Autor: Elmar Bones

  • Frei Betto lamenta acomodação da sociedade e a democracia virtual

    Para o Frei Beto, uma das soluções para resolver o problema da fome no Brasil seria o não pagamento do total da dívida externa (Foto Divulgação)

    Patricia Benvenuti
    O Brasil é o único país no mundo batizado com nome ecológico. Possui 6% da água potável do planeta e produz produtos agrícolas indispensáveis à alimentação. Fora um ou dois tremores de terra no Nordeste, não é afetado por fenômenos naturais graves como terremotos, desertos ou vulcões. Mesmo assim, o país não é o paraíso que poderia ser. Essas são palavras do ex-assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, frei Betto, que procurou explicar esse paradoxo no 7º Seminário Estadual e 6º Internacional sobre Agroecologia, encerrado na sexta-feira (18/11), em Porto Alegre.
    Por meio de reflexões filosóficas e políticas, o ex-assessor apresentou o painel Ética, ecologia e cidadania , o último do evento. De acordo com ele, há quatro grandes fatores de morte no mundo: guerras e terrorismo, acidentes de trânsito, doenças e fome. Os indivíduos que não são afetados pelo último fator apenas se previnem contra os demais. “Somos indiferentes ao alheio. Não temos noção de dívida nem de responsabilidade social. A fome é a que mais mata e sobre a que menos se faz. É o único que faz distinção de classe, mata só os miseráveis”, lamenta.
    Ética, ecologia e cidadania: relação com a política
    A questão da ética, da ecologia e da cidadania, segundo o frei, passa, necessariamente, por aspectos políticos. “Não existe falta de alimentos no mundo nem excesso de bocas, o que falta é justiça”, afirma.
    Os números indicam que a quantidade de alimentos produzidos no mundo seria suficiente para alimentar 11 bilhões de pessoas, sendo que o planeta possui 6,4 bilhões de habitantes. No caso do Brasil, é o primeiro produtor mundial de carne e o segundo de soja. “Isso mostra as injustiças sociais. Produzimos alimentos, mas o povo não tem o que comer. Ainda pensamos que exportar é a solução, mas boa parte desse dinheiro fica no exterior e na mão de poucas empresas”, salienta o painelista.
    Outro ponto apontado pelo frei como uma injustiça social são os subsídios agrícolas. Cada país rico aplica, diariamente, 1 bilhão de dólares em seu território, enquanto a cooperação aos países pobres chega ao mesmo 1 bilhão de dólares, só que ao ano. Ele destacou, ainda, o financiamento vinculado, em que esses países aplicam certa quantia nos territórios subdesenvolvidos, mas, em troca, obrigam a comprar seus produtos.
    Para o frei, uma das soluções para resolver o problema da fome no Brasil seria o não pagamento do total da dívida externa, a fim de melhorar a qualidade de vida da população. “Sou contra o calote , porém nos casos de miséria não parece haver saída. Mas, para acontecer isso, o governo precisaria de uma vacina Fidel Castro com [Hugo] Chávez”, ironiza.
    Embuste da democracia virtual
    Frei Beto reiterou que o quadro nacional e mundial é preocupante, e que o grande problema não é a relação entre número de pessoas na Terra e os recursos naturais, e sim a apropriação desses pelas elites, que não permitem que o resto possa usufruir. – Temos a ilusão de que vivemos em uma democracia, mas esse é um embuste imposto pelo sistema capitalista. Nossos direitos não são reais, são apenas virtuais.
    A sociedade civil, da mesma forma como as ONGs, os sindicatos, e os movimentos, têm, na visão do frei, dificuldades em unir esforços. “Não sabemos unir as bandeiras, não somos solidários. Só sabemos assistir aos outros pela televisão”, lastima. Lembrou também que o povo deveria cobrar mais, pedir as contas aos governantes, mas o estágio de todos hoje é o de acomodação.
    ”Falar de ética é falar de valores, falar de ecologia é de como se aplica esses valores na proteção do meio ambiente. Falar em cidadania é falar de como nos comportamos e lidamos com esses valores. A sociedade atual, infelizmente, passa por uma crise de valores, e o planeta está mercantilizado em todos os seus aspectos. Inclusive o meio ambiente”, conclui frei Beto.

  • Recorde à vista no Turismo

    Wilson Müller*

    O ingresso de turistas no Brasil vem apresentando números muito positivos. Até setembro, os viajantes deixaram 360 milhões de dólares no país, ou 40,07% a mais em relação ao mesmo mês de 2004, e 5,6% acima de janeiro deste ano, que havia sido o melhor mês da história. Visitar o Brasil parece estar na moda no mundo. Isso, porém, não acontece por acaso. A situação resulta de ativa estratégia turística desenvolvida pelo país no exterior, na qual os Escritórios Brasileiros de Turismo do Brasil (EBT) desempenham papel essencial.

    Os EBTs, que atuam em parceria com a Federação dos Conventions Visitors Bureau, tem a missão de consolidar o nosso país como destino turístico entre os melhores que existem. O primeiro EBT foi instalado em Lisboa, em janeiro de 2004, e o mais recente surgiu em setembro de 2005, em Madri. Entre  um e outro, o Brasil obteve muita promoção, com a realização de seminários sob o título “Descubra o Brasil”, treinamento para agentes de viagens, apoio para viagens de profissionais de turismo e da imprensa para conhecerem destinos nacionais, bem como estreitamento de relações com o mercado, incluindo operadoras, companhias aéreas e veículos da imprensa.

    No tocante à divulgação do Brasil na mídia, o resultado foi excelente. Segundo Eduardo Sanovicz, presidente da Embratur, até setembro de 2005, mais de 100 matérias sobre o Brasil foram publicadas em jornais e revistas de grande circulação, como o Correio da Manhã, de Portugal, Sunday Times, do Reino Unido, Panorama, da Itália, e o New York Times, dos EUA. A divulgação do Brasil na imprensa estrangeira reforçou as ações dos EBTs, e contribuiu para que mais de 60 novas operadoras internacionais passassem a vender nosso país como destino turístico.

