Fundação prepara catálogo com obra completa de Iberê

Guilherme Kolling

Depois de cinco anos de pesquisa, a Fundação Iberê Camargo prepara o lançamento do primeiro catálogo com a obra do artista gaúcho que dá nome à instituição. O livro trará a compilação das gravuras e deve estar pronto em março de 2006, numa parceria com a Cosac Naify, considerada a melhor editora em artes visuais do país. Estão previstas outras duas publicações, uma dedicada aos desenhos e outra aos óleos (pinturas).

Os três módulos formam o conjunto do acervo de Iberê. É o chamado catologue rasonée, um catálogo pensado, que organiza a lista das obras com um determinado enfoque, apresentando a imagem de cada uma com um texto refletindo aspectos do trabalho. “Nas gravuras, optei pelo critério da especificidade técnica”, diz Mônica Zielinsky, contratada pela Fundação para comandar o trabalho.

A primeira fase está sendo concluída. Foram localizadas 350 gravuras, mas o livro terá 330. “Em algumas fiquei com dúvida sobre autoria, pode ser trabalho de um aluno, por isso deixamos fora”, explica Mônica, que também é professora do Instituto de Artes da UFRGS.

Além das peças em poder da Fundação, 4.200 ao todo, foram mapeadas obras de coleções públicas no Brasil e no exterior, o que inclui desde o Margs até a Fundação Biblioteca Nacional e instituições da França e dos Estados Unidos. Falta ainda localizar as peças em poder de particulares.
A listagem das gravuras foi facilitada, já que Iberê guardava um exemplar de cada. Deixou para a viúva e presidente de honra da Fundação, Maria Coussirat Camargo. “De algumas, ela só tinha provas intermediárias, mas conseguimos os originais de quase todas gravuras”, comemora Mônica.

A próxima etapa será mais trabalhosa. É a catalogação das pinturas, cerca de 1.300, segundo estimativas da Fundação, que possui 217. Finalmente, será feito o trabalho com os desenhos. A instituição dedicada a Iberê Camargo possui quatro mil, mas não se tem idéia do total – há centenas, talvez milhares, espalhados pelo Brasil e exterior. São inúmeras coleções, o que inclui não só museus, mas também acervo de particulares. “Por isso o catálogo é muito importante, abre as fontes primárias ao público, estudiosos e ao próprio mercado, garantindo a autenticidade, isto é, sabe-se que essas são obras legítimas do Iberê Camargo”, define a pesquisadora. No Brasil, apenas o trabalho de Cândido Portinari tem um catalogue rasonée.

Mônica Zielinsky comemora conclusão da primeira etapa do catálogo

O mapeamento da obra de Iberê Camargo faz parte dos objetivos da Fundação, que pretende conservar, estudar e divulgar o trabalho do artista gaúcho. “O catálogo é uma difusão qualitativa e pensada”, classifica Monica. Também terá repercussão no valor de mercado da obra. A publicação será distribuída para museus, instituições de arte do mundo. A tiragem inicial será de 1 mil exemplares. Depois serão impressos mais 2 mil. “Com isso, o status da obra do Iberê Camargo cresce e solidifica”, acredita a professora da UFRGS.

Ao longo da pesquisa, que ela considera sua melhor experiência de vida, foram encontradas diversas novidades no acervo documental e artístico do pintor. Exemplo, uma homenagem a Manuel Bandeira, da qual não se sabia, e dedicatórias deixadas para Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. “São descobertas incríveis, as cartas dele, a relação dele no meio”, empolga-se Mônica Zielinsky. O trabalho começou praticamente do zero, pelas pouquíssimas experiências desse tipo no país. Mesmo assim, a catalogação da obra de Iberê já é vista como referência, já que recebe contribuições de técnicos do país e exterior que já trabalharam em outros catalogue rasonée. A tarefa de catalogar a obra de Iberê é extensa, deve seguir por alguns anos. “O material que existe em coleções privadas é uma coisa interminável, acho que esse mapeamento só vai terminar daqui a uma década, é um projeto de longo prazo”, acredita o vice-presidente da Fundação, Justo Werlang.

Artista ganhará museu no segundo semestre de 2006

Autobiografia do artista

Em 1985, Iberê Camargo escreveu um esboço autobiográfico, na verdade, respostas a questões do crítico e amigo Flávio Aquino para um livro que acabou não saindo. O artista nasceu em 18 de novembro de 1914, em Restinga Seca (RS). Seus pais eram ferroviários. “Comecei a desenhar com quatro anos de idade. Sentado no chão passava horas a fio a rabiscar”.

Em 1927, Iberê foi para a Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, onde iniciou seu aprendizado de pintura. Em 1936, foi para Porto Alegre, onde trabalhou como desenhista na Secretaria de Obras Públicas e freqüentou o curso técnico de Arquitetura do Instituto de Belas Artes. Casou-se em 1939. Depois, conseguiu uma bolsa do Governo para estudar no Rio de Janeiro. Logo foi à casa de Portinari. “Apesar das recomendações dele, ingressei na Escola de Belas Artes”. Mas o gaúcho logo encerrou sua atividade lá, por um incidente com o professor. Tornou-se aluno de Guignard.

Em 1947, Iberê partiu para Europa, onde ficou até novembro de 1950. Foi aluno de De Chirico em Roma e Lhote em Paris. “Em 1958, uma hérnia de disco provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-me a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, meus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. Surgem, então, os carretéis. Através de suas estruturas, cheguei ao que se chama, no dicionário da pintura, arte abstrata”.

Depois de um longo período no Rio, o artista voltou para o Sul. “Devo confessar que, quando corro nas manhãs de sol no Parque da Redenção, noto que a minha sombra não acompanha meu ‘tranco’, ela corre muito devagar. A verdadeira pintura não é uma narrativa de fatos, mas o próprio fato”. “Realizei inúmeras exposições no Brasil e no exterior e participei de vários salões e bienais. Não destaco este ou aquele evento. Todos têm o mesmo peso, isto é, pouco”.

Iberê Camargo morreu de câncer, em 31 de julho de 1994, aos 80 anos, em Porto Alegre. Deixou mais de sete mil obras. Grande parte ficou com a esposa, Maria Coussirat Camargo, e hoje integra o acervo da Fundação Iberê Camargo, cujo site (http://www.uol.iberecamargo.uol.com.br) apresenta a íntegra do texto autobiográfico.

Adquira nossas publicações

texto asjjsa akskalsa

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *