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  • Eucalipto é realidade no pampa, mas falta informação

    A pesquisa envolveu alunos dos cursos de Engenharia Florestal, Ciências Biológicas, Gestão Ambiental e Biotecnologia, da Universidade Federal do Pampa, Campus de São Gabriel – região onde se implantaram nos últimos anos grandes plantios comerciais de Eucalipto para produção de celulose.
    Foi aplicada pelo professor de engenharia florestal Ítalo Filippi em turmas de primeiro ano, com ingresso em 2009.
    A principal conclusão: o nível de informação sobre o assunto é muito baixo, mesmo entre estudantes que se voltam para áreas que se relacionam diretamente com ele.
    Mais da metade dos entrevistados disse que se informa sobre o assunto “com os amigos”, outra metade citou a televisão como fonte de informação.
    A maioria (51,40%) se situa entre total e parcialmente a favor; 26,86% entre parcial e totalmente contra e 21,74% indiferentes
    Nas expressões usadas para justificar posições contra ou a favor predominam os chavões, que são repetidos sem entendimento.
    A pesquisa é parcial e, segundo o próprio autor, um indicativo apenas de uma situação preocupante. Vale a pena ler o artigo que o autor da pesquisa publicou:
    Plantio comercial de Eucalyptus spp na região
    do pampa: posicionamento de estudantes

    Italo Filippi Teixeira | Engenheiro Florestal | Universidade Federal do Pampa – Campus São Gabriel
    A Metade Sul do Rio Grande do Sul tem experimentado uma transformação da sua matriz produtiva nesta primeira década do século XXI.
    Esse fato foi gerado a partir dos investimentos de três grandes empresas nessa região como parte de uma visão global da base florestal sobre o cultivo do Eucalyptus spp na América do Sul.
    Isso tem gerado discussões “acaloradas” sobre essa espécie, motivada por vários aspectos, em que a questão técnica é sobrepujada muitas vezes por “chavões” ou lugares-comuns.
    Dessa forma, há um impedimento de maior aprofundamento, deixando a opinião pública com falsos esclarecimentos sobre esta fase que está passando a Metade Sul do Rio Grande do Sul e o próprio cultivo dessa espécie no Bioma Pampa, assim como a sua interferência.
    Diante desse fato, foi realizada uma pesquisa de opinião com cinco questões abrangentes sobre a posição dos alunos dos cursos de Engenharia Florestal, Ciências Biológicas (bacharelado e licenciatura), Gestão Ambiental e Biotecnologia, ingressantes no ano de 2009 na Universidade Federal do Pampa, Campus de São Gabriel, em relação aos plantios comerciais de Eucalyptus spp na Metade Sul do RS.
    Como resultado do primeiro questionamento, que tratou sobre a posição favorável ou não sobre os plantios, obteve-se 51,40% entre total e parcialmente a favor; 26,86% entre parcial e totalmente contra e 21,74% indiferentes.
    A segunda pergunta buscava saber através de qual meio de comunicação o pesquisado obteve informações sobre a cultura do gênero Eucalyptus.
    Em função da possibilidade de assinalar mais de um item, obteve-se como as respostas mais frequentes a televisão, 53,17%; e amigos ou conhecidos, 54,64%.
    Existem expressões utilizadas pela população referentes ao plantio em grande escala do eucalipto.
    Cabe ressaltar que principalmente as expressões “Deserto Verde”, “Eucalipto não se come” e “O Eucalipto seca as fontes d’água” são as mais citadas e foram utilizadas na pergunta três sobre a veracidade das mesmas.
    O resultado apontou como 37,71% não tendo conhecimento claro sobre esse assunto e 35,32% citando como mito.
    Quando solicitado, na pergunta quatro, que aquilatasse os possíveis prejuízos da implantação da silvicultura na Metade Sul do Rio Grande do Sul como muito, pouco, nenhum ou indiferentes, os pesquisados responderam: a concentração de terra (36,7%), desmatamento de áreas nativas (32,40%), concentração de capital e renda (36,5%), contribuem muito pouco com impostos para municípios da região (25,36%), perda de biodiversidade (32,86%), danifica o solo de forma irreparável (31,76%) e gera vazios populacionais (30,63%) eram, dentre os mencionados no instrumento, os que consideravam prejuízos muito grandes.
    De forma semelhante, a questão cinco abordou os potenciais benefícios da implantação da silvicultura e qualificou os valores de muito a indiferente segundo itens abordados, e os resultados foram que a maioria identificou como benefício a geração de emprego e renda (40,16%), proteção de mananciais (52,44%), absorvem grande quantidade de CO2 da atmosfera, diminuindo a poluição e o calor e combate o efeito estufa (36,5%). Destacam-se, na questão cinco, itens como infiltrar água no solo e recuperação de solos por ações como queimadas regulares e uso inadequado, qualificados como nenhum benefício por 26,54% e 27%, respectivamente.
    A pesquisa de opinião pública levada a efeito junto aos estudantes da Unipampa – Campus São Gabriel não é conclusiva, porém é um demonstrativo da falta de difusão das informações técnicas sobre o assunto. Muitos desses estudantes são oriundos de cidades ligadas às regiões de implantação dos projetos de silvicultura e acabam replicando o conhecimento obtido de forma empírica sobre o tema.
    Embora tenha gerado surpresa àqueles que ainda não tenham se posicionado sobre o assunto apesar de campanhas prós e contras, já se observa um percentual significativo que avalia os “chavões” como apenas mera repetição sem nenhum significado científico. Os itens concentração de terra, renda e gerar vazios populacionais já são uma realidade de muito tempo nesta região, onde o sistema de grandes extensões de terra mais conhecidos como latifúndios é uma prática secular, e os empreendimentos não estarão ampliando essa situação. Desmatamento de áreas nativas e perda de biodiversidade são resultados patentes de desconhecimento sobre o tema, pois onde ocorre a implantação de povoamentos, pelo menos no setor da silvicultura, não pode haver a supressão de qualquer forma de espécies nativas, incluindo até mesmo gramíneas. Esse resultado sinaliza a necessidade premente das universidades, institutos e empresas de ampliar conhecimentos dessa parcela significativa da população, incluindo análise dos conteúdos desenvolvidos nos diferentes componentes curriculares de graduações, palestras, cursos, seminários e resultados de pesquisas específicas no Bioma Pampa, focalizando os benefícios e os potenciais impactos que essa cultura, em grande escala, pode proporcionar. Essas atividades são desenvolvidas por diferentes profissionais, incluindo principalmente os da área florestal, favorecendo reflexões, posicionamentos e ações desses futuros profissionais assim como da população em geral, no que tange ao cultivo do eucalipto para fins comerciais.

