Matheus Chaparini
São seis e pouco de um sábado qualquer. Anoitece em Porto Alegre. Na João Alfredo, as casas noturnas começam o expediente interno para abrir as portas em algumas horas. Alguns moradores ainda circulam pelas ruas do bairro, com o mate debaixo do braço e piazada na volta. Até aqui, o ambiente é calmo e quase silencioso. Mas todos sabem: hoje tem.
A chave do bairro misto começa a virar.
Na república, mesas na calçada. Na Lima e Silva se bebe sentado, cedo e geralmente dentro dos bares. Na Patrocínio, o agito se concentra mais no entorno do Opinião, nas esquinas da Lopo Gonçalves e da Joaquim Nabuco. Por ali, se consegue um litro de cerveja popular nacional – vulgo litrão, vulgo Danone – a partir de oito pila. Quatro, se tu tiver parceria para dividir. E serve uma galera.
Os moradores mais conservadores, consideram que a Cidade Baixa é um bairro residencial e não querem nem saber de bares, casas noturnas, gente bebendo e falando pelas calçadas. Outro grupo, compreende que o bairro é misto, residencial e comercial, diurno e noturno, e preferem o diálogo com os donos de bar para buscar um convívio harmonioso. Mas os dois grupos e os donos de bar têm um consenso: o maior transtorno é causado pela muvuca de rua. Pelo pessoal que compra cerveja barata em pequenos estabelecimentos, ou trazem seu próprio trago e bebem pelas calçadas.
Em um debate recente, um comerciante descreveu o comportamento dos boêmios de calçada da CB: “parecem uns selvagens”. A descrição do elemento: jovens, um kit de vodka com energético, saquinho de gelo derretendo na calçada, baseadinho na roda e, quando possível, um carro de porta-malas aberto tocando funk.
Só que este movimento é muito mil grau e bomba todo final de semana, fecha a João Alfredo e enche ainda outras calçadas do bairro. Para melhor compreensão, a reportagem achou por bem fazer uma incursão à noite dos selvagens. Quem são? De onde vêm? Do que se alimentam? O que os traz à Cidade Baixa?
23h Vai embrazando
O Margot já tem fila. O silencio também. Mas a festa ainda tá começando.
1h30 Hoje é dia de maldade
A Joao Alfredo ferve. As calçadas não dão conta do público, que se espalha pela rua. No ponto de maior concentração, próximo ao cruzamento com a Luis Afonso, só passa um carro por vez. Onde tem um bar ou ambulantes vendendo bebida, tem gente em volta. Onde não há comércio, muda a bebida. É o kit.
2h Não olha pro lado quem tá passando é o bonde
Uma Kombi da Smic passa para conferir a situação. O fiscais espicham os olhos pras portas dos bares, pelos vidros fechados do veículo. Quatro viaturas da Guarda Municipal vêm atrás, dando escolta. O horário estourou, restam trinta minutos de acréscimo para que os estabelecimentos fechem. Pras bandas da José do Patrocínio, a muvuca já diminui.
Às 2h30 encerra oficialmente o horário de funcionamento dos bares e muitos deles fecham as portas. Na rua, o movimento é igual ou maior do que há uma hora. E nada indica que vá diminuir em breve.
2h44 Namorar pra quê?
O repórter ziguezagueia dentre a boemia. Próximo a um carro bombando funk cercado de gente, um rapaz de vinte e pouco anos me aborda. Do nada. O meu! Deixa eu te mostrar o presente que eu ganhei. Uma jaqueta bonita, de marca, que ele vestia. Abraçada nele, uma loira baixinha reivindica a autoria: fui eu que dei o presente, não sou a melhor namorada do mundo? Melhor ex-namorada, corrige ele.
Mas aí já é assunto por demais complexo para ser abordado nesta reportagem. O rapaz se chama Christian, mora no IAPI e frequenta a João Alfredo há dois meses, desde que se separou da moça loira que lhe deu a jaqueta e que comemorava com ele o aniversário.
