O voto não era secreto. Poucos foram às urnas para eleger o carioca José Montaury, que seria sete vezes reeleito.
A cidade ainda curava as feridas de 31 meses de guerra civil, a mais sangrenta que o Rio Grande do Sul viveu, com um saldo de dez mil mortos*.
Porto Alegre ficou distante das maiores barbaridade – as degolas em massa, por exemplo – mas registrou assassinatos e tiroteios no centro da cidade.
A paz era recente, a manifestação política ainda era inibida, havia muitos líderes exilados. Fora isso, o voto não era obrigatório. A oposição não apresentou candidato e fez campanha pela abstenção. Por isso pouca gente compareceu às urnas naquele setembro de 1896.
Era a primeira eleição direta para prefeito da história da cidade.
As regras eram bem diferentes das atuais. Em primeiro lugar, mulher não votava e não era votada. O voto feminino só entrou nas urnas brasileiras trinta e oito anos depois, na Constituição de 1934.
Em segundo lugar, o voto não era secreto, era “a descoberto”. Toda cidade ficava sabendo quem votou em quem.
Em terceiro lugar, quem alistava os eleitores, decidia quem estava habilitado a votar e coordenava o processo eleitoral eram funcionários do governo, fato sempre denunciado ela oposição.
Ao todo estavam qualificados para votar 5.746 eleitores, distribuidos em 23 mesas de 10 seções eleitorais. Menos de 10% dos habitantes da capital.
Menos de 10% da população tinha direito a voto
Com 64 mil habitantes, Porto Alegre não tinha mais do que 5.746 eleitores aptos a votar naquela primeira eleição para prefeito, em 1896. Ou seja: o total dos que podiam votar não alcançava dez por cento da população. E mais da metade destes não exerceram o recém conquistado direito de voto.
Candidato único, pelo Partido Republicano, José Montaury foi eleito com 2.393 votos, o que significa que apenas 42% dos eleitores qualificados compareceram às urnas.
Os nove conselheiros (atuais vereadores) eleitos eram todos, como Montaury, do Partido Republicano Riograndense, que dominava o governo do Estado, sob o pulso de Julio de Castilhos.
No dia 1 de outubro de 1896, a foto de Montaury na capa do Correio do Povo causou sensação em todo o Estado. Mostrava o primeiro eleito da capital, mas era a primeira vez que um jornal local estampava uma foto. O jornal completava um ano de vida e comemorava com a inovação de um “retrato” na capa.

A matéria dizia: “José Montaury de Aguiar Leitão é natural do Rio de Janeiro, solteiro, tem 38 anosa, é engenheiro. Reside há anos aqui, desde quando veio como diretor da Comissão de Terras e Colonização. Eficiente, digno de confiança dos governos da Monarquia e da República… alheio às lutas da política partidária…”
De fato, Montaury mostrou ser tudo isso. Principalmente, honesto, pois governou por 27 anos e morreu, em 28 de setembro de 1939, “pobre e modestamente”, segundo registrou Walter Spalding, em sua Pequena História de Porto Alegre. Quando deixou a prefeitura levou consigo somente seus vencimentos do último mês: 400 mil réis.
Na segunda eleição de Montaury, em 1900, também sem adversário, ele fez 3.900 votos. Só na quarta eleição consecutiva, Montaury enfrentou um adversário, o engenheiro Antão de Faria. As críticas dos opositores centravam-se no falto de ele ser “carioca e solteiro sem sequer ter residência fixa aqui em Porto Alegre”. Não adiantou, ele teve 5.106 votos contra apenas 392 dados a Faria.
Na quinta eleição também não teve adversário, mas na sexta aparece novo opositor, Antonio Moraes Fernandes. Seu curto e incisivo programa de ação era: “Acabar com a tirania borgista através de uma revolução”.
Fez apenas 622 votos. Montaury fez mais de 6.000. A revolução que seu adversário pregava chegaria sete anos depois (1923) e decretaria o fim da ditadura republicana, mas ainda deu tempo para um sétimo mandato de José Montaury.
Ninguém saía de casa sem chapéu
O 28 de setembro de 1896 foi “uma segunda feira sem sol”. A votação começou as 9 da manhã. Alguns eleitores se dirigiram às mesas a bordo dos maxambombas, os bondes puxados a burro. Muitos foram a pé, outros em carroças, charretes ou tílburis, os taxis da época, puxados a cavalo (o primeiro carro só apareceria na cidade dez anos mais tarde).
Damas bem vestidas, com suas sombrinhas e longos vestidos, apenas desfilavam ao lado dos homens que iam votar. Estes sempre com algo em comum: o chapéu. Ninguém saía de casa sem chapéu, muito menos para votar.
Apesar de hostilidades verbais, no dia da votação não houve registro de incidentes e os eleitores compareceram calmamente às eleições.
À noite, quando as redações dos jornais preparavam o noticiário sobre a votação, às 22 horas , irrompeu um grande incêndio na cidade: três armazéns queimaram totalmente na rua Sete de Setembro. No dia seguinte, os primeiros resultados parciais, saíram na imprensa com o mesmo destaque dado ao incêndio.
Estupro, suicídio, maus tratos a animais, falta dágua: o cotidiano nos jornais
Embora fosse uma mudança histórica – a primeira vez que os cidadãos iam eleger seu prefeito – os jornais da época deram pouco destaque ao pleito municipal.
Uma semana antes da votação, a grande polêmica era um “grave incidente” ocorrido na igreja das Dores: o defloramento da menor Clementina pelo vigário Bartholomeu”, noticiada pelo Correio do Povo.
No mais, as notícias eram corriqueiras: a moradora da Azenha que tenta se matar ingerindo “cabeças de phosphoros de pau”; reclamações contra “imperícia ou malvadez” dos cocheiros das linhas de bondes puxados a burro; multa para a contratante da iluminação a querosene “por terem sido encontrados apagados três lampeãoes na praça Menino Deus…”
Os críticos falavam em “cidade aldeia”, tamanha era a carência dos básicos serviços de infraestrutura em Porto Alegre nessa época.
Em todas as publicações, muito destaque para as chegadas e partidas dos vapores no porto, com lista de passageiros e tudo. Afinal, a vida econômica da cidade dependia do porto.
Manchete também para a falta de água no Moinhos de Vento e avenida Independência. Água que não era tratada. Apenas coletada no canal central do Guaiba e decantada.

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