A partir desta terça-feira (4), o público terá a oportunidade de presenciar a hilariante montagem Gordos ou somewhere beyond the sea, do grupo Teatro Sarcáustico. A peça reflete sobre a condição do homem na contemporaneidade. O texto é uma comédia de humor negro, que ressalta acima de tudo as relações familiares. Conta a história de uma família que sofre para agregar-se novamente após uma tragédia.
Phyllis Hogan e seu filho Bishop passam cinco anos perdidos em uma ilha deserta, depois de sobreviverem a um acidente de avião. Tendo que se defenderem sozinhos, os dois se vêem obrigados a tomar decisões desagradáveis. Acreditando que a mulher e o filho estão mortos, o cineasta Howard Hogan passa viver com a amante, a atriz pornô Pam.
Quando a família volta, a situação de Hogan se complica. A amante está grávida e, para piorar, mãe e filho adquiriram hábitos bizarros para os conceitos da sociedade que encontram. Os dois serão obrigados a voltar aos padrões antigos, mesmo sabendo que não são mais as mesmas pessoas.
O diretor Daniel Colin interpreta Bishop
Ainda no primeiro ato – que se reveza entre a ilha e a residência dos Hogan – Phyllis narra ao publico sua angústia de sonhar sempre com homens gordos, usando saia, presos em uma jaula de zoológico. “O título da peça simboliza este pesadelo do qual ela não consegue se livrar”, explica Daniel Colin, ator e diretor do espetáculo. “Um dos segredos da peça está relacionado ao principal medo da Phyllis: o de ser uma aberração”. Segundo o diretor, a proposta desta montagem é justamente discutir “o que somos e o que temos que fingir ser”.
Gordos… é resultado do trabalho de conclusão de Colin e outras duas formandas – Andressa de Oliveira e Tatiana Mielczarski – do curso de Artes Cênicas – Habilitação em Interpretação Teatral da Ufrgs. E foi apresentado pela primeira vez em janeiro de 2004, sob a orientação da atriz e diretora Adriane Mottola.
Na ocasião, o grupo (que conta também com o ator Maico Silveira no elenco) apresentou a peça em dois atos. O terceiro ato só aconteceu em fevereiro deste ano, após os ensaios liderados por Colin, que freqüenta agora o Curso de Direção Teatral da Ufrgs.
O roteiro de autoria do próprio grupo teve influências de textos dos dramaturgos norte-americanos Nicky Silver e Tennessee Williams e do brasileiro Martins Pena, além de estudos das obras dos artistas plásticos Francis Bacon e Elke Krystufek e de filmes estrelados por Katharine Hepburn.
A relação da montagem com o cinema vai além das referências destes filmes da década de 50. Todos os personagens são ligados à sétima arte. Howard é um diretor de cinema de filmes de ficção científica B, Pam é uma atriz pornô de quinta categoria e Bishop é aficcionado por Katharine Hepburn.
A atriz torna-se onipresente no espetáculo. “Bishop fica o tempo todo falando da Katharine Hepburn, e dos filmes que a Katharine Hepburn fez”, adianta Colin. “A gente começou a brincar com isto e acabou optando por fazer projeções de imagens onde a Katharine Hepburn aparece”, completa.
O grupo ainda brincou com a linguagem do cinema, usando movimentos corporais que lembram câmera lenta, câmera rápida, pausas, retrocedência e outras soluções como flash-backs. A trilha sonora mantém o clima, sendo composta quase que totalmente por músicas de diversos filmes.
As deformações que aparecem em alguns quadros de Francis Bacon também estão muito presentes na estética do espetáculo. O elenco, de cabelos laranjas, circunda o palco revestido em um pano branco utilizando acessórios verdes vibrantes, “como se fossem borrões”, compara Maico Silveira.
O espaço vazio, com apenas um elemento cênico, promove a possibilidade da fragmentação do próprio espaço e do tempo, a todo instante. A iluminação concebida por Carina Sehn ressalta estes múltiplos lugares, possibilitando o acontecimento de duas cenas quase simultâneas, separadas apenas pela delimitação de espaço no palco.
A montagem, que cumpriu nova temporada em setembro de 2004 dentro da Ufrgs, estreou a versão atual em fevereiro de 2005 no Depósito de Teatro e foi considerada pela crítica um trabalho “de qualidade, inteligente, sensível, crítico e divertido”. Gordos ou somewhere beyond the sea volta a cartaz em curta temporada na Sala Álvaro Moreyra (Av. Érico Veríssimo, 307). Dias 04, 05, 06,12 e 13 de outubro, sempre às 20h.
Gordos ou somewhere beyond the sea
Direção: Daniel Colin
Elenco: Andressa de Oliveira, Daniel Colin, Maico Silveira e Tatiana Mielczarski
Onde: Sala Álvaro Moreyra (Av. Érico Veríssimo, 307)
Quando: Terças, quartas e quintas, sempre às 20h. Dias 04, 05, 06,12 e 13 de outubro

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