Ele mora há duas semanas embaixo do Viaduto Otávio Rocha. Guarda seus pertences num carrinho de supermercado.
Na calçada, tinta, pincéis, pedaços de madeira e quadros compõe o visual do ateliê de rua que ele montou na avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre.
Chama-se Munrhá, natural de Campinas, vive há quatro anos em Porto Alegre. Desenha profissionalmente há 26. Veio para o Fórum Social Mundial, acabou ficando.
Antes havia passado cinco meses na França. Morou no Rio e em São Paulo, sempre em ambientes rústicos onde realizou diversos projetos comunitários.
Do período na Europa só tem uma queixa: “a arte latino-americana é muito desvalorizada”, referindo-se ao Louvre, que na sua opinião expõe muito pouco as obras culturais daqui.
Por onde passa, tenta ensinar um pouco do que sabe. Em Porto Alegre, não é diferente. Desde que chegou é um itinerante na cidade: mora em pensões, albergues e eventualmente na rua.
Dá oportunidade para aqueles moradores que querem aprender. Uns trazem materiais, outros lixam as tabuas, outros desenham. Chama-os de matilha: “É essa cachorrada que vive por aí e me ajudam”.
Faz seus trabalhos a partir de material coletado na rua. Tábuas, papelões, garrafas plásticas que servem para por a tinta. Embaixo do Otávio Rocha, expõe seus quadros: atualmente quadros de personalidades.
Já pintou Bob Marley, Jimi Hendrix, Nina Simone, Sabotage, Elvis Presley. Marilyn Monroe e Notorious B.I.G. serão os próximos. São encomendas. Fará na próxima madrugada, horário que, segundo ele, é mais tranquilo para o foco no desenho.
Durante o dia faz serviços exclusivos para clientes. Desenhos ou charges a partir de fotos. O que chama de “retratura”. Segundo ele o gaúcho é exigente mas dá tempo para o trabalho ser feito. “Aqui as pessoas valorizam o traço algo que está se perdendo.”
Antes de ser da rua, Munrhá era Paulo Félix, um cartunista que fazia charges para jornais impressos. Começou em 1990, no Correio Popular em Campinas. Passou por Folha da Tarde, o Lance, Placar e outros onde fez alguns freelancers. Em 2006 largou.
Justamente após um show dos Rolling Stones em Copacabana. De lá pra cá se considera um ativista da arte, ou como ele mesmo gosta de dizer: “artivista”.
Ganhou o apelido em Porto Alegre. “Gostava de Félix, é nome de cartunista mas o Munrhá chama atenção” diz ele, referindo-se ao personagem em quadrinhos, vilão do desenho Thudercats. Apesar do apelido Munrhá prega a paz. Por isso considera seu trabalho como uma ferramenta de combate aos problemas da rua. “Na noite, a gente nunca sabe o que vai acontecer, existe a droga, a violência”.
Convive em clima amistoso com os residentes ou “trincheiros” do Viaduto. O futuro no Otávio Rocha é incerto. “Amanhã pode vir a prefeitura e nos retirar”. Embora saiba que sua estadia em Porto Alegre está chegando ao fim. Em julho quer ir para o Rio durante o período das Olimpíadas. Depois pretender ir para o Nordeste, Norte e voltar para o Sul. “América Latina é o destino” afirma. Depois disso, pretende regressar a Porto Alegre.

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