Autor: Elmar Bones

  • Primeira tentativa de golpe falhou

    Ministros militares vetaram a posse de Jango em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros. Mas o movimento da Legalidade frustrou o golpe.
    João Goulart ainda dormia quando o telefone tocou no quarto do Hotel Raffles, em Singapura, no amanhecer do dia 26 de agosto de 1961. Era um repórter da Associated Press, agência de notícias norte-americana. Ligava de Nova Iorque para ouví-lo sobre a renúncia do presidente Jânio Quadros, no dia anterior.
    Na condição de vice-presidente, Goulart presidia uma missão comercial que percorria o Extremo Oriente, em busca de negócios e investimentos para o Brasil. Estivera na República Popular da China, o maior país comunista do mundo e, na véspera, chegara a Singapura, “a esquina do mundo”.
    Jantara com parlamentares integrantes da missão num restaurante malaio, perto do hotel e se recolheu. Acordou com o telefone do repórter da AP. Disse que ia se informar para depois falar.
    Brinde com champanhe
    À hora do café, o senador Barros de Carvalho, pediu uma garrafa de champanhe para “brindar ao novo presidente do Brasil”. Jango atalhou: “Vamos brindar ao imprevisível”.
    Jango sabia que para assumir a presidência, como mandava a Constituição, teria que vencer “antigas e arraigadas resistências”.
    Os coronéis golpistas que o haviam derrubado do Ministério do Trabalho, em 1953, eram todos generais engajados no mesmo movimento que já levara Getúlio Vargas ao suicídio.
    Logo chegou a informação que de que os três ministros militares – Exército, Marinha e Aeronáutica – tinham divulgado uma nota conjunta dizendo que ele não poderia tomar posse.
    Em seguida chegou o telegrama com a íntegra da mensagem lida em sessão extraordinária do Congresso Nacional, pelo deputado Rainieri Mazzilli, presidente da Câmara:
    “Exmo. Sr. Presidente do Congresso Nacional
    Tenho a honra de comunicar a V.Exca. que na apreciação da atual situação política criada pela renúncia do Presidente Jânio Quadros, os Ministros Militares, na qualidade de Chefes das Forças Armadas, responsáveis pela ordem interna, me manifestaram a absoluta inconveniência, por motivos de segurança nacional, do regresso do vice-presidente João Goulart. Brasilia, 28 de agosto de 1961”.
    Acontecera o que era bem previsível. Desde que um manifesto de 300 coronéis o derrubara do Ministério do Trabalho, em 1953, Jango não era bem visto por certos setores militares. Aqueles coronéis, que estavam entre os que levaram Vargas ao suicídio em 1954, eram agora generais e não toleravam ver o “herdeiro de Vargas” no poder.
    Por algumas horas Jango ficou ao telefone tentando saber o que fazer. Até que chegou o chamado de Brizola. Estava analisando as possibilidades de resistir ao golpe. Combinaram que Jango se deslocaria para Montevidéu e aí aguardaria os acontecimentos.
    Aconteceu o que se sabe: com o apoio do comandante do III Exército (hoje Comando Militar do Sul) e da Brigada Militar, Brizola levantou o Rio Grande do Sul no movimento da Legalidade e garantiu a posse de Jango, ainda que com poderes limitados por uma emenda parlamentarista.
    Raul Riff, seu secretário de imprensa, registrou a frase de um entusiasmado parlamentar udenista: “Vamos fazer de Jango uma Rainha da Inglaterra. Sentará no trono mas não governará”.
    Um presidente sem forças querendo fazer reformas
    Jango tomou posse como presidente no dia 7 de setembro de 1961. Mas era um presidente sem força, pois o regime havia mudado para o parlamentarismo, onde quem governa é o primeiro-ministro e seu gabinete. Remendo para tirar os poderes de Goulart, o parlamentarismo foi uma sucessão de crises. Quatro primeiros-ministros foram nomeados em pouco mais de ano. Foi um período em que o país ficou praticamente paralisado pela crise política.
    Em janeiro de 1963, o Congresso aprovou a realização de um plebiscito, para o povo decidir se queria continuar no parlamentarismo ou preferia voltar ao presidencialismo. Sem aguentar mais aquela confusãoa, 80% dos eleitores votaram a favor do presidente.
    Jango se sentiu fortalecido e começou a trabalhar numa plataforma de reformas, que incluíam alguns temas explosivos, como o controle da remessa de lucros pelas empresas estrangeiras e a reforma agrária. Estes eram os principais pontos do programa de reformas:
    – controle dos investimentos estrangeiros e da remessa de seus lucros para o exterior
    -encampação das refinarias de petróleo pertencentes ao capital privado
    -monopólio da Petrobrás para importação de petróleo e seus derivados
    -novas normas para toda e qualquer concessão para exploração de riquezas minerais no país
    -desapropriação de latifúndios improdutivos
    -regras para o arrendamento, aforamento, parceria ou quaisquer outras formas de locação agrícola
    -incentivo à sindicalização rural
    -implantação da Eletrobrás
    -Lei de telecomunicações
    – Relações diplomáticas com a URSS e China
    -controle pelo Banco do Brasil dos preços das matérias primas importadas para a fabricação de medicamentos no país
    -reforma urbana
    -direito de voto ao analfabeto
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  • Ninguém acreditou, mas o golpe estava nas ruas

