Morador pede ajuda para deixar a rua

Guilherme Kolling*

Um acampamento está instalado há meses junto à parede do Hospital de Pronto Socorro na avenida Venâncio Aires, um dos pontos mais movimentados de Porto Alegre. São sete ou oito jovens que dividem o espaço, comida, cobertores, colchões e drogas.

Às 10h30 da manhã desta quinta-feira, o único integrante do grupo que guardava o ponto era um rapaz negro, de quase 1.80m, longilíneo, com um cavanhaque e bigodinho ao estilo do músico Seu Jorge. Abatido, magro e com olheiras, estava sentado no chão, cheirando loló.

Trata-se de Jaime Nascimento de Araújo, 24 anos, um dos moradores de rua do local. Ele teve forças para se erguer e organizar o espaço, com decisão: dobrou cuidadosamente cobertores, colchas e guardou tudo num carrinho de supermercado, que serve de guarda-roupa da turma.

Todos os dias ele pede uma vassoura emprestada da funerária do outro da rua – “o pessoal lá é muito gente boa” e limpa o pedaço. Quando ia recolher o colchão, foi abordado pela reportagem do JÁ. Apesar do efeito da droga, falou de forma articulada.

Sua primeira questão: “Vocês vão me ajudar?”. Logo contou seu drama. “Eu não quero continuar na rua. Quero ir para o Hospital Espírita ou o São Pedro para me tratar”. — O São Pedro? “Não é o hospício”, explicou. “É perto da (Vila do) Cachorro Sentado, onde tratam jovens viciados”.

A vontade de ser internado esbarra na falta de vagas. E também na falta de acompanhante para encaminhá-lo. “Alguém tem que ir junto, mas não quero incomodar minha mãe. Ela é trabalhadora, não pode ficar correndo atrás de mim”.

Jaime já fez algumas tentativas recentes de internação. Foi no posto da Cruzeiro, no mês passado, mas não obteve sucesso. Seu vício tem mais tempo, dois anos para mais. “Tudo que eu quero é fazer o tratamento, com medicação. Depois de um ou dois meses eu saio de lá, volto para casa”.

Cita o caso de um amigo que também estava na rua, bem magrinho. “Ele fumava pedra, cheirava, usava loló. Saiu curado, bem fortão, e agora tá trabalhando de mecânico”. Jaime quer seguir esse exemplo – já tem todos os documentos, estudo (abandonou no 1º ano do 2º grau) e acredita que sua vaga está garantida nos locais onde trabalhou.

Ficou um tempo na Academia Performance, na Protásio Alves, e também teve uma passagem pela Escola Mergulhinho, na Lucas de Oliveira. Fazia serviços gerais, limpava a piscina, ajudava os clientes a estacionar os carros, distribuía folhetos na rua. “É só eu me recuperar que eu consigo emprego certo”, acredita.

Jaime também tem lá suas responsabilidades. Já é pai. Quando pode, ainda leva leite e fraldas para a criança. Também visita a mãe, na casa dela, na Vila Bom Jesus, de onde saiu no ano passado. Ela acha que o rapaz está em uma casa de convivência, na avenida Farrapos.

De fato, ele ficou lá um tempo, mas saiu pelas condições impostas. “Tem chegar às 5 da tarde para conseguir vaga. Aí, entra às 6h. E fica lá até as 6h da manhã do dia seguinte”. Sem conseguir ajuda para passar o resto do dia, a saída foi ser flanelinha de noite. Ganha alguns trocados, mas aí não dá para ir no albergue. Optou pela rua – gosta de conviver com os amigos que fez.

“Mas as pessoas passam aqui e não dão nada. Só quem ajuda é um pessoal que vem de noite, encosta o carro e dá comida, nas segundas, terças, quartas. Os anjos da noite dão café na sexta. Um deles me prometeu uma força para eu me internar, mas passaram duas sextas e nada. Acho que não teve tempo”, diz, com um ar decepcionado.
“Mas eu não preciso desta ajuda, da comida. Não preciso disso. Quero largar essa vida. A única coisa é que eu quero é me tratar”, apela.

“Eles têm casa e ficam mandando os policias contra a gente”

Logo no início da conversa chegam Éder, 20 anos, e Paula, uma das meninas que vive no local. O tema agora é a repressão da Brigada. “Podem vir quantos policiais quiser. Se o cara não cara não fez nada de errado, não tem o que fazer”, resmunga Éder, enquanto devora com rapidez dois cacetinhos com mortadela recém comprados – o rapaz estava faminto, ficou de olho no sanduba da colega.

Mas continua. “O certo seria todo mundo ter casa. Eles têm casa e ficam mandando os policiais contra a gente. A polícia só vem porque o pessoal chama”, completa Éder, se queixando dos moradores da redondeza. O grupo é pacífico. Mas era expulso pela polícia quando se instalava em frente a um prédio na rua Augusto Pestana, quase esquina com Venâncio.
Jaime concorda. Aponta para o outro lado da rua e diz: “Eles que alcagüetam”, referindo-se a comerciantes e vizinhança. Mesmo assim, vão para lá em dias de chuva – assim como vários outros moradores de rua das redondezas, que buscam o abrigo da marquise do local.

Jaime conta outra episódio. “Teve um dia em que o brigadiano falou que ia vir bem cedinho, 6 da manhã, e jogar um balde de água fria na gente, se nós não saíssemos dali”. Saíram. Mas a hostilidade não acabou. “Fui comprar um café no bar, tinha dinheiro e tudo. Mas um policial que estava lá falou para eu ir tomar cafezinho no inferno”, conta magoado.

“Quanto tô muito fissurado vou para casa do meu irmão”

A escolha de Éder, 20, pela rua tem origem em um conflito familiar. “Meu pai vendeu a casa onde eu vivia e nem me deu nada”. Ele cheira loló como os colegas, mas acha que não precisa ir para clínica desintoxicar, já que não se considera viciado porque não acha difícil ficar sem a droga: “Eu não cheiro muito, só quando tô na rua, com os caras”.
“Quando tô muito fissurado, vou para casa do meu irmão e dou um tempo”. Lá, ele conta que passa uns meses sem cheirar nada. Sai de lá forte, “gordo”, como ele diz. Mas só recorre ao mano em caso de urgência. “Não quero ficar incomodando. Ele tem a família dele, a mulher até tá grávida”.

Para arrumar dinheiro, Éder também cuida dos carros dos freqüentadores dos bares da redondeza: Cirilo, Bar do Beto, etc. Tira alguns trocados por noite – na manhã desta quinta-feira tinha um maço com cinco notas de um real. Com a grana compra café, água e comida. E vai sobrevivendo.

* Colaborou Naira Hofmeister

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