Negócio próprio pode ser solução para desemprego de jovens

O representante do Ministério do Trabalho enfatizou aos jovens a importância de ter sonhos (Fotos: Helen Lopes)

Criar uma cultura de empreendedorismo nos jovens foi uma das propostas defendidas durante o Seminário Empregabilidade e Empreendedorismo, promovido pela Secretária Municipal da Juventude. O encontro, que integra o projeto Juventude em Foco, abordou alternativas pra o desemprego que assombra cerca de 50% da população entre 16 e 24 anos. Os jovens representam 30% dos habitantes de Porto Alegre.

O responsável pela pasta, Mauro Zacher, informou que, por enquanto, a Secretaria está dando ênfase aos laboratórios, onde entidades e associações civis realizam encontros para detectar as necessidades dessa parcela da população.

Convidado para realizar uma palestra motivacional, o coordenador do Departamento de Políticas Públicas para Juventude do Ministério do Trabalho e Emprego, Alisson Araújo, falou sobre os projetos do governo federal.  Ele, que é psicólogo, falou aos jovens da importância de se ter um objetivo e realizar ações cotidianas para vê-lo concretizado. “Se você tem um sonho deve se preparar para ele, estudar todo dia uma hora”, sugeriu. Araújo propôs aos jovens uma mudança de postura: “Temos que sair do marasmo, ficar vendo televisão não leva a nada”.

Segundo Araújo, o governo federal promove políticas públicas para a juventude em duas frentes. A primeira visa o emprego. É o Consórcio Social da Juventude, que oferece cursos de educação e capacitação aos jovens para futura inserção no mercado de trabalho. “Em Porto Alegre, por exemplo, o curso capacitou 1.700 jovens. A finalidade é inserir pelo menos 30% desse número no mercado de trabalho formal”, projeta. O Consórcio é uma parceria entre o governo federal e ONGs, que devem ter mais de três anos de experiência com juventude.

Funciona assim: o jovem recebe um treinamento de 400 horas, dividido entre o estudo de ética, cidadania e responsabilidade social e a outra metade do tempo, recebe treinamento profissional. Nos cinco meses de duração, cada um recebe uma bolsa auxílio de R$ 120,00, e em troca, prestam trabalho voluntário na comunidade. Ao final do curso, é encaminhado ao programa Primeiro Emprego, uma experiência de carteira assinada durante um ano.

Alguns dos jovens que concluem o curso podem ser escolhidos para iniciar um empreendimento local, sob a supervisão do Ministério do Trabalho: “Selecionamos aqueles com um perfil adequado, os que têm os pontinhos brilhantes”. As linhas de produção, como Álisson chama, são pensadas de acordo com o movimento local de negócio e em sintonia com a linguagem dos jovens.

Estes jovens que se destacam por ser empreendedores participam do outro projeto do governo que é focado no empreendedorismo juvenil e voltado para as periferias das capitais. Um exemplo é o fomento à cadeia produtiva do surf, desenvolvida em Fortaleza, em que os jovens fabricam e vendem pranchas nas praias locais. Há também o projeto MH20, desenvolvido com jovens que fazem e gostam de hip-hop. A idéia é incentivar que os meninos que picham passem a fazer grafitagem. Eles pretendem ainda tornar o break um esporte.

Araújo antecipou que em Porto Alegre, está sendo montada uma cadeia produtiva do skate. Serão 30 jovens responsáveis diretos pelo empreendimento, produzindo desde peças para montagem do skate até acessórios e pistas. Além disso, haverá a criação de trabalhos indiretos. “Estamos pensando em desenvolver uma cooperativa baseada no associativismo. Não queremos a empresa na mão da ong, mas do jovem”.

As idéias de Álisson vão ao encontro das constatações do secretário do Trabalho de São Paulo, Gilmar Viana Conceição que também participou dos debates. “O Trabalho celitista (sob a proteção da CLT) com  carteira assinada, clássico, vai ficar cada vez mais distante em cidades com São Paulo”. A razão é a transformação econômica das grandes metrópoles, que, de cidade industriais tornaram-se prestadoras de serviço. “Em São Paulo, no início da década de 60, 70% da população ocupada, estava na indústria. Hoje são 15%, 80% estão atuando na área de serviços e comércio”, diz.