    O general Mourão Filho botou o golpe na rua às cinco hora da manhã de dia 31 de março de 1964. Ele ainda vestia seu roupão vermelho, (Diário) quando anunciou por telefone que ia marchar de Juiz de Fora com suas tropas para destituir o presidente da República no Rio de Janeiro.
    Como os jornais diários, que começaram a circular à hora em que Mourão disparava seus telefonemas, não traziam a notícia, o dia foi de muitos de boatos e escassas informações. Em Porto Alegre a primeira informação confiável de que havia um golpe em andamento chegou as 16h30 (Hélio Silva), através do rádio ao comando do III Exército, que reservadamente colocou suas unidades em prontidão. A notícia ficou restrita, no entanto.
    A tal ponto, que a festa de aniversário do prefeito da cidade, Sereno Chaise, iniciou por volta das 19 horas numa churrascaria e só foi interrompida por volta das dez da noite, quando alguém cochichou ao ouvido do aniversariante a informação recebida do Rio. Ele tomou o microfone, deu o aviso e convocou a todos para se deslocarem até a Prefeitura no centro da cidade e acompanhar os acontecimentos.
    Comício improvisado
    Um comício foi improvisado na frente da Prefeitura, mas como pouco se sabia do que estava acontecendo, rapidamente ele se esvaziou. Um grupo que se dirigiu à sede do governo estadual encontrou a praça vazia, o Palácio Piratini fechado, luzes apagadas, sem sinais de anormalidade. Foram todos para casa. Afinal, boato de que haveria um golpe não era novidade.
    Àquela altura o major Confúcio Pamplona, à paisana, entregava ao general Adalberto Pereira dos Santos um papel pardo escrito de próprio punho pelo general Castello Branco com os objetivos da “revolução”:
    a) restaurar a legalidade,
    b)restabelecer a Federação,
    c) eliminar o plano comunista da posse do poder, em desenvolvimento; defender as instituições militares, estabelecer a ordem para o advento das reformas legais.
    Comandante da 6ª Divisão de Infantaria, a principal força do III Exército no Sul, Adalberto era o chefe militar da conspiração no Estado. Pressionava inclusive o comandante geral, general Benjamin Galhardo, para que não reconhecesse o novo comandante que Jango havia nomeado naquela tarde para o III Exército, o general Ladário Telles. Telles deveria chegar a Porto Alegre na noite de 31 de março. Em vez de passar o cargo, Galhardo deveria prendê-lo.
    Perto da meia-noite, quando já estava para chegar o avião, Galhardo voltou atrás: “Eu não tomo uma decisão”, foi a frase que Krieger ouviu. O general Adalberto Pereira dos Santos passou a informação a Poty Medeiros, Secretário de Segurança, e este informou o governador Meneghetti, que decidiu deixar a capital.
    “Poucas são as possibilidades de resistência em Porto Alegre, cujo bravo povo está ameaçado pelas forças da violência e da opressão”, dizia o manifesto que Meneghetti deixou ao sair, para se pôr a salvo em Passo Fundo, a mais de 300 quilômetros da capital.
    O general Telles chegou a Porto Alegre a 1h20 da manhã, já no dia primeiro de abril. Enfrentou resistências, mas por fim conseguiu assumir o comando, na madrugada. As chances de resistência se esgotavam rapidamente.
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  • Ação que apura fraude na CEEE completa 18 anos em segredo de justiça e não saiu da primeira instância

