Mais de 500 pessoas acompanharam o espetáculo Farra do Teatro que ocorreu durante a tarde do ensolarado domingo (25) de encerramento do 12º Porto Alegre em Cena, no estacionamento da Usina do Gasômetro.
No espaço cênico, 80 atores realizaram, ao ar livre, quatro horas de uma verdadeira maratona: quando não estavam encenando, estavam correndo. Vestido de branco, o grupo apresentou o resultado do trabalho de cinco dias de ensaios, ocorridos na última semana do Festival. A peça foi composta de uma seqüência de 30 músicas específicas para cada momento. Cada música tinha uma cena pré-determinada, mas os atores não conheciam a seqüência em que elas iam sendo tocadas. Paralelamente, foram estabelecidas três formas de corrida que provocavam tipos variados de estado de espírito nos integrantes.
As ações eram na maioria conjuntas e significavam uma série de manifestações: uma cena que lembra os 40 anos da tragédia ocasionada pela bomba atômica nas cidades de Hiroshima e Nagasaki é uma delas. Outros assuntos como prostituição infantil, a omissão da sociedade frente ao estupro, a violência opressora contra os marginalizados e casos de abuso de poder por parte da polícia foram vivenciados pelos atores. Essas cenas coletivas foram as mais tocantes, gerando uma catarse nos atores, que por mais de uma vez, caíram no chão aos prantos.
Outras formas de sensibilização foram utilizadas, como beijar na boca durante uma música inteira, tentar abraçar o outro e não ser correspondido, deliciar-se com o Giro Sufi (uma técnica antiga de meditação, onde a pessoa gira com a palma da mão direita para cima e a palma da mão esquerda para baixo se tornando um vértice de energia) e entrar em um fila para receber água, sabendo que nem todos seriam servidos. Neste último caso, o desespero dos participantes cresceu no momento em que um deles resolveu “roubar” o galão de água, impedindo que outros pudessem matar a sede. Foi perseguido por parte do grupo, em um improviso demonstrativo de que o espetáculo era movido por emoções verdadeiras.
A racionalização da água no planeta também foi destaque, quando os atores procuraram alguém para “batizar” (dando ênfase no valor deste bem comum que passou a ser comercializado).
Por diversas vezes, o público se emocionou e aplaudiu em cena aberta, como no ponto auge do espetáculo, que representou o apedrejamento de uma mulher argeliana, ocorrido recentemente, sob acusação de adultério. A atriz que representou a personagem teve suas roupas arrancadas, antes de ser apedrejada nua. Em seguida, os demais atores da peça despiram-se, em solidariedade, completando a cena.
As ações individuais também emocionaram. Além de contar uma história pessoal de sua infância a alguém da platéia, os atores interagiram com o público, cantando músicas como Eu Sei que Vou Te Amar (Vinícius de Moraes) e Solidão (Alceu Valença ), olhando nos olhos de uma pessoa. A cada hora de espetáculo, a exaustão dos participantes aumentava, causando uma explosão de sentimentos e emoções.
Conforme o diretor Roberto Oliveira, que ministrou a oficina junto com as atrizes Sandra Possani e Maria Falkembach (ambos do Depósito de Teatro) o fundamental neste espetáculo era que os atores não estivessem interpretando, mas sim, vivenciando e sentindo as emoções que surgiram durante as ações. Neste ponto, a corrida foi muito importante: com o cansaço, caíram as máscaras dos participantes, permitindo-lhes uma verdadeira meditação e exercício de entrega.
No final, o elenco arrancou aplausos calorosos da platéia, que entrou no espaço cênico para dançar um xique-xique de Tom Zé. Encerrado o evento, os atores trocaram abraços entre si. Estavam com o corpo leve e a alma lavada.
Farra do Teatro emocionou centenas de pessoas
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