    Ao mesmo tempo, o Brasil conquistou mais projeção na França, com o evento “Ano do Brasil na França”, marcado pela realização de várias atividades promovidas pelo Ministério do Turismo,  Embratur e estados, destacando-se um concurso cultural sobre o nosso país, do qual participaram estudantes de 143 instituições de ensino francesas, com os vencedores premiados com viagens ao Brasil. Já o navio-veleiro Cisne Branco, da Marinha, durante quatro meses promoveu o Brasil aos visitantes que recebia a bordo em portos de cidades francesas do Mediterrâneo, enquanto nas ruas de Paris franceses e turistas do mundo todo conheciam os principais atrativos do Brasil. É realista, portanto, a previsão da Embratur de que o Brasil deverá registrar o recorde de cinco milhões de turistas em 2005.

    * Presidente da Câmara de Turismo do RS

  • Parcão comemora 33 anos

    Prefeito em exercício, vereador Elói Guimarães, e o secretário municipal do Meio Ambiente, Beto Moesch participaram da festa (Fotos: Helen Lopes)

    O Parque Moinhos de Vento, localizado no coração de um dos bairros mais tradicionais de Porto Alegre, amanheceu festivo. Neste sábado, 19 de novembro, a comunidade  comemorou os 33 anos do Parque, que é cercado por bares, cinemas, lojas e academias,  um point dia e noite da moçada.  Em 9 de novembro de 1972, a área passou a ser um espaço de contato com a natureza para os moradores. São 11,5 hectares, entre as ruas 24 de Outubro, Mostardeiro, Comendador Coruja e Goethe.
    Para cantar “Parabéns a você” e cortar o bolo, estiveram presentes o prefeito em exercício, vereador Elói Guimarães, o secretário municipal do Meio Ambiente, Beto Moesch e a madrinha da Biblioteca Infantil, Maria Dinorah Cruz do Prado, além das pessoas que freqüentam o Parque.
    O prefeito em exercício, Elói Guimarães, falou da importância do Parcão e salientou que o espaço “é uma verdadeira academia ao ar livre”. Moesch destacou o esforço da Secretaria no cultivo de árvores na cidade. “Só a Smam plantou quase 10 mil mudas, sendo que 800 delas foram na Terceira Perimetral.”
    Quem passeia no Parcão observa a boa conservação do local, destoando dos outros parques da Capital. De acordo com o secretário, existem vários fatores que contribuem para a atual situação do Parque Moinhos de Vento. “O público daqui reage às campanhas de conscientização, há várias lixeiras, o Parcão é menor e, por isso, a freqüência é menor também” justifica ele. A média mensal de público é de  250 mil. Mas Moesch aponta como principal fator a adoção do Parque pelo Grupo Zaffari e pelo Hospital Moinhos de Vento. “A prefeitura investe, mas essa parceira é o plus a mais. E faz a diferença”. As empresas que adotaram a área auxiliam na manutenção e limpeza.
    No prédio do moinho açoriano ao estilo dos que existiam no bairro nos primórdios da cidade, funciona a Biblioteca Infantil Maria Dinorah voltada para a literatura ecológica, que também comemora aniversário, 20 anos. A biblioteca é pioneira no Brasil, pois tem o objetivo de desenvolver a consciência ecológica no público infanto-juvenil, através da  leitura, recreação e educação ambiental, tudo isso dentro de um parque público.
    A madrinha da biblioteca, Maria Dinorah Cruz do Prado conta que quando chegou em Porto Alegre, ainda na adolescência, no local havia um grande lago, no qual as pessoas pescavam e um homem alugava um braço. Ela lembra que, anos mais tarde, passeava de barco com os filhos.
    A escritora foi escolhida madrinha, entre outros motivos, porque ajudou a construir o acervo da biblioteca. Maria Dinorah, que mora nas proximidades, vem diariamente ao parque. Ela ressalta a conservação como uma das qualidades do Parcão.
    Atualmente, a biblioteca possui cerca de 2.000 títulos, sendo alguns em Braile. Além disso, há uma área reservada para atividades de artes plásticas e culturais. A biblioteca atende de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 17h, e  aos sábados e domingos, das 9h às 13h e das 14h às 18h.
    Um pouco de história
    O nome do Parque Moinhos de Vento tem sua origem no século 18, quando Antonio Martins Barbosa, vindo de Minas Gerais, estabeleceu-se com seu moinho de vento, nas imediações da atual confluência da Av. Independência com a  Ramiro Barcelos. A área conhecida, antigamente, como “baixada” abrigou o Jockey Club e o primeiro estádio do Grêmio.
    Em 10 de setembro de 1962, o prefeito Loureiro da Silva assinou o decreto de desapropriação. Em 09 de novembro de 1972, o Parque de 115 mil m2 foi inaugurado, com o nome de Parque Moinhos de Vento. O Parque está dividido em dois setores um caracterizado pela predominância de equipamentos esportivos; e o segundo, mais utilizado para caminhadas, caracterizando-se pelas funções de recreação e lazer contemplativo.
    Hoje, o Parque Moinhos de Vento oferece opções de lazer como jogging, patinação, quadras de futebol, tênis, vôlei e aparelhos de ginástica. Para o público infantil estão à disposição equipamentos de recreação artesanais feitos de toras de eucalipto.

  • Fundação prepara catálogo com obra completa de Iberê

    Guilherme Kolling

    Depois de cinco anos de pesquisa, a Fundação Iberê Camargo prepara o lançamento do primeiro catálogo com a obra do artista gaúcho que dá nome à instituição. O livro trará a compilação das gravuras e deve estar pronto em março de 2006, numa parceria com a Cosac Naify, considerada a melhor editora em artes visuais do país. Estão previstas outras duas publicações, uma dedicada aos desenhos e outra aos óleos (pinturas).

    Os três módulos formam o conjunto do acervo de Iberê. É o chamado catologue rasonée, um catálogo pensado, que organiza a lista das obras com um determinado enfoque, apresentando a imagem de cada uma com um texto refletindo aspectos do trabalho. “Nas gravuras, optei pelo critério da especificidade técnica”, diz Mônica Zielinsky, contratada pela Fundação para comandar o trabalho.

    A primeira fase está sendo concluída. Foram localizadas 350 gravuras, mas o livro terá 330. “Em algumas fiquei com dúvida sobre autoria, pode ser trabalho de um aluno, por isso deixamos fora”, explica Mônica, que também é professora do Instituto de Artes da UFRGS.

