
Uma história mal contada: quinze anos depois do “conflito da Praça da Matriz”, livro traz nova versão dos fatos. (Foto: Ronaldo Bernardi/ZH/JÁ Editores)
No dia 8 de agosto de 1990, a Praça da Matriz, em frente ao Palácio Piratini, amanheceu com 400 integrantes do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. Eles queriam uma audiência com o governador – estava no cargo o vice, Sinval Guazzelli. O titular, Pedro Simon, havia se licenciado para concorrer ao senado.
Às 9h da manhã, centenas de oficiais da Polícia Militar já estavam no local, munidos de cassetetes, escudos, bombas, cães e armas de fogo. O próprio comandante do policiamento da Capital, coronel Jair Portela, estava no local, dirigindo a operação. Enquanto políticos e ativistas ligados ao MST negociavam o encontro com o chefe do Estado, dentro do palácio, os colonos gritavam palavras de ordem – “Ocupar, Resistir, Produzir!” -, exibindo foices, enxadas e facões. A PM, por sua vez, mandava o grupo desocupar a praça. As lideranças decidiram resistir. A Brigada Militar começou a dar ultimatos para a liberação do espaço. O clima se manteve tenso durante horas.
Por volta das 11h30, quando as negociações estavam avançadas – uma comitiva seria recebida pelo secretário da Agricultura –, o pelotão de choque agiu. Os acampados responderam com pedras. E a polícia avançou, sem ordem do governador. “A retirada era para ser pacífica”, afirmou depois o então secretário de Comunicação, José Antônio Vieira da Cunha. Apesar da reação dos colonos, a batalha na praça só durou 5 minutos. Os militantes do MST se dispersaram com as bombas de gás e de efeito moral. No tumulto, muitos foram presos, outros encaminhados ao Hospital de Pronto
Socorro, e cerca de 150 fugiram.
O conflito continuou nas vias adjacentes como Jerônimo Coelho, Borges de Medeiros e Rua da Praia. Com a confusão, várias lojas fecharam as portas. A esquina democrática foi palco do choque que marcou o episódio na história dos gaúchos.
Foi lá que o policial Valdeci de Abreu Lopes, 27, recebeu um golpe no pescoço e morreu, pouco antes do meio-dia. A versão consagrada pela mídia é que ele foi degolado por um golpe de foice. As narrativas para descrever o evento fatídico são variadas. Só há consenso de que ele havia sacado o
revólver e que foi cercado por um grupo de colonos. Também que disparou pelo menos três tiros.
Segundo testemunhas de acusação, um colono teria batido com uma ferramenta na viatura e Valdeci, sozinho, saiu do carro para repreendê-lo. Companheiros do sem-terra vieram em seu auxílio. O guarda foi imobilizado por um homem e golpeado por outro, pelas costas. Deu dois disparos para o chão e um terceiro, já agonizando, que atingiu a colona Elenir Nunes.
Testemunhas de defesa colocam o assassinato como reação, legítima defesa – os sem-terra estariam tentando desarmá-lo quando ocorreu a tragédia. O soldado teria dado cinco tiros, acertando um homem na perna, outro no pé, e uma mulher na barriga. Quando estava recarregando a arma, foi imobilizado por um colono, enquanto outro lhe deu uma facada (pode ter sido com um punhal ou canivete, segundo testemunhas), que pegou no pescoço. Outros também falam em um golpe de foice.
O tumulto seguiu, logo depois, para a Prefeitura, onde dezenas de colonos se abrigaram. A Brigada Militar manteve um cerco de 11 horas no local, período em que estudantes, sindicalistas e simpatizantes do MST fizeram um cordão humano para impedir novo confronto.
Altas horas da noite, os colonos foram levados para o Centro Treinamento Esportivo (Cete), no Menino Deus, onde ocorreu a indicação dos culpados por 10 testemunhas. O trabalho durou toda a madrugada. Pela manhã, 11 suspeitos já tinham sido identificados entre 176 agricultores. José Carlos Gowaski foi acusado de segurar o PM e Otávio Amaral de matá-lo – foi recolhido para o Presídio Central, onde ficou 1 ano e sete meses.
