No dia 11 de outubro, a Fundação Gaia promoveu em Porto Alegre um encontro entre jornalistas, representantes de ONGs ambientalistas e sociedade civil. No evento, que teve a participação do Jornal JÁ, Correio do Povo, Jornal do Comércio e Ecoagência Solidária de Notícias, os jornalistas tiveram a oportunidade de discutir com o público a responsabilidade da mídia na formação de uma consciência ambiental e sua efetiva colaboração na difusão de questões sócio-ambientais. A presença de profissionais de jornalismo abriu um espaço de reflexão sobre o que efetivamente está sendo informado para a sociedade e o caminho que se está construindo na perspectiva do meio ambiente.
A humanidade chegou a um ponto decisivo, onde todos necessitamos fazer uma conversão de valores, realizando uma mudança substancial em nosso modo de vida. Se continuarmos a ignorar despreocupadamente as tragédias que vêm acontecendo, toda a raça humana poderá ser aniquilada. Por isso, o papel fundamental da imprensa deve ser o de orientar as pessoas a abandonarem ideologias que criam confrontos e divisões entre os povos. “O Papel da Imprensa para as Questões Ambientais”, tema do encontro, vai muito além de dar atenção às tragédias somente quando as mesmas ocorrem. Urge alertar as pessoas para o fato de que ingressamos num período de transição, onde, ou abraçamos o conceito de uma Humanidade unificada, ou continuamos cada vez mais antagonistas, um em relação ao outro, engajando-nos em conflitos mútuos.
Atualmente enfrentamos uma grande crise devido à decadência moral do ser humano, à qual efetivamente levou ao aumento das anomalias climáticas e dos cataclismos, provocados pela destruição do meio ambiente. Durante várias gerações, os seres humanos têm buscado dinheiro e posses materiais passando por cima de tudo e de todos despreocupadamente – na maioria das vezes, justamente por perseguirem-nos dessa forma, é que lhes escapam. Devemos inspirar as pessoas a viver de acordo com os princípios ecológicos, pois essa é a única forma de encontrarem a verdadeira felicidade.
Conduzido pela escritora Lilian Dreyer, o evento oportunizou aos jornalistas presentes discorrerem sobre o que a imprensa gaúcha vêm fazendo para informar, conscientizar e sensibilizar a população sobre a importância da preservação ambiental. Segundo Jurema Josefa, do Correio do Povo, o Jornalismo Ambiental, deve ser pautado no compromisso ético de disponibilizar informação verídica. Para isso, a imprensa deve fortalecer as ações das ONGs e se valer da credibilidade das mesmas. O resultado é uma troca de conhecimento da qual o maior beneficiado é o leitor. Nesse sentido, Lorena Paim, do Jornal do Comércio, lembrou que o papel fundamental da imprensa é o de informar priorizando também os assuntos ecológicos. Isso se faz não só registrando as catástrofes ambientais, mas sim divulgando as ações desenvolvidas para evitá-las. O “ecojornalismo”, segundo ela, se faz dando vóz e direito à todos os que lutam pela causa ambiental.
Guilherme Kolling relatou a experiência diferenciada do Jornal JÁ, do qual é redator-chefe. Segundo ele, o jornal tem por tradição o foco nas questões que envolvem o meio ambiente. Esse trabalho é visto tanto na edição mensal, distribuída aos assinantes e vendida em bancas, quanto nas duas edições quinzenais, disponíveis gratuitamente em pontos estratégicos de Porto Alegre. Promover debates e fóruns também faz parte do trabalho do JÁ, como aconteceu em março deste ano, onde empresários e políticos puderam discutir com a população acerca do “Reflorestamento e Desenvolvimento Sustentável”, que tratou das perspectivas dos negócios com madeira no Sul do Brasil.
Estamos construindo uma civilização baseada no individualismo, e o resultado disso são as últimas catástrofes naturais, através das quais estamos experimentando severos desafios. Porém, com esses fenômenos temos também a oportunidade, com reflexão e diálogo, de demonstrarmos de que serve a sabedoria humana – ou será que vamos esperar que nossos caminhos fiquem repletos de desatres e sofrimento?
Numa época em que nos defrontamos com o esfacelamento da sociedade, com a deterioração do meio ambiente, e com outros problemas prementes; os representantes das ONGs lembraram que essas entidades foram criadas e existem não com o objetivo de travar o progresso e o avanço da humanidade, mas sim para permitir que todos os seres vivos existam e avancem no caminho da prosperidade.
Christian Lavich Goldschmidt
Escritor e ator
Autor: Elmar Bones
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Compromisso ético
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Mito da queda de Tróia é representado no Gasômetro
Adriana LampertA temporada gratuita de Aos que virão depois de nós – Kassandra in Process foi prorrogada. O espetáculo está em cartaz no teatro Elis Regina (Usina do Gasômetro – somente às sextas-feiras, às 21 horas), dentro do Projeto Gestação Cultural. Este seria o último final de semana da peça, mas devido ao sucesso, a Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveis resolveu aumentar o número de apresentações e mantém a montagem até o início de dezembro no mesmo horário e local.
Os interessados devem chegar antes das 20h, porque a fila para distribuição de senhas tem sido concorrida e há somente 25 lugares por apresentação. “Já chegamos a mandar umas 100 pessoas para casa”, explica Pedro De Camillis, que inicia a entrevista ressaltando que tudo que for dito é “em nome de todos os 20 integrantes da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveis”.
Aos que virão depois de nós … recebeu patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet e ganhou quatro troféus do Prêmio Açorianos em 2003: melhor espetáculo, produção, trilha sonora e atriz coadjuvante. O espetáculo se tornou livro: Aos que virão depois de nós Kassandra in Process – O Desassombro da Utopia, organizado pelo jornalista paulista Valmir Santos (à venda na bilheteria do teatro por R$ 30,00) e ganhou versão em DVD: Aos que virão depois de nós Kassandra in Process – A Criação do Horror, que deverá ser lançado antes do final do ano. O livro e DVD fazem parte do Projeto Ói Nóis na Memória que tem por objetivo registrar os 27 anos de história do Ói Nóis Aqui Traveiz.