    Além das peças em poder da Fundação, 4.200 ao todo, foram mapeadas obras de coleções públicas no Brasil e no exterior, o que inclui desde o Margs até a Fundação Biblioteca Nacional e instituições da França e dos Estados Unidos. Falta ainda localizar as peças em poder de particulares.
    A listagem das gravuras foi facilitada, já que Iberê guardava um exemplar de cada. Deixou para a viúva e presidente de honra da Fundação, Maria Coussirat Camargo. “De algumas, ela só tinha provas intermediárias, mas conseguimos os originais de quase todas gravuras”, comemora Mônica.

    A próxima etapa será mais trabalhosa. É a catalogação das pinturas, cerca de 1.300, segundo estimativas da Fundação, que possui 217. Finalmente, será feito o trabalho com os desenhos. A instituição dedicada a Iberê Camargo possui quatro mil, mas não se tem idéia do total – há centenas, talvez milhares, espalhados pelo Brasil e exterior. São inúmeras coleções, o que inclui não só museus, mas também acervo de particulares. “Por isso o catálogo é muito importante, abre as fontes primárias ao público, estudiosos e ao próprio mercado, garantindo a autenticidade, isto é, sabe-se que essas são obras legítimas do Iberê Camargo”, define a pesquisadora. No Brasil, apenas o trabalho de Cândido Portinari tem um catalogue rasonée.

    Mônica Zielinsky comemora conclusão da primeira etapa do catálogo

    O mapeamento da obra de Iberê Camargo faz parte dos objetivos da Fundação, que pretende conservar, estudar e divulgar o trabalho do artista gaúcho. “O catálogo é uma difusão qualitativa e pensada”, classifica Monica. Também terá repercussão no valor de mercado da obra. A publicação será distribuída para museus, instituições de arte do mundo. A tiragem inicial será de 1 mil exemplares. Depois serão impressos mais 2 mil. “Com isso, o status da obra do Iberê Camargo cresce e solidifica”, acredita a professora da UFRGS.

    Ao longo da pesquisa, que ela considera sua melhor experiência de vida, foram encontradas diversas novidades no acervo documental e artístico do pintor. Exemplo, uma homenagem a Manuel Bandeira, da qual não se sabia, e dedicatórias deixadas para Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. “São descobertas incríveis, as cartas dele, a relação dele no meio”, empolga-se Mônica Zielinsky. O trabalho começou praticamente do zero, pelas pouquíssimas experiências desse tipo no país. Mesmo assim, a catalogação da obra de Iberê já é vista como referência, já que recebe contribuições de técnicos do país e exterior que já trabalharam em outros catalogue rasonée. A tarefa de catalogar a obra de Iberê é extensa, deve seguir por alguns anos. “O material que existe em coleções privadas é uma coisa interminável, acho que esse mapeamento só vai terminar daqui a uma década, é um projeto de longo prazo”, acredita o vice-presidente da Fundação, Justo Werlang.

    Artista ganhará museu no segundo semestre de 2006

    Autobiografia do artista

    Em 1985, Iberê Camargo escreveu um esboço autobiográfico, na verdade, respostas a questões do crítico e amigo Flávio Aquino para um livro que acabou não saindo. O artista nasceu em 18 de novembro de 1914, em Restinga Seca (RS). Seus pais eram ferroviários. “Comecei a desenhar com quatro anos de idade. Sentado no chão passava horas a fio a rabiscar”.

    Em 1927, Iberê foi para a Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, onde iniciou seu aprendizado de pintura. Em 1936, foi para Porto Alegre, onde trabalhou como desenhista na Secretaria de Obras Públicas e freqüentou o curso técnico de Arquitetura do Instituto de Belas Artes. Casou-se em 1939. Depois, conseguiu uma bolsa do Governo para estudar no Rio de Janeiro. Logo foi à casa de Portinari. “Apesar das recomendações dele, ingressei na Escola de Belas Artes”. Mas o gaúcho logo encerrou sua atividade lá, por um incidente com o professor. Tornou-se aluno de Guignard.

    Em 1947, Iberê partiu para Europa, onde ficou até novembro de 1950. Foi aluno de De Chirico em Roma e Lhote em Paris. “Em 1958, uma hérnia de disco provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-me a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, meus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. Surgem, então, os carretéis. Através de suas estruturas, cheguei ao que se chama, no dicionário da pintura, arte abstrata”.

    Depois de um longo período no Rio, o artista voltou para o Sul. “Devo confessar que, quando corro nas manhãs de sol no Parque da Redenção, noto que a minha sombra não acompanha meu ‘tranco’, ela corre muito devagar. A verdadeira pintura não é uma narrativa de fatos, mas o próprio fato”. “Realizei inúmeras exposições no Brasil e no exterior e participei de vários salões e bienais. Não destaco este ou aquele evento. Todos têm o mesmo peso, isto é, pouco”.

    Iberê Camargo morreu de câncer, em 31 de julho de 1994, aos 80 anos, em Porto Alegre. Deixou mais de sete mil obras. Grande parte ficou com a esposa, Maria Coussirat Camargo, e hoje integra o acervo da Fundação Iberê Camargo, cujo site (http://www.uol.iberecamargo.uol.com.br) apresenta a íntegra do texto autobiográfico.

  • Inaugurado Cachorródromo no Parque Farroupilha

    Tina comemora o espaço rolando no gramado (Fotos Naira Hofmeister)

    Naira Hofmeister

    Uma antiga briga entre freqüentadores e direção da Redenção começa a ser resolvida. Cães soltos no parque importunavam quem não gosta dos animais, assustavam crianças e idosos e causavam dor de cabeça aos proprietários. Na tentativa de manter livre e solta sua companheira Tina, a advogada Maria Elizabeth Vasconcelos diz já ter se incomodado muito: “Comprei a briga, fui na administração do parque, na SMAM, tomei multa e agora tenho um protocolo de defesa da Tina registrado na Prefeitura”.

    Depois de tanta luta, a vira-lata Tina, o basset Donald e o labrador Ozzy comemoram a vitória correndo entre as arvores de um espaço reservado só para eles, dentro do Parque da Redenção.  A área delimitada tem cerca de 2.000 m² onde os cãezinhos podem ficar à vontade para brincar livres de guias, correntes e coleiras.

