Edgar Vasques e Bira Carlos Gomes: desenho e música nos altos do viaduto

GERALDO HASSE
Na noite de sexta-feira 13 de janeiro de 2017, dois sujeitos barbudos e grisalhos conversavam baixinho numa das mesas externas do Tutti Giorni, bar situado nas escadarias do Viaduto Otavio Rocha, à altura do nº 700 da avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre.
Curtindo aquele encontro especial, homens e mulheres mais jovens circulavam ao redor, tentando decifrar a conversação dos dois. Parecia que combinavam alguma coisa. O que estariam murmurando entre barbas e copos?
Sem mistérios: os dois se conhecem há décadas mas não se viam há anos, daí a intensa troca de figurinhas.
O mais velho da dupla barbuda é o cartunista e artista plástico Edgar Vasques, 67 anos, criador do Rango, o faminto mais ranzinza do Brasil. Ele tem à mão um caderno de desenhos e um estojo de giz colorido.
Tudo indica que premedita desenhar o barbudo-cabeludo-de-chapéu- coco: Ubiratan Carlos Gomes, líder da troupe de teatro de bonecos Anima Sonho, criada há 32 anos. Bira tem à mão, guardado numa capa preta, um instrumento musical.
Findo o aquecimento, os dois afinam seus instrumentos e tem início uma memorável sessão musical. Vasques rabisca, ora com os olhos no caderno, ora levantando os olhos para a figura grisalha perfilada à sua frente. Mal arranhando as cordas do instrumento – uma viola –, Ubiratan modula a voz no timbre grave do baiano Elomar Figueira de Mello.
O som sai tão baixo que apenas os que estão à sua volta se dão conta da graça do momento: é um espetáculo improvisado, sem rompantes, quase clandestino, num boteco dominado por jovens.
A canção “Na Carantonha” se arrasta por quase dez minutos. Ao final, soam palmas. Bira sabe que atrai olhos e ouvidos. Mais duas canções, uma de Elomar, outra do paraibano Zé Ramalho. Aplausos novamente.
Alguém se aproxima e sugere uma canção qualquer. Bira pede desculpas por saber fazer “apenas três acordes” e completa humildemente: “Sou um músico medíocre”. Também não canta nada da música típica do Rio Grande do Sul.
Edgar Vasques segue desenhando. Não se passou nem meia hora e já fez o retrato do cantor. Colorido, o desenho pode virar um quadro na parede, ilustrar um calendário ou…
“Vai ser a capa do meu próximo disco”, exclama Ubiratan Carlos Gomes, num rompante inesperado. Se a ideia for pra frente, será seu segundo disco.
O primeiro saiu há alguns anos. E aí vem sua história: nascido em 1953 em Cachoeira do Sul, Bira ficou na cidade natal até os 28 anos, quando se mudou para Porto Alegre, onde, em parceria com o irmão gêmeo Tiaraju,  criou um espetáculo com bonecos que não emplacou em Cachoeira.
A capital o acolheu bem, dando-lhe a fama que o levaria a palcos distantes, fora do Rio Grande do Sul. Bira conta que ainda no início dividiram palco com o conjunto vocal/instrumental Os Tapes, que fazia sucesso no início das califórnias do nativismo (ganhou a 2ª Califórnia de Uruguaiana com Pedro Guará, canção de José Claudio Machado, um dos tapes).
Mais de três décadas depois, quem digitar Teatro de Bonecos Anima Sonho no Google, vai descobrir uma porção de shows no You Tube — os irmãos Carlos Gomes se apresentaram por 11 minutos no Domingão do Faustão em 1996.
A principal peça do seu repertório é O Ferreiro e o Diabo, cujo argumento foi extraído do capítulo 21 da novela argentina Don Segundo Sombra, clássico de Ricardo Güiraldes lançado em 1926. Conta a história de um ferreiro chamado Miseria.
Visitado em sua cabana por Jesus Cristo (que não se identifica), Miseria improvisa uma ferradura (de prata) para o jumento do nazareno, que viaja em companhia de um amigo chamado Pedro. “Quanto lhe devo?”, pergunta Cristo. O ferreiro não cobra nada, comentando com desdém que os dois viajantes são mais pobres do que ele.
Para demonstrar sua gratidão, Cristo diz ao ferreiro que peça três coisas. Ainda que Pedro lhe assopre que peça o Paraíso, Miseria pede três formas de poder sobre os outros e passa a viver como rico. Cortejado pelo Diabo, o aprisiona no seu estojo de tabaco. E assim vai até o fim da vida.
Morto, bate na porta do Céu, vem São Pedro e lhe nega o ingresso. Vai ao Purgatório, onde não há lugar para ele. Acaba indo ao Inferno, mas aí também lhe fecham as portas. E o pobre ferreiro fica perdido no mundo. “…y dicen que es por eso que, desde entonces, Miseria y Pobreza são cosas de este mundo y nunca se irán a outra parte, porque em ninguna quieren almitir su existencia”, diz a história contada por D. Segundo Sombra, personagem equivalente a grandes figuras do romance brasileiro, como o vaqueiro Riobaldo de Guimarães Rosa e o capitão Rodrigo Cambará de Erico Verissimo.
No livro, o relato dura uma hora; no teatro de bonecos de Ubiratan Carlos Gomes, leva 45 minutos.
A morte recente de Tiaraju Carlos Gomes cortou as asas do Anima Sonho, que ainda se apresenta, mas sem a repercussão de antes, quando ocupava palcos no Uruguai, na Argentina e no Chile. “Em Porto Alegre, ninguém mais nos chama”, reclama Bira, que mora no bairro Teresópolis.
A companhia de bonecos é formada por quatro pessoas: dois atores, uma técnica de som/luz e o contrarrega, que atua nos bastidores, incluindo a bilheteria. Com um elenco desses, o Anima Sonho não pega a estrada nem pernoita fora por cachê abaixo de quatro dígitos. Na capital, um show pode sair por menos.

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