Autor: Elmar Bones

  • Jornal O Sul pára de circular: é fácil culpar a internet

    Elmar Bones
    Mais um jornal impresso tragado pela vaga digital.
    Esta é a manchete ao gosto de quem se contenta com conclusões apressadas, desde que convenientes.
    Não é bem assim.
    O fim da edição impressa do Sul, diário que circulava há 13 anos em Porto Alegre, para ser bem entendido tem que ser colocado no contexto, no caso o mercado jornalístico do Rio Grande do Sul.
    Projeto longamente acalentado pelo empresário Otávio Gadret, da Rede Pampa de Comunicação, deveria ser inicialmente um diário popular, voltado para as classe C e D, ascendentes.
    Uma pesquisa feita pela Pampa à época indicou uma grande demanda nestes segmentos.
    Mas o projeto vazou.
    E a RBS, ciosa de seu domínio mercado de comunicação do Rio Grande do Sul, se antecipou e com todo o seu poderio lançou o Diário Gaúcho.
    Sem condições de competir, Gadret voltou-se para a segunda opção apontada pela pesquisa: um jornal para  a classe média, há uma generosa faixa de leitores que, por diversas razões, não aceita a ZH, o carro chefe impresso da RBS.
    Lançou então o Sul, investindo em gráfica própria. Não tenho os números, mas 13 anos do jornal indicam que a barreira dos leitores ele venceu. Nenhum jornal dura esse tempo sem leitores.
    O que visivelmente o Sul não conseguiu vencer foi a barreira dos BVs,  o duvidoso instrumento que garante  o  virtual monopólio das grandes verbas publicitárias.
    Está certo: um dia tudo vai convergir para a internet e a versão digital de O Sul vai preservar todo o conteúdo do jornal, promete-se.
    Mas neste momento, em abril de 2015, o fechamento da edição impressa do Sul significa cerca de  200 empregos em risco e uma fonte a menos no já concentrado mercado da informação no Rio Grande do Sul.
    E a culpa não é só da internet, ou da alta do dólar.

  • Incentivos fiscais: Sartori vai enfrentar o tabu?

    A única novidade apresentada pelo governador José Ivo Sartori para enfrentar o rombo das contas públicas foi praticamente ignorada no noticiário.
    Mereceu uma linha, a última, na coluna da Rosane de Oliveira, em ZH: “Vamos revisar todos os incentivos fiscais”, disse Sartori.
    Se fizer isso, Sartori estará tocando num tabu, uma grande caixa preta, onde talvez esteja a única saída para seu governo enfrentar o déficit, que só este ano chega aos R$ 5 bilhões.
    O governo Olívio Dutra (1999/2002) foi o único que ousou tentar revisar a política de desonerações – que não é uma exclusividade do Rio Grande do Sul, longe disso, mas tem no Estado um caso exemplar. Foi hostilizado.
    No início do mandato de Tarso Genro, o segundo governo petista desse período deficitário, falava-se que a renúncia fiscal (impostos que o governo não cobra) chegava aos R$ 6 bilhões ao ano.
    Contrariando as expectativas, Tarso optou por uma atitude propositiva e não só manteve como ampliou os benefícios fiscais.
    O número atualizado há bom tempo não aparece no noticiário. Uma fonte confiável fala em R$ 9 bilhões ao ano (Veja bem: ao ano, metade disso poderia quase zerar o déficit previsto para 2015).
    Uma análise criteriosa em todos esses contratos de desoneração já foi proposta pelo ex-deputado Flávio Koutzii, há mais de 15 anos. Não encontrou eco.
    Até que ponto essa dinheirama, que vai faltar na segurança, na educação e na saúde, está sendo aplicada de acordo com o que está previsto nos programas em que o Estado abriu mão do imposto para estimular grandes projetos?
    Quantos empregos foram prometidos? Quantos estão efetivamente existindo? Quais são as empresas beneficiadas? As perguntas não terminam, porque esse é um assunto  tabu.
    Se Sartori ousar tocá-lo, talvez descubra a única saída que resta para amenizar o rombo do Tesouro e salvar o seu mandato.

