Autor: Elmar Bones

  • Carlos Gardel inspira um belo romance

    Os ditos “contos gardelianos” de Aldyr Garcia Schlee (Os Limites do Impossível, Editora ArdoTempo, 2009) são na realidade um romance construído a partir da circularidade de uma dezena de narrativas sobre mulheres que participaram direta ou indiretamente de um acontecimento real – o nascimento em 1884 em Tacuarembó, no Uruguai, de Carlos Gardel, o ídolo do tango argentino falecido em acidente aéreo em Medellín em 1935.
    É uma história alinhada com o que a literatura sulamericana tem de melhor. Não admira que tenha sido escrita por um nativo de Jaguarão, lugar onde se aprende portunhol no berço. Mesclando uma narrativa histórica com lances do mais criativo realismo literário, Schlee constrói uma carreata fabulosa.
    A leitura é tão saborosa que não temos a menor dificuldade em colocá-lo ao lado de mestres latino-americanos como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Márquez e Juan Rulfo. Ele também fica de pé fácil se colocado na estante ao lado de Domingos Pellegrini, Lourenço Cazarré e Miguel Sanches Neto, para citar apenas contistas do Sul do Brasil.
    O livro tem uma personagem central, D. Carlos Escayola, “mandamais” de San Fructuoso, nome ficcional de Rivera, a cidade gêmea de Santana do Livramento.
    Além de ser o cacique local, D. Carlos é acidentalmente cunhado do general farrapo Antonio de Souza Netto e tem o dom extraordinário de seduzir todas – todas – as mulheres do enredo.
    Garanhão inveterado, ele começa desposando uma moça que o despreza, casa com a cunhada após enviuvar e emprenha a sogra enlouquecida de amor por ele.
    Perto do auge da história, o herói-canalha estupra e engravida a própria filha, uma virgencita de 13 anos, que vai ter o bebê numa fazenda no interior de Tacuarembó, assistida por uma parteira que eventualmente trabalha também como despenadeira, isto é, a pessoa que ajuda os moribundos a desencarnar – segundo o autor, esse tipo de pessoa era comum na época das guerras e revoluções do Cone Sul.
    Levada para Buenos Aires por uma ex-corista francesa paga para “desaparecer” com a encomenda, a criança vinga espetacularmente na Argentina, dando sentido a uma antiga e misteriosa declaração de Carlos Gardel: “Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade…”
    No entanto, no seu passaporte resgatado em Medellín das cinzas do avião acidentado em 1935 estava escrito: “Nascido em Tacuarembó”. Desfez-se assim também a lenda de que o ás do tango teria nascido no interior da França.
    Se não é verdadeira, a história é muito bem montada com todos os ardis possíveis da literatura.
    Artista plástico, jornalista e professor, Schlee construiu uma obra que segue magistralmente pela trilha do realismo fantástico. Há indícios de pesquisa histórica por trás de tantos contos encadeados, mas a criação literária parece ser ainda maior. Daí o clima de contido exagero que permeia a narrativa, pontilhada de palavras e expressões corriqueiras na fronteira do espanhol e do português.
    Fora a genial remexida na história pessoal do ídolo mercosulino (há muito Gardel não é somente argentino), o invencionismo da linguagem é a maior qualidade desta história editada em 2009 por uma pequena editora de Porto Alegre e premiada no final de 2010 com o Açorianos pela Prefeitura de Porto Alegre.
    Em quase todas as páginas do livro se encontram ditos saborosos que fazem parte da linguagem oral do pampa mas que até agora não haviam sido incorporados à literatura.
    No correr da história, sem qualquer esforço ou rebuscamento, o jornalista jaguarense nos regala com um palavreado inolvidável. Nesse aspecto, promove um resgate semelhante ao de Simões Lopes Neto quando este jornalista pelotense fixou há 100 anos nos seus contos gauchescos e lenda do Sul o modo de falar do gaúcho da campanha.

  • Denúncias de corrupção: "Justiça será feita"

    Em entrevista exclusiva ao JÁ, o procurador Geraldo Da Camino, do Ministério Publico de Contas, prevê novidades em março para os dois casos mais rumorosos de denúncias de corrupção no Rio Grande do Sul – a Operação Rodin e o desvio de R$ 10 milhões no marqueting do Banrisul.
    P -Tivemos rumorosas denúncias de corrupção em 2010, que depois sumiram do noticiário. Em que resultaram…a Operação Rodin, por exemplo?

