Autor: Elmar Bones

  • Indícios de fraude no caso do terreno da Agapan

    Uma nota do secretário Valter Nagelstein, da SMIC, a respeito da demolição ilegal da sede da AGAPAN, revela indícios de fraude na documentação da empresa que pretendia instalar uma pizzaria no local. Segundo a nota, a empresa Peruzzato & Kinderman Ltda. obteve registro na Junta Comercial em Porto Alegre e CNPJ na Receita Federal dando como endereço o local onde estava sendo construída a sede da entidade, pioneira do movimento ambientalista no país, que está completando 40 anos em 2001. Eis a íntegra da nota:
    Notade Esclarecimento
    Acerca do episódio da destruição da sede da AGAPAN, a SMIC vem à público trazer os seguintes esclarecimentos:
    1) O Alvará Provisório fornecido por esta Secretaria é um documento que autoriza o exercício de atividade econômica e não permite nenhum tipo de intervenção física, seja construção ou demolição;
    2) No caso presente, o ato foi levado a cabo por uma empresa registrada sob o nome Peruzzato& Kindermann Ltda., que antes do Alvará efetivou registro na Junta Comercial do Estado e obteve o CNPJ junto à Receita Federal e para todos esses documentos, cujo procedimento deverá ser investigado, forneceu o endereço da então sede da AGAPAN;
    3) A Licença de Demolição, é um documento emitido pela SMOV, por tanto e uma vez mais, o ato desse particular ofendeu ao regramento da Municipalidade;
    4) O Secretário da SMIC foi a primeira autoridade a comparecer no local dos fatos e determinar a imediata averiguação dos mesmos;
    5) O sistema de Alvará Provisório é um meio eficaz de dar agilidade, desburocratizar a atividade econômica na cidade e formalizar empreendedores; são fornecidos em torno de 20 mil alvarás por ano, sendo este o 1º episódio dessa natureza;
    6) O sistema é seguro, mas como todo o sistema, está sujeito a fraudes;
    7) Determinamos a instalação da competente sindicância, mas desde já é possível verificar a lisura do procedimento dos Agentes de Licenciamento, pelo que se vê, induzidos ao erro;
    8) Determinamos também, que sejam examinadas medidas que aperfeiçoem e dêem mais segurança ao sistema de licenciamento;
    Por fim, lamentar o ocorrido, afirmando à sociedade porto-alegrense que a SMIC foi tão vitima nesse processo, quanto foi a AGAPAN.
    Porto Alegre, 07 de junho de 2011
    VALTER NAGELSTEIN
    Secretário da SMIC

  • SMIC cede terreno da Agapan para pizzaria

    Uma sindicância interna foi aberta na Secretaria Municipal de Indústria e Comércio para esclarecer como foi concedido o alvará para funcionamento de uma pizzaria no terreno que a Prefeitura cedeu por 20 anos para a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) e onde a entidade estava construindo uma sede.
    Na tarde desta segunda-feira, 6, logo após o Dia Mundial do Meio Ambiente, os dirigentes Agapan foram surpreendidos com a notícia de destruição da Sede, situada na esquina das avenidas Aureliano de Figueiredo Pinto e Praia de Belas.
    Com alvará provisório, concedido pela Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Smic), para instalar no local uma pizzaria, a Peruzzato & Kindermann contratou a empresa de demolição Gilberto Bexiga, que invadiu uma área pública e destruiu o patrimônio da Agapan, que tem cessão de uso expedido pela própria Prefeitura por 20 anos, a contar do início de 2002.
    “Tínhamos uma sede construída, com telhado verde e onde desenvolvíamos testes de tijolo ecológico, feito a partir de argila”, diz José Guilherme Fuentefria, arquiteto e conselheiro da Agapan, responsável pelo projeto de construção da sede, com base em técnicas sustentáveis, que estava em finalização.

  • Livro reune melhores reportagens do Coojornal

    O livro “Coojornal – um Jornal de Jornalistas sob o Regime Militar” será lançado na próxima quinta, 9 de junho, na Assembleia Legislativa, às 19 horas.
    O jornal foi editado de 1975 a 1982 pela extinta Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre.
    O livro reproduz 33 reportagens e entrevistas do Coojornal, fotos, charges e cartoons.
    No lançamento, será exibido um documentário de uma hora em DVD, que acompanha o livro.
    No dia seguinte, haverá um debate entre integrantes da Cooperativa, como Elmar Bones, que foi o editor do jornal, José Antônio Vieira da Cunha, Ayrton Centeno e Jorge Polydoro.
    Até 15 de junho, uma exposição de capas do mensário ficará no Vestíbulo Nobre da Assembleia.
    O projeto, da Editora Libretos, tem uma página na internet: www.coojornal.com.br.
    As reportagens são de Elmar Bones, Caco Barcelos, Licínio Azevedo, Eduardo Galeano, André Pereira, Geraldo Hasse, Luiz Cláudio Cunha, Hamilton Almeida Filho, Palmério Dória, Eduardo Bueno, Juarez Fonseca, Zélia Leal, Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e vários outros, com fotos de Daniel de Andrade, Luiz Eduardo Achutti, Eduardo Tavares, Ricardo Chaves, Jacqueline Jones, Eneida Serrano, Roberto Silva e Luiz Abreu. As charges e cartoons, de Edgar Vasques, José Guaraci Fraga, Santiago, Juska, Batsow, Pedro Sosa, Ferre e muitos outros humoristas daquela geração.
    Reconhecimento
    A Câmara de Vereadores aprovou por unanimidade a concessão do título de Cidadão Emérito de Porto Alegre ao presidente da Associação Riograndense de Imprensa, Ercy Torma, 76 anos, natural de Rio Grande. Ele vive há mais de 30 anos na cidade. A entrega do título ainda não tem data marcada.

  • Palloci fora

    O ministro Antonio Palocci queimou suas últimas chances de continuar no cargo, com a entrevista que deu para explicar o seu súbito enriquecimento, depois que deixou o ministério da Fazenda, no meio de um escândalo, no primeiro governo Lula.
    Seu argumento para não revelar as empresas que o contrataram e tão regiamente pagaram, não é minimamente convincente. Ele diz que são empresas idôneas e não deseja envolvê-las num embate político. Ele é um homem público, já foi envolvido em outros “embates políticos”, nenhuma empresa que temesse esse tipo de envolvimento contrataria um consultor como Palocci.
    Ao contrário, tudo faz crer que o contratavam exatamente por sua inserção política, embora ele diga que era bem pago pela qualidade de suas orientações técnicas. No mundo dos negócios, o sucesso nunca prescinde do político. Engraçado, é que ele só revelou tão valiosas habilidades técnicas depois que passou pelo Ministério da Fazenda.
    As denúncias, na verdade, deixam cada dia mais claro aquele que talvez seja o lado mais importante da questão: o fracasso de Palocci na coordenação política do governo. A votação do Código Florestal na Câmara Federal é o caso exemplar.
    A ministra do Meio Ambiente disse em Porto Alegre para 2 mil pessoas na Assembleia Legislativa que o governo queria protelar a votação do código, para discutir melhor, inclusive checar informações contraditórias colhidas num diagnóstico recente.
    Mas o governo, um governo de coalizão com ampla maioria, não conseguiu evitar a derrota acachapante. Pelo visto, nos quatro anos como deputado, Palocci ocupou-se tanto de suas rendosas atividades de consultor que negligenciou a vida parlamentar, na qual hoje tenta se movimentar.
    A presidente está diante de uma situação conhecida. Grosso modo, Antonio Palocci está para Dilma como José Dirceu estava para Lula, na crise do “mensalão”. Dirceu fazia política, em vez de tocar o governo. Palocci quer tocar o governo, em vez de fazer política. Sua saída vai preencher uma lacuna.(Elmar Bones)

  • Deputados vão apelar pela vida de brasileiros na Indonésia

    A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal estuda a melhor forma de encaminhar um pedido de clemência ao governo da Indonésia pela vida dos dois brasileiros presos há sete anos por tráfico de drogas.
     
     
    O surfista Rodrigo Gularte, 37 anos, e o instrutor de vôo Marco Archer Cardoso Moreira, 48, estão entre os 80 estrangeiros de 16 países condenados à pena de morte naquele país. Gularte e Moreira foram pegos ao tentar entrar na Indonésia com 6kg e 13,4kg de cocaína, respectivamente, em seus equipamentos esportivos.
     
    No final de maio, o deputado Domingos Dutra fez um apelo direto ao embaixador no Brasil, Sudaryomo Hartosudarmo. O Ministro das Relações Exteriores indonésio informou que após novo pedido de clemência em carta da presidenta Dilma Rousseff, o caso pode ser reavaliado.
     
     Outros dois pedidos de substituição da pena de morte pela pena de prisão já foram feitos durante o governo Lula. “O que pedimos é que eles não sejam executados. Seria muito chocante para o nosso país, uma vez que o Brasil não tem pena de morte e que nunca um brasileiro foi executado fora do Brasil”, ressaltou o então ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto ao ministro da Justiça indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono.
     
    A Indonésia é conhecida por não atender nem apelos da Anistia Internacional. A última execução que se tem notícia foi de um indiano de 67 anos, morto por um pelotão de fuzilamento depois de cumprir uma pena de dez anos de prisão, também acusado de tráfico. Ele tinha sido preso em 1994 com doze quilos de cocaína.
     