    Completa 18 anos nesta sexta-feira, 14, a ação civil pública proposta pelo Ministério Público Estadual para apurar o desvio de R$ 79 milhões de reais numa licitação para construir 11 subestações de transmissão da Companhia Estadual de Energia Elétrica.
    A ação, que já reune 37 volumes e 80 anexos, está na 2a Vara da Fazenda Pública em Porto Alegre e corre em segredo de Justiça (Processo 10502694894)
    Em valores atualizados o desvio chegaria hoje aos R$ 800 milhões. É, segundo o MPE, a maior fraude já cometida contra o patrimônio público no Rio Grande do Sul.
    Os dois contratos fraudados foram assinados em 1987 no governo Pedro Simon. A ação foi ajuizada em 1996, depois de uma das mais longas e mais rumorosas Comissões Parlamentares de Inquéritos instaladas na Assembleia gaúcha.
    Alstom e a Siemens
    Na ação, são réus 11 empresas e 23 pessoas físicas. Entre as empresas estão a Alstom e a Siemens, as duas envolvidas nas fraudes do metrô de São Paulo, atualmente investigadas pela Justiça.
    Entre as pessoas físicas, o principal acusado é Lindomar Rigotto, ex- assessor da diretoria financeira da CEEE, irmão do ex-governador Germano Rigotto. Lindomar, também investigado pela morte de uma dançarina que caiu de seu apartamento na rua Duque de Caxias, foi assassinado num assalto em fevereiro de 1999, no litoral gaúcho. O assunto nunca mais mereceu atenção da imprensa.
    O jornal JÁ, que abordou o caso em uma reportagem de 2001, foi processado, condenado e submetido a uma perseguição que quase o levou à falência.
    As pressões contra o Jornal JÁ resultaram num processo que corre na Corte Interamericana de Direitos Humanos desde outubro.

  • Barbosa vem ver o pior presídio do Brasil?

    Joaquim Barbosa em Porto Alegre para conhecer o pior presídio do Brasil. A notícia é da colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo. Ela informa que Barbosa retomará seus “mutirões carcerários” e vai começar dia 20, pelo presídio Central de Porto
    Alegre.
    Num ranking do Ministério da Justiça, o Central aparece como o pior do país. Vários governos já anunciaram a sua demolição, mas não têm onde colocar os 4 mil presos que lá se amontoam em condições sub-humanas.
    O presidente do STF defende que os presídios sejam administrados pelo Judiciário, “único
    poder que poderia mexer no vespeiro sem temer consequências eleitorais”. A informação da visita do ministro não foi confirmada pelo Palácio Piratini, nem pelo Supremo Tribunal Federal e nem pelo Conselho Nacional de Justiça.