    Donald e Ozzy ja eram amigos há meses, mas só agora poderão brincar com tranqüilidade

    Por enquanto, tocos de madeira fixados no chão serão o único diferencial em relação ao resto do parque, mas o administrador Clóvis Breda, garante que o espaço será aperfeiçoado: “Até o momento, não investimos quase nada para que depois possamos modificá-lo”. E já inicia o trabalho de consulta popular, perguntando aos três donos dos cachorros o que eles acham que poderia ser acrescentado. Bancos, torneira para dar de beber aos cães e até uma cerca viva foram algumas das sugestões. “Vamos também manter a grama mais baixinha e aparar um pouco as árvores para que eles disponham de mais espaço”, explica Breda.
    O Cachorródromo, como já vêm sendo chamado pelos freqüentadores fica ao lado do Araújo Vianna, próximo à Avenida Osvaldo Aranha. Além dos rabinhos balançando daqueles que mais se beneficiaram da medida, os donos de cães prometem uma grande festa para marcar a inauguração: “Vou fazer um bolo e encher balões”, comemora uma das proprietárias.

  • Atletas que superam os limites físicos e do preconceito

    Para Ádria é fácil correr sem enxergar, basta ter concentração (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Superação de limites: é essencialmente disso que se fala ao tratar com atletas paraolímpicos. Eles são cegos, não têm braços ou pernas, sofrem de deficiência mental e não querem ser diferentes. Ou melhor, buscam o direito de serem respeitados como tal.

    Muito além das restrições físicas, é preciso força para lidar com mentes limitadas e com o preconceito, ainda muito presente no cotidiano destes atletas. Mais do que apoiar a equipe brasileira paraolimpica, a Caixa Econômica Federal – patrocinadora do Comitê Paraolimpico Brasileiro – está iniciando a reversão de paradigmas históricos contra esse segmento da população.

    Neste final de semana será realizada a quinta etapa do Circuito Loterias Caixa Brasil Paraolimpico de Atletismo e Natação, no centro Esportivo da PUC/RS. As quatro anteriores foram um verdadeiro sucesso, reunindo uma média de 500 participantes por etapa. Além das provas, o circuito integra os atletas com a sociedade, principalmente com as crianças, realizando atividades de conscientização em escolas.

    O futebol de cegos – onde os meninos devem fazer gols com os olhos vendados – e o basquete sobre rodas – no qual eles podem experimentar a sensação de disputar um jogo sobre a cadeira de rodas -, trazem a realidade dos portadores de deficiência para a sociedade em geral. “Isso é imprescindível, pois mostra à eles que ali estão heróis e heroínas”, diz Antônio Tenório, cego e tri-campeão olímpico de judô. “A pior marca que possamos fazer passa a não ter importância quando estamos com as crianças”, acredita Roseane dos Santos, a Rosinha, recordista mundial no lançamento de peso em Atenas que é amputada da perna esquerda.

    Com o incentivo financeiro oferecido pela Caixa, o esporte paraolimpico vêm se desenvolvendo com velocidade, arrecadando mais espaço na mídia, descobrindo novos talentos e aperfeiçoando os já existentes: “É a primeira vez que temos um circuito profissional brasileiro, e com ele, os índices do atletas têm melhorado muito”, afirma Sérgio Gatto, vice presidente do CPB. Mas completa: “Precisamos que a iniciativa privada descubra também essa área, para que outras modalidades ganhem o mesmo destaque que estão tendo a natação e ao atletismo”. O contrato com a Caixa será renovado, garantiu Joaquim Lima, representante do banco, que investiu em 2005 mais de 3 milhões de reais na equipe paraolimpica. E, humildemente, revela: “É a Caixa que está usufruindo desses atletas. O esforço, o resultado e a determinação é toda deles. Nosso papel e só dar condições para que isso apareça”.

    Velocidade às cegas

    Ádria Rocha dos Santos tem uma trajetória esportiva que somente os maiores ídolos mundiais conquistaram. Com a visão comprometida desde o nascimento, já aos treze anos começou a correr. Apenas um ano depois, conquistava sua primeira vaga numa paraolimpíada. Aos 18 ficou completamente cega, mas isso não influenciou em nada sua carreira: a atleta já participou de cinco mundiais.

    Difícil correr sem enxergar? “Nãããoooo… é bem fácil, basta ter concentração”, responde com a maior naturalidade a atleta. Para uma velocista com ela, é imprescindível o entrosamento com o atleta guia, aquele que vai conduzir o deficiente visual pela pista. Mas a interferência não passa disso: “Ele orienta durante a prova, avisa quando há curvas ou retas e me incentiva”, ela diz. Mas Luiz Rafael Krub, guia de Ádria, desmente a atleta: “Quando ela entra na pista, já sabe direitinho onde esta”.

    A atleta já ganhou diversos títulos, inclusive o ouro nos 100mm e a prata nos 200m e 400m em Atenas. Apesar de campeã, a atleta sofre com preconceito e seu objetivo é fazer com que seja vista com profissional do esporte e não como deficiente “Na hora em que a bandeira sobre, e que toca o hino, é igual à olimpíada tradicional”.

  • Sinduscon “Paz e Amor”


    Antônio Zago, diretor do Sinduscon, quer diálogo para que haja avanços na discussão do Plano Diretor (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Guilherme Kolling

    O Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) manifestou à imprensa, em mais de uma oportunidade nos últimos meses, o desejo de aprofundar o diálogo com os movimentos de bairro para avançar no debate do Plano Diretor. O arquiteto Antônio Carlos Zago, 49, que representa a entidade para falar do assunto, acredita que a discussão com as associações de moradores está amadurecendo. “Até pelo convívio entre as partes, que estão vendo os pontos em que convergem”, explica. E também pela postura do Sinduscon que, mesmo mantendo suas posições, dá mostras de que está numa linha mais “paz e amor”.

    Ao mesmo tempo em que busca o diálogo com representantes da comunidade, o Sindicato revela críticas ao poder público, sobretudo à administração do PT, que não se posicionou durante a avaliação da lei, deixando o Siduscon como alvo da insatisfação da população. Finalmente, Zago explica porque o mercado imobiliário se concentra em poucos bairros, sugerindo que este quadro pode ser mudado através de uma decisão política, de dar infra-estrutura a outros locais da cidade. O que depende, na avaliação dele, também da aplicação das sete estratégias do Plano Diretor, ainda não implementadas.