  • Só em 2030 Guaiba estará livre de esgoto

    A previsão é do Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) e consta de um folder distribuido pela prefeitura, sobre o Programa Integrado SocioaAmbiental.
    O programa é um conjunto de obras que vai ampliar o tratamento do esgoto em Porto Alegre. Hoje 73% do esgoto vai direto para o Guaiba.
    Em 2012, segundo a prefeitura, quando o Socioambiental estiver concluído, o volume de esgoto lançado sem tratamento no lago estará reduzido para 23%.
    Para zerar o lançamento de esgoto bruto no manancial onde a cidade tira a água para beber, o DMAE quer prazo até 2030.
    O material que a prefeitura está distribuindo resulta de uma pesquisa entre jornalistas, onde foi constatada a necessidade de “ampliar informações” sobre o Programa Socioambiental.
    Junto com o folder, um dossiê “contrapondo manifestações que geraram informações distorcidas no processo da licitação do PISA”.
    Em quatro página, o texto procura responder às acusações e denúncias que circularam na imprensa sobre favorecimento de empresas na disputa pelas obras.
    As obras do programa iniciaram em dezembro de 2007 e muitas já estão em fase de conclusão, como é o caso das redes da Restinga, Ponta Grossa e Cavalhada e a estação de bombeamento da Ponta da Cadeia.
    O Socioambiental conta com recursos do BID, da Caixa Federal e da prefeitura de Porto Alegre, num total de R$ 586,7 milhões.

