Cancro da macieira causa prejuízos nos pomares de toda a região Sul do Brasil

Geraldo Hasse
Os secretários da Agricultura dos três estados do Sul, que concentram a quase totalidade da produção brasileira de maçã (1 milhão de toneladas por ano), formalizaram na terça-feira passada (13) a criação de um comitê de prevenção a doenças das pomáceas. No encontro de autoridades e técnicos em São Joaquim (SC), o assunto principal era o cancro europeu, doença fúngica que ataca as partes lenhosas das macieiras.
As notícias são preocupantes. Em Santa Catarina, os técnicos estimam que o cancro esteja presente em 6,5% dos pomares existentes em pouco mais de 3 mil  pequenas propriedades. No Rio Grande do Sul, onde a maçã é produzida principalmente em grandes propriedades, não há estatísticas mas, segundo Silvio Meirelles, da Embrapa de Vacaria, a doença está mais disseminada do que em Santa Catarina, porém causaria menos preocupação, pelo menos da boca para fora. “Por aqui se diz que, se a maçã se tornar inviável para os produtores gaúchos, eles podem passar sem problemas para o plantio de soja, pois a topografia é mais favorável”, diz Meirelles.
Em Santa Catarina, onde a maçã encontrou um bom habitat em pequenas propriedades de topografia acidentada, não há alternativas imediatas fora da fruticultura. Daí a preocupação dos técnicos catarinenses em encontrar saídas por meio do equilíbrio sanitário dos pomares, antes que a erradicação das plantas doentes acabe inviabilizando a atividade.
A maçã brasileira alcançou dimensão comercial a partir de 1970. O cancro foi detectado em 2002 num viveiro de mudas de Vacaria. Por ordem do Ministério da Agricultura, foram incineradas as 500 mil mudas de macieiras (de origem européia, daí o nome da doença) estocadas no viveiro.
Apesar dos cuidados, o fungo sobreviveu e foi detectado novamente em 2012, quando se formou um grupo de trabalho que reúne especialistas dos órgãos técnicos dos três estados do Sul e do Ministério da Agricultura. A doença não chega a atingir os consumidores, mas afeta principalmente o bolso dos produtores.
O combate ao cancro europeu é caro: deve-se fazer o corte das partes afetadas e a incineração posterior de todo o material cortado. Segundo Moisés de Albuquerque, diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Maçã, os produtores gaúchos estão gastando R$ 2 mil por hectare na erradicação do cancro. “Isso não é pouco”, diz ele, lembrando que a união técnica dos três estados sulinos é um dado novo na história da maçã, que ocupa 34 mil hectares e gera negócios de R$ 6 bilhões por ano.
1001 predadores
A fruticultura atrai toda espécie de predador, desde fungos, vírus, bactérias, insetos e pássaros até diversos parasitas situados ao longo da cadeia produtiva. Uva, banana, figo, manga: toda fruta é alvo, mas nenhuma supera a história da laranja no século XX. Após progredir nos anos, no vácuo da crise do café, a citricultura sofreu um surto devastador de “tristeza” (vírus) nos anos 1940 e um ataque violento do cancro cítrico (bactéria) a partir de 1957, obrigando os produtores a erradicar/incinerar os pomares afetados. Mas já nos anos 1980 a citricultura paulista estava de pé outra vez, tanto que se tornou campeã mundial na produção e exportação de sucos concentrados.  A produção de cítricos ocupa 700 mil hectares no Brasil (25 mil ha no RS).

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