  • Defensoria atuará em demandas ambientais

    “Sim, vamos atuar também nas demandas ambientais”. Esta foi a resposta pronta do Defensor Geral, Nilton Arnecke Maria, aos representantes do movimento ambientalista que no início de dezembro levaram à Defensoria Pública do Rio Grande do Sul um abaixo assinado pedindo que os advogados que prestam assistência judicial gratuita à população, ampliem sua atuação para incluir também as causas relacionadas ao meio ambiente.
    “Foi uma grande vitoria, mais uma ação pioneira da nossa cidadania”, comemorou o advogado Arno Carrard, que coordenou a iniciativa dos ambientalistas.
    Segundo ele, a decisão vai remover uma das maiores dificuldades das entidades de defesa ambiental, que é ter apoio técnico jurídico para levar à Justiça demandas que envolvem o meio ambiente, no âmbito cível e criminal. “Até agora, as entidades tinham que recorrer a voluntários, que muitas vezes não tinham conhecimentos específicos para atuar nesses processos”, explicou.
    Para Carrard, a maior importância dessa iniciativa é que ela vai completar um ciclo iniciado em 2010, quando o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, atendendo também uma reivindicação do movimento ambientalista, aprovou a criação duas Varas Ambientais. “Agora teremos o apoio técnico para orientar as nossas ações e as varas especializadas para agilizar esses processos”, explicou o advogado Caio Lustosa, um dos signatários do documento.
    Decisão é inédita no país
    Assim que circulou na internet a informação de que a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul se capacitar para atuar também em causas ambientais, manifestações de diversas partes do país e até do exterior a chegaram ao advogado Arno Carrard.
    “Todos querem informações sobre como conseguimos isso, pois consideram um grande avanço. Pelo que sei, é uma decisão inédita no país”, diz ele.
    Primeira ação está a caminho (foto Lewgoy pode prever um “boneco”)
    A primeira demanda a ser levada pelo movimento ambientalista à Defensoria Pública do Rio Grande do Sul tem base num estudo do professor Flávio Lewgoy sobre as emissões da fábrica de celulose da CMPC, que está ampliando a capacidade de produção da sua planta em Guaiba.
    Segundo Lewgoy, que é químico e geneticista aposentado da UFRGS, apesar de ter melhorado os controles de suas emissões para a atmosfera e para a água do Guaiba, a indústria ao elevar sua produção para 1,8 milhão de toneladas (quatro vezes a capacidade atual), vai lançar no ar e na água volumes consideráveis de poluentes nocivos à saúde humana.
    “Eles dizem que tem os melhores controles, de padrão internacional. Pode ser, mas acontece que não há lugar nenhum onde uma fábrica desse porte esteja à beira do principal manancial de água de uma capital e de frente para as zonas nobres da cidade”. Em seus estudos, Lewgoy constatou os seguintes volumes de emissões aéreas e líquidas:
    Para a atmosfera
    Emissões das lagoas de tratamento do efluente líquido : 1.920 toneladas/ano de clorofórmio
    Emissões da caldeira (não consideradas no EIA-Rima):
    – Fluor (como HF) – 91 kg/dia
    -Cloro gasoso – 309 kg/dia
    -Cinzas de carvão – 123 kg/dia*
    *Cinza finíssima inalável, contendo metais tóxicos: cromo, níquel, chumbo, arsênio, cádmio, berílio e radioativos (tório e urânio)
    -Dioxinas, hidrocarbonetos aromáticos, mercúrio (90% do mercúrio é volatilizado na queima do carvão)
    Para a água do Guaiba
    AOX (organoclorados mutagênicos e cancerígenos) : 180 toneladas/dia
    Cloreto de sódio : até 28,8 toneladas/dia
    Cloratos (?)
    Sulfetos: até 17,8 kg/dia
    Fenóis: até 4,9kg/dia
    Mercúrio total: até 792/dia
    Este é o documento entregue ao Defensor Público-Geral do Rio Grande do Sul:
    PEDIDO DE APOIO PARA DEMANDAS DESTINADAS À TUTELA COLETIVA, ATINENTES AOS
    DIREITOS DE NATUREZA DIFUSA, ESPECIALMENTE LIGADOS AO MEIO AMBIENTE.
    Os signatários do presente documento, pessoas físicas e entidades voltadas em prol da luta em favor da preservação do meio ambiente e demais interesses difusos, têm a honra de submeter à elevada consideração de Vossa Excelência postulação com o escopo de obter o indispensável apoio dessa prestimosa instituição estadual, em busca de um esforço conjunto destinado à prestação de orientação jurídica, judicial e extrajudicial, bem como a defesa dos valores aludidos em todos os graus, nos termos do art. 5º, inciso LXXIV da Carta Magna da República.
    Enfatizam os subscritores que se postam num trabalho incessante alinhado ao programa global que vêm mobilizando os organismos internacionais, liderados pela Organização das Nações Unidas, Organização dos Estados Americanos, a União Europeia, estes pontificando todos os redutos espalhados pelo planeta e que são movidos pela consciência de tratar-se de questão extremamente importante e grave, porquanto traz o significado da sobrevivência humana.
    Entrementes, nos limites geográficos do Estado do Rio Grande do Sul, acumulam-se cada vez mais os atos de degradação ambiental, como consequência não só dos tentáculos de ambições e insensibilidade dos que exploram a natureza, mas, no mesmo nível o despreparo, a desídia e as manipulações políticas de autoridades que teriam a incumbência de impor o devido respeito. Em contraposição, os movimentos defensivos mencionados, carecem da necessária estrutura para conduzir os pleitos judiciais, coincidentemente neste difícil momento que vem sendo submetido o aparato judiciário no País.
    Em verdade, já foi dado um grande passo neste mesmo sentido, tendo em conta a compreensão do colendo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, em atenção à iniciativa de ambientalista gaúchos, num certo pioneirismo, instituiu Câmara e Varas especializadas na área ambiental que vêm operando com o desempenho desejado, considerando terem sido implantadas em tempo recente.
    Portanto, Excelência, sendo a Defensoria Pública definida como essencial à jurisdição do Estado, por conseguinte da sociedade brasileira, felizmente no Rio Grande do Sul, a instituição se revela com toda a eficiência e abnegação, correspondendo à expectativa que lhe tributa a comunidade estadual, entendem os signatários ser justo e de direito, reivindicar sua proteção nas demandas que, de caráter coletivo, sejam destinadas a escudar as impostergáveis responsabilidades que cabem a todos os cidadãos.
    Dispensável enunciar que nos quadros dos propugnadores da preservação ambiental, invariavelmente, todos são pessoas de modestos recursos pessoais, insuficientes para arcar com despesas judiciais, flagrantemente desproporcionais comparados com as forças detratoras desse bem natural. Ademais, a complexidade dos processos aumenta cada vez mais e isso exige um aparato de defesa bem estruturado, e respeitado como é a Defensoria Pública do Estado.
    Em assim sendo, confiantes de que este pedido de apoio converge com os postulados insertos na Constituição do Brasil, na política do Estado, e no mister abraçado pela Defensoria Pública, pedem a Vossa Excelência se digne de determinar sejam procedidos estudos e providências, a fim de que esse Órgão passe a contar com um departamento ou setor, em condições de recepcionar e desenvolver essas tarefas de forma ágil como tem sido apanágio da conduta dessa instituição.
    Cordialmente
    Porto Alegre, 03 de dezembro de 2013.
    (Assinam diversas entidades e ativistas da causa ambiental)