  • Crônica de uma morte anunciada

    Christopher Goulart*
    Na famosa obra de Gabriel Garcia Marques – “Crônica de uma morte anunciada”, sabemos desde o início que uma morte é dada como certa, mas essa revelação em nada diminui a curiosidade do leitor até o final da história.
    Pois bem. Temos algo semelhante no processo eleitoral deste ano. Todos nós sabemos que o eleitor vai fulminar o projeto de nação Neoliberal do passado de FHC, ou então, o atual, de Lula, com índices de desenvolvimento favoráveis ao país.
    Invariavelmente, tudo indica que a escolha será fundamentada pela comparação das gestões presidenciais do PSDB e PT.
    Em recente declaração pública a um jornal americano, The Miami Herald, o ex-presidente tucano atacou Dilma, sentenciando: “O coração de Dilma é mais próximo da esquerda”.
    Uma provocação visando à confrontação costumeira entre a conhecida “direitona” e a esquerda.
    O fato é que um importante fator de escolha entre um ou outro sempre será a opção pelos pequenos e pobres, pois eles não têm nada a esconder, e desnudam toda e qualquer ideologia.
    E ser de esquerda é optar pelos pequenos e pobres.
    Ideologias à parte, em tempos de liberdades democráticas, tal realidade eleitoral lembra à época de ditadura militar, onde apenas a Arena e o MDB exemplificavam a insensatez do bipartidarismo.
    Por mais que a atual Constituição brasileira garanta ampla liberdade partidária, o que se observa na prática é a polarização eleitoral em dois blocos.
    Que bom seria se por Lei, obrigatoriamente, todos os partidos pudessem lançar candidatos em condições iguais num primeiro turno, para deixar as coligações apenas ao segundo turno.
    Certamente, raposas conhecidas da política tradicional cairiam como castelo de cartas. Mas não. A idéia eleitoral que se quer transmitir é a de que temos que votar já no primeiro turno entre Dilma ou entre Serra.
    Vivemos num país pluripartidário, com a garantia de participação plena de todas as correntes partidárias. Visto isso, a manipulação descarada das oligarquias políticas, pregando interesses individuais no processo eleitoral é uma manobra que deve ser observada pelo eleitor, sob pena de testemunharmos constantemente a crônica de uma morte anunciada.
    *Presidente da Associação Memorial João Goulart

  • Eleições 2010: O que o eleitor quer ver na campanha

    Algumas colunas políticas têm dado abrigo à tese de que corrupção não será um tema dominante nas eleições deste ano.
    A explicação: todos os partidos têm telhado de vidro, ninguém vai atirar pedras.
    É uma estranha tese que inverte a lógica de uma eleição que se quer democrática, pois atribui aos partidos e não ao eleitor o poder de definir a pauta.
    É uma tese provavelmente nascida nos gabinetes onde estão os operadores partidários, as “fontes bem informadas”, os “observadores bem situados” que geram notas nas colunas políticas.
    O pior é que sempre encontram “cientistas políticos” dispostos a dar respaldo acadêmico a essas interpretações viciadas, que ganham status de “fatos políticos” e acabam rendendo reportagens e artigos em veículos de grande alcance.
    A imprensa embarca porque busca suas pautas nos gabinetes, nos analistas, nos intermediários de modo geral, em vez de ir diretamente na fonte – o eleitor, no caso.
    Quais os temas que o eleitor quer ver discutidos na campanha?
    A repercussão do caso Arruda, não deixa dúvida: o eleitor está indignado com a corrupção dos políticos e quer cobrar isso na eleição.

  • Emissora cada vez menos pública e mais governo

    Fere o bom senso a insistência do governo do Estado em transferir a TVE para um andar do prédio do Centro Administrativo, que já está sendo reformado para isso. Se a nova proprietária do antigo prédio, a TV Brasil, está propondo que a TVE permaneça no local, sem qualquer compromisso de integrar a rede da estatal federal, por que insistir na mudança? Não seria mais racional usar o dinheiro que será gasto nessa reforma e nessa mudança para sanar algumas deficiências graves de equipamentos e melhorar as condições da TVE? Tecnicamente também não seria mais conveniente? Ou o que se quer realmente é aumentar o controle sobre a única emissora não comercial do Estado , torná-la cada vez menos uma tevê pública e mais uma tevê do governo do Estado? Ao esvaziar o Conselho da Fundação Piratini, formado por representantes da sociedade, o governo já deu um passo nesse sentido. Engraçado é que os críticos da TV Brasil, que não cansam de alertar para o perigo do novo canal estatal federal se tornar uma plataforma de propaganda do governo Lula, não vêem nada demais no que está acontecendo com a “televisão pública dos gaúchos”.