“No DVD é possível perceber – através das intenções dos atores e das relações com o público – que em cada apresentação o sentido da cena modifica. Atuadores e público ditam o sentido da cena”, explica Camillis. O DVD duplo é uma co-produção do grupo com a Catarse Coletivo de Comunicação. Em um CD está o espetáculo na íntegra e, no segundo, fotos, músicas, depoimentos, entrevistas com os atuadores e projetos da turma da Terreira da Tribo.O livro publicado no final de 2004 está na sua segunda edição, lançada em setembro. Quem distribui em todo o Brasil é a Tomo Editorial. A nova edição foi toda revisada, e foram acrescentadas fotos, além da nova capa. O conteúdo é basicamente todo sobre o espetáculo, seu roteiro, e textos de Valmir Santos e outros críticos e diretores de teatro de outros estados brasileiros comentando a montagem. Além disso, traz fotos e conta um pouco do início do grupo. Complementa a cronologia dos 18 aos 26 anos do Oi Nóis… sendo uma continuação do livro Atuadores da Paixão.
O espetáculo Aos que virão depois de nós – Kassandra in Process estreou pela primeira vez em setembro de 2002. A montagem é uma livre inspiração da novela Cassandra de Christa Wolf e reescreve o mito da queda de Tróia dentro de uma visão feminina, invertendo a lógica sexista antiga. A novela de Christa Wolf foi recortada e comprimida através de um processo de colagem com autores como Eurípedes, Albert Camus, George Orwell e Beckett. “Fala de uma guerra que foi paradigmática para a construção do imaginário do Ocidente, para todas as outras guerras, e serviu de modelo para um ideal heróico masculino baseado no desejo de poder e destruição da alteridade”, resume Carla Moura, que integra o elenco, ao lado de Tânia Farias (intérprete de Kassandra). “Fizemos este espetáculo porque queríamos falar sobre a barbárie da guerra e sobre a importância da vida acima de tudo”, completa Camillis.
Ele conta que a montagem do cenário no Teatro Elis Regina precisou de adaptação, em função do espaço. “O que seria uma visão de fábricas nos fundos da Terreira, é agora uma vista para o Rio Guaíba. Isto por si só já muda a leitura que o público faz de uma das cenas do espetáculo”, diz o atuador. Segundo ele, para o grupo reproduzir a estrutura do cenário criado para dentro da sede da Terreira da Tribo, precisou forjar caminhos dentro do Teatro Elis Regina, através de um pesado trabalho de dois meses de carpintaria, feito passo a passo. “Mas o principal em Kassandra…e de outras montagens do Oi Nóis é a idéia do teatro de vivência, da relação que o ator precisa travar com o público. Durante as três horas do espetáculo o ator vai estar procurando o público para se tornar próximo do espectador”, resume. -
Zona Norte também terá gás natural

Representantes da Sulgás, do Grupo Hospitalar Conceição e do Governo do Estado participaram do encontro. (Foto: Divulgação Sulgás)
Guilherme Kolling
Depois de instalar o primeiro ramal para gás residencial no bairro Moinhos de Vento – os moradores devem receber o combustível até o final do ano – a Companhia de Gás do Estado do Rio Grande do Sul (Sulgás) anunciou nesta quarta-feira mais uma novidade. É o abastecimento para residências também da Zona Norte, na região dos hospitais Cristo Redentor e Conceição. “O anel da nossa rede passa por lá. E agora temos os clientes âncora. Isso viabiliza a oferta do serviço também para residenciais”, explicou o diretor-presidente da Sulgás, Artur Lorentz.
O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e a Sulgás, assinaram, hoje (26/10) um contrato para fornecimento de gás natural que trará redução de custos de R$ 700 mil ao ano para as instituições, que hoje utilizam óleo combustível.
No Fêmina (R$ 100 mil/ano de economia), o uso de gás natural deve começar no primeiro semestre de 2006. No Conceição (R$ 500 mil/ano de economia), no segundo semestre de 2006. E no Cristo Redentor (R$ 100 mil/ano de economia), em 2007.
O engenheiro Alexandre Tocchetto, responsável pelo serviço de Utilidades do GHC, aponta vantagens operacionais e ambientais, já que o novo combustível não emite monóxido de carbono (CO). “O gás natural é limpo, dá para trabalhar de jaleco. O atual sistema, além de poluir a atmosfera, gera sujeira, fuligem, que volta e meia incomoda os vizinhos”, explica. O superintendente do GHC, João Motta destacou o avanço tecnológico que a parceria trará para a instituição.
O presidente da Sulgás mostrou satisfação com a ampliação de clientes, lembrando a atuação da empresa com indústrias, automóveis (GNV) e, em breve residências. “Agora estamos falando de saúde. É uma alegria poder ajudar a trazer melhorias também para hospitais”.
O secretário substituto de Minas e Energia do Estado, Francisco Brandão, lembra que o investimento em gás natural faz parte da política do Governo do Estado de diversificar as formas de geração de energia. “Hoje, importamos 40% da energia consumida, mas até 2008 seremos auto-suficientes”, projeta.
Outra novidade revelada pelo executivo da Companhia é o possível uso do gás natural no Loteamento Germânia, que a Goldsztein está construindo numa área atrás dos shoppings Iguatemi e Bourbon Country. “Temos um ramal que passa na avenida João Wallig, o que facilita o negócio. Já estamos em tratativas com a empresa para que todos os prédios sejam feitos já adaptados ao gás natural”, conta Lorentz.
No Moinhos de Vento, a Sulgás tem 10 condomínios como clientes. Para dar início ao abastecimento, falta a contratação de uma empresa para fazer a ligação da rede com os edifícios e a Licença de Operação da Secretaria do Meio Ambiente.