    Clique aqui para ler a matéria “Na balada da morte”
  • “Estamos servindo de cobaias” *

    Cada vez mais cientistas acreditam que o uso constante do telefone celular pode estar relacionado com o aumento dos casos de tumores cerebrais. Os estudos não são conclusivos, mas um ponto já é consenso: as crianças são muito mais sensíveis aos efeitos das radiações.
    As grandes indústrias do setor já desembolsaram algumas centenas de milhões de dólares em estudos. Existem dois grandes projetos sobre a telefonia celular em andamento, envolvendo 16 países de quatro continentes.
    Hoje, mais de três bilhões de pessoas utilizam a telefonia móvel. No Brasil, já são mais de 100 milhões de usuários, perto de 57% da população, segundo dados da Anatel, de fevereiro deste ano.
    O pouco interesse no assunto deve-se à falta de informação, segundo o engenheiro Álvaro Augusto Almeida de Salles, um dos maiores especialistas em pesquisas sobre telecomunicações.
    Chefe do Laboratório de Comunicações Eletro-Óticas do Departamento de Engenharia Elétrica da UFRGS, Salles coordena uma equipe de pesquisadores, que há mais de dez anos estuda os efeitos biológicos das radiações eletromagnéticas no organismo humano.
    “Uma coisa é certa: está se usando amplamente uma tecnologia que ainda não se mostrou inócua à saúde”, adverte.
    *Esta entrevista exclusiva ao jornalista Cleber Dioni Tentardini foi publicada na Revista JÁ em 2007. O professor falou sobre as duas grandes pesquisas em andamento, como os países estão lidando com as novas descobertas, os efeitos nas crianças e que medidas o Brasil deve adotar para prevenir os usuários dos perigos dessa tecnologia, que veio para ficar.
    O que está claro nesse terreno, professor?
    Uma coisa é certa: está se usando amplamente uma tecnologia que ainda não se mostrou inócua à saúde. Ao contrário, os resultados das pesquisas disponíveis mostram diversos efeitos danosos à saúde, inclusive câncer. Então, estamos servindo de cobaias. Como afirmou o doutor Leif Salford, neurocirurgião na Universidade de Lund, na Suécia, referindo-se às bilhões de pessoas no mundo que conversam pelos celulares, forçando livremente radiações eletromagnéticas para seus cérebros: “Esta é a maior experiência biológica na história do mundo”. Há pesquisas em andamento no várias partes. Em Naila, na Alemanha, e em Netanya, em Israel, os estudos mostram que o risco de novos casos de câncer é bem maior entre as pessoas que viveram durante dez anos num raio de 400 metros das Estações de Rádio Base (ERBs). Este estudo mostrou que não é mais possível assumir que não há relação casual entre emissões de rádio freqüências e o aumento de incidência de câncer.
    Esses riscos já foram reconhecidos pelas empresas?
    Não publicamente. São os efeitos biológicos, que nós chamamos de não-térmicos. Como falei no seminário em Brasília, em abril, já existem evidências científicas suficientes sobre os efeitos biológicos da radiação emitida pelos celulares. Por isso, não existe outra alternativa senão a adoção imediata do Princípio da Precaução. Principalmente pela disseminação dos celulares entre as crianças.
    As crianças estão mais expostas à radiação dos celulares?
    Crianças e adolescentes. Os efeitos são mais críticos que em adultos, especialmente porque nas crianças e adolescentes a espessura do crânio é menor e maior a penetração, a onda atinge a regiões mais internas do cérebro. Além disto, nas crianças verifica-se que o metabolismo é mais rápido e quaisquer efeitos danosos devem ser mais críticos, e normalmente, as recomendações de prudência e cautela são menos consideradas.
    Há estudos com crianças?
    O professor Ohm Gandhi, da Engenharia Elétrica e Computação da Universidade de Utah (EUA), publicou uma pesquisa sugerindo que os cérebros das crianças absorvem 50% a mais a radiação dos telefones móveis do que adultos. William Stewart, do Departamento da Saúde da Inglaterra, alertou há dois anos que crianças com idade inferior a nove anos não deveriam utilizar telefones móveis porque o tecido do cérebro é particularmente vulnerável e que o crânio em crescimento das crianças é menos espesso que aqueles dos adultos, e então menos resistente à radiação.
    E as pesquisas sobre as Estações de Rádio-Base?
    A população normalmente está bem afastada das ERBs e a distância é fundamental porque a radiação decai na medida em que a pessoa se afasta da antena. Mas é preciso meios eficazes para fiscalizar essas antenas. Então, o aparelho celular passa a representar o maior perigo, por estar encostado na cabeça. Mas o mais grave nisso é que os estudos trabalham com níveis de exposição à radiação bem abaixo dos limites permitidos. Nesse estudo de Naila, por exemplo, os níveis de radiação estavam cerca de 800 vezes menor.
    O que acha da legislação de Porto Alegre?
    Em Porto Alegre, a lei 8.706, de 14 de janeiro de 2001, proposta pelo então vereador Juarez Pinheiro (PT) obriga os fabricantes de aparelhos celulares a divulgar os níveis de radiação eletromagnética emitidos pela antena dos telefones e substituir os aparelhos cujo nível de radiação supere o limite aceito internacionalmente. Não vingou. Nessa mesma época surgiu um projeto de lei na Assembléia Legislativa gaúcha que tornaria obrigatório às operadoras de telefonia colocar adesivos nos aparelhos para advertir os usuários sobre os riscos à saúde, como nas carteiras de cigarro, mas não sei o que houve, deve ter sido engavetado.
