A cadela Serena, da raça dog alemão. Juan Maiz. Róber. Nazareth. Rô. Lu. Estes seis seres formam o mais novo e polêmico grupo de ativistas da cidade – a turma desafia o senso comum e parece querer eliminar a diferença entre homens e bichos. Se não é tanto, é quase: eles admitem pequenas diferenças, tais como humanos não têm o faro de animais, não vemos como os linces, nem voamos com as águias.
Eles formam o GAE, sigla para Grupo pela Abolição do Especismo – situação que ocorre quando uma espécie (no caso, os humanos) escravizam, maltratam e/ou se alimentam de outras (cães, gatos, bois, tartarugas).
“Somos pela libertação dos animais”, diz Maria Nazareth Agra Hassen, professora de Filosofia e Antropologia da UniRitter – a mais experiente das militantes da organização.
Os gaesistas ficaram conhecidos com seus protestos na Expointer – de todos os locais, escolherem logo a Daslú das carnes. No último Natal, atacaram o pinheirinho da Prefeitura, no Gasômetro, para sapecar nele uma penca de bichos de pelúcia, representando animais sacrificados, torturados e mortos por humanos.
No site www.sitiodosbichos.com.br está um texto que representa com fidelidade canina o que são os bichos pros gaesitas – e como eles querem que o resto da humanidade os vejam:
Bicho não tem que ser útil. Bicho não tem que guardar a casa, distrair as crianças, fazer companhia, guiar cegos, participar de concursos, servir de montaria, carregar cargas, espantar outros bichos, dar leite, botar ovo, dar a carne, servir de cobaia, dar o couro, ser bonito ou participar de corrida. Bicho tem direito de ser só bicho. Bicho tem direito de não nos dar a mínima, inclusive.
Numa frase deles: “O animal é moralmente relevante”.
Tanto respeito e liberdade para os animais tem como principal ideólogo o professor australiano Peter Singer. No mesmo nível está o cientista americano Richard Ryder, o primeiro a usar a palavra especismo, nos anos 70 – em inglês, Especism.
A briga de gente por bichos é recente no Rio Grande do Sul, mas está mais adiantada no mundo todo. Não tem muito espaço na mídia local porque a indústria de alimentos é top anunciante e a maior exploradora de animais – logo, redes de TV e jornais não gostam de cutucar a onça com vara curta.
E são exatamente as indústrias alimentícias os principais alvos dos gaesistas. “Eu parei de comer carne quando vi um filme mostrando como funciona a engorda e matança de animais”, diz a estudante de Medicina Rosana Rubenich, 22 aninhos, desde os 17 uma vegana. O filme foi “A carne é fraca”, produção que está pro cinema antiespecista assim como Garganta Profunda está pros filmes pornôs.
Em sua última campanha, os gaesistas estão tentando impedir um show de rodeios chilenos que quer se apresentar em Porto Alegre, na 15ª Exposição da Federação Internacional de Cavalos Crioulos.
Entrevistamos a cúpula do GAE na redação do JÁ. A turma posa com a cadela Serena, ela confortavelmente escarrapachada no sofá, eles sentados no chão, obedientes.
Seu porta-voz é um professor de 26 anos chamado Juan Maiz Flores da Cunha, aparentado com o grande general dos anos 30. O nome em espanhol foi uma viagem da mãe, e se traduz como João Milho – ideal prum vegano.
O cabeludo é Róber Bachinski, uma celebridade antiespecista. Estuda Biologia na UFRGS e levou a Faculdade à Justiça para impedir o uso de animais em aulas práticas. Ganhou em primeira instância, arrumando um problemão pros professores.
A União recorreu para continuar judiando de bichinhos e o caso vai serpentear pelo Judiciário por muitos anos – quem tem memória de elefante que tente acompanhar.
A última integrante da turma é Lu, mais conhecida como Tiane. Nutricionista, resgatou Serena de um circo, onde era maltratada e estava subnutrida. Elevou o animal a um patamar mais alto: “É minha irmã”. Elas vivem felizes numa família que tem ainda a mãe de Lu e mais 36 irmãos animais, cães e gatos de rua.
Mais: você deve ter notado que além de antiespecistas, eles são todos veganos. Explicando melhor: vegano é o ponto mais alto de um ser vegetariano. É quem não só não come nada de origem animal, como não veste nada que tenha couro. Nem sandálias, nem pulseira de relógio.
Um rápido exame nas roupas e pertences da turma constatou pastas de plástico, mochilas sintéticas, melissinha nos pés. Sabe-se que o radicalismo deles vai a ponto de jamais consumirem produtos que sejam testados em animais.
Os veganos antiespecistas se dizem pacifistas. Não brigam com ninguém, mas demonstram um grande desprezo pelos especistas – palavra pra eles na categoria de machista e racista.
Último lembrete. Depois de ler esta reportagem quase-manifesto, reflita um pouco: você é um especista? Se não, e se quiser se juntar a eles, acesse www.gaepoa.org


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