O deputado Marlon Santos tem sido apresentado na imprensa com o inevitável realce de sua condição de médium que aos sábados promove sessões espíritas em Cachoeira do Sul, atendendo centenas de pessoas e realizando curas que, segundo vários e abalizados testemunhos, se enquadram na categoria de milagrosas.
Ele já foi acusado de charlatanismo por essa atividade. Esteve alguns dias preso, foi libertado pela pressão popular e saiu da cadeia consagrado; três mil pessoas estavam em vigília na frente da delegacia.
Sua popularidade de “bruxo” o levou à politica. Elegeu-se vereador aos 26 anos, chegou a prefeito de Cachoeira do Sul na eleição seguinte e, há três mandatos, está na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, cuja presidência assumiu na quinta-feira, primeiro de fevereiro, aos 42 anos.
Chega ao cargo por força de um acordo que estabelece um rodízio entre os quatro maiores partidos – PMDB, PP, PT e PDT – que se revezam na presidência ao longo de cada legislatura. Foi indicado por unanimidade pelos sete deputados da bancada do PDT.
Marlon Santos faz questão de separar o médium – que aos sábados recebe o espírito de um médico alemão e faz cirurgias com uma faca de cozinha – do deputado que trabalha energicamente de segunda a sexta-feira na Assembleia.
Mas é inevitável: a fama do guia espiritual, que o compara a Chico Xavier e atrai pessoas até do exterior, projeta uma sombra sobre a carreira do político, sua “personalidade política”, como ele diz. Por isso ela é pouco conhecida e, ainda, um tanto enigmática. Tanto que a manchete do principal jornal da capital no dia de sua posse foi: “Conheça o deputado-médium que assume a presidência da Assembleia”.
Mas o político vem se impondo. A unanimidade sobre ele, entre aliados e adversários, entre deputados e funcionários, é de que é um conciliador. “Ele produz harmonia”, diz um antigo assessor.
Assim como o médium que atende 500 pessoas num fim de semana, o deputado é um incansável articulador que conversa com dezenas de pessoas por dia sempre com a mesma atenção, a mesma afabilidade – seja o interlocutor um colega deputado, uma alta autoridade ou um eleitor do interior.
Mesmo políticos de largo curso como Ibsen Pinheiro reconhecem que se trata de um talento incomum para o jogo parlamentar. A grande habilidade para harmonizar conflitos, ele agrega um preparo intelectual que sobressai na Casa.
Alfabetizado no Exército, aos 18 anos, se tornou um estudioso compulsivo: vai completar o quarto curso superior.
Sua atuação na Comissão de Finanças levam um jornalista experiente como Armando Burd a avaliar que ele “é um dos que mais conhecem o orçamento e a situação das finanças estaduais”.
Na derrota que o Parlamento infligiu ao Executivo na semana passada ele teve influência decisiva nas deliberações do PDT, que selaram a sorte do governo.
Na entrevista que deu à imprensa depois da posse, bateu forte na proposta do governo para atender as exigências do acordo que suspende o pagamento da dívida com a União por três anos:
“Como é que nós vamos chegar para o professor ou para o brigadiano e dizer que o salário dele não vai ter reajuste, não vai sequer corrigir a inflação, mas que os juros e a correção monetária das parcelas da dívida continuarão a ser pagos?”.
“O acordo diz que a suspensão da dívida por três anos pode ser prorrogada por mais três. Mas qual é o critério? Quem vai autorizar a prorrogação?. Não tem critério.”
Concluiu que o governo foi derrotado mais por seus erros e falta de diálogo do que pelos esforços da oposição. “Quando é que fomos escutados?”, perguntou. Os deputados, segundo ele, são integrantes de uma instituição, não podem ser tratados “como um bando”.
E repetiu o que dissera no discurso de posse sobre sua disposição para retomar as negociações com o Executivo: “Ninguém está querendo ser irracional… queremos conversa”.
A necessidade de diálogo foi mencionada várias vezes em suas manifestações no dia da posse. Disse que o descompasso entre a Assembleia e o Executivo, como ocorreu nas sessões extraordinárias, “é um sintoma de problema grave” e se dispôs a ser “mediador disso aí” .
Na entrevista, defendeu o seu antecessor, deputado Edegar Pretto, do PT, acusado pelo líder do governo de manobras regimentais para evitar a votação dos projetos. “A Assembleia tem um regimento. O deputado Edegar Pretto cumpriu o regimento”, afirmou.
Nas próximas semanas, o acordo para suspender o pagamento da dívida com a União volta a acirrar os ânimos na Assembleia gaúcha, que agora terá Marlon Santos na condução dos trabalhos. “Sou uma alma aberta ao diálogo”, ele diz.
O desafio de Marlon Santos na presidência da Assembleia
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