesmo para pessoas com rendas diferentes. No projeto anterior, aprovado em 2003, mas que não foi implementado por questões judiciais, o valor da taxa era determinada a partir da renda do cidadão.

    O secretário da Fazenda do Município, Cristiano Tatsch, disse que com a nova receita a Prefeitura poderá cumprir os acordos com o setor de energia elétrica, além de ampliar a rede de iluminação pública. Segundo ele, a dívida da Prefeitura com a CEEE gira em torno de R$58,5 milhões. Comentou, ainda, que “saindo da inadimplência, o município terá cesso aos R$ 10 milhões destinados à saúde que estão trancados”.

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    Aprovado parecer favorável à taxa de iluminação [12/12]

    Em reunião conjunta realizada nesta segunda-feira (12/12), as comissões de Constituição e Justiça (CCJ), de Economia e Finanças (Cefor), de Urbanização (Cuthab) e de Defesa do Consumidor (Cedecondh) da Câmara Municipal de Porto Alegre aprovaram parecer do vereador Professor Garcia (PPS) favorável ao projeto de lei do Executivo que institui a cobrança da Contribuição sobre a Iluminação Pública (CIP) no município.

    Com este resultado, dentro de 48 horas o projeto estará apto a ser votado pelo Plenário. A  votação deve acontecer na quarta-feira(14/12). Como o governo tem ampla maioria, o projeto deve passar sem surpresas. Entretanto, o curioso é que as posições se inverteram: os vereadores da antiga oposição, atual situação, que na legislatura passada foram contrários, hoje, são favoráveis e os vereadores do PT que antes defendiam, agora, são contra.

    Segundo o líder da bancada petista, vereador Carlos Todeschini, o PT votará contra porque é uma nova proposta. Ele argumenta que o valor previsto é maior do que no projeto da administração passada. O PC do B ainda não decidiu, mas a vereadora Manuela D’Avila disse que as diferenças em relação ao anterior são muitas, ressaltou, principalmente, a ausência de proporcionalidade.

    O vereador João Dib (PP) encaminhou uma emenda restringindo para cinco anos a cobrança. A bancada progressista vota favorável, se a emenda for acatada. Os vereadores do PSDB, Luiz Braz e Cláudio Sebenelo, afirmam que por uma postura coerente e compromisso de não aumentar impostos, votam não.

    A proposta do Executivo prevê a cobrança de uma taxa de R$ 2,80 dos consumidores residenciais e de R$ 8,90 dos não-residenciais para custeio da iluminação pública. Estarão isentos da cobrança os consumidores que pagam a chamada tarifa social de baixa renda e aqueles que não são beneficiados pelo serviço de iluminação pública.


    Câmara debate taxa de iluminação pública

  • Chegam as superhélices da usina eólica de Osório

    Hélices do primeiro cata-vento chegaram neste sábado (Foto: Geraldo Hasse)

    Geraldo Hasse, de Osório, exclusivo para o Jornal JÁ

    Já estão no canteiro da obra, as três hélices do primeiro cata-vento da usina eólica de Osório, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Elas chegaram no sábado (17/12) debaixo de um esquema especial de transporte. Cada pá exigiu uma “centopéia” de 40 metros de comprimento e ainda assim ficou sobrando uma ponta de uns cinco metros na traseira desse supertruck.

    Também já está posicionado o gigantesco guindaste – pode-se ver de longe, muito longe: até da BR-290 (Free Way) –que será usado na montagem da torre de 98 metros em cima da qual se acoplará o gerador de 2 MW.

    Ainda faltam alguns dias, mas aproxima-se um dos momentos cruciais da história da construção da maior usina eólica da América Latina: para a delicada operação de montagem do gerador no alto da torre, a Archel Engenharia vai precisar de vento zero — ou quase isso.