  • Manifestações: 2018 está nas ruas

    O que se manifestou nas ruas, na sexta e no domingo, é o embate que se deu nas urnas, há menos de seis meses. PT versus anti-PT. É o embate de 2018.
    Descartado o impeachment, hostilizado o golpe militar, restam as urnas para tirar Dilma Rousseff e o PT do comando do país. Isso só em 2018, nas eleições.
    Essa antecipação da disputa eleitoral nas ruas é uma novidade. Se as manifestações se mantiverem e avançarem talvez a verdadeira reforma eleitoral seja feita pelas ruas.
     
     
     

  • O pacote anti-corrupção já está pronto

    Dilma vai responder às manifestações com um pacote contra a corrupção.
    O núcleo do pacote é uma intervenção branca  pela PGR em todas as empresas envolvidas nos esquemas de corrupçao da Petrobrás.
    Todos os contratos serão auditados. E os valores superfaturados serão devolvidos.
    A intervenção está amparada em lei, tem a concordância das empresas. A Petrobrás retoma os pagamentos  e nenhuma obra para.
     

  • Por que a ideia de taxar grandes fortunas não prospera no Brasil?

    A pirâmide social brasileira tem na ponta um por cento de ricaços, que ficam com um terço de toda a renda do país.
    Para o cara que tem R$ 100 milhões, pagar mais R$ 10 milhões em impostos não muda nada na vida. É um número na contabilidade.
    Para um operário que ganha dois salários mínimos, uma perda de R$ 100 no orçamento mensal compromete coisas essenciais, a comida muitas vezes.
    Então em vez de cortar desonerações da folha de salários, que acaba estourando no trabalhador, não seria mais sensato criar um imposto sobre esses ricaços, a “cota de sacrifício” dos nossos bilionários? Uma taxa de  2% sobre essas grandes fortunas do 1% quanto renderia?
    Seriam os anéis, que talvez possam lhes poupar os dedos.

  • Fiergs propõe "pacto pelo desenvolvimento"

    A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) publicou um apedido nos jornais desta quinta-feira (12) propondo um “pacto social pelo desenvolvimento”.
    A nota propõe “diálogo,  flexibilização de posições e  transparência”, como caminho para se chegar a esse pacto, que deve ter como alvo a criação de um ambiente que permita ao país concretizar as reformas urgentes que precisa para  uma “elevação de competitividade”.
    “O momento é de união e não de discórdia”, diz a nota. “Nossa opção é buscar, através do entendimento e da ordem, o caminho do desenvolvimento econômico e social”, finaliza.
    A nota, com  os logotipos da FIERGS E CIERGS, não está assinada e foi reproduzida na newsletter da entidade disparada por e-mail para os assinantes na sexta-feira (13).

    No Jornal do Comércio, a nota foi publicada na página 5 | Reprodução JÁ
    No Jornal do Comércio, a nota foi publicada na página 5 | Reprodução JÁ

  • Quem tem medo do SwissLeaks?

