Cachorrada, das grandes


A banda, nas ruas do Bom Fim, com vontade de ganhar o mundo, mas sem perder sua característica
(Fotos: Àrfio Mazzei/JÁ)

Naira Hofmeister

Que o Bom Fim sempre foi sinônimo de boêmia, e, portanto, símbolo da inovação artística porto-alegrense, todo mundo sabe. A novidade é que agora o bairro “exporta” talentos aqui constituídos, rumo ao mercado pop nacional. É o caso da banda Cachorro Grande, formada nos bares, que agora invade as rádios com o som que conserva características do underground que os formou.

Liderados pelo vocalista Beto Bruno, os cinco rapazes moram em São Paulo desde o final de 2004, para manterem-se mais próximos da gravadora (Deck Discos, a mesma da baiana Pitty) e no centro da indústria fonográfica nacional.

A agenda lotada de shows foi conquistada com muito suor, dizem eles: “A gente nunca fez outra coisa, lutamos para sobreviver disso”, conta Beto.  Nos bares, a motivação para tocar: “Ali encontrávamos a galera, sempre ficávamos falando e fazendo música”, lembra o guitarrista Marcelo Gross.

Mas a intenção nunca foi se restringir ao mercado underground local e essa é a sua principal crítica: “As bandas da época não tinham essa visão, tocavam por bebida, sem equipamento adequado, fazendo a própria divulgação. Assim, acabavam desvalorizando toda a classe musical”, afirma Beto.

Talvez tenha sido esse o segredo. Os guris da Cachorro Grande contam que um belo dia, resolveram exigir respeito ao trabalho deles: “Passamos um ano tocando no underground de Porto Alegre, vendo tudo isso, e ficávamos com muita raiva”.

Com vontade de ganhar o mundo, mas sem perder a característica sonora que lhes agrada. O primeiro CD foi independente, e vendeu. A gaúcha Orbeat Music, que empresaria bandas famosas do sul chegou a oferecer contrato. “Mas na pré-produção do CD, eles vieram dizer que nossas músicas eram pouco radiofônicas, então, recusamos a proposta”. A atitude lhes rendeu prestígio ainda maior entre os fãs, que não deixam a banda “se render” às exigências mercadológicas: “Nunca fizemos concessão, continuamos sendo os chinelões do início”, brinca Pedro Pelotas, o tecladista.

Mesmo assim, depois de cinco anos na estrada, o sucesso nacional veio com o Acústico MTV Bandas Gaúchas, que reuniu outros três expoentes do Rio Grande do Sul – Vander Vildner, Bidê ou Balde e Comunidade Nin Jitsu. Bandas gaúchas, não bandas de Rock Gaúcho:“O rock é universal, e essa história do movimento gaúcho acaba colocando tudo no mesmo saco… não dá pra misturar Replicantes com TNT”.

Para além das convicções, a personalidade da banda está explícita nas roupas, inspiradas nos anos 60. Na entrevista, em pleno janeiro de trinta graus, eles usavam calças pretas e botinas. E por baixo das jaquetas, influências de bandas que participaram da gênese do movimento roqueiro mundial: The Beatles, Kinks e Rolling Stones, que os inspiram até hoje: “Queremos ser como eles, tocar pro resto da vida”, diz o baixista Rodolfo Krieguer, que entrou para trupe há menos de um ano. É claro que eles estão de mala (e cuia) pronta para o show de Buenos Aires, que acontece nos dias 23 e 24 de fevereiro.

Antes, porém farão seu primeiro show “internacional”: Tocam em Passo de Los Libres, “a parte Argentina de Foz do Iguaçu”, brincam. Mas o que eles querem mesmo, segundo o baterista Gabriel Azambuja, é “voltar para a Cantareira”, frase eternizada pelo Mutante Arnaldo Baptista.

O Bom Fim não é mais o mesmo

Crias de um movimento experimental onde o convívio e a troca de experiências era essencial, os rapazes afiam a língua para dizer que o bairro já não supre necessidades artísticas.

“Antes era mais cultural. Tomar uma ceva no João, depois pegar um cinema no Baltimore. Agora vive uma decadência”, lembra Marcelo. Beto vai mais longe: “O Bom Fim foi podado pela Associação, acabaram os lugares clássicos, que agora estão na Cidade Baixa”.

Eles sentem possessão no bairro: “Tem gente que nunca foi nossa amiga e hoje acha que é nosso dono”, critica Beto. A afirmação se refere à adoção de São Paulo como base da banda, e da agenda, que inclui outros estados nos shows.

A Cachorro Grande promete nunca esquecer as  cidades do sul. “O interior do estado tem ótimas casas de shows”, diz Marcelo. Em Porto Alegre, eles tocam em março no Opinião, por exemplo.
Mas o Bom Fim, apesar de não ser mais o centro da contra-cultura continua vivo na memória dos cinco guris. “Ainda vamos convidar o Lobão para tomar uma cerveja na ‘Lancheria’ com a gente.”

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