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Assembléia Popular debate alternativas para o Brasil
Helen LopesComeçou hoje (25/10) em Brasília, a Assembléia Popular: mutirão por um novo Brasil. Organizado por 60 movimentos sociais e entidades religiosas, o encontro pretende construir alternativas viáveis para o País.
Diante da crise política encabeçada pelo maior partido de esquerda da América, o Partido dos Trabalhadores, da falência da democracia representativa, do recrudescimento da desigualdade social, as formas de participação e interação na sociedade devem ser repensadas. Com esse objetivo, ativistas de todo o Brasil estarão reunidos até sexta-feira (28/10), no Ginásio Nilson Nelson.
A idéia da Assembléia Popular surgiu com o encontro de dois movimentos: a Rede Jubileu Sul e 4ª Semana Social Brasileira. Já na primeira nacional Assembléia, são esperadas 8 mil pessoas. O sociólogo e membro da Secretaria Intercontinental do Grito dos Excluídos, Luiz Basségio, em entrevista coletiva nesta segunda-feira (25), definiu o encontro: “Estamos dizendo que só as eleições não irão resolver os problemas do povo brasileiro. É preciso que a população participe diretamente das questões que irão definir os rumos da sua própria vida”.
Os debates serão feitos em dez espaços, chamados “Biomas” – conjunto de vida humana, animal e vegetal que cobre determinada região. Nesse sentido, o objetivo é discutir as questões brasileiras sob o paradigma do respeito à diversidade biológica e humana. Na pauta, interligados ao tema político, estão saúde, educação, trabalho e campo.
Fazem parte da comissão organizadora, entre outros, D. Odílio Pedro Scherer, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), D. Demétrio Valentini, presidente da Cáritas brasileira, Sandra Quintela, economista Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sil (PACS) e Gilberto Cervinski, da direção nacional do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB). Além de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
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Depois das catástrofes, a possibilidade da paz

Ano de 2004 foi o quarto mais quente desde 1861, depois de 1998, 2002 e 2003 (Foto: arquivo/JÁ)
Roberto Villar Belmonte, da Itália, especial para o JÁ
Os desastres – como furacões, secas e estiagens – estão deixando de ser fenômenos naturais. Uma combinação de ações humanas está intensificando a freqüência destes episódios, antes considerados normais, e gerando conseqüências cada vez mais devastadoras. O equilíbrio ecológico do planeta está sendo significativamente alterado pela destruição dos ecossistemas, mudanças climáticas, crescimento da população e aumento da ocupação de áreas de risco impróprias para a presença massiva de habitações.
“O número de desastres ambientais tem aumentado nos últimos 25 anos”, informa Michael Renner, diretor do Projeto de Segurança Global do Worldwatch Institute de Washington. As mudanças climáticas são cada vez mais influentes. O ano de 2004 foi o quarto ano mais quente desde 1861, depois de 1998, 2002 e 2003. Na última década, estão os nove anos mais quentes desde o início dos registros de temperatura que começaram a ser feitos na segunda metade do século 19, em plena revolução industrial.
Entre 1980 e 2004, o número de pessoas afetadas pelos desastres naturais cresceu a passos largos, revelam as estatísticas do Banco de Dados Internacional sobre Desastres (www.em-dat.net). O aumento foi de 550 milhões entre 1980 a 1984 para 1,4 bilhão de pessoas sem moradias e que precisaram de algum tipo de assistência entre 2000 e 2004. O levantamento, utilizado nas pesquisas do Worldwatch Institute, inclui a ocorrência de terremotos, ondas gigantes, enchentes, tempestades e secas.
Michael Renner constata que as ações de ajuda externa e as decisões de reconstrução adotadas após os desastres naturais têm uma forte influência, que pode ser positiva ou negativa, na política dos países afetados. O pesquisador do Worldwatch Institute foi um dos participantes do 3º Fórum Internacional de Mídia Meio ambiente, um caminho de paz, promovido pela Sociedade Cultural Greenaccord de 12 a 15 de outubro em Monte Porzio Catone, a 40 quilômetros de Roma, com a presença de jornalistas de 32 países.
Os desastres naturais podem catalisar uma série de conflitos sociais. No caso das secas, por exemplo, aumenta a disputa por água e comida. — Mas eles também são uma oportunidade de solucionar pacificamente conflitos que já existiam antes do país ser afetado gravemente por algum fenômeno devastador-, defende Michael Renner. O sofrimento causado pelos desastres gera interesses e necessidades comuns, e a destruição pode ser tão grande que a reconstrução somente seja possível depois de um acordo de paz.
Efeito tsunamiO Worlwatch Institute realizou um estudo sobre o impacto político da onda gigante tsunami, que em dezembro 2004 destruiu parte da costa do Oceano Índico, na longa guerra civil em curso tanto em Aceh, na Indonésia, quanto no Sri Lanka. Os pesquisadores esperavam que o sofrimento causado pudesse desarmar os espíritos. Os resultados, no entanto, foram distintos. Em Aceh, um acordo de paz foi recentemente celebrado. No Sri Lanka, logo depois que a euforia inicial passou, recomeçaram as hostilidades.
A guerra civil entre os separatistas de Aceh e o governo da Indonésia durou 30 anos. A última tentativa de paz havia fracassado em maio de 2003, quando foi imposta lei marcial. O conflito pode ser atribuído, segundo Michael Renner, à excessiva centralização política e à exploração injusta dos recursos naturais. A repressão política, a corrupção e a violação dos direitos humanos pioraram os ânimos na região. Depois da tsunami, um acordo de paz foi assinado no dia 15 de agosto, após sete meses de negociações.
Aceh tem cerca de 4 milhões de habitantes. A guerra civil entre o Movimento Aceh Livre (Gerakan Aceh Merdeka) e o governo de Jacarta matou 15 mil e desalojou mais 1,5 milhão de pessoas. Já a onda gigante matou 131 mil pessoas, deixou 37 mil desaparecidos, mais de 500 mil pessoas sem casa (até agosto de 2005), 800 mil pessoas dependendo de ajuda para comer e 116.880 moradias destruídas. A região tem muitos reservas de petróleo e foi a mais afetada pelo maremoto.