    R – Continua o processo penal em Santa Maria. Houve uma suspensão por conta de um recurso que um dos réus teria interposto, que não sei se já foi julgado. Houve também um atraso por mudança no Codigo Penal, na questão da oitiva…Mas está andando, é questão de tempo.
    P-Um dos envolvidos, o ex-reitor da UFSM, Paulo Sarkis, está prometendo provar que houve injustiça…

    R- Li toda a argumentação do ex-reitor. Não vi nada que tire fundamentação ou fragilize as provas apresentadas. Continuo com convicção de que a operacão foi muito bem conduzida. Os fatos denunciados devem ser comprovados em juízo.
    P- Essa sensação, de que no final ninguém será punido, é irreal?
    R- As vezes passa essa impressão de que não dá em nada. É que temos uma legislação que permite muitos recursos protelatórios e por isso se fala em reforma…pois há claro excesso de recursos, que muitas vezes levam à prescrição de processos e à malfadada impunidade…
    P- No caso específico da Rodin…
    R- Minha convicção é a mesma: o inquérito foi muito bem conduzido, a denúncia está bem embasada. Nada leva a crer que não se vai fazer Justiça.
    P- Outro caso rumoroso foram as denúncias envolvendo o marketing do Banrisul. Em que pé está?

    R- Foi um um depoimento de uma testemunha aqui no MPC que deu origem a essa Operação Mercari… Estão em análise os elementos obtidos na investigação, estão sendo ouvidas testemunhas… Antes do fim do ano houve uma reunião na Polícia Federal, com todos os envolvidos para uma avaliação. Agora nesse período o ritmo deve diminuir, mas acredito que em março teremos novidades…
    P-Há paralelamente uma inspeção do TCE no Banrisul, não?
    Sim, o Tribunal também realiza uma Inspeção Extraordinária no Banrisul. Então há o inquérito e a inspeção em andamento, na verdade já em fase final de conclusão. É provável que também esteja concluída em março.
    Houve aumento das denúncias de corrupção no Estado?
    Temos em andamento mais de 200 expedientes de pro-atividade, decorrentes de denúncias que nos chegam. O MPC tem sido mais demandado e estamos nos preparando para uma carga ainda maior de trabalho.
    P- Hoje o quadro de procuradores está completo?
    R- Estamos há quase dois anos com o quadro de quatro procuradores, queremos aumentar esse quadro para sete procuradores, para ter uma paridade entre procuradores e conselheiros, pois o MPC dá parecer em todos os processos de contas, além dessas essas atividades que decorrem de denuncias e representações, que nos consomem muito tempo. Fora isso temos uma série de atos de colaboracão com todos os órgãos afins, visando a integração dos trabalhos… A integração você sabe é o meu mantra…O resultado é uma carga considerável, que tende a aumentar…

  • Agricultura quer decisão sobre plantios florestais

    Chegaram à imprensa as pretensões do ministro da Agricultura, Wagner Rossi, de levar para sua pasta as decisões sobre setor de florestas plantadas, que hoje competem ao Ministério do Meio Ambiente.
    Rossi ainda não levou a questão à presidenta Dilma Rousseff, segundo o jornal Valor Econômico.
    Ele não é o primeiro a querer essa mudança.
    A disputa pelas florestas plantadas se explica pelo volume de investimentos, nacionais e estrangeiros – mais de R$ 14 bilhões para plantio de florestas e aquisição de terras até 2014.
    Pesam, também, as discussões ambientais, sobretudo as questões vinculadas à reforma do Código Florestal Brasileiro.
    O ministro argumenta que a transferência de ministério “reduziria as amarras burocráticas e daria mais visibilidade ao setor”.
    E tem todo o apoio da Associação Brasileira das Empresas Florestais (Abraf), que inclui Votorantim, Gerdau, Veracel, Ripasa, Suzano, Duratex, Acesita, Stora Enso e Klabin, etc.
    Hoje, segundo a Abraf, são necessárias 32 licenças e registros diferentes do plantio ao corte das árvores.
    O setor diz que o Meio Ambiente tem excessivo enfoque na preservação da Amazônia. “Mais vibração e menos cobranças do governo”, é o que reclama o diretor-executivo da Abraf, César Augusto dos Reis.( com Ambienteja)

