
Padilha entregou cópia de projeto para ambulantes cegos ao vereador Elói Guimarães (Foto: Elson Sempé)
Guilherme Kolling
A prefeitura quer entregar em outubro o projeto de lei dos centros populares de compras para varrer os camelôs das ruas do Centro. Angustiados com a mudança iminente, um grupo de ambulantes cegos fez um apelo na tribuna da Câmara Municipal, na tarde desta segunda-feira 26 de setembro.
Com o respaldo da Associação dos Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs) e da Associação de Cegos Louis Braille, eles pediram para permanecer na esquina da rua Marechal Floriano com José Montaury, ponto em que afirmam estar há 40 anos.
O grupo inclui hoje 44 vendedores de bijuterias, todos trabalhando com auxiliar. Mais de 20 ocuparam as galerias do plenário. Eles garantem que não atrapalham o trânsito, nem pedestres e vitrines de lojas do local. Também argumentam que a maioria responde pelo sustento da família.
Alcides de Souza Padilha é um dos que trabalha há mais tempo vendendo bolsas, pastas e mochilas. Ele apresentou aos vereadores um projeto para colocação das 44 barracas em uma estrutura metálica, coberta por lona. E entregou uma cópia ao presidente da Câmara, Elói Guimarães (PTB). Pretende fazer o mesmo com o prefeito José Fogaça.
A idéia do trabalho, feito por um arquiteto, é criar uma unidade entre os camelôs, colocando-os em 11 grupos de 4 bancas, além de oferecer ao público um balcão de informações e uma linha telefônica para atender pedidos. “Nós vamos pagar tudo do nosso bolso, através de financiamento da Porto Sol”, projeta Cassiano Machado Santos, 62 anos, 38 na profissão.
Outra liderança do grupo é Francisco de Assis Navas, 67, que vende bijuterias desde 1964. Ele diz que as negociações com a Secretaria da Indústria e Comércio (Smic) estão lentas. “A Smic está nos levando em banho-maria. Estamos tentando uma audiência com o Fogaça há meses”, conta.
Navas explica que o camelódromo vertical não é viável, pelo menos para os deficientes visuais. “Cego subindo escada é um horror. E também não concordamos que joguem os vendedores ambulantes nesses prédios antiquados, sem elevador. Quem vai subir escada até o 4º andar para comprar alguma coisa?”, questiona.
Para ele, os edifícios deveriam ter no máximo dois andares. A posição também é defendida pelo ex-secretário da Smic, hoje vereador Adeli Sell (PT). “Está provado em vários lugares que com até dois pisos funciona. Vou insistir que o Fogaça não volte atrás na idéia dos shoppings populares, que pare com essa história de camelódromo aéreo. Tem muito prédio devoluto no Centro que pode ser ocupado”, propõe.
Os ambulantes cegos também criticam a idéia da plataforma aérea para 1,2 mil camelôs, já que não acreditam num movimento de 500 mil pessoas por dia no local, público necessário para dar vazão aos produtos desse número de vendedores.
Representantes das bancadas da Câmara se manifestaram a favor do grupo que ocupou a tribuna, defendendo uma solução para o assunto. Mas Adeli, que não se pronunciou por ter chegado atrasado, está em cima do muro, diz que a questão dos camelôs cegos deve ser analisada, para encontrar um local adequado para o grupo.
“Tem ainda o problema de legislação, já que eles podem passar o espaço para filhos. E existem cegos e cegos. Essa história de auxiliar não vale para todos, alguns terceirizam a banca. É preciso fiscalizar”.

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