Marcha lembra morte de líder guarani

Índios rezam pelos mortos na Coxilha do Caiboaté  (Foto: Daniel Cassol)
Nesta terça-feira (7/02) , no município de São Gabriel, a cerca de 320 quilômetros de Porto Alegre,  uma marcha irá lembrar os 250 anos da morte do líder guarani Sepé Tiaraju, que lutou contra a dominação espanhola e portuguesa na região. A caminhada marcará o encerramento da Assembléia Continental do Povo Guarani, iniciada na sexta-feira (3/02). Os participantes sairão da entrada de São Gabriel até o local onde Sepé foi morto, conhecido como Sanga da Bica.
A Assembléia está reunindo aproximadamente quatro mil representantes de povos indígenas e de movimentos sociais. Estão presentes cerca de 1,2 mil índios guarani, kaingang e charrua de todo o Brasil e de países como Paraguai, Uruguai e Argentina. O evento também conta com a participação de cerca de mil agricultores que fazem parte da Via Campesina, de 200 quilombolas, de 700 jovens do campo e da cidade, além de catadores de material reciclável.
Após a marcha, será inaugurada a pedra fundamental do monumento projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem ao líder guarani. A previsão do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) é que, além dos quatro mil participantes, cerca de seis mil pessoas, entre moradores de São Gabriel e agricultores familiares que vivem em assentamentos da região, acompanhem as atividades.
Sepé Tiaraju é considerado um símbolo de resistência e de luta para preservar a cultura e o território onde os guaranis viviam. “Esse encontro é um acontecimento importantíssimo, a figura do Sepé aparece como um símbolo de força, de resistência guarani”, diz Leonardo Werátupã, que vive na aldeia Morro dos Cavalos, em Santa Catarina.
A edição especial de janeiro e fevereiro do Jornal JÁ reconstrói a trajetória do índio guarani.


