Foram quase nove horas desde a detenção, ocorrida entre a rua Lima e Silva e avenida Loureiro da Silva, até que as quatro jovens saíssem do IML, para onde foram encaminhadas após serem liberadas da 3ªDPPA, delegacia da Polícia Civil no Bairro Navegantes.
Carolina, Alexandra, Nicole e Julia foram agredidas pela Brigada Militar, durante a manifestação da última sexta-feira, no bairro Cidade Baixa. As quatro jovens, com idades entre 20 e 25 anos, foram vítimas de bombas de gás, balas de borracha, puxões, empurrões, asfixia e beliscões em várias partes do corpo, além de sofrer ameaças.
Seus relatos foram ouvidos em entrevista coletiva, no quinto andar da Sede da Ajuris no bairro Praia de Belas em Porto Alegre. Elas foram as únicas detidas do protesto. A BM alegou desacato, tentativa de agressão e resistência a voz de prisão.
Ao fim do ato, bombas e prisões
A artista visual Alexandra Assunpção foi a primeira a se pronunciar. Ela disse que estava no protesto lutando pela cultura, que acredita “estar sendo destruída” pelo governo interino. Alexandra diz ter acompanhado quase todo o protesto, que até então seguia tranquilo, fazendo fotos e vídeos.
O pessoal já se dispersava quando de repente se depararam com bombas de gás e ação truculenta da cavalaria. Alexandra conta que se refugiou das bombas de gás em uma lancheria, onde lhe deram vinagre. Recuperada, voltou para a rua para filmar.
Ao olhar para o lado percebeu outra mulher jovem sendo carregada por dois homens de jaquetas pretas e calça jeans, aos gritos. Então, correu em direção aos três para tentar prestar ajuda à menina. Foi quando viu policiais vindo em sua direção. O alívio, por achar que estaria segura ao lado dos brigadianos que se aproximavam, foi desfeito rapidamente. Logo a separaram da jovem. Foi detida e arrastada pelos policias de quem esperava ajuda.
Ao ver Alexandra sendo agarrada por agentes do choque, a amiga Nicole saiu em sua defesa. Também foi carregada e detida. A tentativa de diálogo foi recusada com truculência e brutalidade. Bombas de gás, que foram disparadas pelo Batalhão de Choque, faziam do ambiente nada receptivo ainda mais viril.
agredidas, presas e algemadas
“Foi uma violência desproporcional”, relata Nicole. No caminho até o carro ouviram xingamentos, receberam apertões e foram algemadas. “Somente depois vi que a Nicole estava junto comigo”, relatou Alexandra. A violência psicológica era muito forte. Após saírem e entrarem diversas vezes do camburão entraram no carro para onde iriam para a Polícia. Dentro do veículo, nem o cinto de segurança foi colocado.
Seis policiais carregaram Carolina, afastada das outras duas. Ao vê-las no carro da frente, pediu para ir junto, o que lhe foi negado. A jovem, que é estudante de Jornalismo, estava no protesto manifestando seu repúdio ao machismo, ao fascismo e à homofobia.
Carolina conta que já estava indo embora quando começou a confusão e tentou se esconder do gás lacrimogênio e dos disparos de balas de borracha atrás de um contêiner. Dois homens “enjaquetados” vieram em sua direção e exigiram que ficasse quieta, enquanto a seguraram fortemente.
Quando Carolina começou a gritar, vieram seis homens do choque e a levaram. Antes disso, ela conta ter apanhado bastante da Brigada Militar. Um brigadiano apertou seu pescoço a deixando sem ar. Já dentro da viatura, algemada, foi ameaçada por um policial. “Se vierem te proteger vão tomar bala”, disse o homem. Logo depois foi encaminhada à delegacia.
Longe dali, a estudante de direito Julia procurava notícias das amigas, até então sem saber para onde haviam sido levadas. Julia não foi pega pela Tropa de Choque da Brigada, mas tomou dois tiros de borracha, que atingiram seu braço direito e joelho esquerdo. As bombas de gás também a fizeram ficar tonta e sem ar.
Já recomposta, descobriu o paradeiro das outras. Chegando na Delegacia, onde pretendia prestar queixa das agressões e saber o paradeiro das amigas, foi surpreendida. “De vítima passei a ser acusada” revela. Um policial deu voz de prisão e disse que sabia que ela estava na manifestação. Mesmo sabendo de seus direitos e de que aquilo não poderia se proceder daquele jeito, preferiu não fazer resistência. Foi algemada e levada junto as outras.
Advogados chegaram e tratamento mudou
Os advogados Darcy de Moraes e Lucemara Beltrami chegaram à delegacia, quiseram falar com as moças e após se identificarem, pediram que elas fossem desalgemadas. Não foram atendidos de imediato, pois, segundo os policiais que ficaram no local, as chaves estavam em poder de outro policial, que havia levado outras duas acusadas para atendimento médico.
Os dois advogados haviam participado da então manifestação pacifica e sem tumultos. Saíram antes do ataque da BM. Já em suas casas foram surpresos ao saber que uma jovem manifestante estava desaparecida. Apoiados pelas redes sociais eles conseguiram encontra-la e, por consequência, as outras três. A comunicação via redes sociais ajudou na procura.
“O tratamento humilhante só mudou com a nossa presença”, relatou a advogada. A partir de agora eles tratarão do caso juridicamente. “Vamos defender elas dessa acusação irresponsável”, afirmou Darcy. Os dois homens de jaquetas pretas relatados na entrevista coletiva eram da infiltrados da Polícia Militar. Um deles é Leandro Luz. O caso será denunciado ao Ministério Público Estadual.

Deixe uma resposta