Segundo Gilmar Viana, para combater o desemprego, uma solução é gerar micro e pequenos  negócios, voltados ao empreendedorismo, com alto valor agregado tecnológico. A situação em Porto Alegre ainda não pode ser comparada com a capital paulista, porém, essa é uma tendência mundial: “Grandes cidades como Barcelona, Detroit, Hamburgo e Milão sofreram esse processo de reconversão”, explica.

Em seu painel, representante da Comissão Municipal de Emprego, Olemar Teixeira, alertou os jovens para a necessidade da profissionalização. “Oportunidades existem, o que falta é qualificação.” Segundo ele, há mais de mil vagas na área de informática, com um piso de R$ 1.514,00, só em Porto Alegre. Porém, a maioria dos que procuram as vagas não tem a mínima qualificação. “O grande desafio hoje em dia é qualificar o jovem. Existem vários cursos gratuítos, quem não se qualificar está fora do mercado”, afirmou.

Para o coordenador de desenvolvimento do Sebrae/RS, Evandro Welp, o empreendedorismo é a grande solução para um futuro melhor. De acordo com ele o empreendedor precisa, entre outras coisas,  buscar oportunidades, ter iniciativa, oferecer qualidade e eficiência, ser persistente, estabelecer metas, realizar planejamento e ter uma rede de contatos. “O empreendedor não nasce pronto, ele se qualifica”, considerou.

Welp apresentou dados sobre a taxa de atividades empreendedoras em 2004, que mostram que o Brasil ocupa a sétima posição mundial. O primeiro é o Peru. Welp destaca que os países em desenvolvimento são os que mais empreendem para tentar superar as crises econômicas.

Welp disse que 13,5% da população brasileira tem o seu próprio negócio, isso representa cerca de 14 milhões de pessoas. No entanto, ele salienta que a metade desses brasileiros (6,2%) recorreram ao empreendedorismo porque estavam desempregados, ou passando por outra dificuldade, e não por opção.

Isso pode ser um dos fatores do alto índice de fechamento das empresas: 32% delas fecham até o primeiro ano de criação, 44% fecham no segundo e apenas 29% chegam ao quinto ano. “É como se a cada dez empresas abertas somente três completassem cinco anos”, analisa.

Os dados do setor de Estatísticas do Cadastro Central de Empresas, do IBGE, apontam que em média, anualmente, surgem 100 mil empresas com empregados e 58 mil são extintas. O estudo revelou que, no universo de empresas com empregados, as médias anuais foram de 100 mil nascimentos e 58 mil mortes, resultando em um saldo de 42 mil novas empresas. A taxa média anual de natalidade, que mede a quantidade de empresas que surgiram em relação ao que já existia no ano anterior, foi de 8,3%, enquanto a mortalidade (quantas foram extintas) foi de 5,0%. Na faixa com até 99 empregados, a taxa de natalidade supera à de mortalidade, enquanto nas empresas com 100 ou mais empregados, o movimento é o inverso.

O Comércio foi responsável pelo maior volume de nascimentos (50.316) e mortes (27.647) de empresas entre 1997 e 2003, enquanto a Indústria apresentou os menores resultados:13.074 empresas foram criadas e 9.209, extintas. Já o setor de Serviços, criou 23.561 empresas e extinguiu 13.973.

O que pensam os jovens

Bruno e Charle, ambos de 16 anos, estudantes da 8ª série do ensino fundamental, participaram de todo o evento. Saíram cedo de suas casas no Beco do Adelar, do extremo sul de Porto Alegre, para chegar às 8h30min, no auditório do GBOEX, no centro de Porto Alegre. Assistiram atentamente às palestras e no final do encontro, se questionavam sobre a real eficácia desses programas: “Acho que ações isoladas assim não rolam. Deveriam fazer as comunidades interagirem entre si”, disse Charle. O garoto acredita que a preocupação está em colocar alguns jovens no trabalho e não em mudar a realidade das periferias.

Segundo a organização, cerca de 80 jovens participaram

Ele apontou um conflito na iniciativa de “comercializar o grafite”. “O cara é contratado para pintar uma parede aqui no centro, depois chega uma gangue rival ou aqui da área e picha só pra deixar a marca dela”. Bruno concordou com as colocações do colega, mas disse que quer é trabalhar: “Vim porque queria saber como falar na entrevista”.

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