
Luis Carlos, 35 anos, 22 na rua, questiona: “Ir para onde?” (Foto: Tânia Meinerz)
Guilherme Kolling
Acossados, os moradores de rua do Bom Fim e arredores buscam a Redenção como último refúgio. O administrador do parque fala em 30 pessoas, mas é evidente que são muito mais. E o grupo cresce na medida em que são afastados das ruas por grades, seguranças ou autoridades. Casos recentes: o Hospital de Pronto Socorro colocou telas nos vãos que eram utilizados como dormitório; o banco Itaú, na Ramiro Barcelos, construiu um canteiro embaixo da marquise; e na rua Augusto Pestana com Venâncio Aires, a Brigada está despachando o grupo. “Recebemos queixas diárias e viremos até que eles encontrem outro lugar para ficar”, disse o policial.
Por isso, aos 70 anos, o Parque Farroupilha atrai gente como Luís Carlos Favero, 35 anos, 22 na rua. “Não tem como sair daqui. Ir para onde?” questiona o passo-fundense, que veio para Capital aos 12. Hoje ele é conhecido e recebe ajuda do pessoal do Ramiro Souto – em troca, dá uma força na manutenção: capina, limpa, recolhe areira. “É difícil conseguir emprego, pedem referência e um ano de prática”, explica. Ele garante o sustento catando lixo seco. Vende o material num galpão na Voluntários da Pátria, o que lhe rende um salário mínimo por mês. Só se queixa da prefeitura, uma concorrente “que quer tirar nosso trabalho”.
Segundo Luís, 200 moradores de rua circulam pela Redenção, mas os fixos são poucos. Há núcleos no Araújo Viana, nas canchas de bocha e no Monumento do Expedicionário. A maioria consome cachaça ou loló. À noite tem tráfico de drogas e prositituição dentro do parque. Luís não fica lá, diz que é perigoso. Ele e a companheira Vânia preferem a entrada de um banco na Venâncio Aires. Ele já tentou as casas de convivência do Município, mas não gostou. “É uma disputa, não tem ficha para todo mundo”, justifica. O colega Vladimir concorda que “aquilo é muito bagunçado”.
Na Redenção, tem ainda o problema dos gatunos de plantão. Tânia e Vladimir, que se conheceram na marquise do Araújo Vianna, perderam, num momento de distração, todos os pertences. “A gente não está livre de ser assaltado”. Mesmo asim, elegem o Farroupilha, já que nos albergues, “o perigo anda disfarçado”. “Já me roubaram uma panela de dentro da sacola quando eu tomava banho”, relata Tânia.

Tânia e Vladimir acham o parque mais seguro do que a rua (Foto: Naira Hofmeister)
Outro que se aventura a pernoitar na Redenção é Fabiano, 31. Ele fica porque um dos 20 companheiros sempre está vigiando enquanto os outros dormem. “É mais seguro e mais calmo do que a rua. Se for pro meio da cidade roubam a gente”. Mas as dificuldades estão aumentando, com o corte da água das torneiras da Redenção e a proibição de estender roupas nas cercas.
“Agora lavamos ‘no lago’ e deixamos secar atrás dos banheiros, onde ninguém vê”, diz Fabiano. Sobre um possível cercamento do parque, ele é pragmático. “Se fecharem, teremos que ir pra baixo do prédio de alguém. Será que vão gostar?”.
* Colaborou Naira Hofmeister

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