Casas da Luciana: IAB condena "critérios antiquados" que levaram à demolição

O departamento gaúcho do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) lançou uma carta à sociedade na qual lamenta a demolição das casas da Luciana de Abreu, ocorrida no dia 23 de dezembro: “Não seria necessário ser morador do Moinhos de Vento para defendê-las ou para desenvolver esta consciência, bastaria ser porto-alegrense e amar a sua cidade, afinal a perda é de toda a cidade que aos poucos apaga e nega sua memória”.
O texto condena a adoção de “critérios antiquados” para a preservação, que foi recomendada, inclusive pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Estadual (Iphae).
Para os arquitetos do IAB-RS seria necessário atualizar a legislação que dá salvaguarda a bens imóveis da cidade, incluindo entre os fatores a serem considerados questões sociais, históricas, tradicionais – e não exclusivamente a autoria de um projeto arquitetônico.
As casas da Luciana de Abreu foram objeto de intensa mobilização dos moradores do bairro Moinhos de Vento, que ao longo de 14 anos organizaram eventos para preservar o conjunto, que era remanescente da década de 30. Elas foram compradas pela construtora Goldzstein em 2002 para que no local fosse erguido um espigão de 16 andares – o que efetivamente será feito, segundo a empreiteira.

Casario serviu de moradia para os mestres cervejeiros da Bopp, na década de 30 | Tânia Meinerz
Casario foi morada dos mestres cervejeiros da Bopp, na década de 30 | Tânia Meinerz

O Ministério Público do Estado comprou a briga ingressou com uma ação na Justiça. Nos últimos anos, um dos argumentos mais repetidos pelos defensores da manutenção do casario, era que seu autor seria o famoso arquiteto Theodor Wiederspahn, responsável pelos projetos do Margs, Casa de Cultura Mario Quintana e Cervejaria Bopp, depois Continental (hoje Shopping Total).
De fato, as casas foram feitas para servirem de moradia aos mestres cervejeiros da Bopp. O biógrafo de Wiedesrpahh, Günter Weimer, defende que o alemão efetivamente participou do projeto, porém, a Justiça entendeu que não e com isso, autorizou a demolição.
O IAB-RS chama atenção para o fato de o sentimento dos habitantes do bairro ter sido desconsiderado pela Justiça e pela construtora. “Este lamentável episódio reforça a importância do debate e reinvindicação pela preservação, e da atualização da legislação vigente de proteção ao patrimônio cultural, a fim, de reconhecer tanto importância do espaço urbano onde estão inseridos os conjuntos quanto do senso afetivo para a memória e o imaginário das pessoas”.
Leia a íntegra da carta:
EM TEMPOS DE PERDAS LASTIMÁVEIS, SE VÃO TAMBÉM AS CASAS DA LUCIANA
As casas da Rua Luciana de Abreu, tradicional via do bairro Moinhos de Vento, resistiram 14 anos entre medidas judiciais e manifestações da sociedade civil que, organizada, lutou pela preservação do conjunto tradicional na paisagem do bairro. A pergunta que se fez é: por que preserva-las?
Bem, estas casas, outrora recorrentes no bairro Moinhos de Vento, foram produto e testemunho da Porto Alegre dos anos 1930. A despeito dos inúmeros argumentos que apontavam critérios e técnicas atuais para valoração do casario demolido, venceu a causa a favor da demolição, cujos relatórios e pesquisas baseados em critérios antiquados e restritos à excepcionalidade das edificações, sobrepujaram inclusive pareceres como o do Instituto do Patrimônio Artístico Histórico Estadual que recomendava a salvaguarda do conjunto.
Já bem se sabe que patrimônio histórico de interesse cultural, não se valora e ou define apenas por simples requisitos e critérios fixos, pois a salvaguarda é complexa e a valoração de um bem é consideravelmente específica, mas abrange a análise de fatores sociais, históricos, tradicionais e regionais que caracterizam e configuram a cultura da cidade.
A autoria de projeto não é critério definitivo para a salvaguarda de um bem ou para mensurar o valor cultural de uma edificação. Além de Theodor Wiederspahn – a quem se aventava a autoria do projeto das casas – uma geração de imigrantes profissionais talentosos produziu boa parte da arquitetura de destaque na cidade que hoje conhecemos. No conjunto da Luciana, por exemplo, havia uma casa de autoria do arquiteto Egon Weindorfer, quem atuou em diversas edificações de expressão na cidade, fato que foi desprezado. O conjunto tinha forte relação histórica com a cervejaria Continental, conjunto tombado onde hoje há um centro comercial. Tais fatores são relevantes para a preservação das casas que eram testemunho da ambiência urbana dos bairros adjacentes ao centro histórico, desenvolvidos a partir da atividade industrial do início do século XX, caracterizando uma época. Não seria necessário ser morador do Moinhos de Vento para defendê-las ou para desenvolver esta consciência, bastaria ser porto-alegrense e amar a sua cidade, afinal a perda é de toda a cidade que aos poucos apaga e nega sua memória.
Este lamentável episódio reforça a importância do debate e reinvindicação pela preservação, e da atualização da legislação vigente de proteção ao patrimônio cultural, a fim, de reconhecer tanto importância do espaço urbano onde estão inseridos os conjuntos quanto do senso afetivo para a memória e o imaginário das pessoas.
Poder público, sociedade e mercado devem desenvolver outra consciência sobre a importância do patrimônio cultural para o desenvolvimento social e econômico. A cultura e o turismo estão entre os setores econômicos que mais crescem no mundo. Tanto a preservação dos aspectos históricos das cidades, quanto a produção de uma nova arquitetura com qualidade devem ser um compromisso de todos. Afinal, que história queremos que nossa cidade conte às novas gerações?
Porto Alegre, 24 de dezembro de 2016.
Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento RS – IAB RS

Comentários

Uma resposta para “Casas da Luciana: IAB condena "critérios antiquados" que levaram à demolição”

  1. Avatar de Serginho Da Bronze
    Serginho Da Bronze

    Money talks…

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