    O que significa o Princípio de Precaução
    É um critério que já foi adotado em vários países diante do alto grau de incerteza científica frente aos potenciais riscos de determinada tecnologia, no caso, a telefonia móvel celular. Toma-se uma atitude preventiva sem esperar os resultados da pesquisa científica. Porque se os riscos existem, são sem dúvida problemas de Saúde Pública, e como tal devem ser tratados. A própria Organização Mundial da Saúde decidiu que já é hora de adotar o Princípio da Precaução sobre o uso do celular e do funcionamento das Estações de Rádio-Base.
    Esse princípio tem amparo na legislação em vigor?
    A Anatel é a reguladora. Ela precisa estabelecer normas mais rígidas do que está em vigor, já que os estudos apontam a possibilidade de ocorrer prejuízos à saúde dos usuários em níveis muito abaixo da radiação emitida hoje pelos aparelhos.
    A Anatel adotou uma norma ineficiente?
    Acontece que as normas existentes para os aparelhos celulares e para as ERBs prevêem somente os efeitos térmicos, de curta duração, que já foram comprovados, como o aquecimento dos tecidos internos do ouvido e de outras partes do corpo. Hoje, a Anatel utiliza a norma adotada pela ICNIRP, que estabelece a radiação emitida pelo celular, a Taxa de Absorção Específica (SAR) máxima permitida é de dois miliwatts por grama de tecido (2 mW/g), considerando-se a antena do parelho a uma distância mínima de dois centímetros da cabeça. Só que pesquisas recentes mostram repetidas vezes efeitos danosos à saúde em níveis de exposição substancialmente abaixo da norma ICNIRP.
    Quem estipula a SAR?
    Pela própria ICNIRP. SAR significa a potência por unidade de massa de tecido.
    Em quanto a norma é superada?
    Em muitas vezes. A dois centímetros você está no limite da norma. À medida que a antena se aproxima, esses valores começam a crescer, a ponto de que, a um centímetro, você já superou três ou quatro vezes a norma. E, quando a antena está encostada na cabeça, esse limite é superado entre cinco e dez vezes. A Anatel adotou esse limite em 1999 e já está na hora de adotar uma norma mais rígida, que proteja os usuários. O problema é que a norma existente está baseada somente nos efeitos térmicos, que já foram comprovados, mas a precaução vai além, justamente para proteger as pessoas do que pode ocorrer.
    Qual é a norma mais rígida?
    Sugerimos como limite de exposição aos campos eletromagnéticos 0,6 V/m, adotado em Salzburg, na Áustria. A norma suíça e italiana também são recomendáveis. Esse limite está sendo pleiteado na França, através de dois projetos de lei em tramitação na Assembléia Nacional.
    Quais são os problemas com os aparelhos celulares?
    São muito ineficientes. O principal problema é com a antena atualmente utilizada na grande maioria dos telefones móveis, que é do tipo monopólo convencional. Pior ainda nos aparelhos com antena interna. Quando está afastada de qualquer obstáculo, esta antena irradia simetricamente em torno de si mesma, em um plano perpendicular a ela. Quando está muito próxima á cabeça, perde a irradiação em simetria, em círculo, e cerca de 70% da energia que deveria chegar a uma ERB é absorvida pela cabeça, ficando menos de 30% para a função principal, que é a comunicação com a Estação mais próxima. E geralmente em potência elevada devido ao ajuste automático dos aparelhos. Nestas condições, os resultados medidos mostram que mesmo normas restritivas são substancialmente superadas. Essa tecnologia não foi dimensionada para operar próxima da cabeça, mas foi aproveitada de um tipo de antena que já existia, dos rádios portáteis, por exemplo.
    Quais prejuízos dos efeitos térmicos?
    Os mais notados são no olho. Quando há aquecimento, o globo ocular pode ficar esbranquiçado, que chamamos de opacidade, e se aproxima de uma catarata interna. E também pode haver casos de glaucoma. Esses efeitos são conhecidos há mais de trinta anos. E as normas como do ICNIRP são baseadas nesses efeitos.
    Existem casos comprovados de glaucoma?
    Alguns casos já foram relatados na literatura médica. O olho está mais exposto porque é um tecido muito sensível e a antena deve ficar distante mais de cinco centímetros do olho. A gente vê policiais, pessoal de organização de eventos usando aparelhos de comunicação na frente dos olhos…é um risco.
    A Universidade Federal da Paraíba concluiu uma pesquisa sobre os efeitos da radiação, mas em ratos.
    É. Dizem que houve redução em 26% na fertilidade dos animais expostos. Esses são efeitos biológicos.
    Os não-térmicos?
    É. Efeitos no sistema nervoso, no sistema cardiovascular, no metabolismo, em fatores hereditários, com problemas hormonais. As mais sensíveis são as células nervosas, neurônios e moléculas de DNA, os cromossomos. Se fosse só calor externo não tinha problema. Mas lá no cérebro as coisas podem estar acontecendo muito pior, porque você não tem sensores térmicos ali, então não percebe. Esses tecidos não se regeneram. Se você perder 10 mil neurônios de 100 mil nem vai notar, mas a médio e longo prazo vai sentir.
    O que representa médio e longo prazos?