    Se o nordestão soprar três dias como de costume, os técnicos vão ter de ficar de braços cruzados esperando a calmaria. E aí pode pintar mais um atraso no cronograma. Inicialmente, o primeiro cata-vento funcionaria em dezembro deste ano; com o atraso provocado pelas chuvas e, principalmente, pela demora na liberação do financiamento pelo BNDES (só assinado no dia 5 de outubro), a operação inicial está prevista para o final de janeiro de 2006, com festa para o presidente Lula, o governador Germano Rigotto e o prefeito Romildo Bolzan Jr.

    Trabalhando até sábados e domingos, as equipes construtoras conseguiram recuperar boa parte do atraso provocado pelas chuvas do início da primavera. Passados dois meses desde o início das obras, todo mundo já se familiarizou com o projeto, que engrenou e virou rotina nos varjões do sul de Osório, onde se espalham as placas de sinalização da Elecnor, dona da usina. Até os guardas, antes tensos nas guaritas, já não estranham a chegada de curiosos que se aproximam com perguntas na ponta de língua. A maior curiosidade é sobre a profundidade dos alicerces das 75 torres.

    A pergunta faz sentido porque o estaqueamento de obras de engenharia, mesmo as mais simples, costuma dar dores de cabeça no litoral norte do Rio Grande do Sul. Em residências construídas perto das lagoas que abundam na região, usam-se estacas de até sete metros; em áreas arenosas – por incrível que pareça, a areia oferece mais firmeza, graças à abrasão –, pode-se recorrer ao sistema de sapatas ou sapatas corridas, que dispensam maior profundidade. Mas no caso das torres eólicas, que pesam 800 toneladas e precisam resistir ao impacto dos ventos e às tensões geradas pela rotação das hélices, as estacas podem passar de 30 metros de fundura.

    Pelo tamanho, ineditismo e complexidade da obra, a população de Osório acompanha com atenção o desenrolar do empreendimento, mas não compreende que o preço da energia elétrica vá permanecer o mesmo, sem beneficiar pelo menos os moradores de Osório, “a capital dos bons ventos”.

    Sempre que são cobrados sobre esse paradoxo, os técnicos da Elecnor explicam que não têm nada a ver com o preço, pois a energia gerada pelos cata-ventos será entregue à CEEE, que a colocará em sua rede. Em resumo, dizem os produtores, a energia dos ventos de Osório será útil à população gaúcha por dois motivos principais: 1) tornará mais seguro o abastecimento geral, sobretudo se entrar na rede da CEEE nos horários de maior demanda (final da tarde/início da noite); 2) aumentará a eficiência do abastecimento nos períodos de pós-estiagem, quando as hidrelétricas precisarem economizar água em suas represas.

  • Ativando a memória: 25 anos sem Nelson Rodrigues

    Naira Hofmeister

    Vinte e cinco anos se passaram, mas a polêmica que sempre envolveu a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues continua em voga. A despeito da opinião sobre suas temáticas, todos concordam numa coisa: Nelson foi, sem a menor dúvida, um dos mais importantes autores teatrais brasileiros. Sua peça Vestido de Noiva, que se desenvolve em três planos diferentes – da memória, da realidade e da alucinação – é até hoje sua obra mais elogiada.

    Na opinião do diretor do depósito de Teatro, Roberto Oliveira, “revolucionou e renovou e teatro nacional”. Os personagens de Nelson Rodrigues são densos, vivem sempre situações extremas de obsessão, geralmente ligadas ao sexo e à morte. “Nelson era apelidado de Flor de Obsessão, o que, muitas vezes o levou a ser taxado de tarado, por exemplo”, explica Oliveira. Apesar do estigma, decorrente das cenas ardentes de sexo, presentes na maioria da sua obra, Nelson Rodrigues era um homem ‘de família’. Casou duas vezes e teve filhos.

    Além da tara, o dramaturgo foi também acusado por alinhar-se à extrema direita durante o Golpe Militar de 1964. “Ele apoiou a ditadura até que precisou rever suas posições, quando um de seus filhos morreu nos porões da  tortura”, conta o Oliveira.