    RANDOLFE RODRIGUES*
    Apesar do evidente interesse público de um assunto tão polêmico e bilionário, a pauta do ‘SwissLeaks’ vaza na imprensa brasileira pelo esforço quase solitário de blogs e blogueiros desvinculados da grande mídia.
    O HSBC é um gigante do mercando financeiro mundial, com 254 mil funcionários em 6.200 escritórios e agências em 129 países, somando mais de 52 milhões de clientes no mundo inteiro.
    No ranking de 2014 da revista inglesa The Banker, o HSBC, com sede em Londres, aparece como a segunda marca bancária mais valiosa do mundo, no valor de quase 27 bilhões de dólares.
    Um poderio que se manifesta também no Brasil, onde o banco assumiu as operações do antigo Bamerindus. Com sede em Curitiba, o HSBC opera em 565 municípios brasileiros com 933 agências, além de quase 500 postos de atendimento bancários e mais de 5 mil caixas automáticos, com uma carteira de 3 milhões de clientes individuais e outros 320 mil como empresas.
    Numa instituição tão grande, um passo em falso se transforma em desastre.
    O desastre virou um escândalo planetário no início de fevereiro passado, quando o HSBC virou protagonista, na definição do jornal londrino The Sunday Times, da “maior evasão de impostos da História”. A notícia tem como fonte original um especialista em informática do HSBC, o franco-italiano Hervé Falciani, hoje com 43 anos, que o banco havia transferido de Mônaco para sua filial suíça em Genebra. Lá, ele descobriu o método criminoso que ele definiu assim para a revista alemã Der Spiegel: “Bancos como o HSBC criaram um sistema para enriquecer às expensas da sociedade, através da assistência para evasão de impostos e lavagem de dinheiro”.
    Procurado pela polícia suíça como “ladrão de dados bancários”, Falciani fugiu para a França em 2008 carregando uma bagagem explosiva: 600 arquivos com mais de 100 GB (gigabytes) de 60 mil documentos de 2006 e 2007 contendo os dados bancários de 106 mil clientes abonados de 203 países, operando uma fortuna de 204 bilhões de dólares através de 20 mil empresas off-shore ancoradas em paraísos fiscais e numa discreta rede de conexões financeiras internacionais.
    Especialistas da Direção Nacional de Investigações Tributárias da França começaram a decifrar os dados codificados fornecidos por Falciani, depois compartilhados com autoridades do Reino Unido, Itália, Espanha, Bélgica e Grécia. Em 2012, Falciani depôs ante um subcomitê de investigação do Senado dos Estados Unidos, mais preocupado com a eventual ramificação da lavagem de dinheiro com o terrorismo. A investigação do Congresso só não evoluiu porque, em julho de 2013, o HSBC aceitou pagar uma multa de 1,9 bilhão de dólares para não ser levado a juízo nos Estados Unidos pela acusação de lavar dinheiro para os cartéis latino-americanos das drogas.
    Até que os arquivos explosivos de Falciani chegaram às mãos do mais importante jornal da França, o Le Monde.
    O BRASIL NO TOPO
    A dimensão planetária da denúncia sobre o HSBC era tão massiva que levou o jornal Le Monde a abrir mão da exclusividade do material de Falciani e pedir ajuda na investigação ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos – ICIJ, na sigla em inglês –, uma rede global de 185 profissionais de investigação espalhados por 65 países. Concluído o trabalho, o material foi repassado pelo ICIJ a grandes jornalistas de jornais importantes do mundo inteiro.
    E o que isso tudo tem a ver com o Brasil? Tem tudo a ver.
    A denúncia contra o HSBC mostrou o Brasil no topo da cadeia criminosa. Na lista revelada por Falciani, estão 8.667 brasileiros que respondem por 6.606 contas que movimentaram ou depositaram ali, entre 2006 e 2007, cerca de 7 bilhões de dólares.
    Em número de clientes endinheirados do HSBC, o Brasil ocupa um destacado quarto lugar, superado apenas pela Suíça (11.235 nomes), França (9.187) e quase empatado com o Reino Unido (8,844). Em volume de dinheiro depositado, o Brasil conseguiu sua vaga no Top Ten do ranking: é o nono colocado, acima de potências de milionários como Arábia Saudita (11º lugar) e de notórios paraísos fiscais como Ilhas Cayman (15º), Ilhas Virgens Britânicas (17º), Luxemburgo (24º), Liechtenstein (27º) e Jersey (34º).
    Em reais, isso representa uma quantia equivalente a 20 bilhões de reais, exatamente o que o governo Dilma Rousseff pretende arrecadar com o pacote de maldades que resume o ajuste fiscal desenhado pelo ortodoxo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
    O conteúdo dos documentos do HSBC ganhou as manchetes e os espaços da grande imprensa no mundo, sob a grife de “SwissLeaks”.