Conflitos a resolver
Apesar do Sri Lanka também ter sido muito afetado pela onda gigante, que varreu a região em dezembro de 2004, os acontecimentos pós-desastre foram bem diferentes. A guerra civil teve inicio em 1983 em função do nacionalismo do grupo Sinhala e de políticas educacionais impostas pela minoria Tamils. Desde fevereiro de 2002 há um cessar-fogo na região, mas as negociações de paz paralisaram e ainda não avançaram mesmo após a destruição causada pelo desastre ocorrido no final do ano passado.
O Sri Lanka tem 19,6 milhões de habitantes. A guerra civil já matou 65 mil pessoas e deixou mais um milhão de desabrigados. A tsunami levou embora a vida de quase 34 mil vítimas e deixou mais 5 mil pessoas desaparecidas. As estimativas apontam que mais de 450 mil pessoas permanecem sem casa e 915 mil ainda são dependentes de algum tipo de auxílio para comer. A onda gigante danificou e destruiu 90 mil moradias no país que segue em conflito, apesar da dor causada pelos danos.
Se a hipótese sobre o potencial pacificador dos desastres ambientais de Michael Renner estiver correta, o Brasil também tem uma boa oportunidade para resolver os conflitos causados por produtores e madeireiros inescrupulosos na região Amazônica. Um novo fenômeno, o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, foi a causa da recente seca que assola o norte da floresta. Resta saber se a dor causada por mais esta calamidade será suficiente para uma paz sustentável na região ou novos desastres serão necessários.
Os estudos do Worldwatch Institute mostram que a diferença está no tipo de auxílio ou ajuda humanitária que é dada após o desastre ambiental. Somente ações de boa vontade não são suficientes para incentivar a resolução de conflitos históricos. A ajuda humanitária precisa ser transformada em mudança política para solucionar as causas dos conflitos. Na Amazônia, o conflito é resultado da ganância e da exploração sem limites. Precisará uma intervenção da ONU para estancar a destruição da floresta?
* Roberto Villar Belmonte participou do 3º Fórum Internacional de Mídia Meio Ambiente, caminho de paz à convite da Associação Cultural Greenaccord.
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O referendo e a cassação de Zé Dirceu
Esta semana (24 a 28/10) ficará na História do Brasil como um marco da inabilidade do time de lideranças que comanda o processo político no Congresso Nacional. Dois erros vão marcar estes dias: o primeiro está por vir, a cassação iminente do deputado José Dirceu (PT-SP) na quarta-feira; o outro se deu no domingo, com o resultado do plebiscito das armas. Ambos demonstram como o parlamento brasileiro perde o contato com a realidade, daí resultando todo seu processo de desgaste que levará à extinção do modelo político-eleitoral vigente no País.
A questão do desarmamento foi derrotada nas urnas porque o Congresso ingenuamente deixou-se levar pelos eslogans do “politicamente correto”, alardeados pelas minorias globalizadas. A proposta sucumbiu, não obstante o horror que a violência provoca em todas as camadas da população, porque a percepção da sociedade insurgiu-se contra a patrolagem desses grupos barulhentos.
O eleitor politizado percebeu o referendo como uma manobra diversionista para abafar a crise e se insurgiu votando contra o Congresso; nos meios populares a proposta sucumbiu porque as gentes das periferias sentiram-se prejudicadas. Neste caso, sabe todo o jornalista que teve experiência de reportagem geral e que botou o pé nos barros de vielas das favelas, que ali o cidadão depende unicamente de si mesmo para sua defesa pessoal.
O caso da inevitabilidade da cassação do deputado José Dirceu é diferente, mas pega o Legislativo na outra perna. A tese é que o sistema, no regime democrático, não se pode usar instrumentos de exceção para fins que não sejam irrefutavelmente legítimos. Neste caso, embora os deputados estejam pressionados pela opinião pública insuflada pela mídia, há um nítido sinal do uso abusivo do poder de suprimir direitos.
A imunidade parlamentar é um direito do eleitor. Ela só pode ser rompida se o representante exorbitar. Os cassados nas últimas legislaturas foram depois processados criminalmente ou ficou provado que agiram para enxovalhar o decoro naquele mandato, como no caso dos anões do Orçamento. Tudo em cima de provas provadas, para não deixar dúvidas dos motivos que levaram ao rompimento da imunidade. Assim mesmo, se o acusado renuncia, extingue-se o processo, pois a contravenção política limita-se ao periodo do mandato. Esta é a questão formal, regimental.
O mecansmo para retirar do cenário mandatários politicos sem legitimidade, seja qual for a razão, é a urna. Ali devem cair os incompetentes de qualquer natureza. Fora isto, é a exceção. Não se pode comparar a degola do ex-ministro com os processos contra demais petistas indiciados, mesmo daqueles que limpidamente se envolveram em irregulariades na operação do sistema eleitoral vigente, até então aceitas pelos usos e costumes.
Sabe-se que dinheiros foram aqueles. Muitos nomes que apareceram nas listas de Marcos Valério estavam repassando recursos que o PT e outros partidos aliados deviam para fornecedores. Julgavam estar num espaço de uma lei para “inglês ver”, pagando atrasados de honorários a seu pessoal de televisão contratado para as campanhas nos municípios em que seus candidatos perderam as eleições em 2004. Enredaram-se na credulidade de que costumes universalmente aceitos não podem ser punidos pela lei descartada pelo desuso. Na letra da Lei, pode-se dizer que receber dinheiro de caixa dois não seria conduta decorosa.
O processo contra Dirceu é diferente, pois, claramente, desenvolve-se sob pressão de seus desafetos de todas as áreas, dispostos a ajustar contas antigas e recentes. Dirceu , desde que pisou na primeira vez uma bancada parlamentar, ainda na Assembléia Legislativa de São Paulo, tem sido um algoz implacável de seus adversários. Entretanto, o exemplo histórico de um parlamentar com esse perfil, o deputado carioca Carlos Lacerda, nunca teve seu mandato ameaçado pelos adversários do binômio PSD/PTB, embora tivese levado tiros e sofrido a censura radiofônica da Lei Rolha. Só perdeu seus direitos políticos numa penada do executivo durante o regime militar.