O caso volta à tona com a publicação de “A degola” do PM pelos sem-terra em Porto Alegre – De como a mídia fabrica e impõe uma imagem (Editora Revan, Rio de Janeiro, 2005, 242 p.), obra da jornalista gaúcha Débora Franco Lerrer, 37 anos, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, sem qualquer alarde ou divulgação na imprensa.
Episódio em que Brigada Militar enfrentou 400 colonos do MST ficou marcado pela morte de um soldado, que teria sido atingido por um golpe de foice. Livro sobre o tema resgata conflito e apresenta nova versão para os acontecimentos
Pesquisadora analisa papel da imprensa

Trabalho de Débora Lerrer (foto) para a USP foi publicado em livro, lançado na Feira de Porto Alegre, este ano
Otávio Amaral não assassinou Valdeci, como ficou provado depois – ele estava no Pronto Socorro na hora do incidente. O soldado morto não chegou a ser degolado, e o golpe letal não foi desferido com uma foice. Quinze anos depois do conflito na Praça da Matiz, a jornalista Débora Franco Lerrer traz uma reconstituição minuciosa dos acontecimentos, analisando o papel da imprensa na construção da versão conhecida e desmontando ícones que ficaram marcados na memória sobre o episódio.
Tudo está no livro “A degola” do PM pelos sem-terra em Porto Alegre – De como a mídia fabrica e impõe uma imagem, resultado de oito anos de trabalho da pesquisadora. A publicação é a dissertação de mestrado defendida por Débora na Escola de Comunicação e Artes da USP em dezembro de 1998, “depois e oito anos de pesquisa e questionamentos”.
O trabalho começou, sem ela saber, no dia da batalha, no Centro de Porto Alegre. Débora era estudante de Jornalismo da UFRGS e foi para a Prefeitura quando soube dos acontecimentos. Acompanhou o caso nos dias seguintes para escrever uma matéria, trabalho de uma cadeira da faculdade.
Participou da coletiva com a colona baleada, Elenir Nunes, figura que muito a impressionou. Assinante e fã da revista Veja, ficou surpresa com a cobertura da publicação, que deu capa ao episódio, mas não fez qualquer referência a sem-terra baleada. “Foi um choque muito grande. Acreditava em tudo que saía na Veja, era uma referência. Depois que li a reportagem, a revista perdeu toda a credibilidade para mim”, lembra.
Já de formada em jornalismo, em 1992, Débora se aproximou do MST. Trabalhou na área de comunicação do movimento de 1992 até maio de 1997. Nesse meio tempo ingressou na USP, com a proposta de fazer uma análise crítica de Veja. O professor e jornalista Bernardo Kucinski sugeriu uma abordagem do tratamento que a imprensa deu ao caso da Praça da Matriz. Foi o que ela fez.
O texto do livro é basicamente o do trabalho de mestrado, com algumas atualizações. Além de consultar os 28 volumes do processo sobre o assassinato do PM, a acadêmica entrevistou jornalistas, advogados, militantes do MST e de direitos humanos, políticos e oficiais da Brigada Militar. Além, é claro, dos acusados pelo crime.Tentou publicar em editoras do Rio Grande do Sul e de São Paulo, que recusaram a obra. Depois, obteve o parecer da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que, não só recomendou a publicação do livro, como destinou uma verba para bancar metade do investimento necessário.
A obra acabou saindo pela Revan, que resolveu bancar tudo. É uma editora do Rio de Janeiro, onde Débora vive – cursa doutorado na UFRJ. Ela fez algumas adequações nos trechos mais fortes, para evitar processos. Ainda assim, apresenta uma dura crítica ao governo, à Justiça, à Brigada Militar e, principalmente, à imprensa. Leia a íntegra da matéria na edição de dezembro do jornal JÁ Porto Alegre, que está nas bancas.

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