Bens Confiscados, um drama na praia de Cidreira

Betty Faria e Werner Schünemann em Bens Confiscados (Foto: Divulgação/JÁ)

Naira Hofmeister

Um vento minuano soprou na noite de quarta-feira (30) em plena primavera de Porto Alegre, mas ao invés de afastar, agregou muita gente. Um vento que permeou muitas histórias, de amor, de cumplicidade, e, principalmente de prisões e alforrias. Na parede da sala de cinema, enfileiravam-se os cartazes, anunciando o mais recente longa metragem de Carlos Reichenbach: Bens Confiscados, filmado no outono na praia de Cidreira, no litoral gaúcho. Além da direção, Reichenbach assina também o argumento, roteirização (ao lado de Daniel Chaia) e produção, junto com Betty Faria e Sara Silveira.

Centenas de nativos de Cidreira compareceram à sessão de pré-estréia, no Unibanco Arteplex, em Porto Alegre, para contemplar as belas imagens da praia gaúcha  onde se desenrola a trama principal. Teve até gente sentada nas escadarias, tamanha a lotação do cinema. “Senta no chão mesmo, gente! Só não deixem de prestigiar o cinema brasileiro”, agradecia, empolgada a produtora Sara Silveira.

Bens Confiscados ganhou o prêmio de Melhor Filme de Ficção, no Cine PE – Festival do Audiovisual. O filme começa com o suicídio da renomada estilista Isabela Siqueira, testemunhado por seu filho de 16 anos, Luís Roberto. Isabela foi amante do senador Américo Baldani, que é pai de Luís. Seu gesto foi conseqüência da relação complicada com Américo, que mal conhece o filho, e das denúncias de tráfico de influência e corrupção feitas por Valquíria Baldani, esposa do senador, contra o marido. O escândalo vira assunto em toda a mídia. Paulo Hermes, assessor e braço direito do senador, leva Luís à força para o sul, para escondê-lo da imprensa e dos adversários políticos do senador, e sobretudo concretizar o sonho do senador, que é recuperar seu único filho varão, a despeito do ódio que este sente por ele.

A sinopse do filme leva o espectador a imaginar uma história de poder e corrupção, mas a narrativa de Reichenbach traz elementos para muito além do Planalto Central do País e seu cotidiano. Todo o óbvio ficou de fora, Reichenbach levou para a tela, o obtuso, ou como ele mesmo classifica: “O filme não tem nada a ver com poder… mostra a situação do País visto da porta da cozinha”.

A partir da personagem Serena (Betty Faria), o diretor traça um paralelo entre a política e a relação que ela pode ter na vida privada. Serena, enfermeira-chefe de um hospital público no Rio de Janeiro, é convencida por Paulo Hermes a ir para o Sul. Ela também foi amante do senador, numa relação nunca formalmente encerrada. Serena chega ao sul, e é levada até a cidade litorânea de Cidreira.

Serena e Luis, em cenas outonais, acabam participando de realidades distintas das suas próprias, numa busca pelo encontro com seu destino. Uma bela historia de uma mulher independente, mas menos auto-suficente do que imagina. De um garoto que não teve possibilidade de escolher, se vendo obrigado a aceitar – não sem peleia – a vida que se impunha a ele. Um ambiente poético, digno de dramas existenciais, com atuações acima da média e bela fotografia.

No elenco, além de Betty Faria, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Eduardo Dusek, Renan Augusto e Marina Person. Música de Ivan Lins.

Vale a dica do elenco:  venham ao cinema, de preferência nas primeiras semanas. “Cinema brasileiro, se não emplaca um público mínimo, logo sai da programação”, lembraram. A pré-estreia foi uma homenagem ao amigo “mitológico” de Reichenbach: Bira Valdez.

Para Reichenbach, cinema tem que refletir a realidade (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

O cinema social de Reichenbach

O premiado realizador gaúcho Carlos Reichenbach,  com 21 filmes realizados, é tido com um dos poucos diretores autorais no Brasil. Faz cinema desde os anos 60, vivendo períodos bastante distintos da produção audiovisual nacional. Underground, Cinema Novo, Chanchada… Reichenbach transitou em muitas escolas e estilos. Em 1985 lança Filme Demência, que o consagra.

Olhando o cinema brasileiro sob a perspectiva de quem sempre esteve à margem do mercado cultural, mas nunca perdeu seu espaço, Reichenbach fala com conhecimento de causa sobre a sétima arte: “Tem que parar com esse negócio de glamourizar o cinema. Não é um bom negócio, definitivamente”. Ele condena a oscarização do cinema nacional, a indústria da bilheteria e a imitação de novelas à que a produção brasileira têm se rendido ultimamente.

“Esse cinema de novela das oito, não é cinema. É um arremedo. A gente tem um compromisso muito maior com certas coisas. Temos que fazer um tipo de cinema que reflita a realidade que estamos vivendo”, acredita. E exemplifica com um recente sucesso brasileiro nas telonas: “Estamos vendendo uma ilusão, pois cinema hoje é um mau negócio, é um péssimo negócio. Não dá… não se paga na bilheteria. Pode fazer 10 milhões de reais, como Carandiru, que não se pagou até hoje, nem vai se pagar”.

O cinema comercial, segundo o diretor, feito para ganhar Oscar, tende a ser esquecido. “Cinema que faz história, permanece”. É essa via alternativa, de cunho social e realista, que aposta na linguagem, que ele acredita ser a direção a tomar. “Tem que entender que só há uma forma de resistir a isso, fazendo cultura de ponta. Tem que ter uma função social”, reflete.

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