Aqui está o problema básico: o funcionamento pleno da democracia não admite que se tire de cena sem motivos cabais um político com um perfil tão alto. Se for esmagado, Dirceu encontrará novos espaços para se manter ativo na vida cívica. O expurgo efetivo de tal figura somente seria viável se pudessem prendê-lo, exilá-lo ou bani-lo. Uma simples cassação politica, sem que isto prossiga num processo criminal ou civel, que respaldasse a supressão da imunidade ( e do mandato), abala fortemente as garantias do eleitor e o próprio sistema democrático.
Isto é o que se entende estar ocorrendo, reforçando-se a cada declaração dos parlamentares da Comissão de Ética, que dizem ser um processo que dispensa as provas provadas para sua condenação. Dirceu coloca-se como vítima de uma perseguição política, como mais uma condenação de sua história pessoal. E o Congresso abre um precedente perigoso, que, é provável, seja revertido na Justiça. Mais pacifica seria sua renúncia, submetendo-se depois às urnas, como o fizeram outros cassáveis. Ao persistir, Dirceu inova, prometendo usar toda sua força por fora do sistema. Será mais um desafio para o timoneiro do PT.
José Antonio Severo, especial para o JÁ -
Morador pede ajuda para deixar a rua
Guilherme Kolling*
Um acampamento está instalado há meses junto à parede do Hospital de Pronto Socorro na avenida Venâncio Aires, um dos pontos mais movimentados de Porto Alegre. São sete ou oito jovens que dividem o espaço, comida, cobertores, colchões e drogas.
Às 10h30 da manhã desta quinta-feira, o único integrante do grupo que guardava o ponto era um rapaz negro, de quase 1.80m, longilíneo, com um cavanhaque e bigodinho ao estilo do músico Seu Jorge. Abatido, magro e com olheiras, estava sentado no chão, cheirando loló.
Trata-se de Jaime Nascimento de Araújo, 24 anos, um dos moradores de rua do local. Ele teve forças para se erguer e organizar o espaço, com decisão: dobrou cuidadosamente cobertores, colchas e guardou tudo num carrinho de supermercado, que serve de guarda-roupa da turma.
Todos os dias ele pede uma vassoura emprestada da funerária do outro da rua – “o pessoal lá é muito gente boa” e limpa o pedaço. Quando ia recolher o colchão, foi abordado pela reportagem do JÁ. Apesar do efeito da droga, falou de forma articulada.
Sua primeira questão: “Vocês vão me ajudar?”. Logo contou seu drama. “Eu não quero continuar na rua. Quero ir para o Hospital Espírita ou o São Pedro para me tratar”. — O São Pedro? “Não é o hospício”, explicou. “É perto da (Vila do) Cachorro Sentado, onde tratam jovens viciados”.
A vontade de ser internado esbarra na falta de vagas. E também na falta de acompanhante para encaminhá-lo. “Alguém tem que ir junto, mas não quero incomodar minha mãe. Ela é trabalhadora, não pode ficar correndo atrás de mim”.
Jaime já fez algumas tentativas recentes de internação. Foi no posto da Cruzeiro, no mês passado, mas não obteve sucesso. Seu vício tem mais tempo, dois anos para mais. “Tudo que eu quero é fazer o tratamento, com medicação. Depois de um ou dois meses eu saio de lá, volto para casa”.
Cita o caso de um amigo que também estava na rua, bem magrinho. “Ele fumava pedra, cheirava, usava loló. Saiu curado, bem fortão, e agora tá trabalhando de mecânico”. Jaime quer seguir esse exemplo – já tem todos os documentos, estudo (abandonou no 1º ano do 2º grau) e acredita que sua vaga está garantida nos locais onde trabalhou.
Ficou um tempo na Academia Performance, na Protásio Alves, e também teve uma passagem pela Escola Mergulhinho, na Lucas de Oliveira. Fazia serviços gerais, limpava a piscina, ajudava os clientes a estacionar os carros, distribuía folhetos na rua. “É só eu me recuperar que eu consigo emprego certo”, acredita.
Jaime também tem lá suas responsabilidades. Já é pai. Quando pode, ainda leva leite e fraldas para a criança. Também visita a mãe, na casa dela, na Vila Bom Jesus, de onde saiu no ano passado. Ela acha que o rapaz está em uma casa de convivência, na avenida Farrapos.
De fato, ele ficou lá um tempo, mas saiu pelas condições impostas. “Tem chegar às 5 da tarde para conseguir vaga. Aí, entra às 6h. E fica lá até as 6h da manhã do dia seguinte”. Sem conseguir ajuda para passar o resto do dia, a saída foi ser flanelinha de noite. Ganha alguns trocados, mas aí não dá para ir no albergue. Optou pela rua – gosta de conviver com os amigos que fez.
“Mas as pessoas passam aqui e não dão nada. Só quem ajuda é um pessoal que vem de noite, encosta o carro e dá comida, nas segundas, terças, quartas. Os anjos da noite dão café na sexta. Um deles me prometeu uma força para eu me internar, mas passaram duas sextas e nada. Acho que não teve tempo”, diz, com um ar decepcionado.
“Mas eu não preciso desta ajuda, da comida. Não preciso disso. Quero largar essa vida. A única coisa é que eu quero é me tratar”, apela.“Eles têm casa e ficam mandando os policias contra a gente”
Logo no início da conversa chegam Éder, 20 anos, e Paula, uma das meninas que vive no local. O tema agora é a repressão da Brigada. “Podem vir quantos policiais quiser. Se o cara não cara não fez nada de errado, não tem o que fazer”, resmunga Éder, enquanto devora com rapidez dois cacetinhos com mortadela recém comprados – o rapaz estava faminto, ficou de olho no sanduba da colega.
