RAMIRO FURQUIM
No meio da tarde do chuvoso último sábado (9), no CTG Piquete da Amizade, zona sul de Porto Alegre, aconteceu o Encontro pelo Arado. Cerca de 80 pessoas entre comunidade, políticos, ativistas, técnicos e ambientalistas estavam presentes. Muitos dos presentes formam o movimento Preserva Belém Novo.
Ainda houve show com músicos locais, exposição fotográfica, exposição de peças guaraniticas de antes da colonização do Brasil e um abaixo-assinado contra a construção de outro grande condomínio de luxo na Zona Sul. Esse novo mega empreendimento quer se instalar na Fazenda do Arado Velho, uma ampla área verde nativa e alagadiça.
sítios arqueológicos serão soterrados
Buscando ouro nas margens do Guaíba e da Lagoa dos Patos, o morador Uilbor Xavier e seu pai encontraram diversas peças em sítios arqueológicos intocados. Dentre cerâmicas e porcelanas, há um machado Guarani, encontrado em 1966. Esses objetos encontrados pela família Xavier, se juntam ao registro da fazenda como área arqueológica de 500m2, anotada no Iphan como Ponta do Arado desde 2008. Uilbor chegou a doar os achados ao Museu José Joaquim Felizardo, que não buscaram por falta de combustível, diz.
Fabrício Rocha foi como acompanhante de amigos para a festa julhina e acha absurda a informação – descoberta por ele no encontro – de que a especulação imobiliária quer aterrar quase 500 hectares (sic) de área naturalmente de preservação ambiental para construir mansões: “O mais absurdo, como eles estão fazendo isso? Com uma Lei feita pelo atual prefeito [José Fortunati, do PDT]”, exaltou-se. “São 125 mil caminhões de terra para poder construir em cima! Não pode ser um lugar para habitação!”, finalizou, falando dos cálculos feitos e apresentados pelos técnicos do movimento.
tirar o arado da zona rural foi iniciativa do gabinete do prefeito
Integrante do movimento Econsciência, Felipe Viana já está há um tempo trabalhando contra a aprovação do projeto do condomínio no local: “Esse evento se cria a partir da apropriação da informação. A Zona Rural voltou e depois foi diminuída para urbanização da Fazenda do Arado. Mais do que dobrou o direito deles [dos proprietários] de construir casas. A partir de então, criou-se esse movimento para questionar tecnicamente esse empreendimento, questionar os estudos de viabilidade e impacto deles”. Viana acredita que com os estudos técnicos bem feitos, há possibilidade de comprovar que a área não é adequada para urbanização.
Poucas pessoas favoráveis ao empreendimento falaram. Houve gente que disse ser difícil o movimento barrar o Capital. Teve quem questionou a indenização que a Prefeitura devia dar ao proprietário em troca de um parque e não haver dinheiro.”A Prefeitura tem um fundo que é oriundo de Lei recente, Lei de Conversão de Mudas em dinheiro. Foi feita uma lei para que 80% desse dinheiro seja usado para comprar área para Unidade de Conservação. Esse fundo arrecada R$ 5 milhões por ano. A Smam tem recursos!” falou Viana.
A Câmara Municipal de Porto Alegre (CMPA) recriou a Zona Rural, porque a nomenclatura anterior Rururbana dificultava aos produtores da Zona Sul acesso a políticas públicas rurais, tais como Política Nacional de Crédito Rural, licenciamentos ambientais pelos órgãos governamentais e linhas de crédito para as diversas atividades de produção primária. Viana contesta a retirada somente da área do Arado da Zona Rural: “Não poderia ter mudado a Lei do Plano Diretor”.
O PL do gabinete do prefeito Fortunati diz que o empreendimento tem estudos ambientais aprovados e utilizará cerca de 50% da área para habitações, 215 hectares: mais de dois milhões de metros quadrados, com previsão de casas de até quatro andares. Há previsão de Reserva Particular do Patrimônio Ambiental de 91 hectares. Outros 50 hectares são de área de Proteção do Ambiente Natural. A Lei aprovada ganhou na Câmara por 28 votos favoráveis a 5 contrários. “Foi um canetaço”, critica Viana. “O vizinho dele tem uma marina e planta arroz. Por que ele pode fazer um condomínio? E por que o vizinho não pode? Conhece o efeito “Já Que”? “Já Que” o vizinho fez… Quem barra o vizinho?”.
Fernando Costa, da ong Amigos da Terra, diz que a mobilidade no local não está sendo levada em consideração: “Filmamos aqui as paradas de ônibus pela manhã. Isso aqui é uma loucura”, refere-se à quantidade de gente que sai do local para outras partes da cidade. “O Estado não protege mais as pessoas”, diz Fernando. “Onde não alagava, está alagando. Essa cota de 3,2 metros de aterro acima do nivel do Guaiba que o Dep (Departamento de Esgotos Pluviais) arbitrou para ter uma garantia contra essas catástrofes [cheia do Guaíba] agora. As pessoas daqui, estão em outra cota. Então, cada rua que tu fecha é um dique, represa”, argumenta. “O desenho natural do fluxo de água não existe mais, áreas ainda não regularizadas das pessoas mais antigas estão sendo removidas por essa cota da água”.
ações no Ministério Público
Felipe destaca que dentre os atuais grupos do movimento de moradores, os estudantes do Ambiente Crítico conseguiram achar o erro do estudo do empreendimento e que já estão em andamento no Ministério Público: “É uma área que tem muito mais a ver com uma área de conservação.” “Que essa área se torne pública, se torne um Parque Urbano e Unidade de Conservação e uma área de produção [primária]”.
criador do Arado se considerava fazendeiro
Comprada pouco a pouco durante cerca de 30 anos pelo empresario Breno Caldas, os atuais 426 hectares da fazenda já foram cerca de 900. Breno construiu um sobrado amplo no alto do morro, de frente para o Guaíba. Ele gostava de cavalos e de coisas do campo. Quando começou a trabalhar no jornal da família, buscou “um campinho para aventurinhas campeiras”:
“Queria algo aqui perto de Porto Alegre, pra poder usar bastante, […] que proporcionasse aquilo que eu gostava, que era água – que fosse perto de um rio -, que tivesse morro, porque eu sempre gostei de olhar as coisas mais de cima, que tivesse também uma várzea, porque as várzeas são mais férteis que as partes elevadas, e que tivesse mato… Andei procurando por vários lugares e acabei me fixando aqui em Belém Novo, no Arado.”, disse Breno Caldas a Luis Antônio Pinheiro Machado, trecho da página 150 do livro Meio século de Correio do Povo.
Havia uma marina para o veleiro de Breno Caldas, que plantava arroz e criava gado. Caldas também montava. Construiu cocheiras e começou a criar cavalos de corrida. Considerava-se um fazendeiro. Parte da fazenda foi entregue ao fornecedor de papel para seguir imprimindo o Correio por seis meses mais. Afundado em dívidas, Caldas teve que vender a Rádio Guaíba, a TV Guaíba e o jornal Correio do Povo. Morreu em 1989. A fazenda foi vendida à Arado Empreendimentos Imobiliários, cujo presidente é Iboty Brochmann Ioschpe.

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