  • Exumação de Jango é ato político

    A suspeita de que o ex-presidente João Goulart foi assassinado estava presente já no seu enterro, no dia 6 em dezembro de 1976, em São Borja. Fazia muito sentido: em maio daquele ano, dois líderes da oposição uruguaia, o senador Zelmar Michelini e o deputado Gutierrez Ruiz, haviam sido seqüestrados e mortos em Buenos Aires.
    Em setembro, Orlando Letelier, ex-ministro do Chile, morreu num atentado em Washington. No Brasil havia ainda a morte do ex-presidente Jucelino Kubtscheck, em agosto, num acidente na via Dutra, fato até hoje cercado de suspeitas.
    O risco de Jango era evidente. Ex-presidente no exílio, “herdeiro político de Vargas”, tornara-se um incômodo no momento em que o regime militar enfrentava resistência cada vez maior no meio civil. Sua vida era vigiada, sua correspondência violada. Nos últimos meses, o cerco parecia se fechar: prenderam sua mulher, um amigo mandou avisar que não dormisse duas noites no mesmo lugar.
    Teve que mandar os dois filhos para Londres, por segurança. Depois, as circunstâncias de sua morte, num lugar isolado, só com a mulher e um caseiro, com atestado de óbito de um médico que mal olhou o cadáver e declarou que ele morreu de “enfermedad” (doença). Por fim, a maneira como o governo militar
    reagiu ao pedido da família para que o corpo fosse enterrado em São Borja, a terra do presidente morto. Primeiro não queriam permitir, depois não podia levar por rodovia, só avião. Por fim, foi liberado, mas não podia ser um cortejo, tinha que ser um carro, em alta velocidade, sem parar na fronteira, direto para o cemitério. Não foi permitido à
    família ver o corpo…
    Tudo isso alimentou a suspeita que, desde aquele dia, nunca abandonou as conversas dos antigos correligionários de Jango. A saúde dele era precária, era cardíaco, tinha sido advertido pelo médico do grave risco que corria se não parasse de beber e fumar (ele
    não parava), um enfarto fulminante não seria surpresa.
    Mas nem isso diminuiu as dúvidas. Nem mesmo o testemunho de Maria Tereza, sua mulher, que o viu morrer no leito conjugal e sempre rejeitou a hipótese do envenenamento.
    Passaram-se 15 anos até que a suspeita fosse além das conjeturas. Preso como assaltante, no ano 2000, um ex-policial uruguaio, Mario Neira Barreiro, revelou aos jornais uma suposta Operação Escorpião, da qual participou, para matar Goulart. Ele forneceu fatos concretos, plausíveis.
    Tinha, de fato, trabalhado como rádio-escuta para os órgãos da repressão política durante a ditadura uruguaia, eram corretas as informações que tinha sobre a rotina e a família de Jango no Uruguai e Argentina. Mas não ia além de uma boa história a ser confirmada.
    No ano seguinte a Câmara dos Deputados instalou uma CPI para investigar a morte do ex-presidente João Goulart. Cerca de 60 depoimentos foram tomados, mas a CPI encerrou com um relatório contraditório: não há dúvidas que um “Mercosul do terror” operou na região, mas no caso especifico de Jango, faltavam provas.
    Um “romance reportagem” dos jornalistas Carlos Heitor Cony e Anna Lee (O Beijo da Morte, Ed. Objetiva, 2003) retomou o tema do assassinato, associando-o com as mortes do ex-presidente Jucelino Kubitscheck e de Carlos Lacerda, ambas acidentais em circunstâncias pouco convincentes. Barreiro foi uma das fontes de Anna Lee e Cony. Ouvido na Penitenciária de Charqueadas, RS, ele contou novamente a historia da Operação Escorpião, para eliminar Jango. Conclusão de Cony:
    “É um sujeito perigoso,
    com uma tendência ao delírio. Mas seu delírio tem uma espinha dorsal que supera detalhes assombrosos de seu relato. Prometeu mostrar provas que estavam com outro preso. Não tivemos as provas, mas fortes indícios de uma operação destinada a eliminar o ex-presidente”.
    No final de 2006, uma equipe da TV Senado que prepara um documentário sobre Jango, obtém permissão para ouvir Barreiro na prisão de Charqueadas. Ele exige alguém da família. O filho de Goulart, João Vicente, participa da gravação de duas horas e sai decidido a reabrir as investigações sobre a morte do pai. Barreiro conta a mesma história:
    Diz que a ordem para matar Jango foi dada diretamente pelo presidente Ernesto Geisel ao delegado Sérgio Fleury, do Dops paulista. Quer pela hierarquia, quer pelas relações entre os personagens, quer pelo temperamento de Geisel, é uma afirmação discutível. Mas as recentes revelações sobre a Operação Condor, o esquema terrorista multinacional que operou na América Latina, deram mais sentido às declarações de Barreiro. No final do ano passado, o filho de Jango entrou no Ministério Público Federal com o pedido de investigação sobre o caso, anexando cópia da entrevista. No início de 2008, a repórter Simone Iglesias entrevista Barreiro em Charqueadas e a Folha de São Paulo mancheteia na capa: “Brasil Mandou Matar Jango”. Da Folha o assunto foi ao Jornal Nacional e nos dez dias seguintes, Barreiro deu mais de 30 entrevistas para jornais, rádios e tevês de todo o país.
    É provável que tenha havido um plano para eliminar Jango. O infarto pode ter chegado antes. Entre os amigos mais chegados, o que o matou, mesmo, foi o “desgosto”. Ele queria voltar ao Brasil, tentara renegociar seu retorno inúmeras vezes. Cumprira dez anos de cassação, passara por dezenas de inquéritos, mantinha-se distante da política brasileira, queria cuidar de suas fazendas.
    Mas o regime militar havia lhe negado até o passaporte, viajava com passaporte paraguaio. Manoel Leães, que por 30 anos foi piloto de Jango, em seu livro de memórias diz que o expresidente era “um homem amargurado com o fato de não poder voltar ao Brasil”. Um amigo de infância contou que ele vinha para a beira do rio Uruguai, do lado argentino, e ficava olhando os campos de São Borja na outra margem. Dois meses antes de morrer declarou que estava disposto a arriscar a travessia. O ministro do Exército deu ordem para que fosse preso imediatamente e posto incomunicável pela Polícia Federal.
    Quando a notícia de sua morte chegou ao Brasil, as redações receberam a seguinte nota: “De ordem superior, fica proibida a divulgação, através do rádio e da televisão, de comentários sobre a vida e a atuação política do sr. João Goulart. A simples notícia do falecimento é permitida, desde que não seja repetida sucessivamente”.
    Foi negado luto oficial e, no Congresso, a bandeira, hasteada a meio pau, foi depois arriada. Dias depois de sua morte, aos 57 anos, a diretoria do Internacional decidiu que o ex-atleta ilustre (ele jogara nos juvenis do clube) merecia um minuto de silêncio no jogo com o Atlético mineiro, no domingo seguinte no Beira Rio. O assunto chegou à cúpula militar e o minuto de silêncio foi proibido.
    “Não sou inimigo de vocês”
    O que Mario Neira Barreiro revela é o embrião da Operação Condor, grande ação conjunta dos aparelhos repressivos do Cone Sul para eliminar inimigos dos regimes militares da região. Ele conta que entrou aos 18 anos para o Grupo de Ações Militares Anti-Subversivas (Gamma). Foi escolhido para espionar Jango porque sabia português.
    “Eu monitorei tudo o que falava através do telefone, de escuta ambiental e em lugares públicos, de meados de 1973 até sua morte em 6 de dezembro de 1976”.
    Uma vez Barreiro falou com Jango. Ele e um colega, estavam rondando a casa. Jango convidou para entrar, disse que sabia que estavam espionando. “Não sou inimigo de vocês”, teria dito. Segundo Barreiro, o delegado Sérgio Fleury, do Dops em São Paulo, fazia a ligação com a inteligência uruguaia. Partiu dele a ordem para que Jango fosse morto. A equipe que monitorava Jango se chamava Centauro (em Montevidéu outra equipe, Antares,
    se encarregava de Brizola). A operação para matar Jango chamou-se Escorpião, segundo Barreiro, e foi acompanhada e apoiada pela CIA.
    O plano consistia em colocar comprimidos envenenados nos frascos de medicamentos que Jango tomava para o coração. O efeito seria semelhante a um ataque cardíaco. “Ele tomava Isordil, Adelfam e Nifodin. O primeiro ingrediente veio da CIA e foi testado com cachorros e doentes terminais.
    Colocamos os comprimidos em vários lugares: no escritório, na fazenda, no porta-luvas do carro, no Hotel Liberty, em Buenos Aires”. Fleury deu a palavra final, disse que Jango era um conspirador. Ouviu uma conversa de Fleury com militares uruguaios dizendo que conversara com Geisel. “Faça e não me diga mais nada sobre Goulart”, teria dito o general.
    Barreiro foi expulso do serviço de inteligência uruguaio em 1980, por razões que não revela. Morou em cidades da fronteira, depois fixou-se em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. Em 1999 foi preso pela primeira vez no Brasil. Em sua casa a polícia encontrou granadas, pistolas e fuzis.