    O Le Monde, durante dois dias seguidos, dedicou vinte páginas para o assunto. O escândalo ganhou a primeira página de jornais importantes como o Financial Times, na Inglaterra, e o The New York Times, nos Estados Unidos. Hervé Falciani, o pivô da denúncia, ganhou a capa da revista L’Express, o mais importante semanário francês, como “O homem que faz tremer o planeta”.
    No Brasil, estranhamente, o “SwissLeaks” do HSBC mereceu um estridente silêncio da grande imprensa. Apesar do volume de dinheiro envolvendo brasileiros, que rivaliza com as falcatruas descobertas pela Operação Lava Jato, o assunto ficou pendurado em notas modestas, quase envergonhadas, penduradas em lugares discretos da primeira página ou escondidas nas páginas internas.
    NOTA SECA
    Apesar do evidente interesse público de um assunto tão polêmico e bilionário, a pauta do “SwissLeaks” vaza na imprensa brasileira pelo esforço quase solitário de blogs e blogueiros desvinculados da grande mídia. Blogs como Megacidadania e O Cafezinho, sites como Brasil247 e Diário do Centro do Mundo ou blogueiros como Miguel do Rosário e Luís Nassif vasculham e revelam dados que não se vê, nem se lê nos grandes veículos de comunicação.
    Na terça-feira (17/2), o site Jornal GGN, de Nassif, repassou uma informação de um jornalista de Hong Kong, na China, que conseguiu descobrir os nomes e endereços de 93 contas da lista do HSBC relacionadas a brasileiros. Uma ninharia perto dos quase 9 mil brasileiros que fazem parte desta listagem ainda inédita.
    Para milhões de brasileiros, o Jornal Nacional, da Rede Globo, ainda é a única, talvez a mais importante fonte de acesso às notícias do país e do mundo. No sábado (21), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, anunciou que o HSBC entrou em sua alça de mira. Esta decisão mereceu do JN daquela noite uma nota seca, de apenas três frases e 59 palavras, lidas em 25 segundos pela apresentadora do telejornal, sem qualquer imagem:
    “A Procuradoria Geral da República abriu investigação para apurar se brasileiros mandaram dinheiro ilegalmente para a Suíça, no caso que ficou conhecido como SwissLeaks. De acordo com a Associação Internacional de Jornalistas (sic), o banco HSBC teria ajudado clientes a esconder bilhões de dólares entre 2006 e 2007. Entre os investigados estão acusados da Operação Lava Jato”.
    E mais não disse, nem mostrou o Jornal Nacional.
    Nesse imenso cone de silêncio sobre questão tão grave, é ainda mais surpreendente que uma lista tão importante seja de conhecimento de um único jornalista brasileiro, Fernando Rodrigues, do portal UOL. Membro no Brasil do ICIJ, que espalhou a lista pelo mundo, Rodrigues é um renomado profissional, vencedor por quatro vezes do mais importante troféu da imprensa nacional, o Prêmio Esso – um sobre a compra de votos para a emenda da reeleição inaugurada por Fernando Henrique Cardoso, outro sobre a criação do banco de dados “Controle Público”, com a declaração de bens de seis mil políticos brasileiros. O UOL é o portal de maior conteúdo da língua portuguesa no mundo, com mais de 1.000 canais de notícias e sete milhões de páginas com quase sete bilhões de acessos a cada mês.
    Apesar dessas honrosas credenciais, o jornalista e o portal não revelam a íntegra da lista com os nomes de brasileiros. Apenas 11 nomes do HSBC, todos ligados à corrupção na Petrobras investigada pela Lava Jato, foram apontados. A política editorial que explica esta revelação seletiva foi assim justificada pelo exclusivo detentor da lista brasileira: “A lista completa nunca será publicada? Não, pois seria uma invasão de privacidade indevida no caso de pessoas que podem ter aberto contas no exterior de boa fé, respeitando a lei e pagando impostos. O ICIJ vai publicar algum dia todas as informações? Não”, antecipa Rodrigues, frustrando quem imaginava ver luz sobre este breu financeiro.
    A HISTORIA DOS ANÔNIMOS
    O jornalista adianta, sem dar nomes, que há uma minoria de pessoas conhecidas – empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais – e garante que a imensa maioria dos brasileiros da lista do HSBC é “desconhecida do grande público”. Seria gente anônima, portanto.
    É bom lembrar que pessoas anônimas também fazem história. No passado recente, dois anônimos, desconhecidos do grande público, vieram à luz para mudar o destino e a biografia de pessoas importantes de nossa República.
    O motorista Eriberto foi crucial no desfecho das investigações que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor. O caseiro Francenildo foi decisivo no caso que culminou com a demissão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci.
