
O museu tem um público predominante de alunos devido à característica educativa do acervo
(Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)
Naira Hofmeister
O Museu Júlio de Castilhos completa, nesta segunda-feira (30/01), 103 anos dedicados à conservação da memória do Estado. Sua relação com o passado gaúcho começa no próprio prédio que ocupa: a antiga casa do Presidente do Estado à que rende homenagem. Júlio de Castilhos morou na casa rosada até sua morte, em 1903, o mesmo ano em que foi fundado o Museu.
Ao longo dos 103 anos de existência o Museu Júlio de Castilhos acumulou um acervo superior aos 11 mil objetos, quase todos relacionados com a identidade gaúcha, das Missões às Revolução Farroupilha, passando por personagens como Getúlio Vargas e próprio Júlio de Castilhos, além do famoso Gigante, cujas botas impressionam os visitantes do museu.
O Museu do Estado – primeira denominação do atual MJC – foi fundado por decreto assinado pelo então Presidente do Estado Borges de Medeiros, com o objetivo de abrigar objetos que vinham sendo coletados desde 1901, e estavam sediados nos pavilhões construídos para a 1ª Exposição Agropecuária e Industrial do Estado – no atual Parque da Redenção. Após a morte de Júlio de Castilhos, sua casa foi doada para a instituição, que em 1907 ganhou o nome que carrega até hoje. Nesse período, do MJC, se desmembraram o Arquivo Histórico, o Museu da Fundação Zoobotânica e o próprio MARGS.
Pela característica educativa de seu acervo, o MJC tem um público predominante de alunos: “esse tipo de museu tem uma vocação didática”, afirma a diretora, Nara Machado Nunes. Sem um cálculo preciso, a administração do museu estima que, dos mais de 20 mil visitantes contabilizados, cerca de 80% sejam crianças e adolescentes de escolas. “Também recebemos muitos turistas e a população do município”, explica.
A manutenção da entidade é feita pela Secretaria do estado de Cultura, porém, cada vez mais a receita tem sido complementada através de projetos para agentes financiadores – tanto públicos como empresas privadas. Entre eles, um recém implantado sistema de segurança eletrônica que monitora todas as salas onde há acervo exposto.

São mais de 11 mil objetos relacionados com a identidade gaúcha, das Missões às Revolução Farroupilha
E 2006 promete ser promissor para a administração: já em janeiro o MJC foi contemplado com um edital do Ministério da Cultura que irá patrocinar moveis sob-medida para as obras que não estão expostas. “Desde o início dos anos 90, o Poder Público se encolheu e nos restringiu aos editais”, lamenta Nara. Também há um projeto para lançar o site na Internet da instituição: “Planejamos para o dia 30, aniversario do museu, mas não temos certeza se estará pronto”, ressalva Nara.
Além das exposições permanentes – que incluem o quarto e o gabinete de Júlio de Castilhos e as salas Indígena e Missioneira – um cômodo do museu fica a disposição para mostras temporárias – atualmente, Alegoria Barroca na Arte contemporânea – e abre espaços para outras manifestações artísticas. Sempre na última quarta-feira do mês, há uma apresentação de músicos do Instituto de Artes da UFRGS, com composições eruditas. Há também a tradicional oficina de Restauro e Conservação em Madeira, a única atividade paga no Museu.
Além da história, estórias do além
Há quem diga que o Museu, além do acervo riquíssimo que possui, também abriga os fantasmas de Júlio de Castilhos e de seu esposa, Honorina, que morreram na casa. O Presidente faleceu em 1903, vítima de uma cirurgia para a retirada de um tumor e sua esposa, inconformada com a sua morte, suicidou-se dois anos depois.
Desde a década de 70, quando se intensificaram as visitas ao Museu, até a atualidade, depoimentos atestam a visão de fantasmas circulando pelo ambiente. Um dos casos mais conhecidos é de um vigilante noturno que, após fazer a guarda no Museu, pediu demissão, apavorado com a companhia indesejável que tivera na noite anterior. Luzes que acendem e apagam sozinhas, correntes arrastando e gritos também são relatos comuns entre os funcionários.
Júlio de Castilhos: o nome e o personagem
Júlio Prates de Castilhos nasceu em 29 de junho de 1860, na Fazenda da Reserva, atual município de Julio de Castilhos. Formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde conheceu a filosofia positivista, da qual tornou-se adepto. Além da advocacia, exerceu a política e o jornalismo.
Líder Republicano, Castilhos participou, em 1882, da fundação do Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Em 1884, assumiu o cargo de editor-chefe do jornal A Federação, tornando-se, mais tarde, o diretor.
Como deputado federal, participou da Constituinte de 1891 – a primeira constituição gaúcha foi baseada em projeto de sua autoria. No final de 1892, assumiu, pela segunda vez, a presidência do Estado – cargo ao qual havia renunciado em 1891. Em 1893, na revolução federalista, derrotou os “maragatos” (federalistas e monarquistas, liderados por Gaspar Silveira Martins, que usavam lenços vermelhos) como líder dos “pica-paus republicanos” (adeptos do Estado local forte e autônomo, que usavam lenços brancos).
Em 1898 transmitiu o cargo de Presidente do Estado a Borges de Medeiros, mantendo-se na direção do PRR até a sua morte, em 24 de outubro de 1903. Na Praça da Matriz, no centro de Porto Alegre, um monumento presta homenagem a Julio de Castilhos, considerado um dos nomes mais célebres da história política do Estado.
Acompanhe as exposições permanentes do Museu Julio de Castilhos
Gabinete de Júlio de Castilhos – Mostra a trajetória do político Júlio de Castilhos, por meio de objetos pessoais, mobiliário, imagens e textos históricos com dados biográficos. As imagens remetem o visitante a Porto Alegre do final do século 19, mais precisamente o entorno da Praça da Matriz, com os prédios do Executivo e do Legislativo.
Sala Missioneira – Reúne exemplares da estatuária Missioneira, com idade superior a trezentos anos, que foram usadas pelos padres jesuítas na evangelização dos índios Guarani. As esculturas em madeira, representando santos católicos, se constituem nas primeiras doações recebidas pelo Museu Júlio de Castilhos, logo após a sua criação, em 1903. Destacam-se as esculturas de São Francisco Xavier e de Nossa Senhora da Conceição, além de bancos em formato de animais e sinos que pertenceram a capelas jesuíticas.
Sala Indígena – Enfoca a diversidade cultural existente entre os grupos indígenas que habitaram o Rio Grande do Sul. Estão representados desde os povos caçadores-coletores, nômades, até os dos sambaquis, que viveram na região litorânea. Também estão expostos instrumentos de trabalho, adornos, artesanato e cerâmicas dos grupos ligados à agricultura, estabelecidos, posteriormente, no Estado – entre eles os Guaranis e os Kaingang.
Escravatura – Exibe instrumentos de tortura, utilizados contra os negros escravos no Rio Grande do Sul.
Revolução Farroupilha – Expõe pinturas, em óleo sobre tela, retratando os líderes Bento Gonçalves e David Canabarro. Além das obras, armas usadas na revolução e objetos de uso pessoal da época.
Canhões Farroupilhas – No pátio do Museu, integrado em 2003 aos espaços de exposição da instituição, os visitantes podem conhecer canhões que pertenceram à esquadra de Garibaldi. Por longo tempo eles permaneceram no fundo do arroio Santa Izabel, na cidade gaúcha de Camaquã, onde foi travado um embate pelos Farrapos. Em 1926, os canhões foram resgatados e levados para a instituição.

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