Massacre em Caiboaté

Portugueses e espanhóis se uniram para produzir um dos episódios mais infames da história latino-americana.
Elmar Bones
Autores ufanistas dizem que foram os bandeirantes, paulistas e lagunistas que, “enfrentando o sertão bruto”, conquistaram o Sul do Brasil para Portugal. Convém não esquecer o papel de uma mulher – Maria Bárbara de Bragança, filha de João V, rei de Portugal, que casou com Fernando VI, da Espanha.
Ela era “feia mal encarada e tinha o rosto picado de varíola”. O marido só a conheceu no dia do casamento e os cronistas registraram o desagrado estampado no rosto dele, quando a viu – “como se estivesse convencido de que o haviam logrado”.
Depois de casado, porém, Fernando VI tornou-se “marido apaixonado, dócil e submisso”. Ela, então, orientada pelo ministro Alexandre Gusmão, nascido no Brasil, passou a usar sua influência para favorecer Portugal nas disputas com a Espanha.
Assim nasceu o tratado assinado a 3 de janeiro de 1750, em Madrid. Portugal cederia à Espanha a Colônia do Sacramento, um reduto perdido perto de Buenos Aires, em troca das Missões Orientais do Uruguai, os chamados Sete Povos que ocupavam mais de um terço do território do atual Rio Grande do Sul.
“A Espanha entregava a Portugal uma área que lhe pertencia e recebia em troca outra que também já era de sua propriedade”, diz o historiador Rubens Vidal Araújo.
Seis meses depois da assinatura do tratado, morreu o rei português. Assumiu José I, irmão de D. Maria Bárbara, que nomeou José Carvalho de Melo, seu primeiro ministro. Com o título de Marquês do Pombal, ele iria dirigir Portugal com mão de ferro por quatro décadas.
Inimigo dos Jesuítas, disposto a bani-los de Portugal, Pombal viu naquele tratado o instrumento que precisava para golpeá-los mortalmente.
A civilização que haviam construído na América, organizando os índios guarani nas reduções, lhes dava prestígio aos jesuítas em toda a Europa. Pombal não poupou esforços para destruí-la
.
(…)  O primeiro mandamento de um jesuíta é a obediência absoluta aos seus superiores. Por isso os padres das reduções – não apenas espanhóis, mas franceses, alemães, poloneses – não tiveram alternativa, apesar do absurdo da ordem que era remover toda a população das reduções – cerca de 30 mil pessoas para “otras tierras de Espanha”.
Portugal receberia o território com as povoações, com suas casas, igrejas, prédios comuns, celeiros, lavouras, estâncias (os guaranis poderiam levar o gado, cerca de 700 mil cabeças).
Em 15 de agosto de 1752, chegou à região, o padre Luis Altamirando, comissário eclesiástico, para fazer os jesuítas obedecerem a decisão do rei, acatada por seus superiores em Roma.
Foi avisado que os índios não aceitariam a mudança. Em abril, ele teve que fugir para não ser morto pelos guaranis revoltados, que o consideravam traidor.
Pouco depois, os demarcadores espanhóis e portugueses que assinalavam os novos limites, também tiveram que abandonar a região por causa da rebelião que se ampliava.
Pressionado por Portugal, o rei espanhol ordena que a remoção seja feita pela força. O rei português ajuda com tropas para aniquilar a resistência dos missioneiros.
(…)  Os tapes demoraram uns meses para aplainar as suas dissenções internas. Finalmente foi criada uma espécie de confederação que abrangia os Sete Povos mais algumas reduções de Corrientes, isto é, da margem direita do rio Uruguai.
O contingente de San Miguel foi o primeiro a ser organizado. Compunha-se de 400 cavaleiros, armados de lanças, boleadeiras e uns poucos canhões de taquaruçu revestidos de couro amarrado com braçadeiras de ferro. Podiam dar dois ou três tiros no máximo. O comandante era o corregedor de San Miguel, José Sepé Tiaraju.
Ele organizou os índios em pequenos grupos a cavalo para os ataques à montonera. Montonera é uma pequena força de cavalaria um pouco maior que uma patrulha montada. É uma unidade autônoma, que age por conta própria, obedecendo apenas a uma ordem geral.
(…)  Na primeira tentativa de invadir o território das missões, as tropas portuguesas e espanholas foram rechaçadas pelas guerrilhas de Sepé, com a ajuda do inverno rigoroso e das chuvas que impediam a movimentação dos soldados. Empreenderam, então, um recuo tático, para se reorganizar.
Seis meses depois, em dezembro de 1755, os dois exércitos se juntaram novamente nas proximidades de Bagé, para o ataque final.
Formavam uma fila de cinco léguas, que se movia vagarosamente. Eram mais de 4 mil soldados, com 550 carretas de mantimentos armas e munições, 30 mil animais, entre bois mansos, reses para consumo, cavalos e mulas, além de 20 canhões e 40 peças de artilharia.
Para defesa dos Sete Povos, Sepé contava com 1.700 índios, armados de lanças, boleadeiras e uns poucos canhões rústicos, feitos de taquara grossa recoberta com couro, que podiam dar dois ou três tiros no máximo.
Ele, então, dividiu novamente seus guerreiros em pequenos grupos a cavalo, para embaraçar o avanço do exército com ataques guerrilheiros, de surpresa.
(…)  A tática de Sepé estava dando certo, as tropas avançavam penosamente, fustigadas por suas montoneras.
Num desses ataques, o próprio Sepé estava a frente de 200 índios, que saíram do mato para atacar alguns soldados que se afastaram do grosso da tropa.
Não perceberam uma outra força de 800 homens, comandada pelo governador de Montevidéu, Joaquim Viana, que estava perto. Massacraram os soldados dispersos, mas quando retornavam ao mato, os homens de Viana caíram sobre eles.
Na corrida, o cavalo de Sepé mete a pata dianteira num buraco. O cavalo roda, Sepé vai ao chão. Historiadores mais entusiasmados dizem que ele, exímio cavaleiro, caiu em pé. O certo é que um soldado que vinha na perseguição o atingiu com um golpe de lança. Ele ainda tentou fugir. O próprio Viana veio dar-lhe o tiro de misericórdia.
Eram oito horas da noite do dia 7 de fevereiro de 1756. Os índios ainda lutaram até escurecer e tiveram que se refugiar no mato, deixando o corpo de Sepé, o único morto entre eles. Vieram buscá-lo de madrugada, para enterrá-lo à beira de uma sanga – hoje, área urbana da cidade de São Gabriel.
(…) Com a morte de Sepé, os índios ficaram desarvorados. Além disso foram enganados pelos invasores que acenaram com uma trégua, apenas para ganhar tempo e apanhar os índios desprevenidos. Dois dias depois, três mil soldados, com todo seu poderio de fogo, caíram sobre os índios acampados na localidade de Caiboaté. O combate durou pouco mais de uma hora. Morreram mais de 1.500 índios. Praticamente acabou a resistência. O exército invadiu as missões, seus moradores se dispersaram pelos campos.
Leia reportagem na íntegra no Jornal JÁ Porto Alegre, que está nas bancas.

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