    Médio prazo é cinco, dez anos. Tendo em vista que cerca de 3 bilhões de pessoas utilizam os terminais móveis, e no Brasil já são mais de 100 milhões, isto se tornou uma questão de saúde pública, e não existe outra alternativa responsável senão a adoção imediata do Princípio da Precaução. Caso isto tardar, já poderá ser tarde demais para a reparação dos danos. Qual será o custo disto? Quem pagará esta conta?
    E qual seria a antena ideal?
    O melhor seria uma antena diretiva, que emitisse energia no sentido oposto da cabeça. Como o farol do automóvel, que tem diretividade. Ele concentra energia num determinado facho. Então, a cabeça ficaria protegida. Já existem antenas assim, algumas já foram patenteadas. A Motorola está fazendo pesquisas com as antenas diretivas. Patrocinou um estudo no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos, um projeto de 100 mil dólares, se não me engano. Mas isso nem precisaria porque eles já têm patente internacional dessas antenas, era só colocar em prática. Em 1995, esse tipo de antena não era novidade nos Estados Unidos.
    Por que não estão disponíveis no mercado?
    Realmente, eu tenho pensado bastante nisso, mas não tenho resposta. Como a norma é ultrapassada várias vezes, além de ser um problema de saúde pública, eu digo que também é um problema de direitos humanos e de defesa do consumidor. Porque os usuários têm o direito de serem informados sobre as normas e precauções. Mas, para muitos, isso não é conveniente que seja divulgado.
    Essa nova antena poderia elevar o custo do produto?
    Não seria um custo muito maior, cerca de 10 ou 20 dólares. Serviria até como um bom marketing para os fabricantes.
    Mas aí os fabricantes teriam que substituir os atuais modelos?
    É. Talvez seja uma estratégia mercadológica para vender mais do primeiro tipo e depois entrar com o outro. Quanto tempo eles tiverem, melhor. Não estou dizendo que essa é a estratégia. Agora, está comprovado que essa antena é um dos piores projetos de engenharia das últimas décadas, não há a menor dúvida.
    Alguma semelhança com a indústria do cigarro?
    Assim como ocorre há décadas com as indústrias de tabaco, agora é a vez das fabricantes de telefones celulares enfrentarem os tribunais de diversos países. Um dos primeiros processos, que abriu as portas para centenas de ações contra a indústria de telefonia móvel, iniciou em 2000 contra a Motorola. Advogados do neurologista norte-americano, Christopher Newman, 43 anos, vítima de câncer no cérebro, usaram a análise para sustentar uma ação de US$ 800 milhões. Michael Murray, de 35 anos: US$ 1,5 bilhões, Outras cinco causas, de mais que US$ 1 milhão cada, todos envolvendo tumores cerebrais associados ao uso do aparelho celular. Como disse o Veríssimo (L.F. Veríssimo, ZH, 1/3/2004): o cigarro, comprovadamente, mata. A venda de cigarro não é proibida porque os impostos pagos pela indústria do fumo são responsáveis por um naco gigantesco do orçamento estatal e o vício que mata sustenta boa parte das atividades do governo…
    Que providências a Anatel poderia tomar?
    A Anatel deveria emitir uma determinação para que os fabricantes medissem a SAR de todos aparelhos em uso no Brasil e divulgassem amplamente os valores. Os que estivessem acima da norma, de preferência uma mais rígida, deveriam ser recolhidos, uma coisa elementar.
    O que falta, então?
    Há muito interesse em jogo. Enquanto estiverem vendendo os aparelhos… Agora, o que precisa haver é uma imposição oficial que obriguem a fazer o negócio direito. Só que a Anatel tem que impor isso. Assim como deve mandar ser visíveis na caixa do celular os índices de radiação que o usuário está sujeito com aquele aparelho.
    O representante da Agência que esteve lá no seminário em Brasília, Maximiliano Martins, declarou que o único efeito comprovado das ondas eletromagnéticas é o aquecimento dos tecidos.
    Ele declarou que os limites da ICNIRP são 50 vezes abaixo da faixa considerada segura. Mas as pesquisas indicam que mesmo em níveis muito baixos os riscos são reais.O Relatório de Progressos do projeto Reflex, que envolve sete países, indica efeitos danosos a saúde em baixos níveis de exposição, e deu como exemplo as quebras simples e duplas nas moléculas de DNA. Do outro Projeto, chamado Interphone, envolvendo 13 países, ainda não existe o relatório final. Mas já foram publicados artigos que mostram pesquisas epidemiológicas onde aparecem aumentos de riscos de tumores cerebrais para usuários constantes de celulares.
    O professor Renato Sabbatini, colaborador da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, disse que apenas 1% ou 2% dos estudos mostraram a possibilidade de algum dano às pessoas.
    Essa é a opinião dele. Acontece que há estudos que comprovam a relação entre a exposição às ondas eletromagnéticas provenientes principalmente de celulares e de antenas de transmissão do sinal desses aparelhos com a maior incidência de câncer na população. O representante das operadoras (presidente-executivo da Associação Nacional das Operadoras Celulares, Ércio Alberto Zilli) reclamou do excesso de regras. Citou a existência de 174 decretos, leis e resoluções em seis estados, 141 municípios. Mas não vejo outra alternativa.
    Fale mais do Projeto Interphone