  • JÁ VOLTAMOS

    Retomamos nossas atividades, depois de um breve período (desde dia 23/12) de férias coletivas. Merecíamos.
    Em 2010 chegou ao extremo um processo que há sete anos causa enormes transtornos a nossa editora, especialmente por suas implicações políticas.
    Chegamos ao ponto, depois de ter uma intervenção financeira na empresa, de ter neste ano que passou um bloqueio on line das contas pessoais dos sócios da Já Editores, para garantir o pagamento de uma indenização à familia de Lindomar Rigotto.
    O assunto é de domínio público e está disponível com todos os detalhes em nosso site.
    Por conta disso, tivemos então o pior ano em 25 anos de existência do jornal JÁ, com a suspensão da circulação do jornal, desde novembro de 2009.
    Mas 2010 foi também um ano de muito aprendizado e de renovação da nossa confiança na democracia e na consciência cidadã.
    Com o apoio dos amigos, colaboradores e forncedores conseguimos manter as atividades essenciais da empresa – o nosso portal de notícias, a edição comunitária do JÁ Bom Fim e a nossa editora de livros, ainda que com apenas um lançamento no ano passado.
    Centenas de sites e blogs
    Dois vigorosos artigos do jornalista Luiz Cláudio Cunha publicados no Observatório da Imprensa deram divulgação nacional ao processo iníquo que nos atinge.
    Replicados em centenas de sites e blogs – de Luiz Nassif a Carlinhos Brickmann, de Luiz Humberto a Ricardo Noblat e Paulo Henrique Amorim – os artigos provocaram uma verdadeira avalanche de apoios e manifestações de solidariedade ao JÁ.
    Uma das consequências disso foi o movimento “Resistência JÁ”, criado em setembro numa reunião na Associação Riograndense de Imprensa, com a presença de mais de meia centena de jornalistas e representantes de movimentos sociais e comunitários.
    Logo em seguida, em evento na Assembléia Legislatia do Estado, com presença de políticos e lideranças, formalizou o movimento e apontou algumas iniciativas, entre elas uma campanha de assinaturas que possibilitaria a retomada do jornal.
    Iniciada durante a Feira do Livro de Porto Alegre, a campanha será agora intensificada para culminar com o relançamento do jornal ainda em janeiro.
    Estamos também preparando a retomada dos nossos projetos editoriais, com pelo menos cinco lançamentos previstos para este ano.
    Enfim, estamos com muita confiança neste 2011. Contamos com o apoio de todos. (Elmar Bones)

  • Jeronimo Jardim grava CD ao vivo

    Jeronimo Jardim, que virou “maldito” após ganhar dois festivais (MPB Shell com “Purpurina” e Califórnia da Canção com “Astro Haragano”), grava um CD ao vivo, nesta quinta (6/1) e sexta (7/1) às 21 horas no Teatro Renascença em Porto Alegre.
    O show é uma consagração recheada de canjas de amigos da música e do músico-compositor.
    Em seu novo CD, Jardim, 66 anos, natural de Jaguarão, advogado que fez carreira na Justiça do Trabalho, promete voltar às origens, ou seja, vai gravar sambas e choros do tempo em que, distraído, pisava nos astros em Bagé, sem imaginar que um dia teria canções gravadas por Elis Regina.
    Para entrar no Renascença, basta levar um quilo de um alimento a ser doado a uma instituição beneficente.

