Mau uso dos contêineres espalha lixo por toda a cidade

Geraldo Hasse
Os contêineres de lixo adotados pelo DMLU em Porto Alegre lembram as bolantas usadas em lavouras de arroz do Rio Grande do Sul de outrora.  Até se poderia pensar que, se fossem um pouco maiores, esses grandes recipientes metálicos seriam uma gentil oferta habitacional da Prefeitura aos nossos moradores de ruas, muitos deles vindos de pequenas cidades e/ou das zonas rurais.
Mas que bobagem, os contêineres de lixo não são habitáveis como as bolantas lavoureiras, com seus tetos de zinco ou de capim santafé, paredes e assoalho de pinho.

Bolanta usada para guardar material
Bolanta usada para guardar material

As casinhas ambulantes rurais eram usadas para guardar materiais e até para a moradia temporária de peões empregados no plantio, na aguação e na colheita de
Bolantas modernas são levadas ao campo
Bolantas modernas são levadas ao campo

arroz entre o final da primavera e o início do outono. Os contêineres urbanos destinam-se a armazenar o lixo depositado pelos habitantes enquanto não chegam os caminhões coletores da basura.
Porém, como ninguém lê ou leva a sério os avisos colados nos contêineres sobre o uso correto dos tais recipientes ultramodernos, que se destinam especificamente à deposição de dejetos domésticos, a coisa virou esta zorra que aí está: a maioria da população beneficiada pela novidade está descartando tudo nas bolantinhas, inclusive materiais recicláveis que deveriam ser deixados junto às antigas lixeiras ou nas calçadas para a devida recolha da dita coleta seletiva, que passa(ria) em dias certos e horários insabidos.
Por conta do mau uso dos contêineres pelos moradores, os catadores ambulantes já se habituaram a vasculhar as novas lixeiras no afã de recolher os materiais com que trabalham. Uns buscam latas, outros plásticos, alguns papel… Não raro, essa operação de cata-cata feita a toda hora, inclusive de madrugada, termina numa esculhambação generalizada nos arredores dos contêineres, que amanhecem cercados de coisas desprezadas pelos catadores: restos de comida, cocô de cachorro, plástico sujo, fraldas descartadas etc. Uma merda generalizada onde devia reinar a limpeza, a higiene, a logística, a economia de custos, a sustentabilidade ambiental.
A que ponto chegamos: a Prefeitura contrata uma tecnologia importada (da Itália, via Chile) visando “cleanizar” o serviço de limpeza mas, acreditando talvez que a terceirização a autoriza a lavar as mãos,  se esquece de instruir a população, incluindo os catadores, sobre como usar o novo equipamento.
Segundo o DMLU, até agora apenas 10% dos habitantes da capital estão colocando a coisa certa nas bolantas do Fortunati. O que transparece dessa confusão é que, aparentemente, o novo sistema de coleta de lixo foi implantado sem um planejamento completo. Para complicar ainda mais, os contêineres estão sendo alvos dos vândalos ativos em manifestações políticas. Cada contêiner custa(ria) R$ 6,8 mil.
Um caminhão coletor, equipado com guindaste para erguer o contêiner e emborcar seu conteúdo numa caçamba à qual está acoplado um êmbolo compactador, custa R$ 900 mil, revela um funcionário do DMLU. Os veículos coletores de lixo são seguidos por caminhões de higienização dos tais recipientes. Caro e bonito, mas parcamente funcional.
Aparentemente, nenhum catador foi instruído (muito menos treinado) sobre a transição tecnológica por que passa o serviço de limpeza pública da capital gaúcha. Tudo indica que os voluntários da catação e da reciclagem – elo perdido da logística da limpeza pública – foram esquecidos pelo projeto da modernização da limpeza pública de Porto Alegre.
(Vale lembrar que o mesmo sistema automatizado de coleta de lixo está implantado em dezenas de cidades brasileiras, entre elas Venâncio Aires (a pioneira), Cachoeira, Bagé, Sobradinho, Rio Pardo e Santa Cruz do Sul (sede da Conesul, licenciada pela Themac chilena, que começou adaptando equipamentos criados na Itália). Em agosto, metade dos coletores foi trocada, com a entrada de outra empresa o negócio, a RN Freitas.
Na realidade, como fruto de uma importação de tecnologia, o sistema de contêineres metálicos é inadequado para a maioria das ruas de Porto Alegre, onde predomina a mão única. Como os caminhões coletores têm seu guindaste apenas apenas do lado direito, os moradores do lado esquerdo das ruas de mão única estão obrigados a atravessar a rua para depositar o lixo no local recomendado. Daí a pergunta óbvia: não seria pertinente desenvolver uma solução local que seja confortável para todos e não apenas para uma parcela dos moradores?
 
 
 
 

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