DIRETAS PARA GOVERNADOR
Que se conte o episódio. Médici convocou Ney Braga e Paulo Pimentel à Brasília. Ney havia ocupado o governo de 1961 a 1965, Pimentel de 1966 a 1970.
Ambos foram eleitos pelo voto direto. Mesmo com o golpe deflagrado em 1964, Castello Branco, o primeiro presidente militar, havia mantido as eleições do ano seguinte, sem mácula.
A questão agora era outra. Os próximos governadores seriam indicados pelo Planalto e Ney e Pimentel apostavam em Pedro Viriato Parigot de Souza, um engenheiro, professor da Universidade Federal do Paraná e presidente da Copel por uma década.
Médici, no entanto, os surpreendeu. O novo governador do Paraná seria Haroldo Leon Peres, anunciou. Ora, eles protestaram, mas não havia o que demovesse o presidente daquela ideia. Era decisão tomada. Como Ney e Pimentel insistiram, ele concordou em nomear Parigot vice-governador.
PARCERIA DO BARALHO
O motivo pelo qual Médici queria fazer de Haroldo Leon Peres governador era frugal. Soube-se depois que a mulher do presidente, dona Scila, costumava jogar baralho com a esposa de Leon Peres, dona Helena.
Da amizade nascida sob o regime militar surgiu o desejo do ditador Médici, um homem da linha dura do Exército, de fazer um “mimo” para a mulher e nomear o marido de sua amiga como governador. Coisa de republiqueta.
Pimentel diz que foi durante uma recepção no Palácio Itamaraty que a esposa de Perez (dona Helena) recebeu a notícia. Médici parou em frente a ela na fila de cumprimentos e perguntou: “Você sofre do coração?”. Diante da negativa, ele respondeu: “Então eu vou lhe dar uma notícia: seu marido vai ser governador do Paraná”.
UM MILHÃO
Era uma situação bizarra que, segundo Pimentel, mostra quanto danoso foi o regime militar em seu aspecto político. Nomeado em 1971, Peres governaria por apenas 252 dias. Foi obrigado a renunciar depois que o empreiteiro Cecílio Rêgo de Almeida revelou gravação feita durante passeio na praia de Copacabana em que Perez pedia 1 milhão para aprovar uma obra.
As razões pelas quais Pimentel define Médici como um imbecil (incurável) tem fundo naquela reunião em que ele anunciou sua decisão. Ao citar o nome do político escolhido, Médici se confundiu e disse Leopoldo Perez. Ora, Leopoldo era um político do Amazonas, distante do Paraná por léguas e mais léguas.
FOI O PRIMEIRO. E O PIOR
Pimentel encarregou-se de corrigi-lo: “Presidente, o senhor deve estar falando do Haroldo Leon Peres, um deputado de Maringá”. Médici fez um gesto com a mão: “Esse mesmo”. Ele não sabia quem era ele, não sabia a quem estava destinando a administração de um estado, tampouco media as consequências do que significava impor um governador a uma população acostumada a eleger ela mesma os seus administradores. Foi o primeiro governador do Paraná nomeado pela ditadura. O pior.


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