Higino Barros
Nesta segunda-feira serão conhecidos os vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura Adulta e Infantil 2016, a premiação mais concorrida da área no Rio Grande do Sul. A cerimônia acontecerá, na Noite do Livro, às 20h, no Teatro Renascença. Serão agraciados escritores de dez categorias, além do Livro do Ano, dos Destaques de Literatura e do Prêmio de Criação Literária 2016.
Para o grupo da Escola de Poesia, em especial, a noite é de expectativas e de visibilidade – chega na festa com duas indicações: na categoria Poema, com o livro E se alguém o pano, de Eliane Marques; e na categoria Ensaio de Literatura e Humanidades, com Nós cultuamos todas as doçuras, de Marília Floor Kosby, sobre a produção de matriz africana das doceiras de Pelotas.
“Embora tenha o nome de Escola de Poesia, nossa escola não tem a pretensão de ensinar poesia a ninguém. Contudo, quem quiser saber de poesia acabará aprendendo com os poetas lidos, estudados e discutidos durante encontro semanais”, explica Eliane Marques, uma das responsáveis pela instituição, ao lado de Lúcia Bins Ely e de Anelore Schumann.
Conceitos de trabalho
Ligada a uma instituição de psicanálise da Argentina, Après Coup, liderada pelas poetas e psicanalistas Marcela Villavella e Inés Bárrio, as sementes da Escola de Poesia surgem em Buenos Aires na década de 1970, e se fixam em Porto Alegre nos anos 1990″. Seus alicerces principais são os conceitos de trabalho, de grupo, de leitura produtiva, principalmente de poetas pertencentes à tradição, de escritura e de publicação.
“O método Menassa se constitui de três partes. O dia, a tarde e a noite. O dia diz respeito à fase inicial com contato com muitos poetas, com outros colegas. A tarde diz respeito à participação e organização desses trabalhos, de saraus. Não a simples presença de assistir um sarau, mas participar dele também e à publicação de uma revista de poesia. A fase da noite se compõe de um objeto final que é a publicação de um livro. Entendemos que é função do poeta publicar. Se não publica não existe como poeta”, afirma Eliane Marques.
Ativo através de publicações de revistas de poesias desde sua criação, de participações na Feira do Livro, o grupo se envolveu também em projetos sociais que usam a poesia para ajudar menores em situação de risco. Na Feira do Livro de 2016, lançou nova edição da revista “Ovo da Ema”, que contém a produção literária dos atuais de integrantes da escola.
Pelas indicações obtidas no Prêmio Açorianos de Literatura, o grupo da Escola de Poesia conseguiu em 2016 o reconhecimento da crítica e do mercado literário gaúcho. O que em tempos de crise e ataque às instituições de cultura em geral, vale como a leitura da melhor poesia.
Amostra
Poema de E Alguém o Pano, de Eliane Marques:
então tudo limpo até o prato que se lava
dos velames aos sacos a se estenderem nas amuradas
biografia e retrato
e bem junto ao muro bem desse tom azul-oscuro o desdito
enquanto alguém oração de graças
por que de algum distante a língua para a assepsia da tarde
são quatro
os punhos desde que algo os delate
e se dilatem os pés. chagas os seus calços
e permaneça a boca velada feito fósforo na caixa
ou amarração da âncora aqui ao lado do que se paga
a erdosain remo em busca da rosa metálica pouco importa
importa menos ainda o ferro forcado
a carta ao enforcado
tudo metades do corte de uma só vaca
são quatro
a moléstia do matarife com o que fora fermentado
mas cuidado o manquejo da vergonha exala
o fermento os louros diamantes que se os moleste agora
tudo qualquer lodo inclusive esse pedaço de bolo
ou a pecinha dos fundos túmulo sem cruz ou nome: assim não se usava
são quatro
o pulo sob a poça que foi barco a noite da sede pelas canoas ou dos entalhes
tudo fede a alho
também o vagão que traz os cacos da carga
são quatro
o ganido do cão sob as tábuas a quem se proíbe o charque
aí a postos a oficiala com as mãos cheias na cara dos finados
são quatro também contra o risco
de quem tranquila com a latitude da porta
saber-se cômodo do sem emenda e nem pássaros
assim o utensílio feito
que faça ele o teu café e pão o teu dia com o rebento das algas
Eliane Marques E se Alguém o Pano (2015 – Editora Escola de Poesia, finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2016); Relicário (2009 – Editorial Grupo Cero) e, com outros autores, Arado de Palavras (2008 – Editorial Grupo Cero). É coeditora da revista de poesia “OVO DA EMA” e coordena a Escola de Poesia. Graduada em Direito e Mestre em Hermenêutica Jurídica, além de poeta e escritora, trabalha no Tribunal de Contas do RS como Auditora Pública Externa.

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