    JÁ – Como avançar no Plano Diretor?
    Antônio Zago – O Sinduscon sempre se propôs ao diálogo. Participamos de todas as reuniões, desde o primeiro PDDU (Plano Diretor de 1979), e antes disso também. E num debate se vai para expor idéias, ouvir os outros, concordar ou discordar. Acredito que já faz muito tempo que nós estamos nesta linha. Outros movimentos surgiram ao longo do tempo, então questões novas estão surgindo.

    JÁ – A discussão com os movimentos de bairro esteve muito acirrada, a ponto de ter vaias e bate-boca num debate.
    Zago – A lei municipal se antecipou a uma tendência. Estavam surgindo alguns formadores de opinião com relação a essa discussão. E o PDDUA, aprovado em 1999, contempla essa participação. Passou quatro anos sendo discutido. E depois regrou a participação através das regiões de planejamento. Foi formando, legitimando essa participação dos bairros. O fato novo ocorreu nesse último Plano Diretor em função de um incentivo que a lei trouxe de participação popular.

    JÁ – Por que houve um conflito mais forte?
    Zago – Quando houve essa oportunidade da manifestação organizada da população, as suas reivindicações encontraram eco. Pessoas formadoras de opinião discordam de algumas questões da legislação. E encontraram o fórum apropriado para suas discordâncias. Por que em determinado momento houve um certo conflito?

    JÁ – Por quê?
    Zago – Tem dois momentos na nossa defesa do Sinduscon. O primeiro é que essa é a lei vigente e não podemos dizer que vamos atuar a margem dela, nem defender nenhuma idéia que queira virar a mesa. Lutamos pelo que está normatizado através da lei. Aí somos intransigentes. O segundo momento é o conteúdo da lei. Existem pessoas que querem rasgá-la e estabelecer tudo o que elas pensam. Acho legítimo pensar em contrário ao que está na lei, mas não agir em contrariedade a ela. A própria lei prevê que no terceiro ano de cada mandato seja feita uma avaliação. Começou uma polêmica porque grupos defendiam modificações no Plano sem cumprir essa etapa da avaliação. Isso é estar agindo contra o que está na norma, então somos contra. Como entidade, nunca defendemos que o Plano Diretor é perfeito, imutável, porque compreendemos que é algo dinâmico, que cresce ou fica estagnado conforme a cidade.

    JÁ – Há dois anos o Sinduscon dizia que era cedo para avaliar o Plano. Qual a avaliação hoje, após cinco anos?
    Zago – O Plano Diretor foi lastreado em sete estratégias. Se formos analisar, não foram aplicadas as sete. Então, se foi aplicada só parte do Plano, ele ainda não está aplicado, pode haver problemas. Por exemplo, o que tem a ver a estratégia de implementação econômica com o prédio que está lá na Bela Vista? Aparentemente nada, mas tem e muito. O investidor escolhe um bairro onde a infra-estrutura está disponível, não um local que não tem infra-estrutura. Quando se vê uma acentuada tendência de determinados bairros em Porto Alegre serem mais densificados do que outros, é porque alguma coisa está motivando isso.

    JÁ – É a tese da infra-estrutura ociosa, de que uma área da cidade pode receber mais gente para aproveitá-la.
    Zago – Se o poder público investisse em outros bairros, seria possível fazer uma seleção melhor do produto que é lançado na cidade. Mas como não tem esse investimento – não precisa nem ser o poder público, pode incentivar a iniciativa privada a investir… É possível levar a cidade para outros lugares e desfazer essa pressão de densificação em determinados locais. Tem que ser a partir de uma decisão política, de promover equipamentos urbanos, infra-estrutura em outros locais. Se isso for feito, tira essa concentração.

    JÁ – Um estudo da Secretaria do Planejamento aponta que a densidade em alguns bairros já é superior a desejada para aproveitar a infra-estrutura.
    Zago – Também acho que tem. Mas o Plano Diretor também prevê uma capacidade de suplementação de infra-estrutura. Um exemplo grosseiro. “No bairro tal, para aumentar a capacidade de infra-estrutura eu gasto x. Para colocar uma nova, gasto x + y, que é mais caro”. As vezes é mais fácil investir onde já tem infra-estrutura, são apenas alguns itens para colocar. Por exemplo, se comparar o Moinhos de Vento com o Partenon. No Moinhos tem que implementar escoamento de água, drenagem. Mas não precisa colocar outro parque, nem uma série de outros equipamentos urbanos. Fica mais econômico investir ali, é só suplementar. No Partenon, tem que fazer um parque, criar atrativos para ter um supermercado, comércio local. Então como o poder público vai funcionar: “onde vai ser mais eficaz a verba que eu tenho? Onde tem que investir menos”. É um raciocínio simplista, imediatista, de quem não planeja, de quem tapa furo.

    JÁ Pode sair mais caro a longo prazo.
    Zago – É uma decisão política, tem que ser vista não só do ponto de vista de investimento, mas de proposta de implementação econômica da cidade como um todo. Se for colocada mais infra-estrutura em alguns bairros, a tendência é o mercado ir se acomodando, os picos de preços baixarem, existir mais oferta, mais emprego. É uma maneira de estimular, mas tem que ter a visão de que vai lançar primeiro e depois colher.

    JÁ – Tem como quebrar esse ciclo?
    Zago – Tem, não estamos lutando só por uma utopia. Todos nós, associações de bairro e entidades organizadas, temos convicção de que alguma coisa pode ser feita. As entidades têm até feito contrapontos, discussões mais aquecidas, mas nós estamos participando. Tenho a convicção de que o poder público tem que participar com mais responsabilidade nessas discussões. O governo atual está começando a promover algumas coisas, não se pode dizer ainda do que se trata. O governo anterior viu que seria atacado e buscou uma estratégia de se manter afastado da discussão, que se deu em torno das entidades.

    JÁ – Não mediou o debate da avaliação do Plano Diretor?
    Zago – Até mediou, mas ele não é o mediador, é uma das partes interessadas. Tem que participar, se posicionar. São consensos que nós temos que tirar. As pessoas colocam: “No bairro x estão construindo além do que suporta. Não está mais vendendo, estão ‘micando’ os imóveis”. Em determinados locais tem razão.

