Matheus Chaparini
Conhecido e frequentado nos últimos anos em função de batalhas de rap ou de poesia falada – os slams – o Viaduto Imperatriz Dona Leopoldina, rebatizado popularmente de Brooklin, ganha agora visibilidade em função de outro conflito bem menos poético.
Um grupo de moradores, incomodados com o som alto nas madrugadas, organizou um abaixo assinado – com cerca de 80 assinaturas – e procurou o Ministério Público, para mediar o conflito. Um inquérito foi aberto no final do ano passado e uma primeira audiência foi realizada em março. Em resposta, outro abaixo assinado foi criado “em defesa do Brooklin”, reunindo assinaturas de frequentadores dos eventos.
A ocupação do viaduto começou através de skatistas que passaram a praticar o esporte no local, então pouco utilizado e com grande incidência de assaltos. De forma autônoma, foram construídas rampas e outros obstáculos transformando o espaço em uma pista de skate frequentada diariamente. Em seguida, o local foi descoberto por produtores e pela boemia da cidade e tornou-se reduto de samba, cumbia, forró, rap, poesia, feiras e afins. E o movimento repercutiu na imprensa.
Ao chegar de viagem em uma terça-feira, o morador e comerciante Rafael Dei Svaldi se deparou com uma matéria do jornal Zero Hora que apresentava dois novos redutos do samba na capital – Brooklin e o viaduto Otávio Rocha, na Borges de Medeiros. Indignado, escreveu um e-mail para o jornal, reclamando que a matéria não ouvia os moradores insatisfeitos nem citava a situação que já havia chegado ao MP. Outra matéria foi publicada, com este enfoque. Desta vez, a reação veio do outro lado e o conflito de vizinhos ganhou uma dimensão bem maior.
Moradores reclamam do abandono do poder público
Rafael mora e trabalha em um imóvel na rua Sarmento Leite desde 1994 e diz não conseguir dormir ou trabalhar às madrugadas em função do barulho. Proprietário da loja Nerdz, ele afirma ter tentado negociar o horário com realizadores de eventos alguma vezes sem sucesso. “Agora não existe mais, de nossa parte, a intenção de negociar”, afirma.
Além do barulho, outras reclamações por parte de moradores dizem respeito à urina em frente aos imóveis e pichações. Até a permissão ou não para estacionar automóveis gera atritos. O viaduto fica no encontro da avenida João Pessoa com a rua Sarmento Leite. Parte da área é rua, ainda que sem trânsito, parte é viaduto e parte é o largo Archimedes Fortini.
Segundo Rafael, ao longo dos anos foram várias as tentativas dos moradores de se fazer melhorias no local. “Nunca esteve abandonado pelos moradores, e sim pela Prefeitura”, afirma. Proprietária do edifício da esquina, onde estão alguns estabelecimentos, como a Bugio Discos e o Espaço Cultural Lechiguana, Ivone Mendina de Morais chegou a propor em 2016 para a então Secretaria do Meio Ambiente a adoção da praça.
Um projeto chegou a ser feito e o custo de manutenção era de aproximadamente dois mil reais mensais. Como contrapartida, ela pedia que a Prefeitura acabasse com as festas na madrugada. “Não temos apoio de órgão nenhum. Tenho interesse em investir no local, mas a contrapartida é só uma foto com o prefeito. Que contrapartida é essa?”
Duelo de abaixo assinados
Um movimento em defesa da realização de eventos no local foi puxado pelo grupo Encruzilhada do Samba, que desde o início do ano realiza suas rodas todas as terças em frente ao Lechiguana. Foi criado um abaixo assinado “em defesa do Brooklin”. Na primeira noite foram coletadas 495 assinaturas. A escolha do local, segundo Diego Silva, integrante do Encruzilhada, deu-se em função de já ser um espaço cultural estabelecido da cidade e pelas características favoráveis. “É amplo, tem uma área coberta, embaixo do viaduto, e não tem muito prédio, então não tem tantas pessoas que possam se sentir incomodadas.”
O bar Lechiguana, que realiza alguns eventos, como a roda de samba da terça-feira, está em contato com a SMIC para regularizar sua situação. Atualmente, a casa funciona com alvará provisório, mas Márcio Andrei, sócio do estabelecimento, garante que o definitivo já está processo junto à secretaria. Ele defende que as atividades realizadas pelo estabelecimento não são as de maior impacto. “Não somos só nós que fazemos eventos aqui, são diversos grupos”, afirma.
Este é outro empecilho ao diálogo entre as partes. São diversos moradores com suas reclamações e, de outro lado, são muitos os grupos que realizam atividades no local. Para tentar reunir estes grupos, uma reunião foi marcada para esta sexta-feira, a partir das 18h, no Largo Zumbi dos Palmares.
“É um espaço cultural que surgiu espontaneamente, porque há uma demanda por isso. Claro que tem que ter organização, criar regras. Precisamos achar maneiras de continuar utilizando o Brooklin em harmonia com as pessoas que moram ali”, conclui Diego Silva.
MP cogita desmembrar inquérito
Em função da grande quantidade de partes envolvidas, o Ministério Público não descarta desmembrar o inquérito. A promotora do Meio Ambiente, Ana Maria Marchesan, explica que a investigação ainda está em fase inicial e que o objetivo é colher a maior quantidade de informações. O inquérito foi instaurado em 30 de janeiro. A promotora definiu a mediação como “complicada, mas possível”. “Como tudo, tem um lado bom e um lado ruim. Tem o lado de revitalizar a área, mas por outro lado tem a perturbação do sossego”.
Para Ana Maria Marchesan, a principal dificuldade é a grande quantidade de partes envolvidas. “Não afasto a possibilidade de vir a desmembrar, tratar em inquéritos separados. Um inquérito tratando só de um bar, outro para determinado tipo de evento, por exemplo”, explica.
Batalha do Brooklin: novo ponto cultural vive conflito entre moradores e frequentadores
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