    O professor Sábato Magaldi, um dos mais antigos admiradores de Nelson Rodrigues, organizou suas obras completas e escreveu uma tese acadêmica a seu respeito. Para ele, Nelson foi o fundador do moderno teatro brasileiro. Na época, em importância, cita apenas Oswald de Andrade. Outros, entendem que autor criou personagens vazios, esquemáticos e repetitivos, variações em torno de Palhares, o canalha, que tentava agarrar a cunhada atrás da escada. Enfim,  uma das frases mais definitivas de Nelson: “Toda a unanimidade é burra.”

    Suas imagens são divertidas, como “tremeu dentro dos sapatos”. Tem o início de  O Casamento: “Sabino vai comprar cigarros. Enquanto esperava o troco, viu um sujeito bater nas costas do outro e berrar: Todo o canalha é magro! Por mais estranho que pareça, aquilo doeu-lhe como uma desfeita pessoal. Apanhou o troco e veio caminhando. O sujeito ainda repetiu, com a mesma ferocidade jucunda: O canalha é magro. Com surda cólera, Sabino pensa, como alguém que se justifica ou se absolve. ´Eu não sou canalha´”.  Em “Asfalto Selvagem” o promotor Odorico diz: “Assim é o povo: tem fome de sangue e escremento”.

    O mais importante, apesar das críticas que sofreu – e ainda sofre – por parte de muitos estudiosos, é que, 25 anos depois de sua morte, o universo rodrigueano permanece atual, moderno, instigante. E pensando nisso, o Deposito de Teatro, que, desde a sua criação esteve ligado à obra do pernambucano, programa atividades a partir dessa sexta-feira (16), para debater, pensar e, principalmente, assistir Nelson Rodrigues.

    Espalhados por alguns pontos da capital, como a Usina do Gasômetro, o DAD, o próprio Depósito e a rua, atores da trupe e alguns agregados – como  a atriz Tainah Dadda e Caco Coelho, diretor da Usina do Gasômetro – estarão apresentando esquetes, peças completas e promovendo seminários para repensar e compreender (ou não) Nelson Rodrigues.  “É muito importante salientar que os próprios atores estão custeando esse projeto, com entrada franca em todas asatividades, pois mais uma vez, não conseguimos parceiros que invistam no teatro em Porto Alegre”, sublinha Oliveira.

    Programação todas as atividades têm entrada franca

    Sexta-feira, 16, 20h30
    *A Falecida*
    Leitura e Bate-Papo com os diretores: Roberto Oliveira e Fernando Kike Barbosa
    Onde: Sala 505 – Usina do Gasômetro

    Sábado, 17, 20h30
    *O Beijo no Asfalto* – vídeo
    *Boca de Ouro* – vídeo
    Bate papo sobre Nelson com Caco Coelho, diretor da Usina
    Onde: Café da Usina – Usina do Gasômetro

    Domingo, 18, 20h30
    *Nelson Despedaçado *
    Espetáculo de teatro
    Onde: EntreAto Bar – República, 163

    Segunda-feira, 19, 18h30
    *Nelson Despedaçado*
    Espetáculo de teatro
    Onde: Depósito de Teatro – Benjamin Constant, 1677

    Terça-feira, 20, 21h
    *Bonitinha mas Ordinária*
    Espetáculo de teatro
    Onde: Depósito de Teatro

    Quarta-feira, 21, 18h30
    *Perdoa-me por me traíres*
    Espetáculo de teatro
    DAD – Estúdio 3 – Cidade Baixa

    22h
    *Assalto Teatral*
    Performance teatral na rua
    Cidade Baixa – República, esquina com a Lima e Silva

    Quinta-feira, 22, 21h
    *Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo.*
    Espetáculo de teatro
    Depósito de Teatro

    *A Falecida*

    Conta a história de uma mulher frustrada do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, que não vê mais expectativas na vida. Pobre e doente, sua única ambição é um enterro luxuoso. Quer se vingar da sociedade abastada e, principalmente de Glorinha, sua prima e vizinha que não lhe cumprimenta mais. O marido, Tuninho, está desempregado e gasta as sobras da indenização jogando sinuca e discutindo futebol.