    JÁ – Não tem demanda…
    Zago – Neste momento naquele local. Mas por que acontece isso, o empreendedor é burro? Não, é porque não tem opção. O terreno está disponível, ali tem infra-estrutura,  equipamento urbano, mobiliário urbano. Não vou tirar meu prédio, por exemplo, aqui do Petrópolis, e atravessar a avenida Ipiranga.

    JÁ – É um investimento a longo prazo?
    Zago – O incorporador não faz esse raciocínio, trabalha com custo financeiro, taxa de retorno. O incorporador não teve opção. Alguns imóveis acabam ficando desocupados, não por opção. A velocidade de venda é menor do que a planejada, mas vai ser vendido com certeza.

    JÁ – Em resumo, a única opção é investir onde tem infra-estrutura. Como mudar isso?
    Zago – Temos cobrado do governo atual, cobrávamos do governo anterior. Está sendo feito um investimento enorme na Terceira Perimetral. Onde essa via passa, gera transformação, podemos aproveitá-la. O mais caro, que é ter acesso rápido nesses bairros, está sendo implementado. Agora tem que colocar algum tipo de atrativo para as pessoas irem para lá, para que se implante um pequeno comércio, algumas ramificações, que saiam desse eixo Terceira Perimetral para dentro dos bairros. Pode ser sem desembolsar grandes valores, fazer com que esses investimentos privados se desloquem para esses lugares, via lei ou via incentivos: menos restrições em determinados terrrenos – que não causem problemas de sombra, enfim, glebas maiores -, obras diferenciadas. Em troca, implementa-se ou se dá manutenção em uma praça ou parque.


    Para o sinduscon, Terceira Perimetral é alternativa para desenvolver outros bairros da cidade
    (Foto: Ricardo Giusti/PMPA/JÁ)

    JÁ – O Plano Diretor foi deturpado porque só ficaram definidas as regras para construir, outros complementos não saíram do papel. Qual sua avaliação sobre essa análise?
    Zago – Isso aí (regras para construir) está totalmente implementado. Agora os demais itens que fazem com que a cidade se torne um organismo mais homogêneo, não foram implementados. Concordo. Se fôssemos criar um Plano Diretor só sob o ponto de vista de edificação e não tivéssemos o regramento para outras coisas – mobilidade urbana, etc., seria um Plano Diretor com uma concepção errada, não estaríamos falando da cidade como um todo. Então, se o Plano Diretor está tendo só parte de suas estratégias aplicadas, só uma ou duas, também está errado.

    JÁ – Não está faltando a pressão do Sinduscon para implementar? Ou é bom como está?
    Zago – É muito ruim. Até sob o ponto de vista de mercado, concentrar os produtos em seis bairros é um péssimo negócio, porque estamos com o custo do terreno aumentando, tendo que diminuir ou estagnar valor dos imóveis prontos. A falta de normatização do que está proposto no Plano Diretor também leva a interpretações, atos administrativos que tem ferido a lei.

    JÁ – Mas não falta uma pressão maior na Prefeitura e na Câmara?
    Zago – Na Conferência do Plano Diretor (em 2003), começamos por essa questão, listamos as sete estratégias e reclamamos aquelas que não estavam implementadas. Pressionamos o poder público, o Executivo e o Legislativo nesse sentido. Que a cidade não pode ser vista só sob o ponto de vista do regramento para edificar. Está errado, queremos que sejam implementadas todas estratégias, para que o Plano possa ser visto como um todo.

    JÁ – O regime urbanístico, as alturas estão bem postas?
    Zago – Em muitos lugares está bem posto, atendendo as expectativas. Em alguns lugares tem que avaliar, merecem um estudo para ver se essa tendência não pode causar algum problema. Em alguns lugares urge que se faça uma modificação. Na maioria, o que se vê é que o Plano Diretor não gerou e não vai gerar problemas.

    JÁ – Para ver isso precisa de monitoramento. A Secretaria do Planejamento diz que falta gente…
    Zago – A Secretaria do Planejamento tem falta de técnicos, verbas e por isso falta o serviço. Eles têm técnicos de boa qualidade, mas que não estavam sendo utilizados para planejar o município. Estavam sendo utilizados para aprovar ou não aprovar o que está escrito na lei. Para que a Secretaria volte a cumprir seu papel, precisa de investimento.

    JÁ – Qual sua avaliação da gestão Fogaça nesse setor?
    Zago – Não dá para dizer a que veio o atual governo. Ainda não tem nada implementado. No primeiro momento, ele retirou todos os projetos de lei que o governo anterior enviou para a Câmara no apagar das luzes. Acho legítimo. Mas tem que ter um pouco mais de pressa em tornar público qual é o pensamento com relação aos projetos. Eu não tenho conhecimento – e olha que eu sou membro do Conselho do Plano Diretor! – de nenhuma grande alteração dos projetos que foram recolhidos da Câmara. Está um pouco devagar a volta desses projetos. Tem que trazer a discussão.

    JÁ – E a agilização prometida nos licenciamentos, está acontecendo?
    Zago – Não, diria até que agravou um pouco a situação, porque sempre que muda a administração fica mais lento num primeiro momento. Não quer dizer que esteja parado. Ouve-se falar de uma intenção de implementar agilidades em tramitação de processos, cortar alguns caminhos que se revelaram só burocráticos, sem eficiência. Para se ter uma idéia, um escritório de arquitetura entra com um projeto e demora um ano para aprová-lo. Mas o projeto sai lá na outra ponta com uma mudança de 1%. Não se justifica todo esse tempo.

    JÁ – Dez meses sem enviar um projeto de lei do Plano Diretor à Câmara, chega a ser uma decepção?
    Zago – Antes de colocar uma decepção, reivindicamos que esses projetos sejam conhecidos. Não só do Sinduscon, da cidade, das entidades interessadas em participar. Estamos com áreas praticamente congeladas, a espera de que seja regrada a questão das áreas de interesse cultural. O famigerado decreto ainda está em vigor.