    O jornalista Fernando Rodrigues avisou na quinta-feira (12/2), sem esclarecer, que “uma fração mínima de nomes sobre os quais há alguma suspeita foi mostrada ao governo, de maneira reservada”. No dia seguinte, sexta, Rodrigues foi um pouco mais claro: ele forneceu em novembro passado, sob “RESERVA”, uma amostra de 342 nomes de nomes de brasileiros do HSBC ao Conselho de Atividades Financeiras (COAF), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda. O COAF respondeu que apenas 15 daqueles nomes indicavam possível atividade criminosa, como corrupção, tráfico de drogas e crimes fiscais.
    O país continua sem saber quem são os 15 nomes suspeitos, ou os 342 da amostra, ou os 8.667 nomes da lista brasileira integral.
    Este caso do HSBC é importante demais para ficar restrito à decisão pessoal, privativa, seletiva, monocrática de um único jornalista, de um só blog, de apenas um veículo poderoso da internet.
    O dinheiro sonegado e subtraído ao Brasil e aos brasileiros não pode ser envolvido pelo segredo, pelo sigilo, pela impunidade que todos combatemos.
    Em 2010, os super-ricos brasileiros somavam cerca de US$ 520 bilhões em paraísos fiscais, segundo um estudo feito por James Henry, ex-economista-chefe da Consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network. O estudo cruzou dados do Banco de Compensações Internacionais, do FMI, do Banco Mundial e de governos nacionais.
    A taxa de sonegação nacional, segundo o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), atingiu R$ 415 bilhões em 2013, cerca de 10% do PIB brasileiro, a soma de todas as riquezas produzidas pelos brasileiros honestos.
    Nada disso foi publicado nos nossos grandes veículos da mídia. Saiu num pequeno blog de nome sugestivo – Limpinho & Cheirosinho – e com um slogan veemente: “A gente resiste, insiste e não desiste”.
    Quero ser leal a este lema inspirador: não vou desistir e vou insistir na revelação integral dos nomes desses 8 mil brasileiros, justa ou injustamente envolvidos com a denúncia sobre a maior evasão de impostos da História.
    Estou requerendo às autoridades do meu País as informações que todos nós, brasileiros, merecemos e ainda não recebemos.
    Ao Ministério da Fazenda, a quem está subordinada a Receita Federal, e ao Ministério da Justiça, a quem se reporta a Polícia Federal, estou solicitando informações sobre os nomes e as condutas ilícitas supostamente imputadas aos brasileiros do HSBC.
    Queremos saber quais as providências e medidas tomadas no âmbito do Governo Federal para dar ao País a satisfação que exige a opinião pública brasileira.
    O DEVER DOS JORNAIS
    Mas, quero ir além destes requerimentos. Na condição de Senador da República e de cidadão brasileiro, quero fazer um apelo público aos jornalistas e aos empresários de comunicação, para que se unam a nós em defesa da livre expressão e da absoluta transparência num caso de repercussão internacional que, para os brasileiros, ainda aparece nebuloso, pouco informado e nada claro.
    Conclamo aqui os jornalistas e os empresários da mídia, patrões e empregados – reunidos em torno da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e da ANJ (Associação Nacional dos Jornais), da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), que defendem juntos a livre informação e combatem qualquer tipo de censura –, para que juntem seus esforços e emprestem seu prestígio para quebrar este cone de silêncio que paira sobre a lista de brasileiros passiveis de investigação nos arquivos do HSBC.
    É um apelo que estendo ao jornalista Fernando Rodrigues, ao portal UOL e ao ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), na pessoa de seu diretor-geral, Gerard Ryle, a quem estarei me dirigindo formalmente, via internet.
    É oportuno, aqui, repetir as palavras candentes de um dos mais importantes jornalistas britânico, Peter Oborne, o veterano comentarista-chefe de política do jornal conservador Daily Telegraph, que se demitiu publicamente de seu posto na semana passada, esclarecendo logo na primeira frase: “A cobertura do HSBC no Telegraph é fraudulenta com seus leitores”. As palavras a seguir de Peter Oborne devem servir de inspiração para todos nós, políticos e jornalistas, que acreditamos na livre expressão e na transparência como primados de uma sociedade democrática:
    Ensina Oborne:
    “Uma imprensa livre é essencial para uma democracia saudável. Há um propósito no jornalismo, é não é só entreter. Não deve ceder ao poder político, grandes corporações e homens ricos. Os jornais têm o que no final das contas é um dever constitucional de dizer a seus leitores a verdade”.
    Que assim seja!
    *Randolfe Rodrigues é senador (PCdoB)