  • Yeda não aceita proposta e mantém decisão de mudar a TVE

    Não surtiu qualquer efeito a carta que a presidente da Empresa Brasileira de Comunicação, jornalista Tereza Cruvinel entregou à governadora Yeda Crusius, numa última tentativa de manter a TVE no prédio do morro Santa Teresa.
    A proposta, apresentada na carta, era de manter as instalações da “teve pública dos gaúchos” no local, dividindo o espaço com a TV Brasil, sem qualquer compromisso de integrar a rede da televisão estatal federal, para a qual foi adquirido o préio.
    Segundo a presidente da EBC, a governadora disse que não estava bem informada sobre o andamento do processo de transferência da TVE e que iria encaminhar a carta ao secretário Elóy Guimarães, que está cuidando do assunto.
    O presidente da TVE, jornalista Ricardo Azeredo, disse ao JÁ que não recebeu qualquer instrução a respeito do assunto e que o processo de transferência segue seu andamento.
    Os trabalhos de reforma do espaço para instalar a TVE no prédio do Centro Administrativo do Estado seguem normalmente e que a decisão de mudança está mantida.
    O diretor da TV Brasil, José Garcez, informou que até o momento não foi dado nenhum sinal por parte do governo do Rio Grande do Sul que possa indicar qualquer alteração na disposição do governo gaúcho de tirar a TVE do prédio onde está há 25 anos.
    O prédio, onde funcionou a primeira televisão do Rio Grande do Sul, a TV Piratini, pertencia ao INSS e era alugado ao governo gaúcho. Foi adquirido no final do ano passado pela EBC para instalação da TV Brasil no Estado.

  • Maior fraude entra no 15o. ano em segredo de Justiça

    Neste fevereiro de 2010 completam-se 14 anos da Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Estadual contra 13 pessoas físicas e 11 empresas privadas por fraude em dois projetos da Companhia Estadual de Energia Elétrica.
    O valor dos prejuízos causados à estatal gaúcha na época foi estimado em R$ 78.919.396,50 pelo MPE.
    O valor atualizado chegaria hoje aos R$ 800 milhões, colocando o caso no topo da lista de mais de 200 processos por fraude ao patrimônio público em andamento no Judiciário do Rio Grande do Sul.
    Protegido pelo segredo de justiça, o processo já tem mais de 100 volumes ainda não saiu da primeira instância. Está empilhado na 2a. Vara da Fazenda.
    O processo de licitação, que culminou com a contratação dos consórcios Sulino e Conesul para a construção de 11 subestações de transmissão de energia, passou por quatro investigações.
    Em todas a conclusão foi a mesma: houve fraude nos editais, na seleção das empresas e nos contratos, inclusive com pagamentos indevidos, por equipamentos que nunca foram entregues e obras que não foram concluidas.
    O principal implicado é Lindomar Vargas Rigotto, então funcionário da diretoria financeira da CEEE e que foi assassinado no carnaval de 1999 num assalto em Capão da Canoa, no litoral gaúcho.
    A Comissão Parlamentar de Inquérito, instalada na época pela Assembléia Legislativa para investigar o caso, incriminou também as empresas que formaram os dois consórcios e que “agiram em conluio para lesar os cofres públicos”, segundo o relator, então deputado Pepe Vargas, do PT.
    Foi a primeira vez no país que uma CPI apontou os corruptores.
    A CPI constatou também que nem o secretário de Minas e Energia, nem o governador do Estado, Pedro Simon, leram os contratos que assinaram em cerimônia especial no Palácio Piratini.
    O único punido até agora foi o Jornal JÁ, condenado numa ação por dano moral, por publicar uma reportagem sobre o assunto.