    Um pouco antes da morte, Zulmira manda Tuninho procurar o milionário Pimentel para que pague o enterro. Zulmira não dá maiores explicações nem diz como conhece o empresário milionário. Pede apenas para que o marido se apresente como seu primo. Tuninho acaba descobrindo que Pimentel e Zulmira foram amantes. Toma-lhe o dinheiro, mas dá um enterro “de cachorro” à Zulmira e aposta o dinheiro todo num jogo do Vasco no Maracanã.

    *Nelson Despedaçado* (Episódio IV)

    Direção: Daniel Colin

    Os episódios da série Nelson Despedaçado são baseados em contos de Nelson Rodrigues e contam com a participação dos artistas do Depósito de Teatro, além de alguns atores especialmente convidados. O episódio IV traz trechos dos contos Macaco, Fome de Beijos, Toquinhos de Braços e Sórdido, de Nelson Rodrigues, e é marcado pela amargura do autor para ressaltar a solidão e a carência emocional das personagens, cujas histórias se interligam de modo quase acidental, e cujas obsessões pessoais justificam qualquer atitude ou conduta.

    *Bonitinha, mas Ordinária*

    Direção: Fernando Kike Barbosa

    Em tempos insanos como esses que marcam a política no Brasil
    do novo milênio, assombrado por fraudes e escândalos, a obra do maior dramaturgo nacional comprova mais uma vez a imortalidade do Gênio. Em Bonitinha mas Ordinária, Nelson Rodrigues fala de um Brasil corrupto, com gigantescos contrastes sociais e, imobilizado por uma feroz elite e seus caprichos dominadores.

    Neste ambiente todos são corruptos ou corruptíveis, contrastando libido e moral em uma luta vertiginosa, como de costume nos personagens e tramas do autor. A peça conta a história da rica e depravada família Werneck e da tentação de Edgard, pobre contínuo da empresa do milionário dr. Werneck. Peixoto, genro do magnata faz ao funcionário uma proposta tentadora – o casamento com a filha de dr. Werneck – e lhe entrega um cheque astronômico . A trama inteira irá girar em torno das hesitações de Edgard – que ama sua vizinha, Ritinha -, até sua escolha final.

    *Perdoa-me Por Me Traíres – Uma Fração de Solidão*

    Direção: Tainah Dadda

    Esquete baseada na obra de Nelson Rodrigues, tem como ponto de partida o ingresso da adolescente Glorinha no universo da prostituição que, guiada pelas mãos de sua amiga Nair, acaba envolvendo-se na rede de corrupção e desejos reprimidos que regem o bordel de Madame Luba e seu braço direito na administração da casa, Pola Negri.

    Resultado final do quinto semestre do curso de Artes Cênicas da
    Ufrgs, este projeto enfoca as relações de obsessão e dependência engendradas pela solidão das personagens. Para tanto, aposta numa estilização visual, cujas referências à estética oriental pretendem evocar a esterilidade da vida das quatro personagens, camufladas pelo clima artificial da sensualidade que as cerca.

    *Assalto Teatral – Performance de Boca de Ouro*

    Direção: Roberto Oliveira e Sandra Possani

    Vinte casais encenam ao mesmo tempo (mas de formas diferentes) trecho da briga entre o casal Leleco e Celeste. Ele viu a mulher em um táxi com um homem de aproximadamente 50 anos, o bicheiro Boca de Ouro. Leleco, que não conseguiu reconhecer o homem, mas garante ter visto a mulher, exige que ela confesse a traição e diga o nome do suposto amante. Celeste resiste até, que ameaçada pelo marido, conta tudo.

    *Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo*

    Direção: Alessandra Chemello

    Através de Myrna, personagem de Nelson Rodrigues, o espetáculo penetra no inquietante mundo de dúvidas e anseios das mulheres que amam e, incondicionalmente, sofrem. Têm-se os relatos mais reais e, por isso os mais tristes e irônicos momentos da vida humana, ilustrados através da dança contemporânea, aliada a   outras linguagens como o teatro, a música, e a uma boa dose de sarcasmo, tal qual os textos de Nelson.