    Foi recolhido à penitenciária de segurança máxima de Charqueadas, em 2000. Em maio de 2003,
    em regime de semi-aberto, fugiu mas foi recapturado em seguida.
    Aos 54 anos, cumpre pena de 17 anos por tráfico de armas, falsidade
    ideológica, roubo e formação de quadrilha.
    “Eu vi quando ele faleceu”
    Maria Tereza Goulart, a menina do interior que casou com o moço bonito e milionário, viveu ao lado de Jango trinta anos. Estava sozinha com ele na noite de sua morte e, desde o início, rejeitou a hipótese de assassinato. Hoje ela evita o assunto, certamente para não contradizer filhos e netos que sustentam a tese do atentado. Uma das últimas vezes em que falou sobre o assunto foi neste depoimento ao programa Teledomingo, da RBS TV, em 2003.
    ”Nós chegamos em Libres, almoçamos, e fomos embora para a fazenda. No caminho, vi que ele estava meio cansado… com olheiras, cansado… Eu falei: “Jango, você não quer que eu dirija um pouco?” Ele disse: “Não, estou bem ainda, se eu precisar, te digo”.
    “A fazenda era muito bonita, mas era um buraco. Não tinha ninguém por perto. Eu estava sozinha… “
    “Era um casarão enorme, um horror… Só nós dois, tinha uma casa de caseiro lá do lado… Aí, começou a bater uma janela. O Jango disse: “Vou dormir, porque estou cansado”. Eu disse: “Vou apagar a luz, então… Ele falou: “Não, pode ficar lendo”. Fiquei lendo uma revista, e a janela batendo, batendo… E eu louca de medo de ir fechar esta janela, porque a casa era assim um negócio que ia daqui até aquela outra esquina, de tão grande. Pensei: ah não vou me levantar, não; sair por essa casa, com essa janela batendo… A essa hora da noite…”
    “Aí, eu apaguei a luz e fiquei algum tempo acordada. De repente, vi que o Jango estava respirando diferente. Acendi a luz de novo e comecei a chamar: Jango, Jango. Mas quando chamei, eu vi que tinha virado o corpo assim (sabe, quando segura com uma força incrível o travesseiro… ). E ele nunca dormia assim de lado… Aí, fui para o outro lado da cama dele e comecei a chamar, chamar. Aí, ele soltou o corpo, assim… Eu vi quando ele faleceu.”
    “ Aí abri a porta e sai correndo e comecei a gritar pelo caseiro: Júlio, Júlio. E o cara veio armado, porque ele pensou que alguém tinha invadido a casa. Foi uma cena horrível. Vocês já imaginaram, perder uma pessoa, dentro de uma casa que não tem a ver contigo, sem ninguém por perto, e o caseiro… Que nem sabia falar direito….”
    “O médico veio, um médico de algum lugar dali, que não sei bem. Nem vi a cara dele direito. Ele me falou: “Dona Maria Teresa, ele teve um enfarte total: aquele que parte o coração”. Em seguida, ficou uma mancha assim…”
    “ Aí, começaram as pessoas: porque o Jango morreu assim, porque Jango morreu assado. Porque foi enterrado assim; porque estava de pijama… Quem disse que Jango estava de pijama? Ele estava vestido com uma camisa branca, uma calça jeans, que era o que tinha ali, na hora. Arrumamos ele, fizemos o velório ali na casa. Não, mas as pessoas ficam inventando umas coisas que não têm explicação. Aí veio o tal do envenenamento…”
    “Disseram que eu impedi a autópsia.… Eu nem sabia que se fazia autópsia, nunca tinha visto ninguém morrer na minha vida…”
    “Eles disseram que o Jango não podia sair… Se quisesse trazer o Jango para São Borja, tinha de sair de barco pelo Rio Uruguai, mas era um calor de não sei quantos graus. O corpo teria que ser embalsamado. Mas em um buraco daqueles quem é que saberia fazer
    isto? Então, fomos de carro para São Borja, passando por Libres”.
    “Eles mandaram descer o corpo; depois disseram que não podia descer; que não podia isso, que não podia aquilo… Mas o Almino Afonso já estava lá e ligou para o Presidente, ou para sei lá quem, e disse: “Não podemos fazer uma coisa dessas. Estou aqui com a
    família, Dona Maria Teresa está sozinha, os filhos estão na Inglaterra, o corpo está mal-embalsamado e tem de seguir para São Borja para ser enterrado”. Então, eles liberaram. Mas, até liberar, foi uma cena”.
    ”Meus filhos estavam em Londres. Quando chegaram não puderam ver o Jango porque o caixão já estava fechado por causa do calor, não chegaram a ver o Jango”.
    Texto publicado originalmente na Revista JÁ de abril de 2008