    JÁ – Especialistas do patrimônio histórico dizem que essas áreas terão regras especiais para que sejam preservadas. Por que o Sinduscon fala em “congelamento”?
    Zago – Quando se tem um regime instituído por lei, ele pode provocar maior ou menor adensamento, mas está regrado. Agora quando não está definido em lei, está congelado. Não se tem segurança legal para investir, está congelado. Quem vai investir em um negócio que não tem segurança? Aprova-se um projeto e aí se diz: “Não, aqui tem um estudo que determina que não pode densificar tanto”.

    JÁ – Se esse estudo for aprovado e virar lei. Deixa de estar congelado?
    Zago – Deixa de estar congelado. Havendo o regramento claro, o investidor vai dizer se quer ou não quer. Então, começa a restringir o potencial construtivo nessa zona. Teoricamente o terreno passa a ter um valor menor, pelo menos num primeiro momento. E no momento seguinte o valor do terreno vai aumentar, inverte a situação. Vai ter menos obra, menos gente. Então, se tem menos gente, vou cobrar por essa privacidade. Vai se tornar mais caro. Vai elitizar esse bairro.

    JÁ – O que falta para o projeto ir para a Câmara e resolver essa situação?
    Zago – Não sei se ir para a Câmara é a solução. A solução é ter um projeto, discutir, ver se é bom, consistente. Alguns movimentos acham que foi suficiente o que foi debatido. Acho que não, tem que ter alguns critérios. Vamos imaginar: “Pretendo que Porto Alegre não se modifique mais. Ela está contando uma história”. Vamos considerar isso legítimo. A primeira coisa a fazer é capacitar a cidade a preservar tudo isso. “Eu, poder público, com o que arrecado aqui, consigo repor a infra-estrutura. Então, consigo preservar a história cultural contada através dos sítios, da paisagem urbana”. Pronto, institui a lei, promulga e cumpre. Agora, se não tenho capacidade de absorver a cidade inteira, começo a diminuir para o que eu posso de fato preservar. Essas áreas vão contar a história da cidade. Tem que ser no tamanho viável e sustentável.

    JÁ – São grandes demais as áreas propostas pelo estudo e no decreto vigente?
    Zago – Eu acho que são grandes demais. Em função de uma casa listada para ser tombada, diminuem a densificação de uma área enorme, quarteirões inteiros, não é só o entorno. Isso vai afetar a capacidade de manter esse bairro, o que é feito através do pagamento do pessoal que mora nele. Vai elitizar esse bairro. É só ver na lei, cada unidade deve ter no mínimo 300 metros quadrados. Não vai ter renda suficiente para se auto-sustentar, e outro bairro vai sustentar essa aglomerado urbano elitizado. É injusto, distorcido. Os instrumentos de preservação têm que ser mais eficazes.

    JÁ – “Elitizado” aqui se refere ao resto da cidade bancar uma área?
    Zago – O conceito de elitizado tem a ver com o tamanho do imóvel, que determina o preço. Hoje, o tamanho do terreno é 75m2 por economia (residência ou escritório) vai passar para 300m2. Onde teria quatro apartamentos vai ter um. Menos famílias vão morar ali, vão pagar o preço por um imóvel maior, mais caro, mas a contribuição, em vez de ser de quatro famílias, vai ser de uma. Menos gente vai usufruir do mesmo equipamento que, para ser mantido, vai precisar de recursos de fora, lá onde a população tem um nível social mais baixo. Vai elitizar. Vamos atrás do que é possível, antes que o ideal faça tudo ir por terra. Não pela ação do homem, mas pela falta de ação. Passa no Petrópolis depois dessa corrida para sair do bairro. O que tem de casas, jardins abandonados. Daqui a pouco entra um mendigo, tocam fogo…

    JÁ – O que significa “essa corrida para sair do bairro”?
    Zago – Muitas pessoas vendo que seu imóvel poderia perder valor diante de uma iminente diminuição do potencial construtivo, quiseram se desfazer do terreno, da casinha, antes que baixe mais o valor. Mas ninguém vai querer comprar. Eu me nego a fazer estudo de área em Petrópolis, não tem mercado, não tem quem queira investir.

  • Livro aborda participação do negro na Revolução Farroupilha

    Um massacre de escravos ocorrido durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), em Cerro dos Porongos, é o ponto de partida do livro Lanceiros Negros (JÁ Editores, 2005, 144 páginas, patrocínio Copesul, R$ 13,00 na Feira do Livro), dos jornalistas Geraldo Hasse e Guilherme Kolling. O lançamento será neste sábado, 20h30, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro de Porto Alegre.

    A partir do episódio, que até hoje provoca polêmica, a obra reconstitui a história dos regimentos formados por escravos, que existiram praticamente em todas as guerras gaúchas do século XIX e que tiveram papel destacado na fixação das fronteiras no extremo Sul do Brasil. O livro mostra também como estes fatos de um passado já remoto estão atualmente mobilizando intelectuais e ativistas que a partir deles pretendem “refundar a história do negro no Rio Grande do Sul”. Neste esforço, até o Governo está engajado, seja na construção de monumentos, no tombamento de bens culturais ou na pesquisa de referências históricas.

    A obra Lanceiros Negros mostra ainda uma cronologia dos eventos guerreiros no Cone Sul, e conta a tradição do uso de lanças no pampa, desde o século 18, chegando até a Revolução Farroupilha, quando se descreve como foi feita a organização e o recrutamento dos lanceiros, e sua importância estratégica na Guerra dos Farrapos. O livro traz ainda um panorama da escravidão na época dos Farrapos.

    Edital para construção de memorial aos lanceiros será lançado nesta segunda

    Os 161 anos do massacre de Porongos, ocorrido em 14 de novembro de 1844, serão lembrados nesta segunda-feira, aniversário do episódio no Cerro de Porongos, em Pinheiro Machado. A cerimônia marca lançamento do edital de um concurso público para escolha do projeto do monumento que será erguido no local da batalha.

    Além de lideranças do movimento negro, que tem trabalhado pela causa nos últimos anos, representantes do Governo, que se aliaram à causa estarão presentes: o secretário da Cultura do Rio Grande do Sul, Roque Jacoby, o arquiteto José Albano Volkmer, assessor da Sedac e presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS), além de integrantes da Prefeitura de Pinheiro e da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura. O edital deve ser publicado em dezembro no Diário Oficial da União. O evento marca o lançamento da Semana Estadual da Consciência Negra, cuja data máxima é o 20 de novembro, dia em morreu Zumbi dos Palmares.