Christian diz que prefere beber na rua com a gurizada a entrar em casas noturnas. Além disso, tem o preço do ingresso: “é uma facada.”
2h52 Se tu for polícia já era
Na parede, ele assina Panga. E prefere se identificar assim na reportagem. Mora no Iapi e frequenta a João Alfredo “porque aqui reúne toda a galera do pixo.” Conversa tranquilamente com a reportagem, mas no final indaga: tu não é polícia, né¿ Não, sou repórter. Bom, se tu for polícia já era, já falei mesmo, diz Panga, dando de ombros, já embalado por dois litros de vinho. Combinou com de encontrar um amigo, mas levou cambão e teve de beber sozinho o que serviria para dois.
Na esquina da Luis afonso, o odor urínico é fragrante.
Mais adiante, dois jovens picham a fachada de um bar com um canetão. Emanueu é um deles. Na parede, ele é o Anormal. Mora da Vila Farrapos, frequenta bares da Zona Norte, mas também cola na João Alfredo há pelo menos cinco anos, “porque aqui se reúnem todas etnias, é todo mundo junto.” A maioria pixa com caneta, “mas o spray tá sempre junto.” Nesse grupo, o drink é a cachaça com suco tang. “E água, em pequenas doses.”
3h14 Oh, novinha eu quero te ver contente
Iaiá é frequentadora desde 2013. O rolê era o seguinte: aquecimento na João, depois José do Patrocínio, esquina do Opinião, o segundo tempo. Uma sequencia de reclamações de moradores e abordagens policiais acabou com a migração. “Como já tem aglomeração com as filas dos bares, fica tudo misturado.” Aos dezenove, faz cursinho pré-vestibular. Antes disso, trabalhava como telefonista, atendendo emergências da SAMU em turnos de 12h.
Com a verba curta para entrar nas casas noturnas, a opção de lazer é beber kit na calçada.
A grana é o principal motivo pelo qual prefere fazer sua festa na rua. Dentro dos bares, ela diz, a bebida é muito cara. Além do que, “o rolê da rua é bem melhor.” Iaiá conta que já encerrou os trabalhos às 5h com a rua ainda cheia e, em outra ocasião, às 7h, ainda com os últimos inimigos do fim tomando a saideiria.
Aqui o drink é o clássico kit. Com a chegada do frio, o vinho também ganha espaço.
Comento que há várias reclamações de moradores à prefeitura e à Brigada. “Quando tu escolhe onde morar tu já sabe se vai ter barulho. Eu moro na Santana justamente por isso: sossego.”
3h48 Aumenta o volume que é rap do bom
Zandrio aparentava desânimo. Tinha show marcado com seu grupo de rap, Pilaghetto, em uma casa noturna da Cidade Baixa. A apresentação foi cancelada de última hora por problemas técnicos da casa. Restou a calçada como palco. Yago Zandrio é rapper. Se divide entre apresentações fechadas e rimas na rua. Gosta de freestyle e frequenta batalhas de rima. Ele conta que por ali se reúnem vários rappers e, mesmo sem um evento formal, os MCs se encontram e duelam.
“São raros os eventos de rap na Cidade Baixa. E quando tem, são produtores que trazem grandes nomes de fora e não dão espaço aos artistas locais”, critica Zandrio.
5h30 No cordão da saideira
Daqui a uma hora é manhã de domingo. Ultima incursão da reportagem pelas ruas do bairro boêmio. Na Patrocínio, quase nada. Na esquina da Lima e Silva com a República, ainda tem lugar aberto para comer um xis ou tomar a saideira depois da boate. Há alguns grupos de moradores de rua acordados. A noite está fria, congela a cara, encaranga as mãos. Inviável dormir sem um teto e paredes.
Na João Alfredo, a festa segue. Um carro toca música eletrônica em alto volume, um rapper improvisa versos e vários grupos persistem. Mais de cem pessoas, tranquilamente. A noite só acaba quando termina. Mas esta reportagem acaba aqui.

Deixe uma resposta