  • Estradas de ninguém: seis meses sem solução

    Uma imprensa mais atenta ao interesse público não deixaria passar em branco: chega a seis meses o desentendimento entre o governo do Estado e o governo federal, que jogou no abandono 1,6 mil quilômetros de estradas pedagiadas no Rio Grande do Sul.
    Na verdade, para uma imprensa mais atenta ao interesse público, esse assunto deveria render manchetes diárias, até que se resolvesse.
    Afinal, os seis pólos de pedágio envolvidos no impasse situam-se em rotas vitais para toda a população gaúcha e por onde transita o grosso da produção do Estado.
    Mas aqui é assim. Como todas as partes envolvidas – governo do Estado, governo federal e concessionárias – são grandes anunciantes e não tem interesse em tocar no assunto, o jornalismo passivo não vê a gravidade do problema.
    Fora algumas notas esporádicas, parece que ninguém está sendo prejudicado com a situação. Mesmo a decisão do Tribunal de Contas do Estado que, no início de janeiro, mandou a governadora Yeda Crusius retomar a fiscalização dos trechos pedagiados não mereceu mais que registros burocráticos, a partir de press release da assessoria do TCE.
    A omissão da imprensa, aliás, é coerente com todo o comportamento que ela tem mantido ao longo dos onze anos, desde que se implantaram os pedágios no Estado, o único em que as concessionárias se comprometem apenas com a manutenção – embora as tarifas sejam as mais altas do país.
    EM TEMPO: Matéria da repórter Marciele Brum, na Zero Hora deste domingo, 7/2, confirma a “cautela” do jornal em relação ao tema, a começar pelo título: “TCE aponta falhas em pedágios”. A fonte da matéria é o mesmo relatório, de 2009, que deu base à decisão do conselheiro Cezar Miola, de intimar o governo estadual a retomar a fiscalização das rodovias pedagiadas. Diz que o tribunal deu “foco técnico a uma polêmica no campo político”, quando a avaliação dos técnicos, feita entre maio e agosto do ano passado, antecedeu a devolução das estradas, que gerou a polêmica. Não esclarece que a origem da dita “polêmica” foi a tentativa de Yeda de prorrogar por mais dez anos os atuais contratos, fonte de todos os problemas. Não foi ouvida a Agergs, nem o Daer e o secretário Daniel Andrade se limita a dizer que “o assunto está em estudo”. Em destaque, o advogado das concessionárias tenta desqualificar o relatório, dizendo que o TCE não tem “competência legal” para avaliar as estradas, como se isso invalidasse a constatação objetiva dos problemas apontados.

  • Chilenos que compraram fábrica de Guaiba prometem transparência e respeito à "licença social"

    O grupo chileno CMPC, que assumiu o controle da fábrica de celulose que pertenceu à Aracruz, em Guaiba, está pautando seus primeiros movimentos por uma atenção especial ao relacionamento com a comunidade gaúcha.
    Manteve praticamente intacto o quadro de executivos que já vinham desenvolvendo o projeto de expansão da produção e, na primeira apresentação de seus planos no Estado, em almoço com a imprensa na última quinta-feira, 4, fez questão de prometer transparência nas suas atividades e respeito às peculiaridades locais.
    “Queremos falar sempre, na alegria e na tristeza”, disse Francisco Bueno, que permanece à frente da assessoria de Comunicação.
    “Será permanente a nossa preocupação com a licença social, dada pela opinião pública, que para nós é tão importante quanto as licenças legais”, reforçou Walter Lídio Nunes, que já estava à frente do projeto da Aracruz e agora assume a presidência da nova empresa. “Queremos ser e parecer uma empresa afinada com os interesses do Estado”.
    Segundo Nunes, o próprio nome adotado – “Celulose Riograndense” – é uma demonstração da sensibilidade dos controladores para os valores locais. “Era para ser Celulose Brasil, mas um dos dirigentes do grupo, que veio ao Estado, sugeriu a mudança, ao saber o quanto os gaúchos são ciosos dos seus valores”.
    A CMPC é o maior grupo chileno do setor, com faturamento da ordem de 3 bilhões de dólares e uma trajetória empresarial de 80 anos. A compra da unidade de Guaiba, por 1,43 bilhão de dólares, é o maior investimento feito por um grupo chileno no exterior.
    O negócio foi fechado em dezembro passado, como uma saída para a crise que inviabilizou a Aracruz.
    Abalada por gigantescas perdas no mercado financeiro em decorrência da crise internacional de 2008, a Aracruz foi absorvida pela Votorantim Celulose e Papel, dando origem à Fíbria, a maior empresa do setor no país. Mas devido ao elevado grau de endividamento que herdou e à necessidade de investimentos maciços para levar adiante o projeto de expansão da unidade de Guaiba, a Fibria preferiu transferí-la para o grupo chileno.
    A continuidade do projeto de expansão – das atuais 450 mil para 1,8 milhão de toneladas anuais – já está assegurada pela CMPC, mas o ritmo da retomada dos investimentos vai ser ditado pelas condições do mercado.