Mas continua. “O certo seria todo mundo ter casa. Eles têm casa e ficam mandando os policiais contra a gente. A polícia só vem porque o pessoal chama”, completa Éder, se queixando dos moradores da redondeza. O grupo é pacífico. Mas era expulso pela polícia quando se instalava em frente a um prédio na rua Augusto Pestana, quase esquina com Venâncio.
Jaime concorda. Aponta para o outro lado da rua e diz: “Eles que alcagüetam”, referindo-se a comerciantes e vizinhança. Mesmo assim, vão para lá em dias de chuva – assim como vários outros moradores de rua das redondezas, que buscam o abrigo da marquise do local.Jaime conta outra episódio. “Teve um dia em que o brigadiano falou que ia vir bem cedinho, 6 da manhã, e jogar um balde de água fria na gente, se nós não saíssemos dali”. Saíram. Mas a hostilidade não acabou. “Fui comprar um café no bar, tinha dinheiro e tudo. Mas um policial que estava lá falou para eu ir tomar cafezinho no inferno”, conta magoado.
“Quanto tô muito fissurado vou para casa do meu irmão”
A escolha de Éder, 20, pela rua tem origem em um conflito familiar. “Meu pai vendeu a casa onde eu vivia e nem me deu nada”. Ele cheira loló como os colegas, mas acha que não precisa ir para clínica desintoxicar, já que não se considera viciado porque não acha difícil ficar sem a droga: “Eu não cheiro muito, só quando tô na rua, com os caras”.
“Quando tô muito fissurado, vou para casa do meu irmão e dou um tempo”. Lá, ele conta que passa uns meses sem cheirar nada. Sai de lá forte, “gordo”, como ele diz. Mas só recorre ao mano em caso de urgência. “Não quero ficar incomodando. Ele tem a família dele, a mulher até tá grávida”.Para arrumar dinheiro, Éder também cuida dos carros dos freqüentadores dos bares da redondeza: Cirilo, Bar do Beto, etc. Tira alguns trocados por noite – na manhã desta quinta-feira tinha um maço com cinco notas de um real. Com a grana compra café, água e comida. E vai sobrevivendo.
* Colaborou Naira Hofmeister
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Imprudência transforma eixo Osvaldo-Protásio em “corredor da morte”
Guilherme Kolling
Cinco mortes e mais de 50 atropelamentos. Esse é o saldo da violência contra pedestres no eixo das avenidas Osvaldo Aranha e Protásio Alves neste ano. Nem o atropelamento horripilante de um senhor de 92 anos, que foi atingido por um ônibus na parada em frente ao Hospital de Clínicas, foi capaz de dar um freio à imprudência da população ao atravessar a via. Bastam alguns minutos para observar dezenas de pessoas desrespeitando as leis do trânsito. A reportagem do JÁ foi conferir em 17 de outubro.

Fotos Tânia Meinerz
Um senhor idoso caminha mancando mas atravessa a avenida Osvaldo Aranha por um atalho: evita a sinaleira e anda em diagonal, passando entre os carros. Tudo para cortar uns metros de caminho. É Seu Peri Soares, 72 anos, aposentado. “Fui por ali porque me facilita”, explicou.
“Vou fazer 73 anos e nunca tive acidente de trânsito. E olha que eu dirijo desde os 12”. João dos Santos Fraga, 53, se desloca de bengala, mas tenta cruzar o corredor de ônibus da Osvaldo, em frente ao HPS, mesmo com o sinal fechado. Numa das pistas, o coletivo pára e recebe passageiros. É a senha para que várias pessoas se arrisquem, sem saber se vem algum ônibus no sentido oposto. Parece roleta-russa. Fraga tenta, mas não consegue vencer a segunda pista, recua com vinda dos veículos.
Questionado, ele diz que o motorista do outro lado não foi educado, poderia ter parado. Depois reflete e muda o discurso. “Se bem que o sinal estava para ele. O problema não é falta de sinalização, mas o desrespeito do ser humano”, admite.

Os dois casos não são isolados. Um médico residente no HPS, Márcio Rodrigues, conta o que acontece enquanto espera o sinal abrir. “A gente recebe direto gente atropelada. E aqui na Osvaldo, acontece toda hora”, atesta. “Outro dia meus colegas foram retirar um homem debaixo das rodas de um ônibus”. Mais um minuto e mais uma cena incrível. Marcelo Nunes, motoboy, 25, passa a pé no meio da Osvaldo Aranha, vencendo seis pistas sem a proteção da sinaleira. “Estava com pressa”, justifica.
A corrida para aproveitar o sinal inclui crianças e idosos. Tereza Brum Viana, 68, é uma exceção. Enquanto dezenas de pedestres aproveitavam uma pequena folga no vai-e-vem dos ônibus para atravessar, ela espera, sozinha, até aparecer o verde. Foi a única, aliás. “Aqui é comum o pessoal não respeitar. Eu espero sempre. É um direito que eu tenho e os motoristas têm”, ensina.

Violência no trânsito em Porto Alegre
Acidentes 14.109
Feridos 4.964
Vítimas Fatais 105
Atropelamentos 869
Feridos 946
Vítimas fatais 60
Fonte: EPTC
Dados de 2005, até agosto -
Nanotecnologia: uma discussão social urgente
Naira Hofmeister
Nanotecnologia: o prefixo vem do grego e significa anão. Trata-se de uma tecnologia na qual são manipuladas partículas atômicas do tamanho de um bilionésimo de metro, uma escala inimaginável para maioria dos cidadãos.
A despeito de seu tamanho, o poder que concentra essa tecnologia é enorme, como demonstra o aporte financeiro investido nos últimos anos. O Canadá destinou em 2004, 10 bilhões de dólares na pesquisa básica de nanotecnologia. Para se ter uma noção do que isso representa, basta citar que nos anos 40, exatamente a mesma quantidade de dinheiro foi gasta na pesquisa e produção da bomba atômica, ou que esse valor é menor do que o investimento realizado para o homem chegar à lua.
A Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos prevê que em 2012, o mercado mundial movimente cerca de 1 trilhão de dólares em negócios de nanotecnologia. Apenas dois anos depois, o número deve subir para 2,3 trilhões. Essa cifra é 15% do que, atualmente, é movido pela indústria global, ou 10 vezes mais do que o capital de giro das tecnologias da informação, a biotecnologia ou da tecnologia transgênica.
“Em pouco tempo, a nanotecnologia se tornará o maior setor da economia mundial, mesmo porque, atinge à todos os setores econômicos”, prevê Pat Mooney, diretor do ETC Group – Erosion, Technology and Concentration -, do Canadá, ong que monitora o desenvolvimento científico e suas aplicações sociais. No Brasil, o investimento ainda é tímido, 104 milhões de reais nos últimos três anos.
Compuseram a mesa debatedora na Assembléia Legislativa Sílvia Guterres, Wilson Tadeu Lopes da Silva, os deputados Ervino Bohn Gass e Frei Sérgio Göergen e Pat Mooney
Os números comprovam algo que teóricos e cientistas já vêm sublinhando a tempo: a nanotecnologia não é algo do futuro, ao contrário, está mais presente no cotidiano do que muita gente imagina.
Segundo Mooney, cerca de 7 mil e 200 produtos utilizam a nanociência na sua composição, entre medicamentos, produtos alimentícios, aditivos químicos, inseticidas e cosméticos, além das indústrias naval e aérea. O problema reside na regulamentação das técnicas de manipulação atômica e, principalmente, nos estudos de efeitos que podem ter nos seres humanos e no meio ambiente: “Não sabemos nada sobre suas implicações ambientais e de segurança, e existem razões para ficarmos céticos quando nos dizem que as novas tecnologias vão resolver os problemas da sociedade, como a fome, a má distribuição de renda e a injustiça social”, alerta.
A nanotecnologia modifica a matéria, redesenhando suas propriedades químicas: “ao invés de termos apenas uma, lidamos com cerca de cinco ou dez diferentes tabelas periódicas, a partir da nanotecnologia”, compara Pat Mooney. Os impactos econômicos que acarreta, podem ser ilustrados pela situação narrada por Mooney durante sua conferência na Assembléia Legislativa, nesta segunda-feira (24/10) pela manhã.
Nos últimos anos, o Chile investiu 12 bilhões de dólares em equipamentos para a mineração no país, que tem como principal sustentáculo do PIB, a extração de cobre. São cerca de 74 mil famílias que dependem diretamente da atividade econômica. Pois bem, segundo as previsões de Mooney, em apenas cinco anos, a utilização de fios de cobre na indústria da informação pode ser totalmente substituída por carbono “nanomodificado”. Ou seja, se pode prever uma indeterminação da matéria-prima.
Para além dos efeitos econômicos, o debate social deve se dar também no nível dos impactos, pouco estudados até o momento. O descaso com os impactos ambientais e nos seres humanos foi denunciado por Pat Mooney. Segundo ele, as indústrias não testam o comportamento dos elementos químicos no âmbito nanotecnológico. Se um material é aprovado para ser utilizado em escala macro, ninguém cobra que seja reavaliado seu uso na escala nano. Porém, assim como nessa escala modificam-se características como cor, condutividade elétrica, força e magnetismo, também suas implicações nos seres humanos e na natureza serão transformadas.
A pesquisadora da Faculdade de Farmácia da UFRGS, Sílvia Guterres, lida com a nanotecnologia há quinze anos e defende sua utilização, principalmente pelos avanços médicos que proporcionou nos últimos vinte anos, tempo em que é utilizada na área. “Há benefícios incontestáveis na utilização da nanotecnologia, mas há também riscos associados que devem ser pensados por aspectos regulatórios consistentes”, afirma. Porém, a discussão tem se dado em âmbitos muito segmentados, principalmente na classe científica, o que, segundo a pesquisadora, provoca temor na população. “Essa iniciativa da Assembléia não só é oportuna, como tardia”, disse Sílvia.
Ela argumenta que as nanopartículas estão presentes na natureza, não sendo fruto apenas da manipulação industrial, o que deveria acalmar os tecnófobos. Além do mais, Sílvia disse que a Anvisa já deu os primeiros passos na discussão da segurança e eficácia de medicamentos que utilizam a nanotecnologia. Ela exemplificou benefícios como a utilização de campos magnéticos para levarem um medicamento ao seu lugar de ação, dentro do corpo humano.
Aliado a essa visão sem preconceito, o representante da Embrapa, Wilson Tadeu Lopes da Silva também é entusiasta da tecnologia. Estudos da entidade apontam que a construção de músculos artificiais, por exemplo, não está muito distante da realidade atual. Narizes e línguas artificiais que identificam odores e sabores com uma capacidade quase humana já estão em fase de comercialização no Brasil.
Há controvérsias, como tudo o que está no âmbito de desenvolvimento tecnológico. Primeiro, a velocidade assustadora que impede uma apropriação da sociedade e sua familiarização com as novas tecnologias. Seguido da falta de estudos de impacto, tanto no meio ambiente, como na própria raça humana. E, por último a questão das patentes, obviamente concentradas nas mãos de pouquíssimas grandes empresas, ou seja, os efeitos sociais da comercialização de nanotecnologia. Segundo Mooney, 80% das patentes na área, são concentradas por empresas de grande porte, em países como Estados Unidos, Japão, China e os europeus. Há também, um temor em relação à sua utilização militar. Há quatro anos, a Marinha e a Força Aérea norte-americana detinham praticamente toda a pesquisa na área.
Segundo Mooney, entre o alerta que um cientista faz em relação a um provável problema advindo das modificações tecnológicas e a sua apropriação por um governo, se passam cerca de trinta anos. -
Porto Alegre terá oito novos pontos de cultura
Adriana Lampert
Porto Alegre será beneficiada com oito novos pontos culturais, eleitos para receberem verba do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura (MinC), em uma seleção que envolveu a análise de 2.365 projetos de todo o país.