  • Quatro linhas terão lotaçães adaptadas

    Segundo o prefeito Jose Fortunatti, Porto Alegre “é a primeira capital brasileira a dispor, no sistema de transporte seletivo, de veículos com elevador para acesso de pessoas com deficiência e box para o estacionamento dos cadeirantes”.
    A declaração foi feita nesta quarta-feira, 22, na entrega dos primeiros veículos adaptados para cadeirantes, que circularão em quatro linhas atendidas por lotações na cidade.
    O ato simbólico na frente do Paço Municipal, marcou o início de um programa de renovação da frota desses veículos.
    Ate o final de 2011, cinquenta novas lotações entrarão em circulação, seguindo o programa de renovação da frota, que tem idade média de cinco anos.
    Os novos carros são todos equipados com ar-condicionado, 21 lugares, poltronas reclináveis em dois estágios com cintos de segurança retráteis, no padrão rodoviário.
    A frota de lotações em Porto Alegre tem 403 veículos. Eles atendem 29 linhas principais e 17 secundárias, com 4.632 viagens diárias, e transportam aproximadamente 56 mil passageiros por dia, sentados.
    A renovação da frota de lotações integra a lista de medidas para a qualificação do transporte coletivo, um dos itens prioritários dos compromissos que a cidade assumiu ao ser escolhida uma das sedes da Copa de 2014.
    Linhas – Os novos veículos atenderão as linhas 787 Ipiranga PUC; 314 Canal 10; 130 Guarujá; 161 Ipanema e 590 Guerino/Lindóia.

  • Movimento faz nova caminhada no Santa Teresa

    Dia 18 de dezembro, sábado, aconteceu a 5ª Caminhada no Morro Santa Teresa, com a presença de 25 pessoas, entre elas, o Deputado Estadual Raul Carrion e o presidente do SENGE-RS, José Azambuja.
    O Dr. Marcel Frison, futuro titular da SEHADUR, através do deputado e por mensagem telefônica, justificou sua ausência por ter sido convocado pelo governador.

    O Dep. Fabiano Pereira, futuro titular da Secretaria da Justiça e Direitos Humanos, telefonou justificando sua ausência por compromisso fora do Estado, mas afirmou que, a partir de 15 de janeiro, o Movimento em Defesa do Morro Santa Teresa pode agendar audiência para tratar de suas demandas relativas àquela pasta.

    Durante duas horas e meia, tendo como guia o Sr. Darci, líder da comunidade da Vila Gaúcha, o grupo seguiu o roteiro proposto: Vila Gaúcha, cimo da pedreira, mata nativa e campos próximos à Vila Ecológica e finalizou pelas vilas Santa Rita e Figueira.
    Técnicos da FASE deram informações históricas sobre os prédios e sobre a situação atual da instituição e uma ténica da Fundação Zoobotânica falou sobre a flora da mata e dos campos.
    Apesar do sol cada vez mais intenso, a caminhada foi motivo de exclamações entusiastas quanto à riqueza da paisagem e de como o Morro Santa Teresa, atendidas suas necessidades básicas de descentralização da FASE e regularização fundiária e urbanística das vilas, tem exuberante potencial para tornar a área remanescente um parque com características únicas, no coração de Porto Alegre.

  • Cinco mil sanitaristas em Porto alegre

    Mais de cinco mil profissionais do Brasil e do exterior estarão em Porto Alegre para o 26º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, em setembro de 2011.
    A intenção dos organizadores é fazer uma avaliação dos 50 anos de história do saneamento no Brasil e traçar as perspectivas para os próximos 50 anos.
    A presidente da Abes-RS, engenheira Nanci Giugno, destacou a importância do evento para o Rio Grande do Sul, que segundo ela “passará a ocupar um lugar estratégico no desenvolvimento de agendas conjuntas, no que tange ao saneamento, com os países do Cone Sul da América do Sul”.
    (Redação com Assessoria de Imprensa da ABES-RS)