    Projeto iniciado em 2001, envolvendo os principais laboratórios em 13 países (Suécia, Finlândia, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Itália, França, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Israel, Japão). Alguns liberaram resultados dos estudos, sendo a maioria publicada na Revista Internacional de Oncologia. Todos fizeram pesquisas com pessoas que usam constantemente o aparelho celular a mais de dez anos. Dos sete estudos, cinco encontraram relação com o aumento de tumores cerebrais, dos tipos meningioma, glioma e neurinoma acústico. Um dos estudos, realizado na Universidade de Orebo, na Suécia, revelou que pessoas que utilizam o celular por mais de meia hora por dia, durante 10 anos, tem 310% de risco de desenvolver tumor no sistema auditivo (Neurinoma Acústico) e, durante 15 anos, o risco chega a 380%.
    E o Projeto Reflex?
    É um estudo financiado pela União Européia, envolvendo sete países (Alemanha, Áustria, Espanha, Finlândia, França, Suíça e Itália), e orçado em mais de 3 milhões de Euros), cujos resultados detectaram alteração no DNA e nos fibroblastos (uma das estruturas celulares) mesmo quando a exposição ao campo magnético ocorre em níveis menores do que os permitidos pela ICNIRP. O neurocirurgião Leif Salford e o biofísico B. Persson, da Universidade de Lund, na Suécia, mostraram que níveis muito baixos de exposição (SAR = 0,002 W/Kg, durante somente duas horas) podem alterar a Barreira Cérebro-Sangue, permitindo que substancias químicas penetrem em neurônios no córtex, no hipocampo e em gânglios basais do cérebro. Esta alteração permanecia ainda evidente quatro semanas após uma única exposição de duas horas. O professor Francisco Tejo, da Universidade Federal de Campina Grande, divulgou resultados de pesquisas que indicam que a exposição a campos eletromagnéticos, independentemente da intensidade, reduz em cerca de 40% a produção de melatonina, substância produzida pelo cérebro que tem a função de identificar e destruir células defeituosas. Sua atuação principal é na proteção contra o câncer de mama e de próstata. Quer mais?
    Claro
    O estudo de doutor Lennart Hardell, do Örebo Medical Center, na Suécia, mostrou que os usuários de telefones celulares apresentavam uma probabilidade 2,5 vezes maior para desenvolver tumores nestes lobos, no lado da cabeça onde o aparelho era normalmente operado. Em outros estudos ele verificou aumento do risco de câncer cerebral quando o telefone móvel é usado do mesmo lado da cabeça que o tumor, quando há excesso no número de horas de uso dos telefones móveis e com os anos de uso dos aparelhos. Outra pesquisa coordenada por Hardell, publicada em 2005, mostra que os usuários de celulares em áreas rurais tinham 50% a mais de riscos de desenvolver tumores cerebrais em comparação com os usuários dos locais urbanos. Essa probabilidade cresce para 250% para pessoas que usaram celulares durante mais de cinco anos. Os celulares digitais podem irradiar potência cerca de mil vezes maior quando estão em áreas onde o sinal é fraco, normalmente afastados das ERBs.
    Quando os europeus começaram a se preocupar com essa tecnologia?
    A Inglaterra foi um dos primeiros países a advertir os usuários contra o uso excessivo do aparelho, principalmente por crianças. O Ministério da Saúde britânico soou o alerta depois que o jornal de medicina Lancet publicou um artigo do médico Gerard Hyland, da Universidade de Warwick, onde ele afirmou que as freqüências do celular interferem nas freqüências do corpo humano e que os usuários com menos de 18 anos são vulneráveis a dores de cabeça, perda de memória e distúrbios do sono. Na Alemanha, estudos mostraram que as freqüências de rádio emitidas pelos celulares e torres poderiam provocar modificação genética em células e animais de laboratório, podendo chegar ao câncer.
    Uma pergunta que parece óbvia: você usa celular?
    Não, e estou sempre recomendando aos meus familiares que utilizem o menos possível.
    Que tipo de recomendações o senhor pode deixar para o nosso leitor?
    Falar o menor tempo possível no celular; não encostar o aparelho na cabeça quando estiver falando; quando for possível, levantar a antena ao máximo; e evita que crianças utilizem esse telefone. Se for utilizar fones de ouvido, manter o aparelho afastado do corpo.
    Entenda melhor
    Radiação eletromagnética – conjunto de ondas elétricas e magnéticas, que se propagam no espaço transportando energia. Alguns tipos: microondas, rádio, tevê, raios X, ultravioleta, infravermelho.
    ICNIRP (Comissão Internacional de Proteção às Radiações Não Ionizantes) – organização formada por cientistas independentes de vários países que desenvolvem estudos de saúde e segurança sobre exposições a ondas de radiofreqüências.
    IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineer) – organização fundada nos Estados Unidos por engenheiros eletricistas e eletrônicos, que trabalha no estabelecimento de normas e padrões e na edição de publicações técnicas.
    SAR (Specific Absorption Rate) – Taxa de Absorção Específica, é a intensidade de radiação absorvida por grama de tecido do corpo.
    MW/g – Miliwatts por grama de tecido. De acordo com a ICNIRP, a SAR máxima admitida de um aparelho de celular é de 2 mW/g, dependendo da intensidade emitida e respeitando uma distância mínima de dois centímetros da cabeça.

