
Letícia quer despertar no espectador a análise individual, a partir das angústias coletivas (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)
Naira Hofmeister
“Estamos cada vez mais participantes do mundo, com a globalização, mas, ao mesmo tempo, nos sentimos cada vez mais sós”. A mineira Letícia Márquez abre o calendário de exposições das Salas Negras do Museu de Arte Ado Malagolli (Margs), na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, com reflexões sobre a vida contemporânea, as transformações do individuo e suas angústias.

Em Cheung, na representação de uma figura feminina, o semblante é passível das mais variadas interpretações: “Pode ser dor física, espiritual, gozo, dúvida”, explica a artista. Letícia também acredita que a estrutura que representa os seios e o cabelo também e ambígua: “Esses cabelos que vão, numa única peça, até o chão, podem ser vistos como uma urna mortuária, por exemplo”.
A instalação traz os questionamentos sobre a mulher, “aquela que sempre se molda aos desejos dos outros”, segundo a artista. Por isso também a variação interpretativa a que se propõem: “A mulher é a transformação em si”, acredita.

A segunda instalação, Andor, reflete o fanatismo religioso tão presente na moderna sociedade. “Para mim, o profano e o sagrado estão intrinsecamente ligados, ao contrário do que crê a maioria das pessoas”. O próprio nome da escultura remete a um utensílio utilizado para carregar obras sacras, explica a artista.
Circundadas pelo negro das paredes e do chão, as duas instalações da artista recebem iluminação especial, com feixes de luz que destacam detalhes dos rostos em gesso e sobressaem-se como fantasmas. A alegoria sobrenatural revela mais uma vez a intenção de Letícia de mostrar o homem penando no mundo de espectros reais.
O contraste entre o claro e o escuro está presente também na escolha dos materiais, o peso do ferro retorcido – nas estruturas de sustento de ambas as obras – versus a leveza do gesso, onde se esculpem as caras.
A intenção da artista é despertar no espectador a análise interna, individual, a partir das angústias coletivas. “Procuro materializar essa subjetividade”, diz. Para ela, é exagerada a crença no cientificismo como solução do mundo. Problematizando a razão e os sentidos, ela busca estimular “o olhar sensível, necessariamente humanizado”.
A mostra Pena–Ação fica exposta até dia 9 de abril, de terças a domingos, das 10h às 19h, nas Salas negras do Margs. Nessa quarta-feira (8), às 17h, Letícia Márquez participa de um bate-papo com o público, no Auditório do Margs, com entrada franca.

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