Boemia X Sossego: rotinas em conflito na Cidade Baixa

Matheus Chaparini
É sexta-feira na Cidade Baixa, o Guilherme chegou cedo para trabalhar, é dia de movimento no bar. É sexta-feira na Cidade Baixa, a Roberta chegou cansada da semana de trabalho, quer sossegar. É sexta-feira na Cidade Baixa, a Iaiá trabalhou doze horas atendendo telefone, quer dar um rolê com a gurizada e tomar um drink.
A Cidade Baixa lida com o conflito constante de ser um bairro diurno e noturno, residencial e boêmio. É uma relação histórica daquele pedaço de Porto Alegre.  De tempos em tempos, esta relação beira o insustentável e gera transtornos para todas as partes.
Desde março, a Prefeitura de Porto Alegre lançou mais uma edição da Operação Sossego, movida pelas reclamações constantes de moradores do bairro. Durante o mês de abril, a operação fechou nove bares na Cidade Baixa, seis deles na rua João Alfredo.
O foco é a João Alfredo, rua que vem atraindo mais gente e novos bares de dois ou três anos para cá.  Três estabelecimentos eram os principais alvos das reclamações dos moradores: o mini mercado Vertente, a loja de conveniências Tamanduá e a Toca, uma janela através da qual se adquiria três latões ao incrível preço de 10 reais. Em comum: a cerveja barata para ser consumida na calçada. Os três permaneciam fechados até o fechamento desta reportagem.
As principais reclamações dos moradores são relativas ao barulho até tarde da madrugada, cheiro de urina nas calçadas e à dificuldade de circulação pela quantidade de gente.
A operação não é exatamente uma novidade. Em 2011, por exemplo, outra edição da Sossego fechou 23 bares, devastando a noite da Cidade Baixa e “higienizando” a região. Processos como este também não são de hoje. Na virada dos 80 pros 90, o Bom Fim passou por um processo semelhante.
Os diretor do Departamento de Indústria e Comércio, Fernando Coronel, afirma que não é intenção da atual gestão municipal tirar a boemia dali e levar para outra região. Ele conta que participou de reuniões com moradores e comerciantes e que o objetivo é harmonizar.
“Sabemos que tem um polo empreendedor, tem gente trabalhando, gerando emprego e tem a parte das pessoas que querem sossego. Com conversa e planejamento é possível conviver em harmonia”, afirmou.
Regularização é quase impossível

Guilherme Carlin, do Espaço Cultural 512: “É impossível abrir uma casa noturna sem estar irregular.”

O espaço cultural 512 foi uma das casas que recebeu a visita da fiscalização. No dia 25 de março, o estabelecimento foi notificado por funcionar em desacordo com o alvará. O 512 possui alvará de bar e restaurante, como a maioria das casas noturnas do bairro.
No dia 4 de abril, a casa foi interditada. Porém, o auto de infração possuía uma informação incorreta, o que acabou embasando a defesa do comerciante. O auto foi feito à 1h57. De fato, àquela hora o 512 não poderia estar tocando música. Porém, o decreto 17902 de agosto de 2012 permite que os bares da Cidade Baixa funcionem até as 2h às sextas, sábados e vésperas de feriado e até a 1h nos demais dias. Para Guilherme, o desafio agora é criar no público o hábito de chegar mais cedo.
A principal reclamação de Guilherme e do vários outros comerciantes é a morosidade para se regularizar. Desde 2015, ele espera por uma visita do Corpo de Bombeiros para dar andamento ao PPCI (Plano de Prevenção e proteção contra Incêndio) e, consequentemente, ao alvará de casa noturna. “É impossível abrir uma casa noturna sem estar irregular. A fila é de mais de dois anos, enquanto isso o aluguel está correndo”, explica, justificando a opção dos comerciantes por uma solução provisória de funcionamento.
Bairro misto, mas não lixeira
Roberta Rosito Correa, da Associação dos Amigos da Cidade Baixa: o problema é a boemia de calçada.

Roberta Rosito Correa mora há doze anos na frente do bar Opinião, na rua José do Patrocínio. Ela diz que seu problema maior não é com a casa, que recebe grande espetáculo à noite, mas com a boemia de calçada. “Eu gosto de morar aqui. Eu só me irrito com o xixi e o vômito todos os dias na minha porta”, afirma.
Roberta representa a Associação dos Amigos das Cidade Baixa, um dos pelo menos quatro grupos que representam os moradores do bairro. Ela defende o diálogo entre moradores e proprietários de bar. “70% são moradores do bairro. É possível buscar um entendimento”
Para Roberta, o público da rua promove uma degradação do bairro. A noite acaba e fica o lixo, a pichação, o cheiro de mijo. “A gente sabe que mora num bairro misto, só não queremos que ele seja a lixeira da cidade. Se as pessoas ficassem dentro dos bares e os bares tivessem isolamento acústico e respeitassem os horários, daria para conviver em harmonia.”
Roberta reconhece que é uma situação complexa, pois não há como impedir que as pessoas fiquem na via pública, mas pondera: “Droga rolando na calçada, bebida vendida para menores, carro com som alto, para tudo isso tem legislação.”
A rua como única opção de lazer noturno
Iaiá Moraes, frequentadora da João Alfredo: “Quando a pessoa escolhe morar na Cidade Baixa, sabe que tem barulho.”

Para muitos jovens, sobretudo os de menor poder aquisitivo, a opção disponível para o lazer noturno é beber cerveja barata com os amigos na calçada. Ou, ao invés da bebida à base de cevada e outro cereais não maltados, o tradicional kit: uma garrafa de vodka, outra de energético, gelo a gosto.
Iaiá Moraes é uma destas jovens. Frequenta a Cidade Baixa há pelo menos quatro anos. Diz que prefere beber na calçada em função do preço das bebidas nas casas noturnas.
Para ela, a razão que faz da João Alfredo o ponto de concentração é a lógica de que todo mundo quer ir aonde está o movimento, ou seja, quanto mais gente, mais gente. Há alguns meses, Iaiá e seus amigos costumavam abrir os trabalhos no João Alfredo e depois migrar para a esquina do Opinião. Depois de diversas reclamações de moradores e abordagens da polícia, preferem ficar a noite toda na João. “Aqui já tem as filas das casas noturnas na calçada, então mistura tudo.”
A jovem reconhece o transtorno causado pela agitação noturna, mas considera que não é novidade para os moradores. “Quando a pessoa escolhe morar na Cidade Baixa, sabe que tem barulho. Eu moro na Santana por isso: sossego.”
Amanhece, cantam os canários
Luis Felippe, morador e comerciante: “É uma mocidade muito mal educada.”

Amanhece na João Alfredo e o que se ouve é o ruído dos carros e o canto de oito canários belgas da Ferragem Felippe.  Seu Felippe é das antigas. Conhece a Cidade Baixa desde que conhece o mundo. Nasceu na região da Ilhota, onde hoje fica o Ginásio Tesourinha, no final da década de 1920.
Há 49 anos mantém a ferragem na antiga Rua da Margem. A lembrança que traz daquele tempo é de uma região residencial, de classe média baixa, quase sem prédios, só casas, uma farmácia, uma lojinha e um armazém. E o bonde Menino Deus, que passava por ali.
Felippe estima que a atividade noturna tenha intensificado na João Alfredo nos últimos dez anos. Abre a ferragem às 7h15, fecha às 18h. Da noite, vê apenas os resquícios. “Me mijam na porta todos os dias. É uma mocidade muito mal educada”, critica.

Comentários

Deixe uma resposta