  • Sartori e o perigo dos cortes indiscriminados

    O governador Ivo Sartori está caindo na armadilha que engole governadores, principalmente os do PMDB, no Rio Grande do Sul.
    Essa contenção de gastos, indiscriminada, leva a casos como esse de cortar o serviço de emergências no litoral durante o veraneio, com milhares de turistas e serviços de atendimento deficientes nas praias.
    Foi preciso que um menino, de uma familia de turistas argentinos, caísse da sacada para que se percebesse o absurdo.  Muito mais vai surgir, esperemos que não à custa de vidas.
    O rigor nas despesas é indispensável, mas o corte indiscriminado não significa rigor, significa falta de clareza, que leva à falta de critério.
    O histórico dos governos estaduais que sucessivamente fracassam há mais de quatro décadas no RS,(desde que voltou o voto direto), mostra que essa tecla da “austeridade” a qualquer custo é o caminho mais curto para a derrota na próxima eleição.
    Deteriora os serviços, desorganiza a gestão, desestimula os servidores públicos… E a economia que proporciona não chega a ser significativa diante do rombo acumulado.
    De todos os oito governadores que passaram nesse período, talvez com a possível exceção de Antonio Britto, o ex- governador Tarso Genro foi o único que tentou outro caminho, mais ousado.
    Em vez de dar prioridade aos cortes, empenhou seus melhores esforços em buscar recursos para retomar os investimentos e destravar setores estratégicos do Estado, numa perspectiva de mais longo prazo.
    Ele perdeu a eleição, por muitas razões. Mas sua estratégia tinha coerência com a necessidade essencial do Estado, que é ter um projeto de desenvolvimento de longo prazo, inserido num projeto nacional.
    Esse é o único caminho consistente para superar, inclusive, o desequilíbrio crônico das contas públicas estaduais.
    Se olhar com atenção e sem preconceito para o governo anterior, o governador Sartori poderá encontrar inspiração para sair dessa armadilha do “equilíbrio a qualquer preço”, que onera ainda mais o contribuinte e pouco contribui para o verdadeiro equilíbrio.
    Continuidade é a palavra que o governador deveria incorporar imediatamente ao seu vocabulário. Até para ter legitimidade para pedir para continuar em 2018.
     
