GERALDO HASSE
O professor Luiz Augusto Fischer, líder do ensino e da crítica de literatura do Rio Grande do Sul, acaba de lançar o que provavelmente será reconhecido como o maior lançamento editorial de 2016.
É uma requintada reedição de “Antônio Chimango”, de Ramiro Barcellos, livreto lançado em 1915 para satirizar o poderoso presidente do Estado, Antonio Augusto Borges de Medeiros, apresentado então como “magro como lobisome, feio como o demônio”.
Por sua forma debochada, o poema em sextetos caiu no gosto popular e teve várias edições, tornando-se um clássico da literatura regional, comparado ao “Martin Fierro”, do argentino José Hernandez.
Em dois volumes, capa dura, somando 590 páginas, o trabalho de Fischer foi patrocinado pelo Banrisul, via Lei Rouanet.
Além do professor da UFRGS, que desde estudante, em 1979, se envolveu no estudo da terrível sátira de Ramiro Barcellos (médico da Santa Casa e senador), o livro coloca nas mãos dos leitores contemporâneos estudos antigos produzidos por Raymundo Faoro e Augusto Mayer; traz ainda artigos escritos agora por estudiosos como Fausto Domingues, do Instituto Histórico e Geográfico do RS; Gunther Axt, historiador; e José Francisco Botelho, tradutor; Sergio da Costa Franco, historiador; Michel Le Grand, estudioso da literatura gauchesca.
Enquanto o primeiro volume é todo ele dedicado ao Antonio Chimango, o segundo focaliza o restante da obra escrita de Ramiro Barcellos, autor de livros de história, discursos, artigos, poemas e ensaios.
Alguns textos são publicados com pseudônimos como Amaro Juvenal (“autor” do Chimango) ou “Dr. Raphael de Mattos”, usado em polêmicas sobre a prática da medicina e as políticas de saúde pública.
Como fecho de ouro, o livro apresenta em suas 28 páginas finais um estudo biográfico sobre Ramiro Barcellos.
Nesse ensaio, numa linguagem clara, muito mais para o jornalismo do que para a academia, Fischer mostra quem foi o autor de Antônio Chimango: culto e brigão, ele teve de esconder-se atrás de codinomes para fazer guerra aos gaúchos mais poderosos da época – Borges de Medeiros e Pinheiro Machado.
Quanto a isso, para tentar compreender por que eles brigavam, é bom mergulhar no levantamento (50 páginas) do historiador Gunther Axt, que focaliza as grandes obras públicas e privadas da época no Rio Grande do Sul: a exploração do carvão mineral, a ferrovia RS-SP e o porto de Rio Grande, entre outras.
Por jornais e no Senado, Barcellos envolveu-se em debates até com Ruy Barbosa, senador e ex-ministro da Fazenda.
Como político, parece que o pai de “Antônio Chimango” tinha conchavos com os grandes empreendedores da época, especialmente com o maior de todos, o norte-americano Percival Farqhar, que ganhou a concorrência para construir a ferrovia RS-SP e, após devastar a mata atlântica do oeste de Santa Catarina, deu origem à Guerra do Contestado (1912-1916).

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