
Escrito no prédio causou revolta entre moradores
(Fotos: Carla Ruas/JÁ)
Carla Ruas
“Nois pixa e voceis limpa”. Com esta frase, localizada em um prédio na esquina das avenidas Osvaldo Aranha e Protásio Alves, os pichadores do Bom Fim mostram persistência e atrevimento. Moradores e comerciantes do bairro estão cada vez mais irritados com os escritos nas paredes, e buscam soluções para prevenir e limpar as pichações.
Sabina Canter é proprietária do edifício que recebeu a debochada inscrição no terceiro andar. Ela acredita que a reincidência da pichação ocorreu por falta de segurança: “Eles tinham pichado neste lugar, mas nós limpamos com soda caustica. Uma semana depois eles voltaram com esta frase”, conta. “Se tivessem guardas nas ruas isso não iria acontecer”, acredita.
Os comerciantes da Rua Santana também sofrem com os pichadores. “Ninguém gosta de pichação, isso deixa a cidade muito feia”, afirma Eunice Alves, atendente da Big Ferragem. As paredes da loja já foram pintadas muitas vezes para encobrir a tinta preta.
Na Avenida Venâncio Aires, chama a atenção um escrito que diz “vocês já morreram”, na parede branca de uma garagem. Igor Guterres, funcionário do estabelecimento, se revoltou com a frase: “É uma pouca vergonha, e só nos resta ficar pintando por cima até eles cansarem”, afirma.

Frase no muro da Venâncio Aires deixou comerciante indignado
Poluição visual ou livre expressão?
Os pichadores desafogam sua cólera contra uma sociedade excludente, mas não têm as suas intervenções aceitas por esta mesma sociedade. Seus escritos não autorizados em prédios e monumentos são considerados poluição visual, e até crime.
Antonio Silveira dos Santos, juiz de direito em São Paulo, defende a estética urbana sem pichações como um fator da qualidade de vida. No seu artigo Triste cultura da Pichação, ele afirma: “A estética da cidade é primordial para o bem estar da população e pode ser classificada como um bem difuso, que deve ser protegido pelo poder público”.
A pichação também é considerada por alguns como uma forma de expressão livre, não reconhecida e valorizada. Luizan Pinheiro, professor de Arte da Universidade Federal do Pará, defende-a como uma ação artística, no seu artigo Pichação: risco de expressão das bordas do instituto. Para ele, este é um “ato poético, marcado na sua dimensão transgressora pelo sentido mais profundo da arte: o dilatar de todas as esferas da vivência humana”.
Militantes do movimento Hip Hop de Porto Alegre lembram que a pichação é uma forma de comunicação e que dela originou o grafite, forma já reconhecida de arte urbana. A grafiteira porto-alegrense Sabrina Santos explica que os pichadores escrevem nas paredes para se expressar e marcar território. “A pichação veio de Nova Iorque, onde as gangues escreviam nas paredes para mostrar a sua força. Hoje em Porto Alegre ocorre a mesma coisa”, conta.
Sabrina afirma que foram os pichadores que começaram o grafite, que hoje ganha reconhecimento como arte. “Os grafiteiros estão cada vez mais respeitados como artistas, e o grafite tem cada vez mais espaço na cidade”. Esta modalidade artística ganhou inclusive oficinas que ensinam a desenhar com spray nas paredes. Sabrina é professora em uma dessas oficinas, promovida pela Secretaria da Cultura.
O rapper Sandrão, do grupo CN Boys, enfatiza a importância destas manifestações no movimento Hip Hop. Para ele, o grafite é a arte, enquanto pichação é vandalismo. Sandrão ensina para crianças da periferia os quatro elementos do Hip Hop: Grafite, Dj, Mc e Biboy.
Monumentos riscados

Na Redenção, as pichações estão há mais de 4 meses sem limpeza
Outro alvo das tintas e sprays dos pichadores é o Parque Farroupilha. O último ato de vandalismo ocorreu uma semana antes do natal, no Monumento Expedicionário. Nesta ocasião, a Secretaria do Meio Ambiente fez um mutirão para a limpeza a tempo da feira de natal do Brique.
Quem passeia pelo parque percebe outras inscrições, em pedras, lixeiras e monumentos. Clóvis Breda, administrador da Redenção, explica que estas pichações são antigas, mas que ainda não foram apagadas. “Falta material para a remoção e até para pintar por cima”, relata.
A coordenação do parque monitora os escritos e realiza limpeza periódica de lixeiras e bancos. “Nós limpamos monumentos de grande representatividade, mas no resto não temos condições”, afirma Breda. Para ele, estes atos ocorrem por falta de segurança durante a noite na Redenção. “De dia temos cinco guardas-parques fazendo o policiamento, mas à noite são apenas dois, que ficam restritos ao mini-zôo”.

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