  • Acusado do sequestro diz que não é "animal"

    João Augusto da Rosa, o Irno
    João Augusto da Rosa, o Irno
    “Nem parecia um policial. Tinha a cara e o focinho de um burocrata medíocre e exótico de algum escritório infecto de contabilidade da periferia”.
    Foram estas duas linhas, pinçadas num texto de 450 páginas, que levaram o ex-agente do Dops gaúcho João Augusto da Rosa a processar por danos morais o jornalista Luiz Cláudio Cunha.
    Cunha é autor do livro “O Sequestro dos Uruguaios”, que reconstrói com riqueza de detalhes um dos episódios emblemáticos dos regimes militares que assolaram o continente sulamericano, na segunda metade do século passado.
    O seqüestro foi uma operação conjunta e clandestina de policiais brasileiros e uruguaios, perpetrada em novembro de 1978.
    As vítimas foram Universindo Díaz e Lílian Celiberti, militantes de uma organização de esquerda que combatia a ditadura no Uruguai e que estavam refugiados no Brasil.
    Apanhados em Porto Alegre, junto com os dois filhos menores de Lílian, eles seriam entregues na fronteira aos agentes da repressão uruguaia.
    Um detalhe impediu que a operação fosse um êxito completo, como foram muitas outras.
    Um telefonema anônimo para a redação da revista Veja, em Porto Alegre, levou Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Batista Scalco a um apartamento no bairro Menino Deus, onde os dois uruguaios estavam morando. “Está ocorrendo um seqüestro”, disse o informante.
    Quando os dois jornalistas chegaram ao apartamento, Lílian e Universindo já estavam nas mãos dos agentes da repressão, que aguardavam para apanhar outro militante – Hugo Cores, o chefe do grupo.
    Lílian abriu a porta, mas não conseguiu falar nada. Dois homens que estavam no interior do apartamento apareceram, de armas na mão. Um colocou a pistola na cabeça de Cunha e o outro fez o mesmo com Scalco.
    Os jornalistas se identificaram e depois de breve interrogatório foram liberados, com a recomendação da nada falarem, pois se tratava de uma operação para apanhar uruguaios ilegais no país.
    O seqüestro seguiu seu curso. Em poucos dias, os dois uruguaios e as crianças estariam em Montevidéo, nas mãos dos agentes da ditadura uruguaia.
    Outro detalhe seria decisivo para desvendar toda a história: Scalco, experiente fotógrafo de futebol, reconheceu o homem que apontou a arma para sua cabeça. Era o ex-atacante do Inter, conhecido como Didi Pedalada, que se tornara agente do Dops.
    A partir desta pista, os jornalistas desvendaram a operação. O segundo homem seria idendificado quase dois anos depois – era João Augusto da Rosa, que usava o codinome de Irno.
    A identificação de Didi foi cabal e ele chegou a ser condenado. Mas a identificação de Irno, através de fotografias, foi insuficiente. Embora denunciado pelo promotor e condenado em primeira instância, ele foi absolvido, em recurso, por falta de provas.
    As provas que poderiam ser decisivas contra ele – o testemunho dos seqüestrados – não puderam ser usados. Quando ele foi absolvido, Lílian Celiberti e Universindo Dias, estavam incomunicáveis no cárcere da ditadura uruguaia.
    “Ele me chamou de medíocre e com focinho. Quem tem focinho é animal, eu não sou animal”, afirmou João Augusto da Rosa, o Irno, quando a juíza Maria Claudia Hardt perguntou por que razão estava processando o jornalista.
    A estratégia de seu advogado não previa remexer no caso, mas apenas fixar-se na suposta ofensa por ter sido chamado de medíocre e, segundo sua interpretação, de animal. “Tenho filhos e netos”, justificou o ex-policial.
    Mas a audiência, na pequena sala da 18ª. Vara Cível, no Fórum de Porto Alegre, nesta quinta-feira, 4 de fevereiro, tornou-se uma verdadeira viagem no tempo, com a reconstituição de toda a história, principalmente dos detalhes que levaram à identificação de João Augusto da Rosa, como um dos homens que estavam no apartamento da rua Botafogo, há 32 anos atrás.
    Além de Luiz Cláudio, foram ouvidos Lílian Celiberti, o fotógrafo Ricardo Chaves e o jornalista Pedro Maciel. “Sim, eu o reconheço”, disse Lílian, categoricamente, quando a juíza perguntou se ela conhecia o homem de óculos, calvo, de bigode e cavanhaque que estava sentado a dois metros dela, na sala de audiências. Foi a primeira vez que ela fazer o reconhecimento de um dos seus seqüestradores.
    Visivelmente decepcionado ao final da audiência, o ex-policial reclamou que em vez de discutir a ofensa de que ele foi alvo no livro, “trouxeram toda essa história outra vez”. Falando aos repórteres no saguão do fórum ele repetiu: “Não fui, não sou e nunca serei animal”.