  • OMS anuncia que uso de celular pode provocar câncer

    A radiação emitida pelos celulares pode aumentar o risco de ocorrência de câncer, anunciou ontem a Organização Mundial da Saúde (OMS). A conclusão é de 31 cientistas de 14 países reunidos na Agência Internacional para a Pesquisa sobre o Câncer (IARC), da OMS.
    A Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é uma das pioneiras no Brasil a relacionar a exposição prolongada aos campos eletromagnéticos gerados pelas radiofrequências dos telefones móveis ao possível desenvolvimento de certos tipos de câncer. O professor Álvaro Augusto Salles, do Laboratório de Comunicações, é referência mundial no tema.  “Era questão de tempo, um tempo que certamente já custou a saúde de muitas pessoas, inclusive crianças que ganham celulares como brinquedos”, adverte Salles.
    A classificação da OMS como ‘possivelmente cancerígeno’, na mesma categoria do chumbo, escapamento de motor de carro e clorofórmio, pode fazer com que o corpo de saúde da Organização das Nações Unidas revise suas orientações sobre os aparelhos de telefonia móvel.
    Os cientistas apontaram como possível risco de câncer cerebral o uso excessivo de celulares – cerca de 30 minutos por dia durante dez anos. Aumentaria em 40% o risco de uma pessoa desenvolver glioma – um tipo maligno de câncer no cérebro.
    O responsável pelo grupo de trabalho OMS/IARC, Jonathan Samet, da University of Southern Califórnia, declarou que as provas reunidas até agora “são suficientemente sólidas (…)” para identificar “evidência limitada de carcinogênese em humanos”.
    A conclusão do grupo de trabalho é que “é importante tomar medidas pragmáticas para reduzir a exposição a equipamentos como os fones de ouvido para celulares”.
    Os fabricantes de celular disseram que a classificação da IARC não afirma que celulares causam câncer. “Os aparelhos produzem ondas de radiação não ionizada que são muito fracas para causar danos no DNA que causem tumores malignos”, alegam.