A Secretaria de Programas e Projetos Culturais do MinC escolheu 328 propostas de todo o Brasil, para as quais irá liberar mais de R$ 70 milhões até 2007. A definição dos novos Pontos de Cultura foi anunciada no último dia 3, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelos ministros Gilberto Gil (Cultura) e Luiz Marinho (Trabalho e Emprego) e por Célio Turino, secretário do Programa, em Heliópolis , SP.
Respaldados pelo convênio com o Ministério da Cultura (cada ponto contemplado receberá até R$ 185 mil divididos em cinco parcelas semestrais) serão criados 33 pontos na região norte do país, 113 no Nordeste, 27 na região centro-oeste, 114 no Sudeste e 41 na região Sul.
Em Porto Alegre, as instituições responsáveis pela criação dos novos Pontos de Cultura (PC) são: Sociedade Recreativa Beneficente do Estado Maior da Restinga; Movimento Paulo Freire (que instituirá a Biblioteca do Fórum Social Mundial); Instituto de Cidadania e Direitos Humanos – Teia (PC do Bairro Assunção); Guayí (Casa do Cristal Quilombo do Sopapo); Somos Comunicação, Saúde e Sexualidade (Ponto de Cultura GLBT do RS); Maria Mulher – Grupo de Mulheres Negras (PC Maria Mulher); Sociedade de Ação Social Recreativa Beneficente Cultural Odomodê (PC do bloco Afro Odomodê) e Associação Cultural Depósito de Teatro (Ocupação teatral na Vila Santa Rosa).
Para que o convênio seja estabelecido efetivamente, as instituições responsáveis pelos projetos selecionados ainda devem enviar documentação ao MinC até o dia 14 de novembro. Os critérios de seleção envolveram os benefícios artísticos, sociais e econômicos de cada projeto e o seu contexto social. Cada ponto de cultura deverá agregar “agentes culturais” que terão papel de articuladores e deverão agir em prol de um conjunto de ações nas comunidades envolvidas. A criação do Programa Cultura Viva ocorreu em 6 de julho de 2004. O primeiro edital (16 de julho de 2004) gerou a criação de 500 pontos em todo o território nacional.
Teatro como resgate da identidade cultural
A Vila Santa Rosa, localizada no bairro Rubem Berta, é um exemplo porto-alegrense do contexto social que o Programa pretende atingir. Área habitada por ocupação, abriga população de baixa renda, onde a maioria dos adolescentes e jovens são afro-descendentes em situação de vulnerabilidade social e pouco contato com serviços de cultura.
Ali nasceu o grupo ResgatArte, em 1992. Formado por aproximadamente nove pessoas, o grupo solicitou à Prefeitura o financiamento de oficinas teatrais e, tendo sido beneficiado, apresentou resultados tão positivos, que inspirou o projeto de Descentralização da Cultura, que existe até hoje. No entanto, a Descentralização deixou de atender o bairro em 1996 e o ResgatArte passou a enfrentar dificuldades para se manter.
Nos quatro anos que a Descentralização contemplou a Vila Santa Rosa, foi a atriz Sandra Possani (atualmente integrante da Associação Cultural Depósito de Teatro) que acompanhou o grupo e participou de suas descobertas, entre elas, o resgate da identidade afro-descendente e a transformação que a experiência teatral provocou em cada indivíduo do grupo.
“Na época, começamos a trabalhar em cima de temáticas do negro – da escravidão à marginalização – e realizamos três espetáculos dentro deste universo”, conta Sandra. “Foi pensando na continuidade deste trabalho e no fomento a manutenção e auto-gestão do grupo ResgatArte, que o Depósito de Teatro projetou a Ocupação Teatral da Vila Santa Rosa” explica a bailarina e atriz Maria Falkembach, integrante da Associação.
“A idéia é que os integrantes do ResgatArte também passem a ser agentes culturais dentro da comunidade e venham a fazer trabalhos voluntários no futuro. Pretendemos não só estruturar este grupo de teatro, mas também capacitar as pessoas que estiverem na volta”, explica Sandra. “Mas as questões e os caminhos serão muito discutidos, será um trabalho a ser decidido com a comunidade”, completa.
A estimativa é de que a Ocupação Teatral da Vila Santa Rosa beneficie entre oito a 15 mil pessoas, através de apresentações de teatro e da realização de oficinas gratuitas de dramaturgia, figurino, fotografia, antropologia (como base de outra forma de compreensão da vida e das diversas culturas ), cenário, dança, circo, iluminação, adereços e produção.
O projeto será todo documentado pela própria comunidade beneficiada, através da oficina de vídeo e edição de imagem. Tudo que for feito será avaliado a cada dois meses, através de uma parceria que o Depósito de Teatro fez com a Unijui. Uma equipe da universidade irá organizar seminários de dois dias para que todos os participantes falem do que esta sendo feito e possam avaliar e refletir suas ações durante todo o processo.
O projeto irá receber R$ 170 mil do Ministério da Cultura em dois anos e meio. Este dinheiro será destinado aos cachês dos 15 ministrantes das oficinas, ao aluguel e estrutura do espaço – ainda a ser definido – e à montagem de dois espetáculos (um adulto e um infantil). O grupo pretende viajar para conhecer outros pontos de cultura no Brasil e levar outros espetáculos para se apresentarem no local.
“A meta é fortalecer o grupo ResgatArte. Vamos criar um esquema de produção, passar a experiência do Depósito, capacitando este pessoal para o mercado de trabalho”, ressalta Maria. “Concretizar este projeto significa a realização de um desejo de contribuir para o direito ao acesso à cultura que todo o cidadão deve ter. Além disso, nós como artistas necessitamos estar perto da nossa realidade. Quando fazemos arte, buscamos expressar o sentimento de uma comunidade. Será uma troca de experiências”, conclui.
