Memórias da Ditadura: "Vou lhe dar uma notícia, seu marido vai ser governador"

Em entrevista, no último dia 26, o ex-governador do Paraná, Paulo Pimentel, revelou fatos importantes para a Memória da Ditadura Militar de 1964.
Pimentel governou o Paraná de 1966 a 1970, conviveu com Castelo Branco, Costa e Silva e Médici, a respeito de quem é categórico: “Era antes de tudo um imbecil”. Reproduzimos o que foi publicado no blog de  Aroldo Murá, um dos jornalistas que entrevistaram  o ex-governador para um livro sobre “Os Construtores do Paraná”.
O ex-governador do Paraná, Paulo Pimentel, costuma definir aliados e, principalmente adversários, em apenas uma frase. Sobre Jaime Lerner, diz que, como governador, foi um grande prefeito. Já acerca do general Emílio Garrastazu Médici, terceiro presidente na vigência do regime militar, é mais conciso e ácido: “Era um imbecil”.
Claro que Pimentel faz essa afirmação a uma distância histórica segura. Se repetisse tal comentário no ano de 1971, quando esteve cara a cara com o presidente da República, seria cassado ou, ainda pior, preso.
A segunda parte do depoimento que a coluna resume foi feita por Paulo Pimentel, dia 26, segunda, aos entrevistadores do livro “Encontros do Araguaia: os grandes construtores do Paraná no século 20″, de que sou o organizador, e cuja edição está prevista para 2018.

DIRETAS PARA GOVERNADOR

Que se conte o episódio. Médici convocou Ney Braga e Paulo Pimentel à Brasília. Ney havia ocupado o governo de 1961 a 1965, Pimentel de 1966 a 1970.
Ambos foram eleitos pelo voto direto. Mesmo com o golpe deflagrado em 1964, Castello Branco, o primeiro presidente militar, havia mantido as eleições do ano seguinte, sem mácula.
A questão agora era outra. Os próximos governadores seriam indicados pelo Planalto e Ney e Pimentel apostavam em Pedro Viriato Parigot de Souza, um engenheiro, professor da Universidade Federal do Paraná e presidente da Copel por uma década.
Médici, no entanto, os surpreendeu. O novo governador do Paraná seria Haroldo Leon Peres, anunciou. Ora, eles protestaram, mas não havia o que demovesse o presidente daquela ideia. Era decisão tomada. Como Ney e Pimentel insistiram, ele concordou em nomear Parigot vice-governador.

PARCERIA DO BARALHO

O motivo pelo qual Médici queria fazer de Haroldo Leon Peres governador era frugal. Soube-se depois que a mulher do presidente, dona Scila, costumava jogar baralho com a esposa de Leon Peres, dona Helena.
Da amizade nascida sob o regime militar surgiu o desejo do ditador Médici, um homem da linha dura do Exército, de fazer um “mimo” para a mulher e nomear o marido de sua amiga como governador. Coisa de republiqueta.
Pimentel diz que foi durante uma recepção no Palácio Itamaraty que a esposa de Perez (dona Helena) recebeu a notícia. Médici parou em frente a ela na fila de cumprimentos e perguntou: “Você sofre do coração?”. Diante da negativa, ele respondeu: “Então eu vou lhe dar uma notícia: seu marido vai ser governador do Paraná”.

UM MILHÃO

Era uma situação bizarra que, segundo Pimentel, mostra quanto danoso foi o regime militar em seu aspecto político. Nomeado em 1971, Peres governaria por apenas 252 dias. Foi obrigado a renunciar depois que o empreiteiro Cecílio Rêgo de Almeida revelou gravação feita durante passeio na praia de Copacabana em que Perez pedia 1 milhão para aprovar uma obra.
As razões pelas quais Pimentel define Médici como um imbecil (incurável) tem fundo naquela reunião em que ele anunciou sua decisão. Ao citar o nome do político escolhido, Médici se confundiu e disse Leopoldo Perez. Ora, Leopoldo era um político do Amazonas, distante do Paraná por léguas e mais léguas.

FOI O PRIMEIRO. E O PIOR

Pimentel encarregou-se de corrigi-lo: “Presidente, o senhor deve estar falando do Haroldo Leon Peres, um deputado de Maringá”. Médici fez um gesto com a mão: “Esse mesmo”. Ele não sabia quem era ele, não sabia a quem estava destinando a administração de um estado, tampouco media as consequências do que significava impor um governador a uma população acostumada a eleger ela mesma os seus administradores. Foi o primeiro governador do Paraná nomeado pela ditadura. O pior.

Pedro Viriato Parigot de Souza: era o preferido; General Médici: não sabia o nome de quem escolheu no lugar do preferido por Ney e Paulo

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