  • HPS: Audiência Pública só em março

    Patricia Marini*
    Ficou para março a audiência pública para discutir a ampliação do Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre.
    O projeto prevê desapropriar seis sobrados na rua José Bonifácio e deu origem até a uma associação, SOS Rua do Brique, de moradores e comerciantes contrários à idéia.
    A associação teve o mérito de trazer a público o projeto que até então era desconhecido da própria Comissão de Saúde, da Câmara de Vereadores.
    Numa audiência promovida pela associação, o projeto foi exposto pelo diretor do hospital, Júlio Ferreira, em novembro.
    “Não haverá mais incêndios se ampliarmos o corpo de bombeiros, não aumentará o número de traumas se ampliarmos o HPS”, comparou Ferreira, tentando acalmar os que temem por uma descaracterização daquele quarteirão na ponta mais freqüentada do Parque da Redenção, com mais trânsito e outros impactos urbanísticos.
    Segundo ele, sem a ampliação da área, a alternativa seria reduzir o número de leitos e atendimentos para adequar as instalações, que estão fora das normas, e criar espaço para novos equipamentos.
    Enquanto isso, a Prefeitura tenta encaixar o projeto de ampliação nos investimentos para a Copa, mas ainda não tem garantias que vai conseguir os R$ 73 milhões necessários para a obra.
    Reforma interna já começou
    Com ou sem ampliação do terreno, a reforma do HPS já começou. A primeira etapa foi a troca da caixa de força, que custou R$ 1,5 milhão. A velha era do tempo da construção do prédio, há 66 anos, quando a tecnologia mais avançada era um simples aparelho de raio-X.
    Agora falta a reforma do térreo e parte do segundo piso, orçada em R$ 8,9 milhões. A concorrência pública para escolher a empresa que fará a obra já está aberta. Nenhum interessado apresentou propostas na primeira rodada, no início de dezembro. O prazo foi ampliado para  10 de janeiro.
    No térreo, a reforma reorganiza o fluxo de pacientes, melhora a área de diagnósticos e a triagem, como exige o Ministério da Saúde.
    Remodela parte do segundo pavimento, para ampliação da UTI pediátrica, e faz pequenas intervenções nos demais andares. “É como trocar os pneus de um carro andando”, diz o engenheiro Álvaro Kniestedt.
    Os recursos vieram do Qualisus1, programa federal para qualificação de hospitais. O projeto acabou ficando mais caro que o orçado inicialmente. A Prefeitura, que deveria entrar com uma contrapartida de 20%, precisou se comprometer com quase a metade, segundo o secretário adjunto da Saúde, Marcelo Bósio.
    O hospital espera a liberação de mais R$ 2 milhões do Qualisus2 para completar a reforma do segundo pavimento: criar mais uma UTI de trauma, aumentar o bloco cirúrgico e a sala de recuperação. A licitação será em 2011.
    “Tem que discutir a política de saúde”
    É consenso que não se pode discutir a questão do hospital, isolada de toda a política de saúde pública da capital.
    Hoje, por exemplo, o HPS faz 900 atendimentos por dia. Esse número diminuiria se a população contasse com atendimento de urgência descentralizado na cidade e um novo hospital de urgências na Zona Sul?
    Ferreira duvida. Ele argumenta que 76% dos pacientes residentes em Porto Alegre (88% do total) vêm da região central da cidade, e 15% da Zona Sul. Na Zona Norte, há o hospital Cristo Redentor.
    É preciso também levar em consideração a diretriz do governo federal, que é pela criação de mais UPAs – Unidades de Pronto-Atendimento.
    Além das quatro que já têm endereço em Porto Alegre, mais quatro UPAs devem ser instaladas em locais a ser definidos.
    Conforme portaria do Ministério da Saúde, elas devem cobrir grupos de 200 a 300 mil habitantes, ter área mínima de 1,3 mil metros quadrados, capacidade para receber até 450 pacientes por dia, uma equipe de seis médicos e 13 a 20 leitos cada.
    Enquanto isso, com uma rede de atendimento básico insatisfatória na cidade, o HPS funciona como um grande posto de saúde.
    Funcionários pedem nomeações
    O secretário adjunto da Saúde, Marcelo Bósio, chegou a dizer que “nem adianta contratar mais funcionários com as instalações físicas atuais do HPS”.
    Não é o que pensam os funcionários. Eles reclamam a nomeação imediata de servidores já aprovados em concurso, para mais de uma centena de cargos vagos.
    Pedem um plano de carreira e a volta dos índices de insalubridade alterados em abril do ano passado.

    *Reportagem publicada no JÁ Bomfim/Moinhos, ed. dezembro.

