Por Daiane Menezes
Domingo sim, domingo não, às 10h, instala-se na Redenção o Cantinho da Adoção. Ali porto-alegrenses podem levar cachorros e gatos que estão sob sua responsabilidade para tentar a sorte e talvez conseguir um novo lar. Boa parte dos animais trazidos para o Cantinho é recolhida das ruas. Outra parte vem do descuido dos donos que levaram à geração de ninhadas indesejadas.
Na última feira havia onze gatos e seis cachorros esperando ser adotados. A maioria com idade entre dois e quatro meses. No verão, costuma ter mais gatos para doação porque é a época em que procriam mais. No inverno, é a vez dos cachorros.
Há também no verão um aumento de animais adultos abandonados. “Os donos vão para a praia, não querem levar ou pagar hotel para deixar o bicho, aí largam por aí”, conta Débora. Os locais preferidos para o descarte são aqueles em que sabem que alguém acaba cuidando, como na Redenção, o que sobre carrega o trabalho já puxado dos voluntários.
Terrenos em que há bastante mata também são procurados nesta hora, como se os animais domésticos fossem instantaneamente voltar a ser selvagens. “Isto parece que aplaca a consciência desses donos irresponsáveis”, explica Liège Copstein, da associação Sítio dos Bichos.

A primeira a chegar na feira de adoção foi Ana Lúcia. Uma gatinha toda preta, de olhos castanhos e três meses e meio de vida. Os responsáveis por ela estavam preocupados em deixá-la com a colerinha colorida para que ficasse mais bonitinha e aumentasse sua chance de adoção. Assim que foi colocada na grande gaiola em que ficam todos os gatinhos, começou a tremer e ficou embaixo de um pano por horas.
A cachorrinha Malu é bege com preto, tem três meses e meio de idade, e chora muito. Mas quando passa um poodle, faz questão de mostrar seus dotes. Late compulsivamente. Ela ainda não é esterilizada. Na próxima vez, já terá que ser. A partir de quatro meses, todos os animais precisam ser castrados para participarem da feira de adoção. Antes disso, seus novos donos assinam um termo de compromisso e ganham da prefeitura a cirurgia para o seu bichano novo.
Quase todos que levam animais para serem doados têm uma história triste para contar. Depois de uma convivência de meses, é difícil se desapegar. Mas não podendo ficar com todos os bichos encontrados, não há outra saída que não tentar doá-los a alguém. Dona Maria, contando os três gatinhos que tentou dar na feira, tem 16 bichos: seis cachorros e dez gatos. Está atualmente desempregada. Não tem como sustentá-los. “Eles até dormem comigo”, conta ela.
Para evitar que os animais sejam doados e novamente abandonados, os futuros donos primeiro respondem um questionário e depois assinam um termo de compromisso. Os voluntários ficam sabendo se os interessados têm noção da responsabilidade financeira que implica um bicho (média de R$50,00 por mês de ração), o que o interessado em adotar faria se tivesse que se mudar ou quando for viajar, quantas horas o animal ficaria sozinho em casa, e que providência tomaria caso o cão ou o gato atacasse alguém ou destruísse alguma coisa da casa.

As pessoas passam, acham eles uma gracinha, mas dessa vez ninguém os levou para casa.
O último domingo de janeiro não foi um dia bom para os cães e gatos que esperavam uma nova casa. Além de muito quente, nenhum dos bichanos à disposição foi adotado.
Ana Lúcia, a gata pretinha, só se estressou, tremeu e bateu em todos os companheiros de gaiola. Malu, a cachorrinha, no final da feira lambia a pata com um olhar cabisbaixo, já cansada de balançar o rabinho para todos os que se aproximavam. A justificativa para o baixo desempenho da feira: “O parque está vazio”, diz Débora. Assim fica Porto Alegre nos finais de semana do verão, com poucas pessoas e muitos bichos abandonados.
Vitória parcial dos movimentos de proteção aos animais
Em dezembro do ano passado, os movimentos de proteção aos animais conseguiram que o Centro de Controle de Zoonoses parasse de recolher animais e sacrificá-los. Junto com essa lei, foi aprovada a castração gratuita, financiada pela prefeitura. No entanto, a esterilização de graça só acontece quando as ONGs se articulam e vão atrás, ou quando o CCZ faz mutirões nas comunidades carentes.
“Mas esses mutirões ainda são muito modestos”, diz Débora. As pessoas mais pobres continuam sem saber onde encontrar o serviço, e os bichos continuam procriando. Como o CCZ não mais recolhe os bichos e o programa de castração não funciona a todo vapor. Criou-se “uma situação de calamidade”, lamenta.

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