Movimento Autônomo prova que resistência não se faz com números

ANDRES VINCE
Fim de tarde de terça-feira,  véspera de feriado, esquina democrática. Poucas  pessoas atenderam ao chamado feito pelo Movimento Autônomo para os protestos contra a aprovação da PEC 241 e pela defesa do voto nulo no segundo turno das municipais. Mas, o baixo comparecimento não abateu o ânimo de participantes.
A boa disposição dos poucos presentes foi suficiente pra levar o grupo a sair em marcha pelas avenidas da cidade, carregando uma faixa com os dizeres “nenhum direito a menos” e gritando palavras de ordem contra os desmandos dos governos de todas as esferas.

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Marcha percorreu diversas avenidas da Capital

A marcha seguiu sempre acompanhada por um significativo aparato policial, certamente em número maior do que os próprios manifestantes.
O manifesto ocorria  normalmente, com as tradicionais cantorias e pichações de mensagens de protesto, quando uma das manifestantes foi atropelada por um carro na esquina da João Pessoa com a Venâncio Aires, próximo à Fadergs.
Manifestantes pararam a motorista e exigiram que ela ao menos levasse a manifestante ferida ao Pronto Socorro. Inicialmente ela se prontificou a ajudar e deixou que a ferida e outra manifestante subissem no seu carro para irem ao HPS. Porém, duas quadras adiante parou o veículo e ordenou que as meninas descessem do carro, alegando que precisava ir trabalhar.
A manifestante ferida não quis ser identificada, porém, declarou que tanto o carro, como a motorista já estão identificados e que tomará as devidas providências em relação ao atropelamento e omissão de socorro.
O pelotão de choque aproveitou a confusão causada pelo atropelamento para formar um cordão de isolamento na Venâncio Aires,  na altura da Fadergs.
O grupo de manifestantes se aglutinou novamente e postaram-se com a faixa diante do pelotão. O grupo não parecia intimidado pela presença da Choque. A tensão foi aumentando a medida que os manifestantes não pareciam nem um pouco dispostos a recuar.
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Pelotão de Choque tenta isolar os manifestantes | Foto: Thais Ratier

O confronto era iminente. E não tardou em começar. Gás de pimenta foi jogado pela BM nos manifestantes.  Recuo momentâneo dos manifestantes, para logo em seguida voltar para junto da linha formada pela Choque . Nova investida da BM, novo recuo, para um novo retorno dos manifestantes para junto da linha de escudos.
E o ato de resistência foi se repetindo até que a linha da Choque recuou e liberou o caminho. Só não se sabe se foi pelo fim do estoque de gás pimenta ou se pela constante lembrança que estavam ali defendendo quem parcela seus salários.
Animados pela vitória simbólica os manifestantes seguiram a caminhada com o objetivo de dispersar na rótula da João Alfredo com a República. Nesse ponto, um pequeno grupo de manifestantes permaneceu concentrado por mais algum tempo, enquanto avaliavam os resultados do movimento e as próximas ações.
Foi quando receberam a informação que algum veículo da RBS havia twitado que a BM havia dispersado os manifestantes com gás de pimenta e que o protesto havia se encerrado ali.
Revoltados com a notícia falsa, os remanescentes decidiram que não iriam aceitar a manipulação sem dar uma resposta. Numa ação rápida e fulminante dirigiram-se à sede da RBS na Érico Verissimo onde queimaram gasolina em frente ao prédio e picharam a fachada com a inscrição “RBS MENTE”.
Alguns participantes do Movimento Autônomo dizem que o ato não foi premeditado pelo grupo e negam ter participado da autoria desse manifesto na sede da RBS, porém, o fato foi que ele existiu, e, com certeza, terá consequências, como a criminalização ainda maior dos movimentos sociais em todos os veículos do grupo de comunicação.
Até onde esse jogo de ação e reação vai levar ao certo não se sabe. O que se sabe é que esse pequeno grupo demonstrou que as ações impopulares do Estado não irão passar sem resistência.
Confira a galeria de fotos de Thais Ratier:
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Comentários

Uma resposta para “Movimento Autônomo prova que resistência não se faz com números”

  1. Avatar de Fausto Leiria Loureiro
    Fausto Leiria Loureiro

    As polícias em geral, e a polícia militar em particular, fundam-se na hierarquia de comando submetida à autoridade política do Governante. Não há autonomia e nem pode haver. Acho indevido aventar que os policiais “decidem” se vão ou não reprimir alguém por causa do pagamento ou não de salários ou pela orientação política do manifestante ou da Autoridade Civil a que se submetem (algo do tipo uma assembléia onde os policiais discutem e decidem se vão reprimir ou não determinada manifestação). Isto ou é uma falta de conhecimento absoluta de como funciona a polícia e sua cadeia de comando. Ou, pior, é um desejo intenso de autonomia para as forças repressoras. No primeiro caso, só o estudo ajuda. No segundo caso, bem mais perigoso, concede-se ao aparato repressor uma autonomia em relação ao poder civil que só se encontrou, na história recente, na ditadura militar.

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