  • Símbolos da riqueza antiga

    O otimismo dos primeiros folhetos distribuídos à imprensa previa quatro anos para  a conclusão do Projeto Monumenta em Porto Alegre.
    Oito anos depois, em novembro de 2010, a coordenadora dos trabalhos, arquiteta Briane Bicca, evita fazer previsões.
    “Restauração é uma caixinha de surpresa”, diz ela. “Você começa, mas não sabe o que vai encontrar pela frente”.
    O Monumenta, em todo caso, é uma  realidade em Porto Alegre e, mesmo antes de concluído,  pode ser considerado o maior projeto de restauração do patrimônio histórico já feito na cidade.
    Dos oito prédios públicos arrolados no projeto, seis estão prontos, além de 12 edifícios privados.
    No total, serão R$ 22 milhões aplicados na restauração de edifícios e espaços públicos no centro histórico da cidade. Vai a mais de mil o número de pessoas envolvidas no conjunto de projetos.
    Obra retomada
    Os dois prédios que faltam são a Igreja das Dores, na rua da Praia, e a Pinacoteca Municipal Rubem Berta, na Riachuelo.  A obra da igreja esteve interditada por cinco meses, agora foi retomada.
    A restauração da Pinacoteca Municipal é a mais atrasada e um bom exemplo das surpresas que podem surgir. Nos oito meses previstos para a conclusão, a empresa contratada em licitação não conseguiu ir além de 20 por cento da obra.
    O contrato foi rompido, uma nova licitação está aberta. Deve levar mais uns oito meses até escolher a nova empresa, depois mais três meses para assinatura dos papéis e, aí, começar a fazer os 80% da obra que faltam. Ou seja: mais uns dois anos.
    Nos dois espaços públicos que integram o projeto – Praça da Alfândega e Praça da Matriz – a situação é diferente. A obra na Praça da Matriz, que envolve também a rua da Ladeira (General Câmara) não tem previsão. Teve problemas com a licitação, provavelmente vai ficar para outra etapa.
    A obra na Praça da Alfândega é a mais complexa. Além de reconstituir o aspecto da praça dos anos 1940, quando ela se consolidou como um espaço de convivência, como “o passeio da cidade”, a restauração inclui o quarteirão da avenida Sepúlveda, que liga a praça ao porto.
    Outro exemplo das surpresas: quando foi retirada a capa de asfalto da avenida Sepúlveda, verificou-se que os canos que drenam á água da chuva para o rio não existiam mais. Cabe ao Departamento de Esgotos Pluviais decidir sobre a nova canalização.
    O DEP abriu uma licitação para contratar a empresa para fazer a drenagem. Espera-se que no inicio de dezembro seja  escolhida a empresa. Aí, se tudo der certo, tem mais quatro meses da obra.
    Fora os imprevistos, a obra na praça tem particularidades que tornam lento o seu andamento. Por exemplo: o meio fio dos canteiros é de granito róseo. No Rio Grande do Sul, só tem uma jazida de onde o Ibama permite a retirada desse granito. “Tem que entrar na fila para conseguir”, diz a coordenadora.
    A rede elétrica tem que ser toda refeita porque vai duplicar o número de pontos de luz na praça. A restauração das luminárias antigas foi demorada. São mais de 50 luminárias de cinco ou seis modelos diferentes, que já não são mais fabricados.
    A parte mais demorada ainda nem começou. É o calçamento de pedras portuguesas ao redor da praça, a chamada “calçada Copacabana”. As pedras brancas são de mármore, as escuras, granito. Já está contratada uma empresa de Curitiba para o serviço.
    O que mais retardou a obra, no entanto, foi a polêmica em torno das figueiras, que deveriam ser retiradas segundo os autores do projeto.
    Foram mais de quatro anos de discussões e reuniões com todos os órgãos envolvidos – Iphan, Iphae, Secretarias de Planejamento, Meio Ambiente, Obras, EPTC – até convencer a todos da necessidade de retirar as figueiras (ficcus).
    Só para a  Secretaria de Meio Ambiente foram cinco apresentações. “Foi tudo decisão coletiva, temos laudo com dez pessoas assinando”, diz a coordenadora.