     
     
     
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  • Globo manda cortar citação a FHC na Lava Jato

    O e-mail da diretora  da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, a todos os chefes de núcleo, mandando aliviar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no noticiário da Operação Lava Jato é a peça mais quente do dia.
    A ordem, que manda tirar FHC dos vídeos sobre o escândalo da Petrobrás, foi reproduzida no blog do Luiz Nassif:
    “Assunto:  Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato
    Atenção para a orientação 
    Sergio e Mazza: revisem os vts com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique”.
    O recado se deveu ao fato da reportagem ter procurado FHC para repercutir as declarações de Pedro Barusco – de que recebia propinas antes do governo Lula.
    Reproduzido em todos os blogs independentes, o assunto até agora mereceu o silêncio da Globo e seus aliados
    Silvia Faria, está no cargo desde 2012.  Além de coordenar a cobertura das equipes de jornalismo nas cinco sedes da Globo (Rio, São Paulo, Recife, Brasília e Belo Horizonte), Silvia acompanha as coberturas jornalísticas das 117 emissoras afiliadas.
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    PRATA DA CASA
    Um perfil da diretora, extraído do site da Central Globo de Jornalismo:
    Silvia Correa de Faria nasceu em Astolfo Dutra, Minas Gerais. Filha do funcionário público Waldemiro Correa de Faria e da dona de casa Marília de Dirceu Oliveira Faria, formou-se em jornalismo pela Universidade de Brasília e fez MBA em gestão empresarial na Fundação Dom Cabral.
    Começou a trabalhar, como estagiária, no Jornal de Brasília em 1978, enquanto cursava a universidade. Seu primeiro emprego foi na Folha de S. Paulo, na qual permaneceu entre 1980 e 1986. A partir de 1987, trabalhou na sucursal brasiliense do jornal O Globo, primeiro como repórter, depois como coordenadora de Economia e chefe de redação. Naquele ano, cobriu o pedido de moratória da dívida externa brasileira e o Plano Bresser, tentativa do governo Sarney de controlar a inflação.
    Em 1989, a jornalista voltou a cobrir um plano econômico do governo, o Plano Verão, traçado pelo economista Maílson da Nóbrega. Sobre as dificuldades do exercício do trabalho jornalístico em Brasília, onde as relações entre público e privado nem sempre ficam claras, Silvia é enfática ao se reportar à experiência no jornal O Globo no início da sua carreira:“A minha escola, por eu ter trabalhado no Globo desde muito nova, sempre fui assim: eu sou rigorosamente exigente nesse aspecto. Ac
    ho que o jornalista tem que ser jornalista, não dá para ser outra coisa, não tem como servir a dois senhores, se perder nessa orientação. Você tem que ser isento, você tem que viver do seu trabalho, saber o que pode fazer no seu trabalho para que você possa ser respeitado. Ser uma pessoa criteriosa, isenta, imparcial. Sabe, essa escola Globo, ela introduziu essa cultura.”
    Silvia Faria recebeu o Prêmio Imprensa Embratel em 1991 por sua reportagem, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, sobre o uso irregular de estatais para financiar governos estaduais. Em 1993, teve uma rápida passagem pela Folha de S. Paulo, como coordenadora de Economia. No ano seguinte, voltou para o jornal O Globo.
    Em 1997, tornou-se coordenadora de Comunicação do Banco Central do Brasil, cargo em que permaneceu por dois anos, quando foi contratada pelo Estado de S. Paulo para dirigir a sucursal do jornal em Brasília. Em 2001, ainda na capital federal, transferiu-se para a revista Época, como diretora de redação. Em outubro do mesmo ano, Silvia Faria assumiu a chefia de redação da Rede Globo em Brasília. Três anos depois, foi promovida à diretoria de jornalismo da sucursal.
    A partir de dezembro de 2011, além de fazer a supervisão dos telejornais de rede, a jornalista ficou responsável pelo controle editorial dos noticiários locais de Brasília, Belo Horizonte e Recife; assim como dos programas Globo Repórter, Profissão Repórter Globo Mar. Já no mês seguinte, passou a ocupar o cargo de diretora executiva da Central Globo de Jornalismo da Rede Globo, coordenando coberturas importantes, como a da CPI do Mensalão e o julgamento dos acusados pelo STF.
    Com a sucessão de Octávio Florisbal por Carlos Henrique Schroder na direção-geral da Rede Globo, Silvia Faria assumiu, em setembro de 2012, a direção da Central Globo de Jornalismo, no lugar de Ali Kamel.