  • Morreu Pedro Alvarez, o Capitão do Povo

    Morreu na madrugada deste terça-feira, 8 de outubro, o coronel Pedro Arbues Alvarez, que ficou conhecido como o “Capitão do Povo”, por sua militância nas causas nacionalistas, principalmente na campanha “O petróleo é nosso”, em defesa do monopólio estatal do petróleo, nos anos de 1940/50.
    Expurgado do exército com o golpe de 1964, esteve exilado no Uruguai, junto com Brizola e Jango. Dois anos depois, retornou ao Brasil clandestinamente, cruzando a fronteira disfarçado com uma peruca comprada por Jango.
    Nascido em Livramento, Alvarez ia completar 95 anos no próximo dia 29 de outubro. Sua morte ocorreu no Hospital Mãe de Deus. Há dois anos, Alvarez publicou suas “Memórias de um militar nacionalista”, editadas pela JÁ Editora.

  • Cercar ou drenar: qual é a prioridade da Redenção

    Antes de discutir o cercamento da Redenção, os vereadores deveriam fazer um levantamento da situação do parque, que é a segunda sala de visita dos portoalegrenses. Veriam que cercar o parque, diante da situação em que ele se encontra, está muito longe de ser uma prioridade.
    Aliás não só os vereadores. A imprensa também prestaria um bom serviço à comunidade se abordasse questões graves como a deterioração completa do sistema de drenagem da Redenção.
    A Zero Hora, por exemplo, em vez de dar uma página com explícito apoio à ideia esdrúxula do cercamento, poderia mostrar as poças e o barro que tomam conta de extensas áreas do parque à mínima chuva.
    Em alguns pontos, como mostra a foto, os alagamentos duram semanas… É uma situação que se agrava paulatinamente, há uma década.

  • O elefante e os que não enxergam

    Destaco três fatos do noticiário que nos assola:
    -o reconhecimento da Globo de que errou ao apoiar o golpe militar de 1964;
    -o controle da natalidade que o povo (os mais pobres principalmente) está fazendo espontaneamente;
    -a extinção da votação secreta nos parlamentos, aprovada pela Câmara Federal.
    São três fatos que indicam um momento de ruptura – um tempo ficou velho, um novo tempo já foi inaugurado. Que tempo é esse?
    Diante dessa pergunta, me sinto como um aqueles cegos da piada, que apalpam um elefante. Sei que o negócio é grande, não sei se é um prédio, uma ponte ou uma mangueira que respira.

  • Os NINJA e a democracia

    Essas narrativas independentes dos Ninjas faz parte de um processo, de uma sociedade que se democratiza e reage a um sistema de mídia que não lhe dá as informações que ela precisa para avançar.
    Os jovens captam essas necessidades, eles são as antenas para o futuro, os mais criativos agem, alimentam a reação da sociedade à tentativa do sistema de mantê-la presa no passado.
    A questão, uma delas, é que os Ninjas estão na rua, lá onde a mídia não ia, bastando-lhe dar a versão de seus interesses. É importante, é fundamental.
    Mas os grandes conchavos, aqueles que decidem sobre bilhões, continuam a acontecer nos gabinetes. E ali, na porta, só está por enquanto a mídia convencional, como sempre mais atenta aos seus interesses empresariais e corporativos do que aos fatos.
    Desses fatos a gente talvez só venha saber depois, quando já será tarde. O que quero dizer? Que ainda falta muita imprensa na democracia brasileira (e falta muita democracia na imprensa brasileira).