Falta mel de laranjeira no final de 2017 devido a chuvas em excesso

GERALDO HASSE
Um cego acompanhado pela mulher encostou na banca do apicultor Anselmo Kuhn na feira-livre das segundas-feiras na Praça 20 de Setembro em São Leopoldo e pediu: “Tem mel de laranjeira? É o meu preferido…bem levinho…”
“Mel de laranjeira…Vou ficar devendo”, respondeu Kuhn, lembrando que tinha no estoque um último pote da safra do ano passado – levado minutos antes por outro freguês do Mel Lomba Grande. É que no fim da primavera cresce a procura pelo mel dos cítricos.

Anselmo Kuhn, presidente da Federação Apícola do RS

Presidente da Federação Apícola do Rio Grande do Sul, Kuhn explica em tom casual que “este ano vamos ficar sem mel de laranjeira” já que as chuvas do final de inverno lavaram as floradas da maior parte dos cítricos cultivados em cerca de 25 mil hectares dos vales dos rios Caí e Taquari, “deixando as abelhas praticamente sem comida”.
Em consequência, muitos apiários como o de Kuhn, sediado no bairro Lomba Grande, em Novo Hamburgo, tiveram de remover suas colmeias dos pomares de cítricos para áreas alternativas na busca de outras floradas da felizmente pródiga primavera de 2017. Todos sabem que, havendo flor, desde que não chova demais, as abelhas se mantêm em atividade.
ESCASSEZ
Até o final de novembro as lojas apícolas ainda não haviam recebido mel de laranjeira de seus fornecedores. Segundo Rojane Ferronatto, proprietária da Casa do Mel, de Tabaí, no Km 385 da BR-386, “este ano a produção foi realmente pequena, mas já sabemos que está para chegar o mel das bergamoteiras dos fundões de Montenegro, Salvador do Sul e Brochier”.
Ricardo Bonetto, sócio-proprietário da Honig Haus/Casa do Mel de São Leopoldo, admite que o produto está em falta, mas tem esperança de formar um estoque  proveniente de áreas cítricas emergentes na Campanha Gaúcha, de onde costuma receber mel de eucalipto e o silvestre.
A abelha-europeia em flor de laranjeira / Sidia Witter / Arquivo Fepagro/RS

Apesar do acidente climático responsável pela escassez de um dos méis mais procurados pelos consumidores – o mel de laranjeira é claro, fino e perfumado –, o ano apícola de 2017 não pode ser considerado ruim, como foi o ano de 2015, quando os apicultores perderam milhares de enxames por causa de uma trágica combinação de distúrbios climáticos diversos: chuvas, enchentes, seca, frio e falta de alimento para as abelhas.
Naquele ano, a queda da produção de mel no Rio Grande do Sul foi compensada, em parte, por importações do Uruguai, cuja flora se assemelha à da campanha gaúcha. No entanto, se a vegetação já se recuperou dos reveses de 2015, muitos apicultores ainda não se aprumaram, tanto que 30% das 90 associações apícolas do Estado estão inadimplentes junto à federação, naturalmente pobre, como é a maioria dos 30 mil criadores de abelhas gaúchos.
UVA-DO-JAPÃO   
Na feira-livre de São Leopoldo, depois de oferecer alguns esclarecimentos monossilábicos sobre a sujeição dos apicultores às variações do clima, Anselmo Kuhn apresentou ao freguês deficiente visual um pote de mel de uva-do-Japão, árvore exótica que prolifera na mata atlântica do Sul do Brasil, onde já estaria presente numa área equivalente a 1 milhão de hectares, segundo estimativas de alguns técnicos.
Também conhecida por seu nome científico (Hovenia dulcis Thunberg), essa bela árvore oriental foi introduzida no paisagismo urbano e tem sido semeada aleatoriamente por animais como o furão. Considerada “invasora”, floresce na mesma época dos cítricos.
Até agora identificado como “silvestre”, como são todos os méis provenientes de uma mescla de néctares de campos e matas, o mel da hovênia também é claro, mas sem perfume. “É parecido com o de laranjeira”, diz Kuhn, que identifica os potes com a sigla UJ. Sua produção é tão significativa e diferenciada que o mel de uva-do-Japão pode vir a figurar entre os poucos méis com nome próprio, como acontece com o de eucalipto, laranjeira, quitoco e o mel branco dos Campos de Cima da Serra.

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