
Sérgio Napp, diretor da Casa de Cultura Mário Quintana, apresenta o Acervo do poeta restaurado (Fotos Naira Hofmeister)
Naira Hofmeister
Aprendiz de feiticeiro: 100 anos de Mário Quintana e sua maratona de comemorações iniciam na noite dessa quarta-feira (11), com a reabertura da Acervo do poeta e a ambientação de um bar, versado por Carlos Drummond de Andrade, em homenagem ao gaúcho:
No Quintana’s Bar,
sou assíduo cliente.
É um bar que não é bar,
é um bar diferente.

E é mesmo, a começar pela função: o Quintana’s Bar não vai servir café ou cerveja, mas sim, sopa de letrinhas. O espaço vai abrigar parte da programação da Casa. “Inspirados por Drummond, pensamos como seria gostoso para as pessoas ouvir palestras num ambiente de bar”, explica o diretor da Casa de Cultura, Sergio Napp. Nas mesas, inscrições com poesias do anfitrião; nas paredes, caricaturas feitas pelos membros do Grafar – Grafistas Associados do Rio Grande do Sul, nas bocas, os versos de Quintana em saraus, shows e debates.

O acervo foi recuperado, e conta com objetos pessoais como as certidões de nascimento, óbito e documentos de identidade do poeta. O próprio Quintana, aliás, escreveu num texto: “Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas…”. Mas há também os textos, a verdadeira personalidade do poeta, ao lado de fotografias e livros de cabeceira.
Entre coloquiais e artísticos, é pouco provável que algum aspecto de Mário Quintana seja esquecido em seu centenário. Mesmo porque já são mais de 20 atividades programadas, a maioria ainda no primeiro semestre: “Esse número ainda vai aumentar consideravelmente, pois recebemos quase que diariamente propostas”, conta Napp. Além da obra ‘clássica’, também serão expostas traduções feitas por Quintana, canções por ele compostas, agenda e dicionário do autor.

A programação vai permear todas as áreas culturais: “Ele era o papa da literatura, portanto, essa área é obvia”, supõe Napp. A criançada também vai ganhar programação especial, com mostra itinerante em escolas do interior e capital. Mas não fica aí: desde a música, o audiovisual, exposições de artes plásticas e até a moda vão ganhar ares quintanescos. Nesse último caso, a proposta é que estilistas consagrados da capital criem tecidos e roupas inspirados nos versos do poeta. Sergio Napp explica: “Queremos mostrar que com textos se pode fazer de tudo”.
O lançamento da obra em braile também merece destaque. Todos os volumes de Quintana serão transformados em livros para cegos. Alem dos tradicionais pontinhos para aqueles que não enxergam nada, vão haver também volumes com fontes grandes, para os que têm dificuldade na leitura e também narrações gravadas. “É a mais completa tradução de uma obra para esse público”, acredita Napp.
E de que forma o poeta, com fama de introvertido e, por ventura, até mal humorado, reagiria como diante de tantas homenagens? “Ele acharia muito bom, desde que não tivesse que participar”, brinca Napp.
O auto-retrato
No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!
(Apontamentos de História Sobrenatural, de Mário Quintana)

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