  • Assis Hoffmann, o fotógrafo dentro da cena

    Assis Hoffmann tinha 17 anos e era auxiliar do fotógrafo da sucursal do jornal Última Hora, em Caxias do Sul.
    Um dia o fotógrafo saiu mais cedo, coube ao auxiliar empunhar a velha rollei, quase do tamanho de um paralelepípedo, para cobrir um evento político no cinema principal da cidade.
    Era uma palestra do líder comunista Luiz Carlos Prestes. Deveria ser um comício, mas a polícia, temendo conflito, restringira o evento a recinto fechado.
    Mesmo assim, quebrou o pau logo no início: grupos anticomunistas açulados por padres católicos invadiram o cinema e atacaram os integrantes da mesa na hora em que Prestes começava a falar.
    Assis Hoffmann estava chegando com sua rollei quando a pancadaria começou.
    Ao contrário da maioria, inclusive os jornalistas, que procuravam se afastar do conflito, o novato se meteu no meio, onde rolavam socos, pontapés, cadeiradas. Até uma faca ele flagrou na mão de um padre.
    A sequencia de fotos que cobriu a capa da Última Hora no dia seguinte marcou a entrada de Assis Hoffmann no aguerrido time de repórteres-fotográficos da UH, que na época revolucionava o pasmacento jornalismo em Porto Alegre.
    Ali naquelas fotos de principiante já estava o seu DNA profissional – fotógrafo dentro da cena, em cima do fato.
    Era o ano de 1959, era o início das agitações que culminariam em 1964, um tempo do qual  Assis Hoffmann se tornaria um testemunho indispensável – as cenas da Legalidade, a visita de Lacerda a Porto Alegre às vésperas do golpe _ quando ele, fotografando no meio da pancadaria, atraiu a ira dos homens do Choque e acabou estendido no chão, desmaiado, com a rollei pendurada no pescoço.
    O desembarque de Goulart em Porto Alegre na madrugada de 2 de abril de 1964. O governo ruindo. Jango na pista do aeroporto, tenso, fumando, com sua perna claudicante, é a imagem acabada de um presidente acuado.
    O flagrante do delegado Luiz Fleury, em 1971, no auge do terror da ditadura, do qual ele era a face até então oculta. “Fleury!”, ele gritou quando viu o delegado já entrando no setor de embarque do aeroporto Salgado Filho. Fleury se virou e ele disparou a rollei. “Seu filho da puta…”, o delegado queria esganá-lo.
    “Me dá esse filme”. Enquanto a máquina rebobina, ele pega um filme virgem no bolso. Abre a máquina, faz que retira o filme e entrega o outro,virgem, para o delegado que corre para o embarque. A foto, publicada na Veja,  é uma das poucas que existem de Fleury nesse período.
    Recupero de memória esses episódios que envolvem Assis Hoffmann. São coisas que ouvi dele, outras que presenciei nas muitas vezes em que trabalhamos juntos. E que me ocorrem no momento em que fico sabendo de sua morte.
    Para Assis Hoffmann não importava o jornal ou a revista para o qual estava trabalhando. Seu alvo era sempre o mesmo: a foto, aquela que continha a síntese da notícia.
    Pela seriedade, pelo rigor, pelo senso de responsabilidade com que desempenhava suas tarefas, ele se tornou um líder. O fotógrafo de jornal era até então uma categoria subalterna, desmerecida, o retratista.
    Assis via na frente, a imagem como testemunho, a fotografia como notícia, o fotógrafo como um profissional do jornalismo. Não por acaso, das equipes que formou, saíram alguns dos maiores fotógrafos do jornalismo brasileiro.