    Biblioteca Pública / Elevador
    Biblioteca Pública / Elevador

    Segundo ela, as figueiras ficaram enormes, fechavam um lado da praça, que ficava sempre frio, úmido. Estavam prejudicando os jacarandás que são o símbolo da praça, já tortos, as raízes destruíam os meios-fios. “Quem plantou aquelas árvores ali não levou em conta que elas crescem sem parar”, diz a arquiteta.
    Ela prevê, sempre com alguma reserva, que na próxima Feira do Livro a praça já estará pronta.
    A arquitetura de um Estado rico
    Os prédios selecionados para o Monumenta em Porto Alegre foram todos construídos nas primeiras décadas do século 20, quando era forte a influência positivista, bastante visível na arquitetura dos edifícios públicos.
    Era o governo  Borges de Medeiros ( 1903/1928), num período de alta prosperidade para o Rio Grande do Sul, que ainda rivalizava com São Paulo em poderio econômico.
    Essa prosperidade se refletiu em grandes mudanças na fisionomia da capital, com o surgimento de um conjunto de prédios monumentais que se completou até os anos de 1940 e que ainda hoje dominam a paisagem do centro histórico.
    Pistas para os historiadores
    As primeiras escavações junto à praça, feitas em 2007, encontraram sinais do primeiro ancoradouro, prova de que antes do aterro, a margem do Guaíba vinha até a rua da Praia.
    Havia um trapiche, entre duas escadarias, na posição onde está a avenida Sepúlveda. As escadarias ainda existiam em 1870, quando D. Pedro II veio a Porto Alegre assinar o armistício da Guerra do Paraguai.
    Os arqueólogos encontraram também as fundações da antiga Alfândega. Era um prédio comprido, com um pátio interno e uma fonte. Nas escavações foram também encontrados objetos – moedas, louças, utensílios – que são pistas para reconstituições históricas.
    Café, sorveteria e posto policial
    O projeto da Praça da Alfândega contempla também uma melhoria na parte de serviços ao público.
    Na lateral, junto ao muro da Caixa Econômica Federal será construída uma estrutura para comércio e serviços – café, sorveteria, engraxates, floristas, posto policial e duas bancas de revista, uma em cada extremidade.
    “Vai animar aquele espaço ali, tapando o muro”, diz a coordenadora.
    No fundo, sem aparecer, dois sanitários. Os artesãos também saem da calçada da Sete de Setembro.
    A intenção segundo a arquiteta Briane Bicca, é fazer com que a Praça da Alfândega volte a ser “o passeio da cidade”.
    Um fundo permanente para conservação do patrimônio
    Além dos prédios e espaços públicos, o Monumenta já restaurou 12 prédios privados que constavam do inventário do patrimônio histórico de Porto Alegre.
    De um total de 140 imóveis arrolados pelo patrimônio histórico, 40 foram selecionados e seus proprietários receberam proposta para entrar no projeto Monumenta, com financiamento do governo federal para o restauro.
    Desses, 12 aderiram e os prédios já foram restaurados. A coordenadora do Monumenta em Porto Alegre, acredita que outros dez prédios poderão ser incluídos no projeto.
    Diante dos resultados dos primeiros, muitos proprietários estão aceitando entrar. Dos edifícios privados já restaurados, os mais conhecidos são o Clube do Comércio e a Catedral Anglicana, ambos na rua da Praia.
    Além dos dois foram restaurados dois sobrados na rua da Praia, a “casa cor de rosa” na Riachuelo, uma casa na Demétrio Ribeiro.
    Os proprietários recebem financiamento da Caixa Federal e a coordenadora acalenta o plano de formar com esses recursos um fundo permanente para restauração de imóveis de valor histórico na cidade.
    Financiamento internacional
    O Monumenta é um programa do Ministério da Cultura, para recuperação do patrimônio histórico em 26 cidades brasileiras.
    Reconhecido pela Unesco, conta com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para os projetos e as obras.
    Esses recursos cobrem 70% dos custos, sendo os 30% restantes contrapartida do Estado ou Município, conforme o caso.
    Restaurações já concluídas
    *Pórtico Cais Mauá
    *Biblioteca Pública
    *Museu de Arte do RS (Margs)
    *Memorial do RS
    *Museu da Comunicação Hipólito da Costa
    *Palácio Piratini
    *Mais 12 imóveis privados
    Em  Obras:
    *Igreja das Dores
    *Pinacoteca Municipal
    *Praça da Alfândega
     
    Reportagem publicada no JÀ Bomfim/Moinhos, ed. dezembro.