  • JÁ Editores é destaque na Feira

    Banca está localizada em frente ao Memorial do Rio Grande do Sul (Foto: Cleber Dioni)
    O sol dos últimos dias tem animado os visitantes da 51ª Feira do Livro de Porto Alegre. A JÁ Editores desponta na preferência dos amantes de bons livros e lançamentos de importância histórica.
    Localizada em frente ao Memorial do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, a banca 79 tem à disposição livros da área de comunicação social, especialmente jornalismo, teatro e cinema. O mais vendido até agora é “Tarso de Castro – 75kg de músculos e fúria”, de Tom Cardoso, da Editora Planeta. A obra apresenta a trajetória do jornalista gaúcho Tarso de Castro, um dos mais polêmicos e debochados profissionais da época da ditadura, fundador do Pasquim. Na segunda posição, “Meu querido Vlado”, de Paulo Markun, da Editora Objetiva. Memórias e histórias de Vladimir Herzog e sua geração sob a ótica do jornalista Paulo Markun.
    Dos lançamentos da JÁ Editores, o mais procurado é “Lanceiros Negros”, de Geraldo Hasse e Guilherme Kolling. O livro, que terá sessão de autógrafos no sábado (12/11), às 20h30min, recupera toda a recente mobilização do movimento negro, abordando Porongos, na Revolução Farroupilha, e a tese da refundação da história do negro. Os leitores também têm se interessado
    pela biografia “O menino que se tornou Brizola”, de Cleber Dioni, e “Inter – Orgulho do Brasil”, de Kenny Braga.
    O mais recente lançamento da editora, que acaba de chegar à Feira, é o perfil biográfico do jurista e professor de Direito Darcy Azambuja, falecido em 1970, escrito pelo jornalista Geraldo Hasse. O livro inclui um volume com uma coletânea de contos de Azambuja, representativa de sua produção literária. Hasse autografará no domingo (13/11), às 17h30min.
    JÁ Editores também marca presença com outro lançamento deste ano, “A Patrulha de Sete João”, do jornalista Euclides Torres, escrito a partir do diário deixado por um mercenário alemão, e a segunda edição de “O Editor sem Rosto”, de Elmar Bones, que investiga a vida de Luigi Rossetti, revolucionário italiano que organizou e editou O Povo, o jornal oficial da Revolução Farroupilha.

  • Proprietários de sebos farão Feira só de usados

    Naira Hofmeister
    Quem vai à Feira do Livro, em geral, prefere lançamento. Tanto que, mesmo nas barraquinhas de livros usados, os mais procurados são os chamados livros de ponta – aqueles que estão no topo da lista dos mais vendidos. Para inverter um pouco essa lógica da novidade, criar uma cultura de memória e de valoração do livro antigo é que cerca de 23 proprietários de sebos se uniram numa associação, atuante desde abril desse ano.
    A primeira grande ação pública vai ser a Feira do Livro Usado, em maio de 2006. “Vamos colocar à venda obras raras e aquelas que não são mais editadas”, antecipa André Nunes Gambarra, secretário da associação de sócio da Livraria Nova Roma. O evento vai ter os mesmo moldes da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, porém, com outro enfoque.
    Sessões de autógrafos serão praticamente impossíveis, mas a programação paralela vai ser intensa. A bibliofilia – coleções de livros temáticos ou raros – vai ser amplamente explorada e os organizadores também pretendem homenagear uma cidade: “Descobrimos que há cerca de 10 cidades co-irmãs de Porto Alegre e uma delas será a escolhida”, afirma Zeca Poli, proprietário da Noigandres. Ele diz que já estão em contato com o Consulado Russo – onde fica uma das candidatas -, que está se comprometendo a ajudar.
    Extra-oficialmente, a associação já conseguiu o apoio da Prefeitura para organizar a feira: “Roque Jacobi nos prometeu toda a ajuda”, conta Zeca Poli. Eles pretendem solicitar apoio das LICs para montar a estrutura do evento, que, também como a ‘irmã inspiradora’, vai ter cobertura de lona para a chuva.
    Se não der certo, também não tem problema: “Mesmo que a gente não consiga apoio nenhum, o que queremos é realizar a primeira edição, por mais simples que seja”, idealiza André Nunes. Eles se mostram confiantes, no entanto: “Acho que uma feira de sebos é simpática aos olhos de quem investe em cultura e a mídia está dando bastante força para a associação”, afirma.
    Para além do objetivo de organizar uma feira, a Associação do Sebos planeja ações que valorizem os livros de segunda mão. “Uma boa parte do acervo de livro usado vai fora, isso significa memória que foi perdida”, lembra Zeca Poli. Ele também alerta para aqueles que deixam os livros que não usam mais, no “papel velho”, ou seja, para a reciclagem: Dava ao menos para doar aos colégios”, acredita.
    A Associação ainda editou um Mapa dos Sebos no estado, em papel jornal, bem simples, que, além da localização de 20 lojas de usados no Rio Grande, traz uma receita para eliminar as traças e para proteger capas de couro dos livros usados (reprodução abaixo). Se depender de exemplos ilustres, a idéia vai vingar. Durante essa entrevista, Jorge Furtado passeava os olhos por alguns exemplares da banca do Zeca…
    Dica prática para matar traças de um livro
    Envolver o livro em um saco plástico grosso bem lacrado, colocá-lo no freezer por 48 horas. Após retirá-lo, deixá-lo em local bem ventilado e aberto, depois poderá guardá-lo pois a traça não será mais problema.
    Receita para proteger livros com capa de couro
    100 ml de óleo de mocotó;
    35 gr de cera de abelha ou carnaúba;
    5 gr de timol;
    5 ml de álcoo etílico
    Dissolver a cera e o óleo em banho-maria, deixar esfriar mexendo sempre, depois dissolver o timol no álcool e misturar tudo. Aplicar nas capas com pano macio, deixar secar por 12 horas e lustrar com flanela limpa e seca (essa fórmula pode sr feita em farmácia de manipulação). *Também pode ser passado nas capas de era com silicone.
    Fonte: Mapa dos Sebos do RS – Editado pela Associação dos Sebos do Rio Grande do Sul.