Por Francisco Ribeiro
Entrou em cartaz nesta quinta-feira, 28, no Cine Guion, “ Heimat, a outra pátria”, 2013, de Edgar Reitz. Trata-se da quarta parte de uma obra de grande sucesso na televisão alemã, iniciada em 1984. A apresentação do filme em Porto Alegre – que integra as comemorações dos 190 anos da imigração alemã para o Estado – tem a parceria do Instituto Goethe, responsável pela vinda do jovem ator Jan Dieter Schneider, protagonista desta película que também conta com a participação especial do diretor Werner Herzog, interpretando o naturalista Alexander von Humboldt.
Nas três partes anteriores – Heimat 1: Uma crônica da Alemanha, 1984; Heimat 2: Crônica de uma geração, 1992; e Heimat 3: Crônica da mudança de uma época, 2004 – Reitz , em 30 capítulos que somam quase 52 horas, contou a história da Alemanha no século XX: do término da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) até aurora do novo milênio.
Em “Heimat, a outra pátria”, o diretor, no vigor dos seus 82 anos, concentrou sua narrativa no começo da década de 40 do século XIX, onde, numa situação de penúria, a imigração para o Brasil aparece como solução para fugir da miséria. Mas o filme não trata, apenas, de questões pragmáticas, como trabalho e sobrevivência. Dividido em dois episódios – Crônica de um sonho, e Êxodo – a história, com cerca quatro horas de duração, se passa no vilarejo fictício de Schabbach, na região do Hunsrück (Renânia- Palatinado, sudoeste da Alemanha).
Em Schabbach vive a família Simon, composta de ferreiros e camponeses. Contudo, alguém destoa neste ambiente tacanho e conservador. Trata-se de Jakob (Jan Schneider), o filho caçula, o único que sabe ler, que sonha com a América e seus índios, crendo-se, em momentos de delírio, um deles. Jakob, enquanto narrador, fala com paixão das línguas ameríndias, estuda, faz correspondências com seu dialeto materno, e surpreende-se, no caso específico de uma tribo da Amazônia, dela ter 22 palavras para designar diferentes tipos de verde.
Mas Jakob verá seus planos frustrados pelo seu irmão Gustav (Maximilian Sheidt), que se apropria dos seus sonhos : tanto no amor, casando-se com Jettchen (Antônia Bill) ; como na ida para o Brasil. Isso o obriga, pela tradição, a ficar no vilarejo e cuidar dos mais velhos, e dos negócios da família. Mas sentimentos e sensações não são fixos, Jakob saberá unir sonho e inventividade, a ingressar na modernidade dos novos tempos, como sugere a máquina a vapor.
Em Heimat, a outra pátria, se fala muito em Brasil, no Rio Grande do Sul, e em Porto Alegre: agentes da imigração fazem propaganda de uma exótica – não falta o papagaio no ombro – e paradisíaca América do Sul; das promessas do jovem imperador brasileiro, ele próprio, meio germânico; da possibilidade de viver num lugar onde o sol brilha com mais intensidade, invernos sem neve. Mas não aparece ninguém com a informação de que, na época, o Continente de São Pedro do Rio Grande, vive uma guerra: a dos Farrapos.
Isso, certamente, teria sido corrigido se Reitz, como era seu desejo, pudesse ambientar uma parte do filme no Rio Grande do Sul. “A falta de uma produtora brasileira que entrasse como parceira impossibilitou o projeto, falta de recursos, ” explicou a diretora do Instituto Goethe, Marina Ludeman. Apesar disso, ela destaca o preciosismo na reconstrução de uma típica aldeia alemã do século XIX: “chegaram, inclusive, a plantar a espécie de trigo da época, que não se cultiva mais”.
Reizt, em relação à trilogia anterior, manteve a coerência estética. Filmou em preto e branco, com pequenos toques coloridos, que servem como reforço semântico, para destacar sensibilidades líricas, ou momentos de felicidade. Fica de mais interessante nesta quarta parte de Heimat, a reconstituição do ambiente camponês europeu do século XIX, da lama que parece querer invadir tudo. Também o sopro das revoluções que após a queda do império napoleônico impregna o velho continente, o sonho da república, a luta de um punhado de não-conformistas em varrer os restos feudais – pré-unificação alemã de 1871 – ainda existentes.
Enfim, dá para entender – através das imagens épicas dos grande carroções que cortam as colinas – os sonhos daqueles alemães que vieram para o Brasil no século XIX. E cujos dialetos e costumes ancestrais ainda podem ser encontrados em algumas regioes do Rio Grande do Sul atual, como por exemplo, Santa Maria do Herval, a Heimat gaúcha, futuro cenário, quem sabe, de um novo capítulo a ser filmado por Edgar Reitz.

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