  • Mais investimentos para melhorar água consumida em Porto Alegre

    É preciso investir de forma permanente em novas tecnologias para melhorar a qualidade da água consumida em Porto Alegre que, de maneira geral, é boa. Essa foi a ideia central apresentada hoje pela manhã na Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam), da Câmara Municipal, por especialistas da Universidade e de órgãos municipais e estaduais.
    O público reduzido presente à reunião proposta pelo vereador Thiago Duarte (PDT), contrastou com a importante contribuição do professor Antônio Benetti, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, que falou sobre os perigos dos poluentes e os principais desafios para manter uma boa qualidade da água.
    Segundo ele, o controle da transmissão de doenças por microrganismos patogênicos continua sendo o objetivo principal do tratamento da água. “Deve-se ter atenção especial com as cianobactérias, um conjunto de microrganismos que produzem toxinas e causam gosto e odor e são difíceis de controlar”, ensina Benetti. Ele adverte que, por ser um manancial desprotegido, o Guaíba enfrentará por um bom tempo esse que é um dos principais problemas do lago que abastece a capital.
    Benetti lembrou dos episódios ocorridos em 2005 e 2006, que deixaram a água com a cor verde. “São organismos que provocam fotossíntese, mesmo não sendo algas nem plânctons, por exemplo.” De acordo com o professor, alguns desses compostos, alteram a atividade endócrina em peixes e suas funções sexuais. “São chamados perturbadores endócrinos como surfactantes. São analgésicos e hormônios sexuais, que acabam chegando aos mananciais”, exemplificou.
    Outro contaminante altamente cancerígeno é o arsênico, segundo o especialista do IPH da UFRGS. Está presente nos poços artesianos e em resíduos de fertilizantes e na decomposição dos excrementos de animais criados em confinamento, como porcos, bovinos, ovinos e eqüinos. Esses materiais mais cedo ou mais tarde atingem mananciais e bacias hidrográficas. Ainda não foi detectado no Rio Grande do Sul.  
    O professor Benetti ainda criticou o alto consumo de água engarrafada no Brasil, que ocupa hoje a quarta posição entre os maiores consumidores. De 1997 a 2009, o país passou de 3,9 bilhões para 16,1 bilhões de litros consumidos, representando um crescimento de 310%. “É preciso mostrar que um terço da garrafinha de água é petróleo, a energia que se utilizou para produzi-la. O custo energético para se produzir um litro de água engarrafada é mil vezes maior que o custo empregado no tratamento da água da torneira”, explica.
    Tecnologias avançadas
    A diretora substituta da Divisão de Tratamento do DMAE, Sissi Maria Cabral, detalhou o trabalho desenvolvido pelo órgão municipal com a água proveniente do lago Guaíba. Munida de fotos em que mostram instalações e equipamentos antes e depois dos investimentos feitos, Sissi ressaltou que um dos motivos para a melhora da água em Porto Alegre foi a substituição de equipamentos e produtos químicos antigos por sistemas de última geração, permitindo eliminar e tratar preventivamente as infestações por mexilhão dourado nas tubulações, que estavam entupidas pela presença do parasita.
    Também participaram da reunião o vice-prersidente do Comitê da Bacia do Gravataí, Maurício Colombo, que falou sobre planos e diagnósticos para o Gravataí, que é um dos 25 comitês da Bacia Hidrográfica do Guaíba, o vereador Carlos Todeschini, ex-diretor geral do DMAE, e representantes da Secretaria Estadual da Saúde, dos órgãos da Vigilância Sanitária do município e do estado, SMAM, SMIC e SMOV.

  • Mendes Ribeiro se movimenta para 2014

    Há bastante tempo o deputado federal Mendes Ribeiro Filho anunciou sua disposição de ser o candidato do PMDB ao governo do Rio Grande do Sul em 2014. Ele é o peemedebista gaúcho mais próximo da presidente Dilma, que tenta inclusive fazê-lo líder do governo na Câmara.
    Agora ele deu mais um passo, desta vez buscando apoio da mídia.
    Mendes é o relator de uma proposta que libera as emissoras de rádio para transmitir a “Voz do Brasil” num horário flexível, entre 19 e 22 horas. E está anunciando que é favorável à mudança, uma antiga reivindicação da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão.
    Na verdade, o plano da ABERT era acabar com a “Voz do Brasil”, hoje é obrigatória às 19 horas, horário de grande audiência no interior do país.
    A “flexibilização” é uma alternativa, ante a falta de condições políticas de aprovar a extinção do programa, produzido pela Radiobrás e que para muitos lugares do Brasil é o único noticiário nacional que chega, além de ser um espaço onde circulam informações que a midia regularmente suprime. Com sua posição, Mendes faz um afago na ABERT e por tabela na AGERT, ou seja RBS e outras.

  • Fora, Palocci

    A versão consagrada pelos jornalões e revistas semanais é esta: o ex-presidente Lula reapareceu no centro da cena política nacional na semana passada para socorrer o governo Dilma, abalado pela crise provocada pelas denúncias contra o ministro Antônio Palocci, chefe da Casa Civil.
    Essa conclusão representa a retomada de uma antiga tese da mídia – de que a presidente Dilma Rousseff, pela “inexperiência política”, precisará sempre da tutela de Lula.
    A firmeza e a independência da presidente nos primeiros meses de governo, haviam desqualificado as previsões iniciais, mas eis que agora os fatos se encaixam.
    Ao ter seu principal articulador político atingido por denúncias de enriquecimento duvidoso, o governo Dilma entrou em parafuso e precisou da presteza salvacionista de Lula, é o que diz a mídia.
    Faz sentido, mas os fatos podem ter outra interpretação.
    Lula entrou em cena para salvar Palocci, que Dilma desde o início da crise quer afastar do governo.
    Palocci foi indicado por Lula para a Casa Civil e é apontado pela imprensa como seu candidato preferencial para a disputa em São Paulo em 2014.
    Não é perfeita a sintonia entre ele e a presidente e o primeiro impulso dela ao estourarem as denúncias foi fazer o que sempre recomendou a Lula nestes casos: afastar o envolvido até que tudo se esclareça.
    Não tomou a decisão, para não contrariar o ex-presidente, a quem deve a candidatura e o mandato. Lula, agora, teve a oportunidade de fazer a defesa explícita do apadrinhado e, segundo a mídia, foi bem sucedido.
    Na verdade, em vez de ajudar a presidente, Lula está atrapalhando. Pois o que Dilma deveria fazer é o que teve vontade desde o início: mandar esse Palocci passear. (EB)