Do ‘Bom dia’ ao ‘Boa noite’, a incansável vigília de apoio a Lula

Matheus Chaparini
Desembarcamos às 7h30 no acampamento em apoio ao ex-presidente Lula, em Curitiba. É a décima sétima manhã de prisão do ex-presidente. É a décima sétima manhã seguida que o entorno da PF fica tomado por apoiadores que se dirigem ao local para desejar bom dia ao mais ilustre preso do país.
Desde o acordo firmado entre movimentos sociais e entidades da segurança pública, no dia 16/04, o acampamento deixou de ser nas proximidades da PF e se mudou para um terreno particular alugado a pouco menos de um quilômetro. Assim, estabeleceu-se uma divisão entre o local da vigília – batizado de praça Olga Benário – e o acampamento Marisa Letícia.
Das sete às oito é servido o café no acampamento. Após, a militância segue em marcha até o local da vigília, a esquina das ruas Guilherme Matter e Barreto Coutinho, cerca de 50 metros da sede Polícia Federal. Pontualmente, às 9h, ocorre o sagrado momento do “Bom dia, Lula”. “Neste horário, o presidente Lula se prepara psicologicamente para receber o nosso bom dia”, garante uma das lideranças que ocupava o microfone.
Durante todo o dia, os militantes e suas camisas e bandeiras vermelhas se concentram na praça Olga, ignorando a alta temperatura do dia ensolarado. Ao microfone, se revezam lideranças de diversos estados, sempre exaltando os feitos dos governos petistas na área social.
Um representante dos trabalhadores em transporte de São Paulo aproveitou seu discurso para defender o colega Jeferson Lima de Menezes, baleado na madrugada do último sábado em um atentado a tiros ao acampamento. O sindicalista cobrou providências do Judiciário do estado do Paraná e afirmou que Jeferson é pai de quatro filhos, um deles em tratamento contra leucemia e presidente do Sindicato dos Motoboys do ABC, liderando 20 mil trabalhadores. Ao recordar que o colega completava seus 39 anos na data, puxou um parabéns.
Bisneto de escravos, filho de empregada, doutorando em História
Doutorando em História e professor, Edilson Pereira Brito “bisneto de escravo, filho de empregada doméstica, consegui me tornar historiador graças aos governos Lula.” Ao longo de sua formação, Edilson foi beneficiado pelo que considera os quatro principais programas dos governos petistas para o ensino superior. Estudou com crédito estudantil, fez mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina, com bolsa do Governo Federal, prestou estágio do doutorado na Sorbonne, em Paris e, atualmente, leciona em um Instituto Federal.
Durante o dia, há ainda aulas públicas, apresentações artísticas e pequenos blocos que se formam espontaneamente, criam uma canção e saem desfilando. É o caso do bloco ‘Ai que saudade do meu ex… Presidente Lula’ ou de um grupo que criou uma versão para Brasília Amarela, dos Mamonas Assassinas, que após o ‘Lula lá laiá’ conclui com um adjetivo pouco cortês – mas que rima com doidão – ao juíz Sérgio Moro. A mais representativa das paródias foi proferida por um sindicalista gaúcho que pediu licença aos colorados e largou um “até a pé nós iremos” que acabava em “com o Lula onde o Lula estiver.”
Esta disposição parece muito clara entre os militantes. Quando questionados com o destino do acampamento e da vigília em caso de transferência de Lula, são unânimes: só vai aumentar a mobilização.
No final da manhã uma fila se forma junto a uma tenda, são mais de 50 pessoas. É a fila para fazer o “registro histórico”, explica uma senhora. Ou seja, uma fila apenas para assinar o nome e registrar oficialmente a presença.

Em um varal, estão expostos desenhos de crianças com mensagens de apoio ao ex-presidente. Ana Luisa da Silva desenhou Lula e escreveu “Obrigado por dar comida para quem necessita. Você é inocente.”
Eu estava indo embora quando deram os tiros. Decidi ficar”

“É um golpe de classe, é como se eles estivessem predestinados a dirigir o país, como se o Brasil fosse deles”, diz professor que há duas semanas está em Curitiba / JÁ

Há duas semanas em Curitiba, o professor aposentado Geraldo Magela da Trindade, 64 anos, estava de malas prontas, na rodoviária, quando recebeu a notícia de que tiros haviam sido disparados contra o acampamento em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mudou de ideia.
“Eu já estava na rodoviária e desisti de ir embora. Resolvi ficar porque o que não tem na nossa luta é covardia”, afirma. Trindade era um dos mais animados na caminhada desta segunda, que se dirigia à vigília. No peito, trazia estampada a frase “a casa grande surta quando a senzala aprende a ler”. O discurso combina com a estampa. “A elite brasileira não aceitou um projeto emancipador, popular e democrático no país. Pelo voto não conseguiram vencer, então tiveram de impedir o principal representante deste projeto. É um golpe de classe, é como se eles estivessem predestinados a dirigir o país, como se o Brasil fosse deles.”
A programação segue ao longo de toda a tarde. O público se reveza, mas não reduz em número. São algumas centenas de camisas vermelhas. A programação de todos os dias encerra com o Boa Noite, Lula, às 19h. Amanhã cedo, quando Lula acordar, todas estas pessoas estarão de volta.

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